segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Transbordando

Acordei com um impulso batendo forte no meu peito, uma vontade incontrolável de gritar ao mundo que te amo. Isso porque o amor que tenho por você se inflamou, me abrasou e transbordou. Você tem esse poder sobre mim, e fico feliz que não tenha percebido isso ainda. Você me tem em suas mãos, e eu não pensaria duas antes de pular de uma ponte se você me pedisse. 

Acho que em mim há mais de você do que de mim mesmo. Todas as vezes que olho para dentro de mim mesmo eu sinto isso. Sinto que o meu mundo gira ao seu redor, fazendo de você o meu sol particular. 

Eu sei bem que isso não deveria ser assim, mas você foi chegando, ganhando o espaço no meu peito, e agora já ocupa a maior parte de mim, a melhor parte de mim. É culpa sua por eu ser assim, apaixonado por você. Culpa do seu sorriso lindo, do seus olhos tristes e frios, culpa do seu corpo quente. 

Não me culpe por te amar. Só o que há em mim é amor por você, é o amor que transborda do meu peito pela minha voz, pelas minhas palavras, pelas minhas lágrimas. É o meu amor por você que transborda, e faz meu coração amar ainda mais, sem limites. É uma ferida de amor, um cautério suave. É um jardim colorido brotando de meu peito em meio ao pântano da minha alma. 

domingo, 7 de outubro de 2018

Serendipitia

Apenas agora, no silêncio da madrugada, eu consigo me sentar para dizer aquilo que senti nos últimos dias. Muito embora a precisão seja prejudicada pelo adiamento dos ditames, a ocasião original em que estes se deram  tornavam incapazes de serem escritos naqueles momentos. 

Compreendi que certas coisas não precisam ser partilhadas com os leitores desconhecidos que se dedicam a estas páginas, e quem nem tampouco necessitam serem eternizadas aqui ou em outro lugar. Algumas coisas são belas por acontecerem apenas naquele momento. A vida é alegria, tristeza e tudo o que há entre essas duas coisas, foi o que alguém me disse. 

Tive dificuldade de aceitar que eu estava vivendo aquele momento feliz. Custei acreditar que a ansiedade dolorida deu espaço a uma alegria tímida, mas sincera. Passamos boas horas juntos nos últimos dias. 

Sorrimos, 
conversamos, 
cantamos, 
brincamos. 

Eu ganhei abraços, 
afagos, olhares de afeto 
e sorrisos de companheirismos. 

É mais do que eu esperava. Sério! Não acreditei ser possível que pudesse ficar feliz ao lado dessa pessoa. Já estava certo de que a nossa convivência só me podia trazer dor e lágrimas, mas eu fiquei bem longe das lágrimas esse fim de semana, e como isso me alegra! Isso me faz ver no mundo uma centelha de esperança. 

Talvez não seja meu fim ainda.

Por mais que durante a última semana eu me sentisse vivendo num limbo entre o real e imaginário, sem conseguir distinguir o que era a realidade e o que criação da minha mente, dessa vez foi diferente. Eu sabia bem que era real, e tinha consciência que aquela alegria não era ainda a alegria que desejara meu coração. Eu sabia que aquele momento seria como o desabrochar das flores de cerejeira, que inundam de beleza a paisagem, para logo se desfazerem na efemeridade, nos ensinando o valor de contemplar a beleza de certos momentos. Eu sabia que estava sendo um momento entre dois amigos, e nada mais do que isso, mas foi tão bom que eu não liguei pro fato de que o meu desejo não fora completamente realizado.

Mas, um momento!

Se tudo que eu sempre quis foi a presença e a figura, meu desejo fora sim realizado. Talvez não com os detalhes que sonhei, mas certamente com o maior grau de realidade que poderia haver. 

Eu fui feliz, estou feliz. 

Ao menos por alguns dias pude me livrar das altas contemplações, das grandes questões metafísicas. Não precisei pensar nas coisas que existem mas que não podem ser vistas e nem tocadas, senão que apenas podem ser racionalmente compreendidas. Eu não busquei compreender profundamente o que aconteceu porque a simplicidade foi tamanha que me mostrou que nem sempre a felicidade precisa vir acompanhada de rebuscadas definições filosóficas. 

