segunda-feira, 20 de abril de 2020

Somos um suspiro


As pessoas são rápidas em esquecer. Rápidas em trocar. Trocamos rápido de interesses, de música favorita, de roupa, de amigos e parceiros. Acho que a permanência não foi feita para o homem, afinal, experimentamos a transitoriedades desde o dia em que nascemos. No instante mesmo de nossa concepção já começamos a mudar, no instante mesmo de nossa concepção já caminhamos para nossa morte, e as mudanças não findam com ela, antes disso, da morte nos transformamos ainda mais, voltando ao útero primitivo da terra, servindo de combustível para outras vidas que virão depois de nós, dos vermes que se alimentarão de nosso cadáver. 

Somos criaturas da mudança, e a constância de nossa existência está em saber que nunca cessaremos de mudar nessa vida. Mudamos porque queremos, porque encontramos coisas melhores, mudamos porque o destino assim escreveu. Mudamos. E não cabe a nós reclamar, apenas aceitar, pois as mudanças continuarão quer a gente queira ou não. 

Feridas se abrem
sangram
se fecham

e podem tornar a sangrar um dia

Olhamos para o lado e vemos algo de novo, nos interessamos, largamos o que temos e o pegamos, e nele nos satisfazemos até que encontremos algo novo de novo. 

É assim, 
somos assim

com coisas e pessoas, 
amigos e amantes. 

Essa transitoriedade faz do corpo, da vida terrestre, algo superficial, apenas arranhamos o ser com ela. A vida de verdade está na imutabilidade das ideias eternas, na vida perene, onde não há a falsidade ou a transitoriedade vulgar desse mundo passageiro, dessa vida fugidia. 

Mas, mesmo sabendo disso desde a primeira vez que vemos alguém de idade avançada, ou que nos deparamos com a morte, ainda é difícil aceitar a passagem da vida. É difícil aceitar que nossa existência terrestre não é mais do que uma grande estação de trem, sempre a mudar. É difícil aceitar pois entre uma mudança e outra, entre um girar e outro da roda do destino, nós nos apegamos ao estado em que estamos, e dói a separação, dói ver a mudança acontecer diante de nossos olhos. 

Como a água do mar 
que num dia é calma e tranquila e
no outro traz morte e destruição. 

Não sei, no entanto, se trata-se de algo universal, comum a todos os homens, parece-me que sim. Mas, antes de enunciar uma verdade universal eu acrescento que trata-se da minha verdade. É na minha vida que observo uma mutabilidade permanente, uma troca sem fim, um rio que nunca para de correr, ainda que vez ou outra me faça rodopiar em suas águas violentas, e me faça chorar diante as partidas da vida, ante as trocas, ante as mudanças de interesses.

Nesse caso  o prazer pela existência desvanece,
o vazio toma conta do ser,
o esperar pela morte é a única coisa a se fazer

E é isso, continuamos mudando, nos interessando por coisas novas a cada novo dia, saindo com novas pessoas a cada piscar de olhos, caindo do posto de importância do primeiro para o último lugar, como se não fôssemos nada, o que de fato não somos. 

Não somos nada. 
Somos menos do que poeira. 

Somos fumaça, se perdendo no ar da imensidão. 

Somos um suspiro. 

