sábado, 11 de abril de 2026

A visão que resta

Eis que acreditava, ainda que superficialmente, que havia de ter feito alguma evolução, mas não. Aqueles número indicavam que eu ainds estava, que eu estou, piorando. E com aqueles números vieram à tona algumas verdades muito doloridas: 

não há mais volta, 
não há mais tempo, 
não há mais salvção. 

Ao menos não para mim. 

Aqueles sonhos, que já se mostravam distantes antes, agora se tornaram completamente inimagináveis. Ocupando não mais o lugar de objetivos complexos, mas o de entidades quase divinas, gozando da onipotência de sua distância da realidade, da minha realidade. Meus bonecos feitos com as areias secas do deserto se desfizeram entre meus dedos como fumaça.

Agora penso que o único caminho seja o de mudar completamente a perspectiva. As coisas não vão mais mudar. Todos aqueles sonhos, se foram. O que era pra ser temporário, efeito colateral de um tratamento, se prolongou e vem aumentando. 

Um, 
dois, 
três, 
quatro anos. 

Dez, 
vinte, 
trinta, 
quarenta, 
cinquenta quilos a mais. 

E eu já não reconheço esse monstro que me olha no espelho. Esse monstro imenso, de aparência animalesca, grotesca, vil. 

Eu já não reconheço meu próprio reflexo. 
Já não sei quem sou, 
nem exatamente o que sou, 
mas sei que deverei ser outra pessoa, 
outra coisa. 

Uma coisa que sabe que não terá jamais a beleza de um corpo desejável. Uma pessoa que ficará ainda mais à margem de todos, que incomoda simplesmente pelo fato de estar ali. 

Mas eu não quero estar ali. 
Ou aqui. 
Ou em qualquer lugar. 

O que resta é a visão de um deserto vazio, sem vida, uma verdade brutal. Isso porque eu sei das limitaões do meu estado. Eu deveria me exercitar, comer melhor, e ao menos me aproximar de algo melhor do que essa besta que agora me encara. Mas como fazer isso se até levantar da cama me custa o esforço de um dia inteiro? Quando descer a escada me faz querer voltar a dormir por três dias? Quando ir à missa e encontrar aqueles idiotas modernistas me faz querer voltar nem ter acordado.

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