sábado, 11 de maio de 2024

Tarde demais

"Por isso eu tomo ópio. É um remédio. Sou um convalescente do Momento. Moro no rés-do-chão do pensamento e ver passar a Vida faz-me tédio" (Álvaro de Campos)

Você é um grande idiota, isso sim! Enquanto eu tentava, a todo custo, vencer suas barreiras e me aproximar, você era apenas indiferentismo, e então se mostrou violento, como animal ameaçado. Um grande imbecil, e pensar que, mesmo depois de todos esses anos, ainda tinha em minha mente aquela visão de você calmo e choroso perto de mim, querendo me agradar, dizendo que queria ser meu amigo. Quando foi que se tornou esse idiota? É certo que já faz muitos anos que não o vejo, mas tenho certeza que aquele olhar, aquele olhar gentil de antes, desapareceu em meio a essa arrogância. 

E então olho para a minha mesa, e vejo os frascos cor de âmbar com tinturas de colônia, valeriana e outras plantas que aquela senhora preparou para mim, e em nenhum momento eu tentei me aproximar dela, e ela cuida de mim com esse carinho, como se fosse minha mãe, e me aconselha a descansar, a me cuidar enquanto é tempo. 

Engraçado, e digo isso de um modo mórbido, como algumas vezes recebo hostilidade praticamente gratuita em troca do carinho que dei e, outras vezes, recebemos cuidado de onde menos esperamos. 

Só é uma pena que talvez seja tarde demais. E o talvez tem nessa frase efeito eufemístico: definitivamente é tarde demais para mim. Já sinto no meu corpo os efeitos de todos aqueles remédios, inclusive os que acabei de tomar na esperança de dormir um sono pesado e não pensar naquele grande idiota.

Ontem em meio aos estranhos no ônibus eu chorava, e chorei baixinho até dormir também, mas o que era tristeza pouco a pouco se transforma aqui dentro em revolta, e se antes queria acariciá-lo e protegê-lo de um mundo que não o via e que o assustava enquanto apenas eu o via tão bonito mas tão fechado em si mesmo, agora quero mais o esmurrar até que essa ira se vá. E então, com a cara dele cheia de sangue, quem sabe eu me sinta um pouco melhor, ou talvez um pouco menos do que o lixo que me sinto agora. 

É, com certeza é tarde demais. 

Já me encontro nos umbrais da condenação eterna…  

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Espera

"Boiam leves, desatentos, meus pensamentos de mágoa, como, no sono dos ventos, as algas, cabelos lentos do corpo morto das águas." (Álvaro de Campos)

Ontem mais uma vez eu dormi pedindo e chorando baixinho que não acordasse, mas cá estou eu mais um dia.

Considero o dia após esses episódios mais agudos como uma espécie de ressaca, algo como uma ressaca moral talvez. Sinto a mente pesada, e é claro que nesses dias parece que as pessoas adivinham e exigem ainda mais de mim. 

Fico ainda mais melancólico que de costume, o que em alguns pontos pode ser uma coisa boa, como perceber o óbvio que vinha ignorando, que todos ao meu redor também estão passando por alguma coisa, e que geralmente não comentamos. Ao chegar em casa eu até noto os semblantes tristes, achei que fosse apenas a crise financeira pela qual temos passado atualmente, mas era mais do que isso, tem uma gama de nuances que eu não tinha percebido e que tem se somado, resultando que todos estão no limite, de algum modo. 

Vejo a depressão, a minha e de outros ao redor, e vejo um mundo cruel. Duro e cruel. Que esmaga todos em sua impiedade. 

E ela me esmagou. Me colocou sob seus pés. 

E não há nada que eu possa fazer, 

além de fechar os olhos, 

em silêncio, 

e esperar que acabe

tudo.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

O Idiota

Outra ciclagem nesse inferno. Ainda nos últimos dias eu estava quase prostrado, irritado com tudo e todos, depois, no sábado, me veio uma euforia que só não se estendeu até o domingo porque precisei usar uma quantidade absurda de remédios para alergia, mas ainda permanecia aquela inquietude típica dessa fase. E então, depois veio a depressão junto ao cansaço da crise alérgica. Hoje, um episódio misto marcando nova ciclagem, não há corpo que aguente… 

Outra ciclagem nesse inferno. É sempre assim. A depressão que me deixa prostrado, como que um cadáver adiado e a euforia, que me faz ficar inquieto, e falar demais, e dar em cima dos caras e querer transar loucamente, ainda que sejam dez da manhã com um desconhecido no banheiro de um terminal do outro lado da cidade. É sempre assim. Ou sem desejo nenhum, ou pior que um ator pornô. Celibatário ou tarado, mas sempre, sempre, um idiota, nojento e desprezível. 

