sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Um nada na multidão

Eu vou ter de matar você. Não queria, mas será necessário. Eu preciso matar você dentro de mim, antes que esse sentimento acabe me matando. 

Isso porque o que eu sinto por você não é normal, é doentio, obsessivo. Isso porque o que eu sinto por você tem me sugado tanto que logo não haverá mais nada em mim além disso. Isso porque a cada dia que mantenho você vivo dentro de mim é como se você me matasse, me envenenasse aos poucos.

Sinto como se você apertasse meu pescoço, como se aos poucos me tirasse a respiração. Mas não sinto falta do ar no meu peito, não sinto falta do oxigênio no meu cérebro, sinto falta do seu corpo no meu, sinto falta do seu coração junto ao meu. 

Como é, ser o ar que eu desejo respirar? Como é ser mais importante pra mim do que eu mesmo? Como é ser mais para mim do que eu mesmo?

Você não tem resposta pra nenhuma dessas perguntas. Porque eu não sou nada pra você. Talvez um número na agenda, talvez uma sombra distante de algo que um dia possa ter significado. Mas nada além disso, nada além de um estranho, um nada na multidão, que hoje te olha com olhar de admiração, mas que não significa pra você mais do que um mendigo que te olha com ambição. 

Eu vou ter de matar você. Não queria, mas será necessário. Eu preciso matar você dentro de mim, antes que esse sentimento acabe me matando

Retrato da paisagem

O piche do asfalto brilha em contraste com a luz âmbar das lâmpadas e das gotículas de água que lenta e delicadamente beijam o chão num encontro delicado. Da minha janela vejo os muros inacabados de meus vizinhos, tudo feio e já vandalizado. O poste do outro lado da rua é torto, e isso me incomoda. O emaranhado de fios arrumados grosseiramente acima de minha cabeça me incomoda. 

A música que toca no player me transporta pra uma paisagem diferente. Uma praia, no meio da noite, com a brisa fresca no rosto balançando meu cabelo e a água morna me acariciando as pernas. Há alguém do meu lado?

Já deu a hora, e eu não me conformo. O horizonte se perdeu em meio a escuridão aveludada, e mais uma noite caiu sem que ele viesse, mais uma noite que volto meu rosto para a cama atrás de mim e constato que dormirei sozinho, sem o seu sorriso de boa noite. 

Um som ao longe me indica que há pessoas por perto, mas não próximas o suficiente para me verem chorar silenciosamente, abafado pela música e pelos carros que hora ou outra passam.

O barulho da chuva aumenta lentamente, e vai abafando os meus gemidos. As lágrimas que caem aqui dentro são mais quentes que as que estão la fora. As de lá escorrem rapidamente pela rua, enquanto aqui elas escorrem lentamente pelo meu rosto.

A imagem de um homem andando sozinho ainda é forte na minha mente. Eu sou esse homem, que anda sem ter pra onde ir, que anda sozinho porque foi abandonado pelo seu amado. 

Esse é apenas um retrato, superficialmente capturado daquilo que vejo e sinto nesse momento. Reflexo de uma alma melancólica que tenta encontrar no vazio sem contorno do meu peito um motivo para continuar...

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O que sobrou

Travo em meu peito uma batalha contra o niilismo que aos poucos tenta me arrastar para o seu nada. O desencanto, a desesperança, a desilusão, a cada dia ocupam mais o espaço que antes era da luz. E luz? Bem, eu não sei direito para onde ela foi, mas sei que não está mais aqui.

Acontece que o que tinha aqui dentro de mim foi dado de bom grado a alguém que jogou no lixo tudo o que tinha a oferecer. E agora, não sobrou senão o vazio deixado por aquilo. Esse vazio agora grita em resposta aos meus gritos. O abismo do meu ser olha de volta para aquele que o olha, buscando um fim. 

Aqui cabe uma digressão àquele adágio que diz "somente quem sente uma dor é capaz de compreendê-la" pois eu praticamente consigo ver o olhar de julgamento daqueles que conhecem a causa disso tudo. Eles não veem senão a superfície do lago, sem imaginar o que se passa no interior. Eles não imaginam o fluxo de águas impetuosas que existem abaixo das ondas que se quebram na margem. 

Um amigo disse que eu não deveria me prender em meus sentimentos, nem tampouco entregá-los a qualquer um. Não há como evitar o primeiro, mas o segundo já não creio ser possível que eu um dia faça. Não penso que possa me entregar novamente, não vejo alguém quebrando a barreira que eu ergui a minha volta. Isso porque não desejo que ninguém mais veja o meu lado mais sincero e vulnerável, sem que antes eu tenha certeza que dele não vai se aproveitar disso para me ferir de alguma forma. E no momento tenho estado tão ferido que dificilmente alguém conquistaria minha confiança novamente.

Minha capacidade de confiar foi destruída, bem como minha capacidade de amar foi diminuída. Mas se essas eram as únicas duas coisas que eu sempre soube fazer, o que sobrou de mim?