A morte de Inês

Que direi? que farei? Que clamarei?
Ó fortuna! Ó crueza! Ó mal tamanho!
Ó minha Dona Inês, ó alma minha,
Morta m’es tu? Morte houve tam ousada
Que contra ti podesse? Ouço-o, e vivo?
Eu vivo, e tu ês morta? Ó morte crua!
Morte cega, mataste minha vida,
E não me vejo morto? Abra-se a terra.
Sorva-me num momento: rompa-s’alma,
Aparte-se de um corpo tam pesado,
Que ma detém por força.
Ah minha Dona Inês, ah, ah minh’alma!
Amor meu, meu desejo, meu cuidado,
Minha esperança só, minh’alegria.
Mataram-te? mataram-te? tua alma
Inocente, fermosa, humilde, e santa
Deixou já seu lugar? ah de teu sangue
S’encheram as espadas? de teu sangue?
Que espadas tam crueis, que crueis mãos?
Ah como se moveram contra ti?
Como tiveram forças, como fios
Aqueles duros ferros contra ti?
Como tal consentiste, Rei cruel?
Imigo meu, não pai, imigo meu!
Porque assi me mataste? ó Liões bravos!
Ó Tigres! ó serpentes! que tal sêde
Tinheis deste meu sangue! porque causa
Vos não vinheis em mim fartas vossa ira?
Matáreis-me, e vivera. Homens crueis,
Porque não  me matastes? meu imigos,
Se mal vos merecia, em mim vingáreis
Esse mal todo. Aquela ovelha mansa
Inocente, fermosa, simples, casta
Que mal vos merecia? mas quisestes
Como imigos crueis buscar-me a morte
Não da vida, mas d’alma. Ó céus, que vistes
Tamanha crueldade, como logo
Não cahistes? Ó montes de Coimbra
Como não sovertestes tais Ministros?
Como não trema a terra, e s’abre tôda?
Como sustenta em si tam grã crueza?

(Antonio Ferreira)

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Ex nihilo


Eu tentei, realmente tentei, olhar o céu claro do dia e me sentir bem com isso, afagado que fosse pelo calor do sol a beijar a minha face. Mas não foi possível, não tive outra reação a não ser a de voltar a escuridão do fundo do meu quarto, escondendo-me não somente aqui mas também no fundo da minha própria mente, com medo daquela claridade, daquele calor. 

"A visão do homem agora cansa - o que é hoje o niilismo, se não isto?... 
Estamos cansados do homem..."
(Nietzsche)

Cansado de mim, dos barulhos do vizinho, do que vejo na rua e do que vejo quando fecho a porta e os olhos. Não há mais coisa que me dê aquela sensação de esperança, de que as coisas podem melhorar. Tudo o que vejo é uma decadência que parece nunca ter fim, a lixeira da miséria humana que parece cercar a todos nós. 

Minha única reação então é esta, a de me isolar e fugir, como o grande covarde que sou, e de esperar pelo dia que consiga sair ao sol, olhar nos olhos das pessoas, sem sentir que todos caminhamos apenas para o fim silencioso do nada, extinguindo nossa existência no último suspiro de nossas vidas patéticas, sem as respostas que tanto procuramos, sem entender ou receber o amor que um dia sonhamos e que não existe fora das telas e das páginas dos livros, senão que é uma mentira contada com o objetivo de nos fazer crer que existe esperança, quando na verdade, só existe o fim.

E tudo retorna ao nada, e tudo vai se desmoronando. Vislumbro não mais uma paisagem, como as que costumeiramente gosto de descrever, mas apenas um grande vazio. É como se caísse cada vez mais fundo, numa escuridão total que me envolve e me abarca de tal modo que não vejo como poderia sair dela. É frio e silencioso, um verdadeiro nada. Já não sinto dor, medo ou alegria, não sinto nada, é apenas isso, o nada. 

quarta-feira, 15 de abril de 2020

De visitas inesperadas


Um caráter levemente melancólico toma conta do ser.

Acontece de repente, sem nenhuma explicação. Talvez seja alguma variação hormonal, uma flutuação puramente randômica, ou eu simplesmente não saiba do que se trata... Ela simplesmente vem, aproximando-se lenta como a névoa matutina. Ela impede que a luz do sol passe, eu fico no frio e no escuro, no silêncio do meu próprio coração. 

Como explicar a eles a tristeza em nossos olhos? 
A falta de motivação em viver? 
O gosto pela solidão?

Nem mesmo eu entendo, não sei do que se trata, sequer sei de onde vem. Parece-me que as cores da existência se empalideceram bem diante meus olhos, escorrendo entre meus dedos, tornando-se opacas e cinzas. 

Sinto como se olhasse para um quadro, um belo quadro de uma linda paisagem, que fora coberta pela fuligem da guerra e perdeu a cor. Já não mostra mais as cores das flores, apenas a cinza fria e sem graça.