O dia está até bonito, apesar de quente não está úmido, afinal é outono, mas ainda assim eu não quero estar lá fora, mas também não quero ficar aqui enfurnado no escritório congelando no ar, também não quero ir para casa, embora queira dormir, mas só pelo prazer de não ver e nem interagir com nada, nem ninguém.  

Me vem tremores, os ânimos ficam exaltados. Queria não ser assim, tão volátil, mudando sempre tão rápido. Inconstante, imprevisível, uma bomba de efeito retardado.

E então percebo que de novo estou querendo me refugiar no sono. Ontem fiquei feliz por poder chegar em casa e simplesmente ficar deitado esperando que ele chegasse, e hoje já me vejo inquieto para fazer o mesmo, ignorando que tenho uma reunião que esperam que eu vá, ignorando que preciso ficar acordado ao menos uma hora em casa, estudar um pouco que seja…  Mas eu não queria nada disso, eu só queria voltar ao nada. 

É isso que me faz ser um grande idiota, falar demais, não saber a hora de parar. Como as pessoas aguentam outras assim o tempo todo? Não aguentam, e então explodem, como aconteceu comigo, mais uma vez, com uma das pessoas por quem mais tenho carinho. É isso que me faz ser um grande imbecil, desprezível e que por isso, por ser tão bizarramente estranho, está condenado a ficar sozinho para sempre, sempre, sempre, um idiota, nojento e desprezível. 

E essa dor de cabeça não diminui, e eu fiquei envergonhado, mesmo estando do outro lado do país, desejando que houvesse um jeito de não ser assim, de não me humilhar tanto, de não ser tão boçal. Mas eu sou, eu sou desprezível e por isso todos me desprezam. 

Por isso eu deveria me calar, e desaparecer. Seria melhor para todos. 

Eu deveria me calar de uma vez por todas.

Seria o melhor para um idiota nojento desprezível.

Pranteariam meu cadáver sorrindo, todos eles, e diriam entre si: como ele foi um nojento desprezível!

Vontade em ruínas

La Palude, Roberto Ferri

"E os sentimentos humanos foram-se esmaecendo mais e mais, e a cada dia que passava alguma coisa se perdia nessa já hasta ruína." (Nikolai Gógol)

Mais um dia, dentre tantos outros sobre os quais também escrevi, em que só espero ansioso pelo momento de poder voltar a dormir, profundamente, sem nenhum outro compromisso com a realidade. Mas, digamos que tenha visto essas páginas pela primeira e se pergunta: donde vem todo esse pessimismo, toda essa visão quase niilista que tanto te aflige?

Bom, a resposta é que, por tantas e tantas vezes, ao olhar o mundo ao redor e ver coisas como a prevalência da malícia sobre a inteligência, da completa falta de sentido no sofrimento ao passo que o mesmo sofrimento se faz cada dia mais e mais presente, e das mais diversas ordens, de um sofrimento profundo e verdadeiro, como de quem perdeu tudo numa enchente, como o meu, algo como um sofrimento intelectual pela absoluta completa e total banalidade do meio em que vivo, de um meio preocupado com dinheiro e aparências, de um meio onde se mente sobre estar preocupado com o outro, de um meio que se deixa corromper por promessas fáceis de sucesso em diversos campos quando, na esmagadora maioria das vezes, todas as pessoas jamais deixarão de medíocres. 

É olhar ao redor e, pior ainda, para dentro de mim mesmo, e não ver nenhuma possibilidade de melhoria, isto é, de crescimento. É como se os grandes sábios, santos e profetas tivessem ficado no passado. Não ficaram, disso eu sei, mas não os vejo andando por aí com frequência. Daí que continuar lutando bravamente pela virtude num mundo como esse parece-me um cansaço muito grande. Mas esse não é o ponto principal, já que uma das virtudes é justamente lutar pela graça quando tudo mais parece perdido. 

O ponto principal é de outra ordem: é que fui tão traído e machucado, e já tive que me reerguer depois de abandonado tantas e tantas vezes, que não sobrou no meu frágil corpo e nem na minha alma corrompida, a força necessária para buscar qualquer coisa que seja, virtude ou pecado, senão que essa sucessão de dores, de desamores, de destruições quando eu nem estava ainda totalmente de pé, a cada amor que perdia e que me diziam para esperar pelo próximo, e o próximo, e o próximo, isso me foi enchendo de uma desesperança tal que, quando me olho no espelho ou olho ao meu redor, não vejo senão a destruição, o que me enche de uma vontade tremenda de voltar ao nada.

É por isso, o meu olhar frio, distante, de quem olha para o todo e não vê nada além de ruínas. 

