Iniciam-se os festejos em honra ao Divino Espírito Santo. Fiéis de toda parte acorrem em cânticos, ladainhas, procissões com a bandeira vermelha cheia de fitas coloridas hasteada. O suor de décadas de fé acompanham a romaria. Quantos terços foram rezados, os dedos trêmulos pela idade, a mente turva sem obedecer ao recordar os mistérios de cada dezena, mas a certeza de aquele Divino não decepcionaria. A ele se confiam, com a saúde dos pais e dos filhos, com a esperança de que aquele que partiu um dia retorne ao seio da família.
Que prece faria ao Divino? A graça da santidade, certamente, é a única coisa que deveria ser pedida. A maior proximidade com o mesmo Divino, no entanto... Acho que seria mais egoísta. Porque a graça da santidade já é algo que, para ser ao menos querida, precisa ser querida por alguém. Um sujeito onde a santidade se manifestaria, que se deixasse moldar por ela. E eu? Bem, eu já não sou tanto assim. Talvez pedisse, se fosse alguém, por uma razão, um motivo que fosse. Algo que fizesse meu coração bater, um rumo. Mas coração eu já não tenho, e a única prece que tenho feito nos últimos tempos, todas as noites, é a de não mais acordar.
Talvez fizesse uma prece como a de Clarice:
"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o. amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."
Ou talvez eu só fique quieto, em silêncio, como todas as noites antes de adormecer, e faça desse silêncio, a minha prece, como pobre pecador que, olhando a imensidão e a miséria do próprio ser, não se atreve a dizer nada, sendo sua presença uma prece, que a Ele já conhece. E, ainda assim, esperando não mais acordar.
"Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio. Vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito?" (Lygia Fagundes Telles)

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