Eu fui feliz, estou feliz!

sábado, 6 de outubro de 2018

Da Intimidade Espiritual

"Há na vida momentos privilegiados nos quais parece que o Universo se ilumina, que nossa vida nos revela sua significação, que nós queremos o destino mesmo que nos coube, como se nós próprios o tivéssemos escolhido. Depois o Universo volta a fechar-se, tornamo-nos novamente solitários e miseráveis, já não caminhamos se não tateando por um caminho obscuro onde tudo se torna obstáculo a nossos passos. A sabedoria consiste em conservar a lembrança desses momentos fugidios, em saber faze-los reviver, em fazer deles a trama da nossa existência cotidiana e, por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito."

Louis Lavelle, Da Intimidade Espiritual. 1955. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Fantasma

Eu já sabia, sabia e fingia não saber, que a agitação incontrolável que vinha se prenunciando era apenas uma aura, uma espécie de arauto do desespero que deveria assolar o meu espírito logo em seguida. 

A agitação se foi, os sorrisos descontrolados e conversas insanas também. O que ficou foi o gosto de sangue e ferro, e a certeza de que uma espada transpassará novamente minha alma, e que serei reduzido mais uma vez a um mero amontoado de carne, ossos e lágrimas. 

Tentei ignorar, tentei dizer a mim mesmo que não era nada, mas era, era um fantasma muito bem identificado anunciando sua chegada. Era a morte, mais uma vez rondando minha mente com seus tentáculo frios. Era o destino, mais uma vez se mostrando por meio de sua risada diabólica.

E agora eu pobre, o que farei? Que patrono invocarei? 

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Conselho

"Aconteça o que acontecer, não se deixe desencorajar. Não feche os olhos ante a realidade, por pior que ela seja. A coragem do espírito, o amor incondicional à verdade, é a mãe de todas as virtudes — e não existe amor à verdade quando, por pensar que já a possui, você deixa de buscá-la. Peça a Deus que preserve, acima de tudo, a luz da sua consciência e a sua humildade de reconhecer a verdade quando ela aparece e é diferente do que você esperava. O resto deixe por conta d’Ele. Assim você atravessará o ano vitoriosamente, mesmo que tudo em volta seja derrota e tristeza."

(Olavo de Carvalho)

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Em Paz

Há pouco saí de uma sala de concerto, onde pela primeira vez assisti ao vivo a execução de minha peça favorita de um dos meus compositores favoritos. A Sinfonia N° 6 "Patética" de Tchaikovsky que, como não podia deixar de ser, deixou em mim profundas impressões. No entanto, como já escrevi várias e várias vezes sobre ela aqui, decidi falar de um aspecto mais particular do dia de hoje.

A última vez que eu fui ouvir Tchaikovsky, foi sem dúvida uma das piores experiências da minha vida. Não pela apresentação que foi simplesmente magnífica, mas pelas companhias.

Eu sempre tive dificuldade de fazer as coisas sozinho, e principalmente quando se tratava de algo que eu queria muito fazer. Sempre foi difícil encontrar companhia pra ir comigo a esses lugares, e eu sempre fiquei muito triste por muitas vezes deixar de ir por não ter quem ir comigo. Teve um tempo, em que as vezes faltava a aula pra ir, mas foi quando morava perto do teatro, então não era difícil já que a distância da faculdade pro teatro era de alguns quarteirões apenas. 

E muitas vezes isso me entristeceu. Mas como disse, na última vez que fui assistir Tchaikosvky, a coisa atingiu outro patamar. Foi o dia que percebi o quanto sou dispensável na vida de quem amo, pois vi que, mesmo sendo meu aniversário, eu era a pessoa menos importante ali, e foi quando o desprezo por aquela que o roubou de mim chegou a um nível sobrehumano. Resultado: chorei horrores e padeci de dores tenebrosas, dada a raiva e a tristeza que se acumularam em mim e transbordaram. 

De certa forma naquele dia eu comecei a entender que não deveria depender dos outros para ser feliz nesses momentos. Aquela era uma música especial para mim, era um momento que queria compartilhar ao lado de quem amo, mas que foi transformado num pesadelo. O culpado? Eu mesmo, pois se tivesse ido sozinho, teria conseguido aproveitar a apresentação sozinho. Aliás, todas as coisas que aprendi a amar, as amei sozinho, não foi? E quanto ao desejo de compartilhar isso com quem amo? Paciência, não dá pra ganhar todas. 