NÃO, NÃO É CANSAÇO…

Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo…

Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…

Como quê?…
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!…

Álvaro de Campos

Não, não é cansaço caro Álvaro, mas eu bem queria um lugar pra descansar...

terça-feira, 7 de maio de 2024

Perdido entre livros

"The Reader", Ferdinand Hodler

Você até pediu a Deus que me ajudasse a te entender, e peço perdão por ser tão insistente, mas eu entendi, e confesso que lutei para não ficar pensando demais, para não ficar buscando significados ocultos, intenções nas entrelinhas ou coisas desse tipo. Não, tentei não pensar em nada disso e acordei com essa resolução ainda forte no meu peito. Foi só agora a tarde, enquanto fuçava um acervo cheio de quadros empoeirados que, por alguma razão, me veio um daqueles arroubos, e meu peito se encheu e eu só conseguia pensar no quanto te amo. Nada mais importava, e eu sorri discretamente para mim mesmo. Você conseguiu sentir daí?

Aproveitando esse breve anuviar das ideias por conta da minha dopada candura em tomar vários remédios para dormir ao mesmo tempo. Necessário depois da crise brutal de alergia que tive ontem, é o mínimo que mereço, já que o salário nem deu para pagar todas as dívidas e vou ter que sobreviver o mês inteiro com o que sobrou do cartão de crédito, e é isso. 

Vou dormir porque amanhã começa tudo de novo, o enésimo suplício. Não vou fazer a barba, nem cortas as unhas, tampouco cuidar da pele, vou apenas dormir porque hoje, isso é tudo e tão somente o que meu corpo, coração e mente aguentam.

Vou dormir porque amanhã começa tudo de novo, o enésimo suplício. Não vou fazer a barba, nem cortas as unhas, tampouco cuidar da pele, vou apenas dormir porque hoje, isso é tudo e tão somente o que meu corpo, coração e mente aguentam.

Me lembro de uma cena daquela série, em que dizem entre si: "Eu finjo que não vivo aqui" e a outra responde "Todo mundo, cê acha que alguém aguenta enfrentar essa realidade? Eu me apoio no Gin que é uma bebida que me dá muito suporte, mas e o resto das pessoas?" Eu me apoio no sono, do doce, escuro e silencioso sono.

Tenho me sentido bem perdido. Não sei se é efeito de uma ciclagem, não sei se estou ficado eufórico ou depressivo, esse meio-termo é sempre complicado de entender, ou se é do trabalho que realmente me deixado confuso, ou uma junção das duas coisas. 

Ou é a vida, que me deixa assim, 
perdido.

"Tenho uma casa em
Honan, com um laguinho
azul, todo cercado de
bambu.

E estou aqui
dissipando minha vida,
gastando meu cérebro
nos livros sagrados..."

(Giacomo Puccini)

segunda-feira, 6 de maio de 2024

O Ermitão

St. Paul at his Writing Desk, Rembrandt

"O segredo de uma boa velhice não é outra coisa senão um pacto honrado com a solidão." (Gabriel García Márquez)

Grande sabedoria essa que o escritor do realismo fantástico conseguiu imprimir em tão poucas palavras. Grande futilidade a minha ao perceber o quão longe estou de estar pactuado com a solidão, embora ela seja minha companheira mais fiel. E eu percebo isso em dias como esse, em que sinto como o pesar de uma velhice que ainda não chegou, olhando para o mundo ao redor com tamanha apatia e desinteresse que poderiam julgar que já vi de tudo e, tendo uma longa e agitada vida, agora contemplo a solitária velhice em tédio profundo. Não o vivi, isso é fato, mas é também verdade que nada no mundo, afora o amor não correspondido, me chama atenção, de resto nada mais me agrada, para nada e nem ninguém me volto com real atenção quando chamam meu nome. Eu simplesmente os olho com apatia, enquanto ignoro seus votos de que eu melhore, ou quando me pedem para me animar. 

Eles olham longe, fazem planos e mais planos para o futuro, não percebem que estão apaixonados por uma miragem, alimentam sonhos que crescem como monstros que os devorarão depois. Acreditam em mentiras como o amor, a família, a justiça, a bondade. Ou se enganam que acreditam, não acho que alguém de fato acredite nisso, mas, aceitar essa verdade é tão dolorida aos mais jovens, que eles então se refugiam em seus sorrisos, e então me pedem para lançar longe o desânimo, para me contentar com meu corpo jovem e sadio, para sorrir. Eles não percebem.

Não estou desanimado, não estou triste. 

