terça-feira, 7 de abril de 2026

A parte


Dizem que foi Bukowski que disse isso, mas não tenho certeza:

“E quando ninguém te acorda de manhã, e quando ninguém te espera na noite, e quando você pode fazer o que quiser. Como se chama isso? Liberdade ou solidão?”

Algumas horas atrás eu escrevi um monte coisa sem nexo algum, porque não sabia o que escrever. Mas me perguntava se ainda poderia haver amor em mim para, quem sabe, voltar a falar disso. Também escrevi, ou deixei nas entrelinhas, que desejava algo. 

Talvez não seja uma resposta, mas um aceno: o que desejo não é amor, porque não creio mais nele. Não sei se sou capaz de amar. Mas desejo a companhia, o calor de um abraço. E cada vez que me olho no espelho, me vejo mais distante disso. 

Parece-me cada vez mais que a solidão é a minha condenação, 

e não terei uma segunda chance sobre a terra. 

Era só isso, alguem para abraçar. Nas imagens em minha mente ele nem sequer tem rosto, mas tem costas largas em que posso me encostar, e calor. 

Não tenho pensado em sexo, mas apenas nesse abraço.

Mas essa pessoa não existe. Quem abraçaria um Quasimodo como eu?

Por isso vou assistir um pouco mais hoje, algo em que os personagens se abraçam, se apoiam... 

Não é tesão, mas talvez se expresse assim, ou entendam assim porque só conseguem conceber esse tipo de vazio como tesão ou carência, 

fisiológico ou afetivo. 

Mas não é isso. 

Não é tão simples assim.

É um vazio, um buraco no peito, 
como de um Arrancar que luta num deserto selvagem para sobreviver, 
enquanto devora uns aos outros.

É terrível.

E então, numa noite como essa, quase fresca, em que o vento sopra e alguns relâmpagos clareiam por brevíssimo instante, uma sensação, uma certeza, uma condenação, se marca no meu peito, cortando carne e músculos até o tutano como aço frio:

a completa totalidade do vazio,

olhando para a noite e sabendo que, 

nesse imenso mundo, maior do que qualquer mente pode abarcar ou conceber, 

não por ser homem ou mulher,

mas por ser eu, 

única e tão somente eu,
amargamente eu,
infeliz eu,

sem beleza ou atrativos para que me olhem,
desprezado como o último dos mortais.
Atormentado pela angústia profunda.

Não há sequer alguém que dividiria a cama comigo,

fria alcova,

fria cova, 

rasa,

a parte que me cabe deste latifúndio,
a parte que falta em mim.

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