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Turbilhão

Impaciente. Meu pensamento voa a mil por hora, e dá dez voltas a cada palavra que me dizem. Não consigo ouvir, não consigo entender, não consigo sequer olhar nos olhos de alguém sem que com isso se siga um impulso da vandalismo ou agressão. 

É claro que as pessoas não entendem isso, apenas me julgam com seus conceitos pequenos, incapazes de abarcar a totalidade da minha existência de forma que suas mentes consigam compreender e me decifrar. Mas eles não podem. "Decifra-me ou te devoro". Sinto como se eles fossem envolvidos pela minha raiva. 

Raiva. Um fogo impetuoso sopra de dentro de mim, e me consome em chamas, mas estas diferentes daquelas que me consumiam em desejo. 

Acho que é raiva de mim mesmo. Raiva por não ser bom o bastante pra ele. Raiva por não ser inteligente o bastante pra calar a boca de todos quanto se colocam diante de mim. Raiva pela incapacidade dos outros em percebem a ausência de bom gosto e bom senso. Raiva por não conseguir fazer as coisas do jeito que eu queria. Raiva, muita raiva. Minha boca espuma e sinto sangue em meus lábios.

Parece que me tornei uma criancinha birrenta, rolando no chão por não ter conseguido o brinquedo que queria. Uma criança movida pelos seus sentimentos mais espontâneos, quase um animal. 

Eu sorrio sem razão aparente. E fico irritado no minuto seguinte, só pra chorar logo ali na frente, e começar a falar sacanagem daqui 5 minutos. E estou assim, nessa montanha russa de emoções. Sentindo tudo e nada ao mesmo tempo. 

Em meu peito florescem todas as cores. Azul, amarelo, vermelho e até o cinza. 

Eu disse, há alguns dias, que tinha sobrevivido a uma das piores crises dos últimos anos, e que não sabia se isso era uma coisa boa. Agora, vendo o turbilhão que se agita dentro de mim, vejo que não foi mesmo nada bom. Vejo que a qualquer momento essa roda da fortuna pode acabar explodindo em minhas próprias mãos e, pra alguém que já se encontra em pedaços, não sei o que uma explosão pode fazer comigo. 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Do feio que entristece

Alguém como é fascinado pela beleza, e hoje, andando por lugares bem distantes de minha casa, me deprimi pela opressão que a feiura do mundo ao meu redor me proporcionou. Me fez recordar do motivo de não sair de meu quarto: coisas feias me deixam triste! 

Como as pessoas não se sentem incomodadas, com construções que se erguem em meio a paisagem sem nenhuma harmonia? Os fios expostos, as pichações, a "arte" urbana, as construções contemporâneas... Atentados violentíssimos ao bom gosto. 

Desde uma Igreja que mais se parece com um balde de cabeça pra baixo, a qual os fiéis são obrigados a chamar de Catedral até a confusa disposição das placas do comércio nos diversos pontos das cidades. Tudo é de uma poluição visual absurda. As luzes massacram o olhar, o barulho maltrata a alma, a feiura agride o ser!

Onde estão os espíritos das construções? Certamente foram banidos do mundo, substituídos por um conceito contemporâneo de expressão que nada mais é do que qualquer coisa sendo chamada de arte. Aliás, creio até que o belo não seja mais considerado arte, senão que passou a ser uma imposição, não sei de quem, que exige dos artistas a qualidade que eles obviamente tem preguiça ou incapacidade de demonstrar.

Isso me incomodou, profundamente. Como podem viver e sair todos os dias de suas casas sem sentir uma súbita ânsia de vandalismo ao cruzar uma praça com uma garatuja disforme se erguendo no centro? 

O mesmo para as festas, incluindo aqui aquelas frequentadas pela dita classe média, que de média só tem o gosto. Gosto médio esse que Ariano Suassuna já avisara que é a pior coisa que se pode ter na arte. 

Hoje em dia o sertanejo universitário ocupa o primeiro lugar das preferências nacionais ao lado do funk, e seus consumidores, embebidos em quantidades absurdas de cerveja barata e fumaça de narguilê, juram que isso é o suprassumo da musicalidade humana. Provincianismo do mais porco, afinal, até o mais matuto dos provincianos deve conhecer algo de belo que há em sua província. 

Mas me parece que o homem não só perdeu a capacidade de produzir o belo, como também de apreciá-lo. Francamente, colocar sob a mesma clave de "músicos" alguém que cante sobre o emponderamento feminino como se apresentando como objeto no intuito de protestar contra a objetificação da mulher e compositores que imprimiram em suas partituras um retrato fidedigno de suas almas perturbadas pelo confronto entre a luz e a escuridão deveria ser no mínimo um crime de atentado ao pudor, mas na atual realidade onde o imbecil é intelectual, o primeiro é retrato cultural e o segundo é eurocentrismo absurdo. 