O que eu tenho, se é que isso tem um nome, senão que apenas posso balbuciar uma conceituação, é um profundo desgosto pelo ser mesmo. Não é que eu apenas não queria estar aqui, ou lá, hoje, não. Em verdade gostaria de poder não estar. Me contentaria se, com fumaça, me desfizesse ao menor sopro de vento. 

Mas, enquanto isso não acontece, sou como ancião que viveu todas as eras, observando o nascimento e morte dos grandes nomes, das grandes potências, de tudo que faz o homem se sentir importante, e então, tendo visto como as coisas silenciosamente se desfazem e chegam a parecer como se jamais tivessem existido, como os grandes viram pó tanto quanto os célebres desconhecidos, eu observo a tudo e a todos com olhar descrente, distante, apático, com uma certeza profunda no coração: essa realidade, o ser, a existência, tudo isso é uma desgraça. 

Essa resolução advém então de um profundo descontentamento com o mundo mesmo, e como a terra seca onde um dia já correu um rio. 

Terra seca, pois as águas de amor que um dia ali brotavam e corriam, se foram, se perderam, não voltam mais. 

Terra árida,

coração seco.

Escrevo como um velho ermitão da montanha, com o papiro alumiado por umas ceras que logo se dissiparão, já não forço a vista, não há nada que valha a pena ser visto. 

Espero logo me apagar como essas velas que me deixam mergulhado em profunda escuridão.

"Em dias mais jovens, de manhã eu ria
De tarde chorava; agora, já mais velho,
Começo o meu dia em dúvidas, porém
Sagrado e sereno me é o seu final."

(Friedrich Holderlin)

sábado, 4 de maio de 2024

Abertura de Consciência

Esse texto é apenas uma tentativa de te ajudar e, sendo assunto tão complicado, é como um aceno, um esforço que faço, como seu padrinho e amigo, a superar uma vida de consciência tão pesada que eu mesmo causei, portanto, peço, antes de tudo, que me perdoe a limitação e que Deus me ajude a não comete nenhuma injustiça. 

Na minha última reflexão apelei a uma consciência para a respiração, bem como sua simbologia profunda, tão antiga que inclusive se encontra até mesmo nas crenças pagãs, apelando aqui a Santo Agostinho que disse "Nam res ipsa, quae nunca christiana religio nuncupatur, erat apud antiquos nex defuit ab initio generis humani." (Pois a que agora se chama de religião cristã estava entre os antigos, e não faltou desde o começo do gênero humano).*

O meu ponto principal a ser desenvolvido é justamente o da consciência, da percepção que se abre e que amadurece, o que São Paulo se refere que "quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Agora que sou adulto, parei de agir como criança. O que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado, mas depois veremos face a face" (1Cr 13, 11-13), isto significa, é dever do cristão amadurecer em sabedoria conforme a graça que nos é dada nos sacramentos, especialmente a Confissão e a Eucaristia. 

O que acontece é que a prática da confissão, no sentido sacramental, deve ser acompanhada de um constante exame de consciência, não feito apenas antes da confissão em si, mas que só pode se dar por meio de uma abertura real para a graça santificante. Assim como no artigo anterior me referi a uma realidade que sua consciência ainda não tinha adquirido, assim também como toda conversão é a tomada de consciência de uma realidade que antes não tínhamos, ou tínhamos apenas em potência, a saber: a passagem do pecado para a graça. 

Mas em que tem a ver uma coisa com a outra? É que uma consciência limitada é sempre angustiada em si, isto é, o pecador cai no erro de pensar não no perdão que lhe é oferecido, mas apenas se desespera do pecado cometido ou, pior ainda, do pecado possível. Aqui o eixo de atenção é deslocado: já não se pensa mais em Deus, mas no pecado. Há, portanto, linha tênue entre a preocupação em andar na graça e o risco de cair nos escrúpulos que causam desespero. Como equacionar isso então?

A abertura de consciência, o amadurecimento intelectual, possibilita que enxerguemos não os pecados enumerados como que em lista, tal como se apresentam no catecismo e nos manuais de confissão, inclusive no que eu mesmo enviei a você, mas passamos a ver as raízes mais profundas do pecado que permanecem em nós como concupiscência, raízes estas que, não raramente, fazem com que assumamos comportamento distante de Deus justamente por nos fazer pensar mais no pecado do que na graça de Deus, sendo que a elevação da consciência não se detém nem mesmo na graça de Deus, mas numa contemplação posterior, do próprio Deus, o que São João da Cruz explicou com muito mais eficiência do que eu posso fazer. 