E então a melancolia uma vez mais toma conta de mim, sem que eu permita, sem que a veja chegar, sem dizer quando vai embora. Levou consigo minhas cores, meus amores e até os meus perfumes. Deixou-me a languidez mórbida do silêncio, como aquelas gotas após a chuva que preguiçosamente caem no chão escorrendo pelas dobras da casa, mas que ainda não foram iluminadas pela claridade do sol. Espalham-se pela frialdade inorgânica da terra. 

E eu também sei que não é apenas como se eu olhasse para esse quadro, eu mesmo torno-me esse quadro, triste e melancólico, ao qual os outros sentem o incômodo de ao menos tacar fogo para ser iluminado pelas chamas e pintando por alguns instantes do laranja avermelhado das labaredas. 

Já me acostumei, a essas visitas inesperadas. Essa melancolia não me é mais estranha. Já não olho mais para a névoa buscando uma saída desesperadamente, correndo sem conseguir respirar. Não, agora eu simplesmente me sento e aguardo que ela se vá. Pode demorar, um dia ou um mês, mas ela sempre se vai, para voltar novamente. É como um eterno ciclo, uma roda do destino que nunca para de girar. Uma morte lenta que termina não na completa escuridão, mas no despontar de uma nova vida, que nasce para novamente vir a morrer-se de amor. E eu morro porque não morro, como disse a pequena grande, vivo sem viver em mim. 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Do transcender


"Amizade é querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas, não queira amizade com quem ama aquilo que você odeia." 

(St. Tomás de Aquino)

Essa é, sem sombra de dúvidas, a frase de S. Tomás que mais tem ecoado na minha cabeça nos últimos meses. Faz me refletir sobre o que, ou quem, realmente é importante em minha vida. Antes de definir o quem primeiramente é preciso definir o o quê. 

Sei que ainda estou numa fase profunda confusão, tentando entender quem sou, mas já consigo delimitar, vagamente, as coisas que me são importantes. Na minha vida hoje a liturgia ocupa o primeiro lugar do meu amor. As dores que sinto em várias partes do meu corpo, saldo dos esforços da semana santa, são prova da marca profunda que esse amor deixa em mim, juntamente com a satisfação de saber que, mesmo na privacidade de missas sem povo o Tríduo Pascal foi celebrado de forma digna. Com isso une-se o meu amor a Santa Igreja, meu desejo profundo de dela fazer parte de forma cada vez mais íntima e, sendo a Igreja a Esposa de Cristo, me tornar cada vez mais íntimo do próprio Cristo. 

Após isso vem aquilo que definirei em poucas palavras como a Vida Intelectual, inserindo aqui os meus estudos históricos e filosóficos, bem como a minha lista de aspirações e questões. Todos os meus interesses intelectuais, bem como o aprofundamento na alta cultura, a transformação íntima provocada pela arte capaz de elevar o espírito e dar sentido ao que ensina a ciência. A vida intelectual ocupa uma importante parcela da minha vida. É o desejo pelo conhecimento da realidade, não das mentiras e não dos abortivos de intelectualidade que nos são vendidos habitualmente. O amor pela verdade que, não obstante, se une intrinsecamente com o primeiro item dessa lista. 

Isso me faz perceber, já num vislumbre bastante superficial, o quão reduzido é então o meu círculo daquilo que se pode chamar de amigos. Poucos são aqueles que amam o que eu amo. Na verdade, a maior parte das pessoas que conheço têm verdadeiro ódio por aquilo que mais amo. 

Religião é algo para tolos, algo de limitante, um adorno para pessoas de intelectualidade inferior, dizem os críticos da religião que, no entanto, acreditam em toda sorte de coisas sem nenhum significado mais profundo, ou em qualquer coisa que lhes apresente a eles como a mesma devoção religiosa, que não seja religião. Há ainda aqueles que se contentam com a aparência de intelectualidade. Cultivam títulos e diplomas mas ignoram o conhecimento verdadeiro, aquele que dá sentido à existência do homem. Contentam-se com artigos científicos e transmissões para plateias lotadas ignorando os números que indicam a quantidade absurda de fraudes do meio científico ou a mera superficialidade e puerilidade das teses defendidas com ares de superioridade como sendo produtos de ciência.

