domingo, 1 de março de 2026

Ao que desonra a Beleza

Ao meu próprio reflexo

Embora, esteticamente, seja algo ao qual me recuse
ainda que, por breves momentos, em cada manhã
enquanto escovo os dentes, eu precise encarar
a brutal verdade que ali se reflete.

Por acaso é ali que alguém se reconhece?
Não sei quem vejo, na foto passada, 
ou no espelho presente. 
Algum dia achei que seria assim?

E então viro o rosto,
pra que aquele monstro 
não encare demais, e não estenda as garras
me rasgando a garganta.

Os cabelos cheios de óleo
macilentos na fraca tentativa
de algum movimento
ao vento

O rosto ichado, pela depressão
descuidado e maltratado.
Os lábios um dia avermelhados,
se arroxeiam e quebram ressacados.

As tatuagens se rasgaram,
no torso que se desfez em gordura.
A barriga parece que a qualquer instanre,
será aberta por algum criatura.

Que, com ânsia. devorará o meu cadáver
para assim caminhar sem rumo,
mas com um objetivo certo:
destruir qualquer beleza do mundo.

Os homens se torcem de horror,
num mundo cultuado pela beleza exterior,
eu também desaponto no interior
deprimido demais para o amor.

Aos príncipes eu dedico
as versadas rimas medievais,
belas, ricas e idílicas
correspondentes aos heróis que cantais.

Ao meu reflexo dedico apenas o horror,
e as mentiras que para escondê-lo.
meu peito se compraz
em terror em encará-lo eu mesmo.

Sem sonhos realizados, 
e nem por realizar.
Em terra estranha hoje moro,
sem paz, sem lar, sem onde morar.

Mas ainda há alguma música,
não é um verso completamente branco, 
mas certos acordes, 
numa dodecafonia de monstro.

Heike Monogatari - Poema de abertura

Poema que dá início ao romance épico japonês Heike Monogatari ("Conto de Heike")

Em Guiôn,o som dos sinos ressoa
 que nada permanece para sempre.
Na cor das folhas das árvores gêmeas,
a verdade: o que nasce, perece.
A arrogância não dura muito tempo,
é  sonho breve na noite vernal;
até os bravos um dia enfim tombam,
se tornam nada mais que poeira ao vento.

Tradução: Rafael Brunhara


Notas:

No original, Gion Shouja, é o templo situado em Gion, na Índia.

No original, as árvores gêmeas com folhas de Shala (sharashouju). Árvores com dois troncos crescendo em quatro direções. Diz a lenda que Buda morreu sob essas árvores, após ter alcançado o Nirvana.