O que me espanta é que, quando digo algo assim, já logo me acusam de um preconceito cultural com a brasilidade que tal nome representa. Claro que isso é como uma ofensa a mim, que não me sinto representado de maneira alguma nessa brasilidade boçal, o que não me impede de ouvir a música contemporânea (leia-se: a popular), mas que certamente me impede de colocá-la na mesma categoria de artistas de verdade e até mesmo como alguns contemporâneos que conseguem o mínimo de qualidade exigida para o posto que ocupam. 

O feio me causa repulsa. Mas ele está em toda parte, e por isso mesmo me entristece, pois em minha alma há o anseio por um belo que se encontra distante de mim. Em meu íntimo há o desejo pelas belas paisagens, pelas belas obras, pelas coisas que não só nos encantam pela harmonia como nos fazem desejar aquilo que é bom e justo, fazendo-nos rejeitar o que não o é. 

O feio nos sufoca, nos cega, nos faz esquecer que para além do asfalto cheio de buracos de nossa cidade miserável há um mundo de possibilidades, um mundo de belezas, um mundo de riquezas. O feio nos faz acreditar que não há nada para além de nosso limitadíssimo horizonte de consciência, aliás, o que é horizonte? 

Certamente nasci no lugar errado, e quem sabe até na época errada, pois não me encaixo na feiura deste mundo. Meu coração anseia belezas superiores a qualquer coisa que esses pobres provincianos me possam oferecer. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Confissões no Dia da Ira

Dies iræ! dies illa. Solvet sæclum in favilla. Teste David cum Sibylla!

Dia da Ira, aquele dia, em que os séculos dissolver-se-ão em cinza, (será) David com a Sibila por testemunha!

É o dia da dor, das correntes grossas que se arrastam, dos cativeiros aterrorizantes que nos assustam. Das prisões do corpo, da alma e do coração que fazem do homem um pobre prisioneiro de seus pecados e desejos mais sombrios, que o consomem como o fogo consome a brasa, transformando-a em cinzas. É o dia em que o homem vê toda sua gloria sendo reduzida ao nada, sua existência ao pó, seu ser voando ao vento, perdendo-se completamente num mundo de ventos impetuosos.  

O dia da ira é o dia em que tememos o mundo e tudo o que ele contém. Queremos fugir da terra, da vida e de tudo o que ela encerra. 

Quantus tremor est futurus, quando iudex est venturus, cuncta stricte discussurus!

Quanto terror está prestes a ser, quando o Juiz estiver para vir, em vias de julgar tudo severamente!

O dia da ira é o dia do tremor, do choro, do horror. É o dia do medo que nos domina, em vias de encontrar aquele que em nossa vida tem o poder de tudo ligar e desligar. É o dia de que queremos fugir, mas é também o dia que não podemos evitar, que chega sem avisar, que nos domina sem nem ao menos lutar. 

Os tentáculos da morte nos rodeiam, suas vinhas malditas nos seguram em seu abraço macabro. Eu nosso ouvido, seu sopro maldoso e fétido, que injeta em nosso ser o pavor e a podridão.

Tuba mirum spargens sonum per sepulchra regionum, coget omnes ante thronum.

A trombeta espargindo um som miraculoso pelos sepulcros da região, conduzirá todos diante do trono.

Há um som que a  nenhuma criatura pode escapar. Há um som que nenhum de nós pode deixar de ouvir. Há uma dor que ninguém pode deixar de sentir. Há um horror que a todos vai dominar. Há algo que faz renascer dentro de nós tudo aquilo que um dia lutamos para sepultar. Um amor, uma amizade, um medo, uma dor, ou tudo isso junto. Seja o que for, não há como fugir dos fantasmas do passado convocados para o juízo final. Não há como fugir sequer dos fantasmas do presente, que insistem em nos machucar, nos ferir e depois, partir, certos de que nos mataram, sorrindo de nossa desgraça... 

Mors stupebit et natura, cum resurget creatura, iudicanti responsura.

A morte ficará paralisada, também a natureza, quando ressurgir a criatura prestes a responder ao que está julgando.

No meu dia de ira, tudo fica extático. Não consigo perceber o mundo que se move ao meu redor. No meu dia da ira o meu julgamento tem apenas um veredito: a minha morte é decretada, e meu carrasco não é outro senão aquele ao qual eu entreguei o meu coração de bom grado, a quem me dediquei servilmente, a quem entreguei o punhal para que no momento certo me esfaqueasse as costas e depois o coração, espalhando pela terra o sangue que há de alimentar os vermes que nela habitam. 

Liber scriptus proferetur, in quo totum continetur, unde mundus iudicetur.

O Livro escrito será proferido, em que tudo está contido, de onde o mundo será julgado.