O terceiro item de minha lista dista, aparentemente, dos outros dois, mas também guarda uma relação íntima pouco observável para os outros. Trata-se da constância. Amizades, ou melhor, as relações de amizade e amor que temos são constantemente inconstantes. Claro, parte disso deve-se a natureza mutável do próprio homem mas, por outro lado, deve-se principalmente ao atual estado de coisas onde a fidelidade deu lugar a conveniência. 

As nossas relações hoje são, em parte, pautadas apenas na conveniência. Gostamos daqueles que nos fazem sentir bem, e até aí tudo bem se não trocássemos essa pessoa por outra no instante mesmo em que descobrimos outra pessoa que nos faça sentir melhor. Só estamos ao lado de alguém pelo tempo em que esta pessoa nos é conveniente, a trocamos assim que nos parecer mais conveniente. É assim não é Bauman? 

E eu vejo isso a todo instante, com uma crueza brutal da minha parte. Declarações de amor que se desfazem no vento no instante mesmo que no horizonte surge uma oportunidade melhor. A amizade que se desfaz ante o chamado primitivo do sexo, os amigos que se esquecem uns dos outros com o aparecimento de uma mulher. A forma patética e superficial que as pessoas encaram a suas relações hoje em dia são, no melhor dos cenários, razão para náuseas e desejo de uma higiênica distância. 

Isso me dá algumas perspectivas de futuro. A primeira delas é uma perspectiva de espera, paciente, de encontrar pessoas que partilhem das mesmas aspirações que eu. Por outro lado, e essa me parece ainda mais plausível, é uma perspectiva de aceitação da solidão que as minhas escolhas me darão. Posso estar sim, cercado de pessoas que de algum modo me façam companhia e me façam sorrir, mas nenhuma delas ama aquilo que amo e odeiam aquilo que odeio. No máximo podemos alcançar um estágio de conveniência que seja agradável a ambos, mas sem nunca alcançar a verdadeira amizade, aquela em almas gêmeas podem compreender-se mutuamente, trabalhando no crescimento espiritual de ambos. 

O que me resta é relacionar com as almas de outros tempos, coisa que muito felizmente a vida intelectual e a Santa Igreja me oferecem. Relacionar-me com espíritos grandiosos como o próprio S. Tomás, ou um São Boaventura, mas também com Aristóteles e Platão, Dante, Tchaikovsky e Mahler, almas que, cada uma ao seu modo, encontraram uma forma de transcenderem a si mesmas no tempo e no espaço, chegando até mim, como espero chegar a outros um dia. 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Do Tríduo

Hoje começa mais um Tríduo Pascal, o centro da vida litúrgica da Igreja, e também da minha. São dias diferentes, sempre o são. Já estava acostumado a, todos os anos, estar preocupado com os últimos preparativos da Via-Sacra e com o andamento das celebrações... Mas esse ano não. Tudo está mais silencioso. As celebrações foram simplificadas ao máximo pelo decreto episcopal que visa diminuir as aglomerações na igreja para evitar a propagação do coronavírus que já fez milhões de infectados no mundo. É uma penitência que nos foi imposta. 

Mas aquela atmosfera continua. Aquela tensão no ar, do Cristo perseguido e preso, que logo mais será julgado e morto por nossos pecados numa cruz após sofrer pavorosos suplícios nas mãos dos soldados mais cruéis. 

Ainda sinto a pressão, o peso, por trás de celebrações tão significativas que, mais do que nos recordar o acontecido, nos coloca de fato no mesmo cenário, tornando presente o sofrimento de Cristo, bem como sua ressurreição, nossa salvação. 

Hoje é o dia da Ceia Pascal, da instituição do sacerdócio e da Eucaristia, dia em que Deus nos deu um novo mandamento: que nos amemos uns aos outros como ele nos amou. Nos deu também a ordem de celebrar a Eucaristia em sua memória, e é isso que estamos fazendo. 