Então estou dizendo que os manuais de confissão estão errados e que o catecismo também ao enumerar os pecados? Não, eles o fazem justamente para mostrar, de forma mais sistemática, aquilo que Santo Agostinho o fez nas suas Confissões: a busca de uma abertura tão grande para a ação divina que nos mostre as raízes de nossos pecados e como eles podem se mostrar nas ações mais toscas, como na masturbação ou no olhar luxurioso. Isso significa dizer que essas listas são, na verdade, a ponta do iceberg, mas que não devemos nos fixar a elas somente. 

Mas se há coisas ainda mais profundas, há ainda mais pecados a serem descobertos? Sim e não. Mais uma vez recorro a Santo Agostinho, que diz que os pecados são feitos da mesma matéria que as virtudes, algo que Chesterton, para apontar um autor mais próximo de você, também o disse ao mostrar que o mundo, na verdade, se encontra em decadência por conta das virtudes cristãs enlouquecidas. Isso significa que o passar do pecado para a graça, que se manifesta sacramentalmente na confissão como marco, se dá, na verdade, como uma longa transmutação alquímica que se dá na alma, no Eu do cristão. Isto é, na contemplação da plenitude de Deus a nossa mancha se torna tão evidente que então nos conformamos a ela, mas se focamos apenas nas nossas manchas, estamos como que de cabeça baixa, sem saber o que há ao nosso redor, que nos abarca e transcende infinitamente.

Se as coisas são como descreveu o Bispo de Hipona, quer dizer que devemos buscar a raiz do pecado e transformar em algo bom. Não no sentido superficial como, o que na pornografia pode ser bom? Não, mas o que foi o conjunto de coisas que nos levou a pornografia e que se encontra tão profundo em nós que já nem mesmo percebemos? Há coisas que devem ser mudadas na base, outras que precisam apenas de uma aplicação melhor. 

Portanto, a minha argumentação é esta: a contemplação de Deus em sua totalidade, que se dá por meio da abertura aos atributos divinos, ou seja, ao que é bom, belo e verdadeiro. Tenhamos em mente que Deus é perfeitamente Bom, sumamente Belo e ele é a própria Verdade, por isso, tudo que há de bom, belo, justo e verdadeiro, nos personagens da literatura, na vida dos santos, na sabedoria da filosofia e da teologia, está dado perfeitamente em Deus, então ao se abrir a essas imagens, elas apontam a perfeição de que são reflexos, como o hino dos três jovens na fornalha ardente, e o cântico das criaturas de São Francisco, que exaltam o que de belo há no mundo criado por Deus. 

A minha proposta, imensamente difícil reconheço, é a abertura, a esses tesouros, e não a contemplação dos seus pecados ou das suas possibilidades de pecar que, em verdade, te fecham e te afastam de Deus. Que os instrumentos da Igreja o ajudem a abrir a consciência, mas não que te façam se acostumar a uma confissão infantil, que apenas enumera pecados como quem paga boletos e pega recibos em troca, mas que apontem as realidades profundas que em ti precisam ser modificadas. E por isso Santo Agostinho é um exemplo tão grandioso, pois, ao demonstrar em suas Confissões, muito mais do que listas de pecados, mas uma abertura a Deus tão imensa que lhe fez perceber até aos pecados cometidos na mais tenra idade. Mas ele não se fixou nisso, senão que usou para executar essa transmutação profunda, e transformar o pecado em ensinamento perene, tão importante que, cá estou eu, falando da graça alcançada por Santo Agostinho, tantos séculos após sua morte corporal, e não dos seus pecados. 

Mas, o que em verdade tenho tentado dizer e que gastei tanta tinta e ainda não consegui é o conselho sintetizado por S. Pe. Pio: "Reze e não se preocupe!" 

~

*Retratactiones, I, cap. 13.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

A Respiração do Universo

É preciso que eu primeiro consiga silenciar o meu próprio coração, muito embora a agitação do mundo torne isso quase impossível, antes que consiga lhe explicar algo. 

Eis o que quis dizer ao me referir ao ritmo constante que você apontou na música como sendo "o ritmo do universo." Desde os tempos mais primórdios, e inda hoje, o homem se encanta e se espanta com o mundo que o rodeia, e da observação desse mundo ele tenta apreender algo, como que compreender o funcionamento do todo, dos mais diversos modos, hoje pelo funcionamento das partes, com a ciência moderna, mas em outros tempos com diversas explicações dos movimentos constantes do universo e que podemos observar e que repetimos em nós mesmos, sendo essa última parte a que te causa certo desconforto. 