Dizem que três coisas não podem ficar ocultas por muito tempo, sendo elas o Sol, a Lua e a Verdade. O homem glorifica o sol, pois não há como fugir dele, e buscar abrigar-se da escuridão que cobre o mundo quando a Lua sobre ao seu trono. A Verdade, por sua vez, faz os homens fugirem de si mesmo, e esvaziarem-se de tudo que possa lhes recordar de quem são, do que amam e do que querem. No entanto, no íntimo de nós repetimos continuamente o que tentamos esquecer com a mesma frequência. 

Iudex ergo cum sedebit, quidquid latet apparebit: nil inultum remanebit.

Quando, pois, o juiz se assentar, tudo oculto revelar-se-á, nada permanecerá sem castigo!

O homem tende a ocultar de si mesmo a verdade, seja no íntimo de seu coração ou nas palavras vazias que profere tolamente ao mundo. O homem oculta a verdade do outro na esperança de esquecer aquilo que lhe traz dor. Quando esta então é revelada a dor passa a pesar sobre as frágeis costas daqueles que nutrem no seu âmago uma esperança falsa de que um dia tudo será melhor. 

Há um juiz que tem o poder de trazer a luz a verdade que fora oculta nas trevas de nosso coração debilitado. O mundo? Deus? Quem detém a verdade que nos corta como aço frio?

A minha verdade é uma pessoa andando de costas para mim. Ele me deixando, ignorando meus gritos, minhas lágrimas. E eu sozinho, sentado no escuro, com a mão erguida em vias de implorar por clemência. Mas não há clemência, não há misericórdia. Não há uma segunda chance para as estirpes condenadas a solidão. Na há exílio no mundo para pessoas como eu. 

Quid sum miser tunc dicturus? Quem patronum rogaturus, cum vix iustus sit securus?

E eu pobre, que farei? A que patrono rogarei, quando apenas o justo esteja seguro?

Aqui não há ninguém que me possa escutar. Só há escuridão ao meu redor, e a fria sensação da solidão. Há apenas dor, horror, e o vento frio que sopra desde lugar nenhum até nenhum lugar. Fora deixado sozinho com meus fantasmas, prestes a me assassinar. E o meu fantasma tem a aparência de meu amado, a quem clamo por piedade, mas que com um sorriso no rosto ergue a espada para desferir-me um golpe mortal.

Rex tremendæ majestatis, qui salvandos salvas gratis, salva me, fons pietatis.

Rei de tremenda majestade, que salvais só por bondade, salvai-me, ó fonte de piedade.

Torno a clamar aquele que coroei como meu rei. Mas ele não o era. Não deveria estar ali, ocupando o pedestal onde do alto de sua majestade me condenou a morte. Não, isto não está certo. Só um é o Rei, só uma é a majestade, e eu não deveria entregá-la a ninguém mais.

Recordare, Iesu pie, quod sum causa tuæ viæ: ne me perdas illa die.

Recorda, piedoso Jesus, Que sou a causa de tua Via: não me percas nesse dia.

Perdoai-me Senhor, por colocar em teu lugar um outro homem. Por dar a ele o poder de me julgar, por dar a ele o que só a ti devia pertencer. Fiz dele o meu deus, deixei que ditasse como iria viver, tudo o que iria fazer. Deixei que me dominasse completamente, e sem titubear dei a ele minha completa devoção. Quando então em vias de clemência me encontrava, achei apenas a dor, e um grandioso Não!

Quærens me, sedisti lassus:redemisti Crucem passus: tantus labor non sit cassus.

Buscando-me, sentaste exausto, sofrendo na Cruz, redimiste(-me): que Tamanho trabalho não seja em vão.

Eu me esqueci de ti. Esqueci tudo o que fizestes por mim. Me entreguei aos meus desejos, e agora volto arrependido, pois vi que não poderia ser feliz buscando aquilo que nunca terei. No entanto minha contrição é imperfeita. Temo que se tivesse encontrado o que buscava não teria me lembrado de ti. Sou eu o traidor, sou eu o merecedor da condenação eterna.

Iuste iudex ultionis, donum fac remissionis ante diem rationis.

Juiz justo da vingança, dai-me do dom da remissão, antes do dia do julgamento.

E mesmo depois de perceber o quão errado estava, depois de perceber ter cavado minha própria cova e buscado com afinco minha própria condenação, eu percebo que ainda desejo a vingança. Mais um pecado para minha longa lista. Mas não a vingança de sangue, de ferir quem me feriu, mas a de vingar-me do destino que me fez passar por coisas tão cruéis. Há em mim ainda um masoquismo inerente, que me faz querer que tudo não tenha passado de um pesadelo maldito, que quando acordar terei ele comigo, ao meu lado, e de que não terá partido, me deixando sozinho na penumbra da noite.

Ingemisco, tamquam reus: culpa rubet vultus meus: supplicanti parce, Deus.

Gemo, tal qual um réu: minha culpa enrubesce-me o semblante, poupa a quem está suplicando, ó Deus!