Hoje eu sinto que consegui dar mais um passo. A música, em especial a Patética de Tchaikovsky, é como uma autobiografia para mim, e me identifico com cada nota dela. Cada acorde é necessário e faz sentido para mim. E eu pude sentir isso com a força que só uma orquestra romântica pode ter! 

Claro que nenhuma das pessoas que amo estava lá, e é estranho ouvir a valsa do 2° movimento sozinho, me imaginando ao lado de alguém mas ora, todas as vezes que a ouvi não foi assim? Nada mudou então!

Cheguei em casa e agora escuto música baixinho no player, para manter a atmosfera de profunda compreensão que tive lá na orquestra, e meu coração está em paz. Está em paz porque ouvi uma música que amo do fundo do meu coração, e com a qual me identifico até com a derradeira nota. Está em paz porque consegui fazer sozinho o que não me imaginava fazendo, e não precisei me humilhar para que ninguém fosse comigo. Fiz por mim, por amor a mim, coisa que ninguém mais tem ou pode fazer. 

Estou em paz, morrendo na solidão, como o movimento final da sinfonia e como os últimos momentos do seu compositor. Creio que um dia ouvirei a essa peça sendo regida pelo próprio Tchaikovsky, que dedicará a mim uma apresentação da música que conta a história de nossas vidas. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A Cruz revela Deus e o homem

A cruz é revelação. Não revela uma coisa qualquer, mas Deus e o homem. 

Descobre quem é Deus e como é o homem. Na filosofia grega existe estranho pressentimento disto: a imagem do justo crucificado descrita por Platão. O grande filósofo pergunta qual seria a situação, neste mundo, de um homem totalmente justo. Chega ao resultado de que a justiça de um homem só se torna perfeita e comprovada, caso ele tome sobre si a aparência da injustiça, porque só então aparece que ele não segue a opinião dos homens, mas se coloca unicamente ao lado da justiça por ela mesma. Portanto, de acordo com Platão, o justo autêntico há de ser um incompreendido e perseguido; aliás, Platão não receia escrever: ‘Então hão de dizer que o justo, nestas circunstâncias, será flagelado, torturado, amarrado, que os olhos lhe serão vazados a fogo e, finalmente, após todos estes maus tratos, será crucificado...’. Este texto, escrito 400 anos antes de Cristo, sempre voltará a comover profundamente o cristão. Na seriedade da reflexão filosófica prevê-se que o justo perfeito no mundo deve ser o justo crucificado; pressentiu-se aí algo daquela revelação do homem que se realiza na cruz.

O justo perfeito, quando apareceu, tornou-se o crucificado, foi entregue à morte pela justiça; e isto nos diz impiedosamente o que é o homem: És de tal modo, ó homem, que não podes suportar o justo, és de tal modo que o simplesmente amante se torna louco, espancado, rejeitado. Tu, como injusto, sempre precisas da injustiça do outro, para te sentires desculpado, não podendo, portanto, tirar proveito do justo que parece roubar-te essa desculpa. Eis o que és. João resumiu tudo isto no ecce homo! (‘eis, isto é o homem!’) de Pilatos, cujo sentido fundamental é: esta é a situação do homem. Este é o homem. A verdade do homem é sua ausência de verdade. O verso do salmista ‘todo homem é um mentiroso’ (Sl 116 [115], 11) e vive alhures contra a verdade, já trai o que vem a ser o homem. A verdade do homem consiste em continuamente chocar-se contra a verdade; o justo crucificado torna-se assim o espelho onde o homem se vê sem retoque. Mas, a cruz não revela o homem apenas, e sim também a Deus: eis quem é Deus, que se identifica com o homem até este abismo e que julga salvando. No abismo do fracasso humano descobre-se o abismo ainda mais inesgotável do divino amor. E assim a cruz realmente é o centro da revelação, de uma revelação que não comunica qualquer espécie de proposições, até então desconhecidas, mas que nos comunica e descobre a nós, revelando-nos perante Deus e revelando a Deus em nosso meio.

RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo: Preleções sobre o Símbolo Apostólico. Loyola, 2005. P. 138-139.