Na sexta-feira experimentamos o silêncio que nos deixa ofegantes. Um silêncio esmagador que começa já na noite do dia anterior, com a desnudação do altar. É um dia que costumeiramente chove pesadamente, é o dia mais difícil do ano. Sentimos, ainda que de maneira imperfeita dada nossa pecaminosa percepção, um pouco daquela apreensão, daquela angústia e dor que Nossa Senhora sentiu ao ver seu filho ser flagelado daquela maneira. O silêncio após a celebração da Paixão é o mais angustiante. O mesmo para a manhã do sábado, que começa como que sem nenhuma luz, ficando opaco durante todo o dia. 

Sempre anseio por esses dias, assim como os batizados renascem nas águas para uma vida nova após as celebrações da Semana Santa a nossa fé ganha novo vigor, nova luz, assim como o fogo novo do Círio ilumina as trevas no sábado santo. É a celebração da alegria. Aquela que as mulheres sentiram ao ver Cristo ressuscitado, que Nossa Senhora sentiu ao ter seu filho de novo em seu corpo glorioso, dos apóstolos ao verem o mestre novamente com eles. O glória cantado alegremente, o aleluia entoado solenemente, a invocação de todos os santos que participam conosco dessa liturgia na Igreja Triunfante. Como é belo ser católico, como é belo fazer parte não só de uma tradição milenar mas também de uma liturgia que acontece na eternidade. 

É tempo de agradecer. Agradecer pela Eucaristia, pelo sacerdócio. Agradecer por cada sofrimento que Cristo suportou por nós, por cada gota de sangue derramada na cruz. Agradecer pela sua gloriosa ressurreição, pela união com todos os santos e anjos do céu. É a derradeira ação de graças. 

terça-feira, 7 de abril de 2020

Do homem pueril

Deve-se ter cuidado, para quem ou como entregamos nosso coração. Corremos o risco, não raramente, de entregá-lo a quem nem de perto merecia tê-lo. É preciso cuidar com mais carinho daquilo que temos dentro de nós, do contrário poderemos apenas estar entregando ao inimigo a adaga de prata com que ele nos ferirá o peito pelas costas. 

Mas isso ainda é romantizar demais a coisa, erro meu. O que aconteceu não foi uma traição qualquer, mas uma abominação, uma covardia inominável. Aquele que um dia me procurou com solícita vontade de aprender agora vira-se para mim com risadas de superioridade afetada, um sinal mais do que claro de uma psicopatia adquirida. 

Pobre tolo! Não só não aprendeu nenhuma de minhas lições como ainda fez exatamente o que disse para não fazer. Entrou na cova do inimigo e fez dele seu amigo, agora sai por ai, desfiando rosários de pérolas de suas imbecilidades ornadas com vocabulário profissional. 

Olavo de Carvalho tinha razão, como sempre, ao dizer que uma pessoa sem alta cultura espiritual mas munida de um diploma superior é nada mais do que um risco para a humanidade. E é isto que ele se tornou: mais um a adotar a linguagem viciada e vazia daqueles que repetem os mesmos cacoetes mentais dos comunistas de quarenta anos atrás com ares de sublime erudição, como se fossem eles mesmos, aqueles incapazes de perceberem as incoerências lógicas, as mais óbvias e pueris da existência, o pináculo da inteligência humana. 

Distando milhares de quilômetros da inteligência que se consideraria razoável para um ser humano médio ele agora demonstra uma percepção ainda mais deficiente do que a de um interiorano iletrado que, ao menos ao seu modo, percebe a realidade como ela é e não como a sua classe de mentalidade corrompida e doentia gostaria que fosse. 

É inútil discutir, seria como tentar jogar xadrez com um pombo ou um macaco. O mesmo iria subir no tabuleiro, bagunçar as peças e sair andando como se tivesse entendido ao menos o propósito do jogo. A inteligência desses já nem deveria mais ser chamada assim, senão que trata-se de um abortivo de inteligência, algo que sequer chegou a formar-se no ventre da verdadeira sabedora, aquela sabedoria presente na realidade mesma, passível de ser reconhecida na presença total de que nos fala Louis Lavelle, que eles obviamente não leram. Não, a sabedoria que de que tanto se gabam é a de destruir sob o pretexto de reconstruir. Uma espécie de alquimia social. 

