Ao meu próprio reflexo
Embora, esteticamente, seja algo ao qual me recuse
ainda que, por breves momentos, em cada manhã
enquanto escovo os dentes, eu precise encarar
a brutal verdade que ali se reflete.
Por acaso é ali que alguém se reconhece?
Não sei quem vejo, na foto passada,
ou no espelho presente.
Algum dia achei que seria assim?
E então viro o rosto,
pra que aquele monstro
não encare demais, e não estenda as garras
me rasgando a garganta.
Os cabelos cheios de óleo
macilentos na fraca tentativa
de algum movimento
ao vento
O rosto ichado, pela depressão
descuidado e maltratado.
Os lábios um dia avermelhados,
se arroxeiam e quebram ressacados.
As tatuagens se rasgaram,
no torso que se desfez em gordura.
A barriga parece que a qualquer instanre,
será aberta por algum criatura.
Que, com ânsia. devorará o meu cadáver
para assim caminhar sem rumo,
mas com um objetivo certo:
destruir qualquer beleza do mundo.
Os homens se torcem de horror,
num mundo cultuado pela beleza exterior,
eu também desaponto no interior
deprimido demais para o amor.
Aos príncipes eu dedico
as versadas rimas medievais,
belas, ricas e idílicas
correspondentes aos heróis que cantais.
Ao meu reflexo dedico apenas o horror,
e as mentiras que para escondê-lo.
meu peito se compraz
em terror em encará-lo eu mesmo.
Sem sonhos realizados,
e nem por realizar.
Em terra estranha hoje moro,
sem paz, sem lar, sem onde morar.
Mas ainda há alguma música,
não é um verso completamente branco,
mas certos acordes,
numa dodecafonia de monstro.