Vês, o quão traidor eu sou? Vês a imensidão da miséria de meu coração? Aquele que acreditava só ter amor, tinha apenas a fragrância apodrecida do pecado que me corrompera a carne. Tenho vergonha até mesmo de pedir perdão. Não mereço o perdão, mas preciso dele, preciso dele para colocar Deus de volta ao seu lugar. Preciso dele para que um homem não possa governar a minha vida, para que não tenha o poder de me fazer sorrir e chorar quando bem entender. Preciso dele, preciso de Deus, mas também preciso dele... E o quanto me dói na alma admitir que ainda preciso dele, que preciso de seu sorriso, de seu abraço, de seu toque, de seu cheiro, de seu Boa Noite. Preciso dele, e preciso dele aqui comigo... 

Qui Mariam absolvisti, et latronem exaudisti, mihi quoque spem dedisti.

Tu que perdoaste a Maria (Madalena), e ouviste atento ao ladrão, também a mim deste esperança.

Será que há para mim esperança? Será que há luz no mundo para alguém que já habita as profundas geenas? 

Já não vejo mais a luz. Já não sei o que é esperança. Já não a vejo como algo bom, como uma centelha de luz que brilha em meio a escuridão. A esperança é para mim um algoz, uma figura que de sua capa preta tira o mais pavorosos instrumentos de tortura. A esperança é para mim a destruidora de minha razão, a matadora do meu coração. É graças a esperança que eu sempre volto a acreditar no amor, que eu volto a pensar que ele não poderá mais me machucar, mas basta que eu diga essas palavras, para que ele volte a tentar me matar, para que ele volte a me torturar. 

Preces meæ non sunt dignæ: sed tu bonus fac benigne, ne perenni cremer igne.

Minhas preces não são dignas, mas, tu (és) bom, age com bondade, para que eu não seja queimado pelo fogo eterno.

Purifica-me Senhor com teu fogo. Purifica-me com tua justiça. Torna-me puro aos vossos olhos. Torna-me puro, sem mancha do sentimento que tanto me afundou, sem aquilo que coloquei em teu lugar. 

Inter oves locum præsta, et ab hædis me sequestra, statuens in parte dextra.

Entre as ovelhas dispõe um abrigo, retira-me para longe dos bodes, coloca-me de pé à Vossa direita;

Será que ainda há para mim um lugar seguro embaixo de tuas asas, ó Senhor? Um refúgio longe das coisas ruins que há no meu próprio coração? Onde os meus desejos mais primitivos não me possam achar?

Confutatis maledictis, flammis acribus addictis: voca me cum benedictis.

Condenados os malditos, lançados ao fogo ardente, chamai-me com os benditos.

Sempre me coloquei soberbamente na assembleia dos eleitos. Ilusão, vaidade! Estou contado entre os malditos. Condenado eternamente ao fogo ácido e infinito. O fogo que me consome em desejo, o fogo que me faz deixar de ser um homem, o fogo que me queima as entranhas, e que faz desejar o céu mesmo não passando de uma serpente a rastejar no chão imundo. 

Eu choro, e as lágrimas me queimam a face, assim como as chamas do inferno queimam os condenados. Um exército de demônios marcha em minha direção, como seu garfos afiados, a me torturarem pela eternidade. Mas poderão eles me dar condenação pior do que aquela que me deu o meu Amado? Não há no mundo dor pior do que a de ser abandonado. 

Oro supplex et acclinis, cor contritum quasi cinis: gere curam mei finis.

Oro-Vos, rogo-Vos de joelhos, com o coração contrito em cinzas, cuidai do meu fim.

Sinto que ele se aproxima. Sinto que não há mais muito tempo no mundo para mim. Sinto que o coração de um homem não possa ser mais ferido e magoado do que isto. Sinto que já não há mais esperança para mim. Sinto que chega, enfim, o meu fim!

Lacrimosa dies illa, qua resurget ex favilla iudicandus homo reus. Huic ergo parce, Deus:

Lacrimoso aquele dia no qual, das cinzas, ressurgirá, para ser julgado, o homem réu. Perdoai-os, Senhor Deus

Eu chorei, o quanto chorei. Tudo o que sentira se foi para fora de mim naquelas grosas lágrimas de sangue. Não há em mim vestígio de outra coisa senão de tristeza e pesar por ter amado, amado demais, e sonhado com o amor, que não era amor, mas que apenas me trouxe a dor, me ensinou o que era o horror. 

E eu ainda choro, de pesar, de horror, de dor, quando me lembro o quanto me dei, o quanto me esforcei, o quanto lutei e vejo que de nada adiantou. Sou um soldado caído, que lutou uma batalha que nunca poderia ter vencido. Sou um pobre derrotado, um cão a lamber as próprias feridas. Sou um nada, pior que o verme das ruínas, sou menos que um homem, sou menos que um verme. Mas ainda sou capaz de chorar, e por isso essa tem sido a única coisa que eu tenho feito.

Pie Iesu Domine, dona eis requiem. Amen.

Piedoso Senhor Jesus, dai-lhes descanso eterno, Amém!