Mas se alquimia consiste no processo de compreensão, decomposição e recomposição da matéria ou, no caso, da sociedade e sua cultura, eles saltam a primeira etapa como se fosse dispensável e trivial e passam logo a destruição, decompondo tudo o que lhe vêem pela frente, sem se perguntarem, por um só instante que seja, se estão ou não destruindo algo que seja essencial a existência humana, ou ao menos de uma existência minimamente organizada antes do caos absoluto no qual pretendem nos fazer mergulhar. 

Ignoram, portanto, a verdadeira intelectualidade, ao passo que veneram com ares de devoção mais do que religiosa os currículos e diplomas. Um papel assinado por um imbecil dizendo que outro imbecil está apto a exercer tal ou qual profissão vale mais do que o conhecimento necessário para exercer a mesma. Mais valem os atestados intelectuais do que a intelectualidade em si, e essa ação é até mesmo compreensível. A exigência de ler ao menos oitenta livros por ano sobre a área de estudo na qual se pretende conhecer é um esforço demasiado grande se, por outro lado, pode-se ter o peso de um argumento de autoridade afirmado por um impresso emoldurado na parede assinado com letras itálicas de canetas tinteiro. 

Não percebem que suas engravatadas reuniões não passam de balbuciar de porcos vomitando a lavagem cerebral que chamam de formação acadêmica, e é isso que forçam as pessoas a creditarem sob o título honroso de ciência, ou jornalismo, ou pesquisa, ou o que quer que seja. A verdade é que chafurda no lamaçal da ignorância e, pelo pouco que posso apurar, é nele que serão enterrados, com a boca cheia não de terra, mas da podridão que consumiram durante toda sua vida pequena e limitada a impregnação auditiva das palavras de seus superiores, incapazes, que fizeram o brilhante trabalho de os tornarem ainda mais incapazes. 

A era do imbecil coletivo já passou, e talvez o novo imbecil coletivo também já tenha passado, o que vemos agora é a ignorância absoluta, de uma intelectualidade tão baixa e pueril que só pode comparada em termos históricos ao homem das cavernas que, ao menos, sabia que pau é pau e pedra é pedra, sem crer que segundo seus mestres pau é apenas uma construção social e a pedra só é pedra se assim ela se declarar pedra. Nesse sentido o homem das cavernas é ainda mais inteligente do que os jornalistas de nossa época. 

De como me sinto

Nem sei como começar a dizer o que estou sentido, a verdade é que eu pura e simplesmente não sei o que estou sentindo. Não é vazio, como o costumo dizer, senão que sinto-me cheio de sentimentos confusos e conflitantes entre que, como numa miscelânea de aquarelas que se quebraram formam um um quadro incomum espalhado pelo chão, com suas cores misturadas. 

Sinto me confuso? Talvez não seja também a melhor das definições. Eu sei onde estou, o que preciso fazer e isso deveria ser suficiente. Preciso ir a missa logo mais a noite, preciso terminar o livro chato que comecei semanas atrás e que está abandonado ao lado do meu travesseiro, na esperança de que eu algum dia encontre energia para retomar a tão fatigada leitura. A Moreninha que me perdoe, mas sua leitura é um saco!

Por outro lado sinto-me irritado. Irritado com a minha família que insiste em ouvir o sertanejo sofrência o dia inteiro durante a quarentena, enquanto estalam com força as peças de dominó sob a mesa de madeira. Parece que ninguém aqui é capaz de imaginar um divertimento menos estúpido. Pascal bem o disse que "a única coisa que nos consola de nossas misérias é o divertimento e, no entanto, é ele mesmo a maior de nossas misérias." Qualquer um com o mínimo de bom gosto musical concordaria com ele e buscaria desligar logo o player e silenciar os artistas nas plataformas de streaming

Também sinto-me com preguiça. Preguiça de manter uma conversa com uma pessoa que eu sei que só me responde quando alguma de suas pretendentes não responde mais. Ser a segunda opção não me agrada. Também não quero discutir política, quero que todos os cegos por seus arremedos de verdade adquiridos na mídia criminosa vão às favas. Já percebi, sob duras penas, que não há como mostrar a verdade a quem já se sente contente e realizado com a mentira confortável de suas ciências incompletas e mentirosas. 