Essa percepção do universo é algo que então se encontra no coração do homem desde muito tempo. Os gregos colocaram isso em seus termos naquelas buscas dos pré-socráticos pelo princípio primeiro de todas as coisas, e por isso afirmavam a criação advinda do movimento desses elementos primordiais. Anaxímenes apontava o ar, se inspirando no movimento de condensação da nossa respiração. Tales apontou a água, Heráclito o fogo... O que esses elementos têm em comum? Como cada um deles é capaz de transformação. O ar é simbolo e objeto da respiração, e vou voltar a esse tema da respiração logo mais adiante. A água o elemento da mudança, o empurrar e puxar do movimento das marés e como o líquido se adapta ao recipiente que o contém, também a capacidade da água de se condensar e se esvair em vapor, como análogo da respiração. E o fogo como transformador em si, sendo por meio do calor uma contínua transformação. 

Mas, antes dessa elaboração mais racional, mas ainda antes das observações propriamente filosóficas de Platão e Aristóteles, os gregos já explicavam o surgimento das coisas pelas relações entre os deuses, entendidos mais ou menos como o que hoje conhecemos como forças. Na Teogonia vemos os princípios de atração e repulsão: do caos primordial surge a Terra, sólida e fixa, o Eros atrativo e o Tártaro sendo algo como o fim antes do reinício. A combinação deles deu origem a Nix, a noite, e Hemera, o dia e assim sucessivamente as coisas foram se formando, em pares, em dualidades, em movimento. Atração e repulsão. Transformação. 

Mas não só os gregos como praticamente todos os povos, ao menos todos os que conheço, trabalham em si a noção de transformação. Na antiga religião da índia encontramos a trindade de Brahma, Vishnu e Shiva, respectivamente a criação, a preservação e a destruição. Shiva, por exemplo, é frequentemente representado dançando, sendo a destruição o primeiro passo para uma nova reconstrução. Ainda anterior a essa crença, o próprio Brahma (o Absoluto) já continha em si toda a concepção de universo como transformação na participação do seu ser, sendo que cada era, por assim dizer, era nada mais que o próprio movimento do seu respirar. O mantra mais importante do hinduísmo, do budismo e também de outras religiões, é justamente o foco na respiração necessária para a vocalização, sendo o enfoque de cada trecho do Om, ou como ouvimos o Aum, um enfoque na criação, na perseverança ou na destruição e, portanto, recriação. 

Também no próprio gnosticismo há o confronto de realidades na transformação do ser, como as sizígias da tese de Valentiniano, união entre unidades ativas e passivas que, descrendo do primordial perfeito e ideal deram origem ao mundo material e imperfeito, culminando na antítese Deus, perfeito e imutável, e o Demiurgo, criador das coisas como conhecemos, que se transformam e se degradam, nas pontas dessa crença.

Você já deve estar pensando que expliquei muito e ainda não disse ao que vim, e onde tudo isso se encaixa na sua visão sobre a relação sexual, algo que implica no seu cotidiano e também na nossa relação com os outros.

Tudo isso pode, mas espero que não, ter soado bem pagão e até mesmo anticristão, no caso do gnosticismo. Mas, se pensar um pouco mais e observar atentamente, essas teorias e crenças são apenas emanações distantes da revelação mesma que temos no cristianismo. No princípio, o Espírito de Deus pairava sobre as águas. A palavra Espírito, em hebraico Ruah, significa exatamente sopro, respiração, e o Espírito está na criação, na condução do mundo, desde os tempos antigos até o envio dos Apóstolos e guia da Igreja Peregrina até o expirar desse mundo antes da criação de um novo céu e nova terra anunciados no Apocalipse. Também Deus nos guia pela respiração, pela transformação que isso provoca em nós e ao nosso redor. Transformação que pode ser tomada em vários e amplos sentidos, sejam nas trocas gasosas dos seres vivos e nas reações químicas que, aliás você deve conhecer bem mais do que eu, até naquela que é reflexo da respiração primordial: o sopro divino que concedeu vida ao barro de que veio Adão é o mesmo que continua a soprar em cada novo ser gerado no ventre da humanidade. 

Essa relação de respiração que observamos ao nosso redor, sejam as trocas gasosas, o movimento das marés, o ciclo de dias e noites, as trocas das estações, ritmos constantes que vemos no mundo, mas que repetimos em nós mesmos, ao respirar e que culmina nessa respiração primordial: o sexo, onde a respiração é quem dita o ritmo, principio e fim das transformações profundas que as relações nos proporcionam. Seja a transformação física da geração e, portanto, criação de uma nova vida, ou da mudança interna (física e espiritualmente internas, entenda-se) que ela provoca. 