Dai-me o descanso eterno, Amém!

Onde está a poesia?

Disse que havia uma poesia aqui, em algum lugar dentro de mim, que pudesse expressar de uma bela forma o que tem acontecido comigo. 

Pensei nos últimos dias, em tudo que me aconteceu, como quase morri de tristeza, como passei por uma das piores crises que já tive em anos e como sobrevivi. Eu sobrevivi. O sol nasceu uma vez mais. Mas eu não sei se foi realmente uma vitória ter sobrevivido. 

Não sei pois se continuo vivo é porque ainda não cheguei no limite da morte, e não quero descobrir quanto mais de dor eu precisarei aguentar até que possa morrer em paz. Não sei pois isso significa que terei de aguentar mais e mais vezes a dor que senti nos últimos dias, e não faço ideia de como poderia sair desse círculo de samsara. 

Não, isto não está certo. Eu sei bem o que deveria fazer, o que eu não sei é se sobreviveria a dor da despedida. Não sei se teria coragem de manter uma palavra de adeus. 

Bom, de qualquer forma ele me deixou. E a poesia me deixou. Enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas de amor por ele, ele se virou e dormiu, e eu fui lançado na solidão escura da noite interminável. Acho que num momento de iluminação provocada pela dor eu disse algo bem acertado. Se morresse agora ele talvez chorasse por um pouco de culpa, mas logo esqueceria, e logo se voltaria para seu verdadeiro amor. E se minha existência é indiferente a única pessoa que considero importante de verdade, qual a razão de continuar existindo? 

Procurei a poesia dentro de mim, mas sinto que os últimos dias levaram de mim até mesmo isso. Não sobrou muita coisa. Mas talvez haja uma poesia no vazio deixado no coração que sofre por um amor não correspondido, mas decerto que não serei eu o poeta a desentranhar-lhe o sentido. Talvez haja uma poesia na desesperança da vida, no vazio existencial. Mas, onde está a poesia? Para onde ela foi?

Se foi, me dando as costas, como ele o fez. Me deixando sozinho, sem amor e sem poesia, no mundo cinza, frio e vazio que tornou-se meu coração. Embora o sol brilhe com toda a força lá fora, é tudo cinza no meu coração. 

Diálogo de dor


02/11/2018

- Amigo. Reza por mim, por favor.

- Sempre rezo!

- Obrigado maninho. Eu só quero apagar, por hoje já deu pra mim. Eu tomei dois comprimidos de escitalopram, espero que me dê sono. Que faça algum efeito. E trouxe da farmácia um clonazepam gotas para o caso de eu não conseguir dormir...

- Hoje eu também apago. Ele tá aqui. E eu já tive 3 crises hoje! Vomitei, não consigo comer, quase desmaiei na rua

- Nossa migo. Espero que fique bem maninho. Se precisar, tô contigo mano. Mesmo estando mal, nunca tenha medo de me pedir ajuda. E eu te amo meu mano!

  Eu passei a tarde em crise. Eu tava com vergonha de alguém perceber. E quando eu atendia, eu colocava aos mãos pra trás pra não verem. E oscilava demais, uma hora ficava forte, outra outra ficava fraca, mas toda hora eu tava me tremendo. Teve uma hora que achei que nem ia conseguir andar, porque as pernas travaram...

- Caramba!

- Outra meu corpo todo começou a tremer. De resto, ficou só meu braço e mão direita tremendo sem parar, e assim foi, a tarde todinha... Uma hora ou outra não aguentava e corria pra sala de injetáveis pra chorar ou esmurrar o chão!

- Caralho! Isso não ta certo. A gente não tá certo!

- Não estamos. E onde ela tá agora? Fumando maconha com o amigo. Passou a tarde lá e ainda vai dormir lá. Por isso fiquei assim a tarde toda...

  Só espero que isso a deixe feliz. Só assim, vendo que ela tá feliz, posso me desfazer de tudo e da um ponto final nisso, e esquecer dela. Vai doer, mas temos que ser justos, e tá doendo agora e muito. E se eu não der um ponto final nisso, a ferida só vai aumentando, a ponto de eu não conseguir mais e nunca jamais cicatrizar...

- Só vai aumentar, até tomar conta de tudo. 

- Eu preciso da um basta nisso tudo, mas antes preciso que esteja bem. Vai doer, tá doendo, mas é difícil quando se pensa muito em alguém antes de si mesmo. 

- E você vira uma ferida aberta... Quando alguém faz tão mal que se torna tóxico...

- Tô sendo humilhado, esculachado, maltratado... E eu não quero isso. Sou muito novo. Tenho uma vida toda pela frente. Sendo com ela, sozinho ou com outra pessoa. Dá pra eu ser feliz, mas junto a ela, parece que não dá mais.

- Se tá te deixando doente...

- Todos os dias tenho que levantar, lavar meu rosto abatido, e por uma máscara de felicidade, e parecer que tô bem. Me sinto uma modelo, sabe? Ou uma bailarina, que tem que sempre manter a pose, manter a forma. Não pode tropeçar, não pode olhar pro chão, nem se quer demonstrar que não está a vontade.