Me falta disposição e, como minha assinatura do curso online expirou, só me resta mergulhar em um grande lago de autocomiseração, sem perspectiva nenhuma de futuro além de aprender ainda alguma coisa, mesmo minha cabeça se recusando a reter conhecimento como deveria. Acho que fui afetado pelos obtusos que me cercam, cegos em suas próprias verdades. De verdades eu entendo muito pouco, e todas elas se resumem a Igreja que sirvo e amo, a tudo mais estou aberto a novas perspectivas, mas essa não parece ser a posição geral. Antes disso, todos sentem a imprescindível necessidade de ter uma opinião cabal tal qual um imperativo categórico tão logo tenha ouvido falar sobre alguma coisa pela primeira vez ou após ter gastando dez ou quinze minutos lendo sobre na internet. Bom, se essas pessoas se acham capazes de julgar e classificar eu acho que não sou obrigado a dar ouvidos a elas, e me resguardo no meu silêncio, sibilando baixinho toda sorte de palavrões que me venham a mente. 

Infelizmente o maior concurso de pessoas na minha casa durante a quarentena me fez dar adeus ao meu tão querido silêncio. Se antes passava o dia inteiro sem ouvir um ruido sequer, mesmo com mãe e irmã dentro de casa, agora nem mesmo de madrugada eu encontro silêncio. Vozes, risadas, músicas (ruins) e brincadeiras pululam o ar e poluem a minha mente que, como bem sabemos, já tinha problemas o bastante com as vozes que escuto. 

Por fim, sinto a pressão da Semana Santa começar a me ameaçar, conforme aproxima-se o Tríduo Pascal. Esse ano, mais do que em todos os outros, a organização caiu sobre mim, o que significa que vou me cobrar por cada pequeno detalhe que, por ventura, dê certo ou errado. Meu estômago já dói e meu corpo já pede por uma longa tarde de sono benzodiazepínico. Esse tipo de pressão sobre alguém com tão pouca estabilidade emocional é o estopim de um surto de proporções dantescas, as manchas de sangue nos meus lençóis são testemunhas disso, resultado de noites difíceis das quais eu gostaria de me esquecer. 

Não consegui definir como me sinto, mas creio que fiz uma descrição satisfatória. Pois bem, é isso. Apenas isso? Não. Isso é apenas o que a pequena concha consegue pegar nas margens de um oceano violento, que sopra com vento frio e forte e, no horizonte, ameaça se agitar com uma tempestade impetuosa. Um oceano vermelho, como o céu também. 

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Resenha - En of love TOSSARA

Sabe quando o coração fica quentinho? É assim que eu me sinto agora, visitado por alguma fadinha do amor ou tendo sido ferido pela seta do cupido... O amor amou de novo e eu fiquei bobo assistindo tudo isso. 

En of Love é uma série tailandesa que conta três histórias diferentes, sendo TOSSARA a primeira delas. Gun Tossakan é um popular calouro de medicina que, no entanto, não se importa com as pessoas que dão em cima dele pois só tem olhos para uma pessoa, e essa pessoa é Bar Sarawat, um veterano de engenharia que, numa competição, acabou perdendo a insignia da sua faculdade e ficou desesperado por isso. Gun encontra a insignia e usa como pretexto pra começar a dar em cima de Bar, que aceita como forma de agradecimento. Não demora muito até que Bar comece a gostar de Gun e, aos poucos, descobrir que o futuro médico já é apaixonado por ele há vários anos e só estava esperando uma oportunidade de se aproximar.
Mesmo esse arco tendo só quatro episódios a série é cheia de momentos fofos e clichês, um prato cheio pra qualquer pessoa que goste de romances açucarados e finais felizes. A história é levinha e sem grandes reviravoltas, o que torna a série ótima pra ver naquela noite em casa ou numa tarde romântica. As atuações não são a coisa mais impressionante do mundo e, pelo pouco que pude apurar, os atores são quase todos novatos, mas ainda assim isso dá um charme pra coisa, afinal, quem tá completamente seguro numa fase da vida de descobertas e dúvidas? 