Ao unirem-se, os dois corpos alinham essa respiração, e fazem o movimento constante, aquele mesmo que você percebeu na música. Esse alinhamento tem bem mais em si do que apenas a conjunção carnal de duas pessoas, ela é a participação mesma desses dois seres no todo cósmico, toda a criação está presente ali, nas inspirações e expirações do casal, no hálito que evapora, no calor que transforma a pele e o corpo inteiro desde dentro e no plasma resultante do ato, que justamente reinicia todo o ciclo eterno do qual esses dois, em seus corpos, prenunciam. Isso porque acontecendo no corpo as consequências se dão na alma imortal, se dão de modo a perpetuar nesses seres aquilo que compõem cada um e que eles trocam entre si, saliva, hálito, respiração, enfim, o movimento inteiro do universo, de milhões de anos atrás e à frente, lembrando então do significado de eternidade não como prolongamento indefinido do tempo, mas da posse total de todo o tempo, onde os homens participam nesse respirar. 

Daí meu apelo para que você reveja a forma de ver a relação sexual, que na realidade vem daquele puritanismo protestante de princípio kantiano e que é tão comum entre pessoas de conversão recente ou que ainda dependem da aprovação do meio para viver: o kantismo ao esvaziar a religião e a moral deixou apenas os seus aspectos mais imediatos, isto é, o parecer moralmente correto, daí toda condenação da sexualidade, inclusive a bela e cheia de amor, amor esse que está repleto da potência criadora. Ao abominar a relação passamos então a renegar nosso lugar mesmo na criação e nosso papel de continuadores do Deus criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis, ou seja, dos corpos que vemos e das energias que ele contém que não vemos, mas que se encontram juntas e inseparáveis. 

A respiração de duas pessoas, seja num abraço, como você lembrou em nossa última conversa, ou numa relação sexual completa, nada mais é do que a mesma relação primordial criadora em planos diferentes. 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Virtude e futilidade

Aquela visão, no entanto, quase etérea, me despertou algo, muito brevemente, de modo quase imperceptível. Ver aquele casa, real ou não, acordando nus e sorrindo timidamente para a câmera, essa cena que, torno a dizer, de intimidade revelada, faz meu coração, o mesmo que há dias estava como de um morto, voltar a palpitar, ainda que lentamente, sem conseguir ainda bombear o sangue, mas como uma pequena fagulha na noite escura, brilhou por brevíssimo instante antes de se apagar. 

Mas eu sei bem que isso, na verdade, é um resquício daquele sonho louco, daquele devaneio que me fez perder a razão, que me fez desejar aquilo que nunca poderei ter…  Me vejo como um moribundo, ao término de sua vida fútil, recebendo então os últimos sacramentos, como aquela tola personagem de Flaubert que acabei de ler há poucos instantes.

Não posso, no entanto, esquecer-me de que se trata de um sonho e não da realidade. A realidade em si continua sendo dura e cruel, ainda que amenizada por certas palavras que, mais me servem de um consolo tosco do que de cura real. Tivesse eu um pouco mais que fosse de amor-próprio, jamais me submeteria a isso, mas, cá estamos nós.

Tenho de ter em mente algo bem claro: todos os meus sonhos, todos os momentos felizes que em minha imaginação fizeram morada profundamente fincada sob a rocha, todos eles serão vividos com alguma mulher, enquanto eu, caminho sozinho rumo ao fim do velho moribundo, quase aos moldes do Buck, mas sem o sucesso que ele atingiu, sou ainda pior e mais desprezível e até ele teria nojo de um maricas como eu. 

Malditos sonhos! 

Ah se eu não sonhasse jamais…  

Vejo como eles me causam dor, como machucam aqueles que amo, como viver nessa fronteiras de sentimentos, de conflitos, de querer e não querer, de reagir, de sofrer, de me sentir atacado por todos os lados, toda essa sensibilização, é tudo devido aos sonhos, e é por isso que não queria sonhar, mas também não queria ficar acordado para ver a verdade diante de meus olhos: queria poder adormecer e não mais tornar a despertar. 

Assim não precisaria ver que ele partilha, em tão pouco tempo, mais coisas com elas do que comigo que estive ao seu lado em tantas batalhas. Que a proximidade diz mais respeito ao desejo do que ao tempo, que o sentimento verdadeiro não pode jamais ultrapassar o livre arbítrio do outro. Mas por que se o outro é livre para não me amar desse jeito, por que eu me vejo prisioneiro desse amor? Mas todas às vezes foi assim não é? Sempre tive valor apenas enquanto alguém não chegou para ocupar o meu lugar. Então por que não posso fechar os olhos, dormir, e deixar que ocupem logo de vez, sem me opor, e simplesmente deixar que o tempo e o vento levem meu corpo, adormecido para sempre, por entre o farfalhar das folhas no céu de outono?

E é por isso que, enquanto não fecho os meus olhos definitivamente, eu ao menos os fecho para dormir mais um dia, para viver menos um dia, para esquecer por mais um dia.