- Eu pelo contrário só consigo mostrar pro mundo um fraco. Débil!

- Sabe amigo. Ser assim é melhor do que fingir que é forte. Quando se é igual eu. Quando cai é de uma vez só pelo peso grande nas costas...

- Mas de que adianta, todo mundo ter pena de mim e ele ser indiferente? Se ele é o único que eu queria que se importasse?

- Eu te entendo. Perfeitamente...

03/11/18

- O remédio não adiantou de nada. Muito pelo contrário. Parece que tive um aumento muito forte na ansiedade. Acordei durante a noite, muito agoniado e ansioso. Umas duas vezes e não conseguia dormir, mesmo caindo de sono. Essa noite foi tensa. Foi péssima! Torcer pra que o dia seja bom hoje...

- Eu tomei 5mg de diazepam e apaguei. Ele dormiu sem me dar muita bola, tá mais reservado comigo, como se quisesse que eu me afastasse mas sem coragem de me dizer isso. E eu também preciso disso, mas não sei se seria pior se ele ficasse ou fosse. Ele tava ali, há poucos metros de distância mas ao mesmo tempo em outro mundo. Não no meu mundo.

  Não tenho mais o que vomitar e não consigo comer, penso nele e já quero correr, mas eu preciso fingir que tô bem, porque eu tenho medo de que ele vá embora.

  Você não devia voltar no médico migo?

- Poxa amigo... Tomou algo pro vomito já? Pelo menos pra ajudar um pouco? Também to achando que preciso. E eu não consigo comer nada... Fui tentar comer salgado hoje de manhã e não desceu. Fui escovar os dentes e quase vomitei. 

- Não, completamente psicossomático. Eu não sei até quando fico de pé...

- Entendo...

- Você também não né?

- Não sei...

- Admito que queria apagar também...

- É tenso amigo... Espero muito que fiquemos bem

04/11/2018

"Tenham cuidado, para não sobrecarregardes o coração de vocês de [...] ansiedades da vida." 
(Lc 21, 34)

- Isso ta até na Bíblia.

- Até lá...

- E como você tá maninho?

- Conseguindo comer um pouquinho agora. Mas só agora. Não sei como tô em pé!

- Também não sei como cê tá de pé cara!

- E você moço?

- Eu tô bem maninho. Eu melhorei. Poxa. Queria que ficasse bem. Tô preocupado contigo. Isso não tá certo!

- Certeza migo?

- Sim sim...

- Vai ficar tudo bem comigo. Só tô fraco fisicamente.

- Espero que sim amigo...

- Minha cabeça já foi...

- Isso tá acabando com você.

- Ele. Ele tá acabando comigo. E eu também, me sabotando desse jeito.

- Exatamente. Isso que tá acontecendo. 

- Miiun. Finalmente acabou. Agora é tomar uns 2 diazepam e pronto!

- Nossa mano. Foi difícil hein?

- Muito. Tô lutando uma batalha que não dá pra vencer.

- É muito difícil...

- Muito. Tô exausto!

- Imagino mano

- Eu queria ter ido (vê-lo), mas chegamos tão tarde... O único momento q parei foi agora

- Tudo bem carinha. 

- Não sosseguei um segundo

- Eu quero que descanse agora. Esses dias foram ruins pra você, e te deixaram exausto...

- Você esta bem? Seja sincero

- Mano, as vezes eu paro pra pensar em sexta feira, e vejo que parece que foi algo que não aconteceu sabe. Meio que algo inacreditável...

- Tipo uma lembrança distante?

- Não. É mais de como, que eu fiquei com vergonha de tá daquele cheio, de ter me tocado em de que não valia a pena, ou de que dei muita importância para tal. É como se não tivesse acontecido. Como se fosse só coisa da minha cabeça...

- Não entendi. Tipo, como se não fosse algo grande? Mas que na sua cabeça virou uma coisa grande?

- Quase isso

- Na verdade, nem eu tô entendo e nem sabendo explicar...

- Eita. 

- Mas assim, por final, eu tô me sentindo bem. Tô me sentindo melhor!

- Bom, fico mais aliviado

- Eu quero que fique bem logo maninho...

- Obrigado gatinho.Mas sabe, tem uma poesia aqui, em algum lugar... Porque eu fiquei nesse estado por causa dele, e ele percebeu isso, e não deu a mínima. E preocupação acabou no dia mesmo que eu me cortei. Se eu morresse essa noite, talvez ele chorasse de culpa, mas não iria se importar de verdade. Logo ia passar, e ele ia voltar a pensar nas mulheres que ele tanto ama. Então, não tem nada me prendendo aqui, eu posso ir, pra qualquer lugar.

  Tem uma poesia nisso...

- Sempre tem uma poesia. Poxa amigo...