Gun (Win Achawin) é alto e muito bonito, sendo conhecido na universidade por receber cantadas de mais de mil pessoas. Embora tenha uma aparência tímida ele é na verdade bastante corajoso e não tem nenhuma vergonha de confessar seu amor por Bar, seja na frente de seus amigos ou da faculdade inteira. Bar (Folk Thitipat, por quem me apaixonei perdidamente e já estou de casamento marcado para a próxima estação), por outro lado, é baixinho e invocado. Fica irritado com facilidade e vermelho toda vez que Gun se aproxima ou se declara pra ele, o que não acontece poucas vezes. Mas o coração do veterano logo começa a ficar molinho e aí que nossa alegria começa também.
Eu terminei todos os episódios em um manhã e fiquei desesperado sem saber o que fazer da minha vida logo depois. O fato é que mesmo agora, dias depois, ainda quero explodir de amores por esses dois. As cenas fofinhas são simplesmente maravilhosas e a série deveria vir com um aviso para diabéticos. Uma ótima pedida para esses tempos tão difíceis em que temos dificuldade de acreditar no amor.

A trilha sonora, Go Slow da Tiger Band com participação do rapper ERWIN é um hit chiclete que eu já decorei em menos de duas horas. Enfim, acho que algo em mim quer que eu volte a crer no sentimento. Será que vou encontrar uma engrenagem mágica que me faça achar o meu engenheiro do amor? 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Vozes


Eu odeio você!
Eu te odeio!

Você já se olhou no espelho hoje e viu o quanto é patético? 
Quantas vezes já rolou de um lado a outro da cama sem conseguir dormir, 
atormentado pelos fantasmas dos seus próprios vícios luxuriosos? 

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Você é nojento! 
É nojento quando pensa nos outros, 
é nojento quando deseja ser tocado, 
ser deflorado das mais variadas maneiras. 
É nojento o quanto você deseja ser apenas um objeto 
nas mãos de tantos homens, 
como deseja ser descartado depois, 
como o lixo que você é.

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Eu tenho nojo de você! 
Você vive de autocomiseração, 
se alimenta da atenção e da piedade dos outros 
e consegue isso com seu EVA? 
Não, você não é Shinji Ikari, 
não é bom o suficiente para pilotar um EVA. 
Você não é bom pra nada, 
é ridículo e o muito que faz não vale nada!

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Se desespera por estar só 
mas afasta aqueles que se aproximam de você 
e depois chora por estar só de novo. 
Parece uma criança que não sabe o que quer, 
apenas quer reclamar. 

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Não me dê ordens, 
não discorde de mim. 
Eu sou só uma criança mimada que não pode ser contrariada. 

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Você merece sofrer, 
você merece sofrer. 
Não consegue fazer nada sozinho? 
Morreria em instantes se não fosse por aqueles que o cercam, 
que continuam na sua vida por pena de sua existência miserável. 
Você merece a morte! 
Não uma morte qualquer, 
mas uma morte lenta e dolorosa, 
que pouco a pouco vá derramando cada gota desse seu sangue fétido e imundo. 

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Mas eu não quero morrer... 
Eu não quero mais chorar. 
Se eu chorar as pessoas ao meu redor vão ficar tristes. 

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Mas é só isso que você consegue fazer não é? 
Chorar e se machucar, 
e assim você consegue a atenção e o carinho que deseja. 
As linhas de sangue são o seu EVA. 
E então você prossegue sua busca por carinho, 
atenção, calor, 
por uma razão. 

É patético!

Eu odeio você!
Eu te odeio!

As pessoas vão continuar te odiando
vão continuar te usando
vão continuar te descartando.

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Porque você não vale nada
você não é nada
você não é ninguém.

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Eu odeio você!
Eu te odeio!

Por favor, saia da minha cabeça!
Pare de dizer essas coisas
Por favor, pare
eu não quero mais ouvir
Por favor, pare
eu não quero