Refaço na minha alma algo daquele antigo embate entre os filósofos que buscavam o princípio último das coisas, buscando eu o princípio desse meu movimento interno tão recorrente. O ceticismo que pairava sobre a mentalidade grega graças as doutrinas de Heráclito e Parmênides que se excluíam umas as outras, também se faz dentro de mim. Se o ser é estático e a percepção do movimento é uma ilusão ou se, por outro lado, tudo está num estado de constante mudança e não existe nenhum princípio de estabilidade, então nossa percepção não é confiável. 

Por um lado há o sentimento verdadeiro, imutável em si, e por outro o livre arbítrio do próximo em aceitar ou rejeitar esse mesmo sentimento que aparenta ir contra os movimentos internos dele mesmo. Assim, cada movimento interno parece ir contra o do outro, excluindo-se mutuamente. Mas, se na época o gênio platônico conseguiu sintetizar ambos nas suas reflexões acerca do pensamento, eu não tenho estatura para tal, a não ser tomar uma atitude quase estoica, de apenas aceitar que as coisas são assim, e que são uma desgraça. 

Em alguns momentos eu não sei mais distinguir se meu amor é exemplo de virtude elevada ou de pecado devastador, ou se apenas é demonstração de infantilidade de alma, como a pobre moribunda Madame Bovary no leito de morte.

"O padre levantou-se para pegar o crucifixo; então ela alongou o pescoço como que tem sede, e, colando os lábios no Homem-Deus, depôs ali, com toda sua força expirante, o maior beijo de amor que já dera. Em seguida ele recitou o Misereatur* e a Indulgentiam*, molhou o polegar direito no óleo e começou as unções: primeiro nos olhos, que tanto cobiçaram todas as suntuosidades terrestres; depois nas narinas, apreciadoras de brisas tépidas e odores amorosos; depois na boca, que se abrira para a mentira, que gemera de orgulho e gritara na luxúria; depois nas mãos que se deleitavam com os contatos suaves, e enfim na planta dos pés, tão rápidos outrora, quando corria para a satisfação de seus desejos, e que agora não andariam mais." (Gustav Flaubert)

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*Misereatur tui omnipotens Deus, et dimissis peccatis tuis, perducat te ad vitam æternam. Amém.
Que Deus onipotente se amerceie de ti, que te perdoe os pecados e te conduza à vida eterna.

*Indulgentiam. absolutionem, et remissionem peccatorum nostrorum, tribuat nobis omnipotens et misericors Dominus: Amém.
Indulgência, absolvição, e remissão dos nossos pecados, conceda-nos o Senhor onipotente e misericordioso. Amém. 

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Desiludido

The Subway, José Clemente Orozco

Estranho experimentar isso, a mente silenciada pela estafa. Mais uma vez dormi por dois dias inteiros sem que ninguém o notasse, o máximo que ouvi foi: ele deve estar muito cansado. Mas essa não é a verdade, ainda que muitos esperem que, após antas horas de sono, eu esteja pronto para qualquer coisa. Não é bem assim. Porque o cansaço que sinto não é daqueles que precisa de uma boa noite de sono, não, é bem mais do que isso. 

É com grande tristeza que lembro que não estou empolgado com coisas que deveriam me animar, e que tentei maratonar uma pequena série no sábado, mas a melancolia era tamanha que o energético bateu no meu corpo e foi de pronto absorvido, eu dormi assim mesmo, triste, sem conseguir me concentrar em nada. 

E esses dias passaram como um grande borrão, adormecido, apenas isso, na doçura da inexistência. Nem por isso que eu estaria hoje descansado, esse sono não é o sono restaurador que todos pensam, é apenas o sono doce do não pensar, do não lembrar dos problemas, do esquecer como é viver, como é a dor de estar vivo e consciente disso. É o sono que apenas expressa o desejo profundo do Não-Ser. 

Mais ou menos essa mesma condição é que a vem se prolongando também durante o dia. Sentei ao lado de um rapaz bonito, com um grave quadro de acne, no ônibus, mas preferi me ocupar com as palavras do livro que trazia no colo, sem me importar com a presença dele, que esqueci cinco segundos depois e só me lembro agora para perceber que, de fato, não fez diferença nenhuma, e que lembro dele, e do outro no ônibus seguinte, com a mesma indiferença com que desço as escadas para pegar mais um copo com água. 

Confortavelmente Desiludido

Tenho vivido a vida
Sem saber se ainda
Carrego uma alma.
Há tempos, 
Nenhuma paixão
Pare enternecer 
Meu coração petrificado.
Eu me tornei
Confortavelmente desiludido.

(Sávio Oliveira Lopes)