  É tão difícil quando alguém não se importa conosco. Mas sabe qual o nosso problema? Sempre foi, colocar expectativas demais nas pessoas. Nós sempre queremos ver os outros bens, somos atenciosos e tudo mais, e aquele alguém acaba gostando disso, vai se apegando, e a gente vai pensando que ela também vai nos fazer bem, que vai ser recíproco, mas na verdade, ela não faz. O que devemos fazer é, talvez, nos contentar conosco. Nos preocupar conosco. Esquecer que os outros existem, não de tudo, mas pelo menos não dar tanta importância. Quem sabe, fazer o que gostamos, dar atenção aquilo que amamos. Nos preocupar se, vou conseguir juntar dinheiro pra comprar um Caravan, ou se, vou conseguir terminar minha maratona de série de anime só hoje. 

  Eu sei que é fácil falar, e quase impossível fazer. Mas lembro sempre o que me disse, que ficar martelando e falando uma coisa pra si mesmo, ajuda e acontece. Vamos dá valor a quem realmente nos importa? Quem realmente pode nos fazer feliz? E se nos decepcionar, a coisa mais fácil e voltar atrás, porque só nós temos o poder de nos dar uma segunda, terceira, quarta chance de voltar atrás e fazer diferente.

- Realmente...

Diálogo real via WhatsApp. 

domingo, 4 de novembro de 2018

Gabriel

Gabriel o filho mais velho, ele louvou ao senhor
e casou cedo. Tornou-se padre
E na confissão
Curou o povo de transgressão

Gabriel ocupou o peso dos
resíduos tóxicos de todos e
Com a carga sobre os seus ombros
Não conseguiu dormir até ele ficar mais velho

ohh

O que significa ser alguém
que todo mundo tem que conversar?
Todo mundo tem que conversar

ohh

Ohh Gabriel não tinha ninguém
Que ele pudesse conversar

Gabriel
Ele não tinha ninguém que pudesse conversar
Procurando um lugar para ser ou
algum lugar para ele esconder sua tristeza

Gabriel correu para a praia e
Estabeleceu-se para o mar aberto
soltou a bagagem a partir das areias

A bordo do navio com as mãos
E quando ele não podia ver a terra
Lançando seus pecados em seu comando

ohh

O que significa ser alguém
que todo mundo tem que conversar?
Todo mundo tem que conversar

ohh

Ohh Gabriel não tinha ninguém
Que ele pudesse conversar

Gabriel
Ele não tinha ninguém que pudesse conversar

Como os problemas lentamente deriva
Todo o peso foi rapidamente levantado
De costas para o mar
Ele finalmente sentiu que estava livre
Quando chegou em casa depois de meses
Olhou para baixo e esperou para o almoço
Ele olhou para um prato vazio
Porque todos os seus pecados tinha matado os peixes

ohh

O que significa ser alguém
que todo mundo tem que conversar?
Todo mundo tem que conversar

ohh

Ohh Gabriel não tinha ninguém
Que ele pudesse conversar

Gabriel
Ele não tinha ninguém que pudesse conversar

Mas Gabriel é responsável?

(Tradução de Gabriel, do Alex Benjamin)

A morte do Sol

A tarde de domingo é ensolarada, mas a brisa fria da chuva ainda paira no ar, pesado pela umidade, deixando tudo com um aspecto brilhante, meio nostálgico até. Os pássaros cantam no meu quintal, e me lembro de que foi a primeira coisa que ouvi nessa manhã, quando acordei ainda meio atrapalhado pela mudança do horário de verão.

É com um grande esforço que eu tento escrever algo, pois sinto dor. Meu corpo todo dói. Há dois dias que não consigo comer praticamente nada, e há dois que meu corpo corpo experimenta a tensão pavorosa de uma violentíssima crise. A ansiedade que busquei evitar durante toda a semana que se passou me atacou brutalmente na sexta pela manhã, e desde então me deixou completa e absolutamente debilitado. 

Chorando pelos cantos, tremendo, sem conseguir sequer tomar água, e perdido, perdido no mundo, nas músicas e na minha cabeça. Fui levado pela maré, não sabia onde meus pés pisavam, não sabia o que devia fazer nem o que dizer, apenas continuei existindo, enquanto em meu coração estava sendo mantido como refém, de horrorosos pesadelos que, no entanto, estavam acontecendo bem ante meu olhos.

Gostaria de dizer que, como o sol que aparece depois da tempestade, eu também vou voltar a sorrir de verdade quando tudo isso acabar, mas não posso dizê-lo. Com efeito, chego a me perguntar se isso terá um fim, ou se o fim será o meu... Acho que meu sol nunca mais voltará a brilhar.

Meu corpo está fraco, depois de dias sem comer ou beber, mas minha mente, bom, essa está completamente destruída. Não sinto em mim vestígios de uma resistência, ou de possibilidade de sobrevivência, sinto apenas que minha mente se foi, deixando para trás uma casca vazia e sem vida.