Outubro

O primeiro dia de outubro começou chuvoso, um pouco abafado, e muito nostálgico. Não é de se estranhar que fiquei o dia quase todo deitado, sem forças pra me levantar ou para pensar demais em qualquer coisa. Não é de se estranhar que a chuva me traga pensamentos tristes, e que o frio só sirva para que eu me recorde da latente solidão que me rodeia. 

Me sinto lançado as águas que correm nas ruas, e minhas extremidades estão dormentes. Somente minha cabeça parece ainda estar consciente de si, e isso não é nada bom. Aliás, isso faz com que me sinta ainda pior, afinal o que há de bom em não sentir nada além de solidão? 

É como se estivesse flutuando, meu corpo está leve, mas não me responde. Tudo o que consigo fazer é sentir estímulos que não deveria, sensações que preciso esquecer, sentimentos que precisam morrer. 

Outubro me recordou de que estou sozinho. Me mostrou que não importa se continuo aqui, ou se vou para qualquer outro lugar, ainda estarei só. Não há amor ou companhia no mundo para alguém como eu. 

Vejo agora que as músicas sobre estar só, os livros onde a solidão é mostrada em toda sua latência, as teorias sobre como a consciência é a responsável pelas dores e desentendimentos entre os homens. Tudo isso são formas de expressar essa realidade demoníaca, mais fria do que as gotas pesadas que lavam o asfalto de nossos sonhos e mais dura do que o aço das espadas que golpeiam os inimigos até a morte. 

O homem não é um animal social, não. O homem é um animal condenado a solidão infernal. A gritar sozinho pelo mundo cheio de homens mas sem nunca ser ouvido por nenhum deles. 

Outubro não trouxe objetivos, nem perspectivas. Outubro começa com desilusão, com desamor. Outubro começa com sonhos soterrados, lágrimas nos olhos e aperto no coração. 

domingo, 30 de setembro de 2018

Mensagem das flores

Flores florescem em meu peito. Como elas ainda conseguem florir, se em mim não restou nada além de uma casca seca e sem vida? As flores insistem em continuar, mesmo quando não mais exalo perfume, senão que exalo apenas a podridão da morte que habita em mim. 

E eu olho então para essas flores, que de todas as cores nascem em meio ao pantanal do meu peito. Por mais que sejam belas e coloridas, ainda são flores em meio a lama. O que elas querem? Me fazer lembrar de dar o meu melhor? Ou me humilhar, mostrando que nada que faça será mais do que uma débil tentativa de vencer a desgraça que me rodeia? 

Não sei o que elas tentam me dizer. Talvez não digam nada. Talvez só estejam ali, sem um propósito, como eu estou aqui, sem razão ou motivo para ser ou estar. 

Amor ou morte

Um momento marcante, deveras doloroso, é bem verdade, mas ainda assim marcante. De frente a janela que se abre para a rua eu sinto a brisa fria em meu rosto, e com ela o cheiro doce da terra molhada de algum lugar próximo, onde a chuva já chegou. Além desse aroma, que particularmente amo, vem também uma onda de esperança, que estranhamente me possui, mesclando-se com o pessimismo realista que até poucos momentos atrás me possuía.

Combinando com a atmosfera que mistura chuva e romance, o Jazz que é perfeito simbolo de ambos me embala, me faz pensar, fechar os olhos e viajar. 

Sabe, mesmo com toda a dor que me vem quando penso que, nesse exato momento, o homem que amo deve estar pensando em outra, eu ainda consigo sentir uma pontinha de esperança. Não sei dizer se isso é algo psicótico, ou se realmente é um sinal de que há para mim alguma chance de ser feliz, mas é fato que estou agora entre a esperança e a desilusão. Entre o sonho de ser feliz e a certeza de que nunca o serei. 

É uma forma um tanto quanto doentia, eu bem sei disso, mas o que fazer, quando a única forma que tenho de ver o mundo é dessa minha maneira psicótica? 

Será que nesse momento ele também se conforta com a brisa fria da chuva que se anuncia? Será que ela lhe traz também lembranças lindas e dolorosas de sua amada? Será que em algum lugar ali fora alguém pensa em mim enquanto penso em outro? 

Bom, a essa altura tudo o que podia dizer já foi dito. Não me restam mais palavras, e nem forças pra lutar, só me resta ficar aqui, de frente a janela que se abre para a rua, e esperar o meu amor chegar, ou a morte chegar.