sexta-feira, 4 de março de 2022

Em dias como esse

Estou em estado de devaneio permanente. Não consigo me concentrar no que realmente deveria. A voz do meu professor é apenas uma trilha sonora de fundo para os meus pensamentos distantes, até a mancha de infiltração da parede é mais interessante do que as letras do livro que eu, em vão, tentei ler. E minha mente voa livre, sem se deter em nada. 

Visito igrejas distantes, escuto trechos de cantos solenes e de marchas de carnaval, poderia muito bem dizer que uma procissão está passando pela minha rua entoando trechos de músicas pop famosas. Minha mente está um caos, e eu não posso recorrer aos remédios mais uma vez essa semana, eles já nem fazem mais efeito. 

Até os calmantes perderam seu poder, porca miséria, e agora o que eu vou fazer da vida se não consigo me concentrar e nem tampouco dormir? Eis uma prova irrefutável de meu fracasso como existência. 

Passei em frente ao espelho e toquei meu rosto, minha pele grossa como a casca de uma árvore, os produtos de cuidados faciais há muito abandonados no meu armário. Não há esperança pra minha pele como não há pra minha alma, meus vícios tomam conta do meu ser, me fazendo despertar como fera, guiado apenas por meus instintos mais primitivos. 

Minha mente está confusa, acho que isso é o que significa, e eu já nem sei mais o que é ter uma mente coesa, há muito as palavras perderam seu significado e se embaralham na minha mente, quisera eu ter aquela sistematização escolástica na minha vida, que tudo fosse um tratado lógico milimetricamente escrito, mas  não, as coisas são caóticas demais e, quanto mais eu penso nelas, mais caóticas elas se tornam. 

Não sei quem sou e nem para onde vou, nem sei se vou para algum lugar, paralisado pelos meus pensamentos, perdido na selva que eu mesmo criei mas que cresceu sem meu controle até me sufocar, até me aprisionar. 

O barulho alto da máquina de costura me incomoda, detesto tudo que faça barulho demais, parece que ele se soma ao barulho da minha cabeça e tudo vira um caos. 

Tentei mudar um pouco os ares da minha leitura, o sofá da sala ao invés do meu quarto, mas a poeira na mesa de centro parece mais interessante e eu não consigo fugir a vontade de ficar atualizando a timeline do Twitter o tempo todo, mesmo sabendo que nada lá pode me interessar. 

Existem algumas verdade bastante inconvenientes nesse mundo, penso, como por exemplo o fato de que realmente é preciso comer bem e fazer exercícios para emagrecer e que essas coisas ajudam a saúde mental tanto quanto os remédios e eu acho isso uma droga. A vida é uma droga não é mesmo? Tudo o que eu pedi era um pouco de sono e um corpo melhor, mas o espelho me mostra uma camada de gordura na região da cintura e uma mancha abaixo dos olhos que me dizem que eu não posso ter nem uma coisa e nem outra. 

Um mundo onde poderes existem e a realidade não é tão enfadonha, tão chata, onde a rotina não nos engula. Em dias como esse eu tenho vontade de desistir de tudo, em dias como esse eu só queria desaparecer. Não ouvir nada sobre guerras e epidemias, sobre falsas amizades, sobre obrigações que eu não queria ter. Em dias como esse eu odeio meu corpo, odeio minhas falhas, odeio a minha consciência. Odeio tudo que não seja o ideal de beleza e perfeição que me venderam e que eu prontamente acolhi como verdade de vida, mesmo sabendo que não é verdadeira eu ainda desejo, desejo a perfeição, desejo uma vida melhor, desejo algo mais do que essa sucessão de desencontros.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Tão estranho, ignorar quem um dia esteve ao seu lado, quem já foi mais do que irmão e hoje é mais um na multidão e apenas isso. Tão estranho como as coisas mudam, como a lua muda, e como gira a roda da fortuna, como ela lança a espada do destino onde bem entende. E assim as coisas vão se transformando, sem que tenhamos nenhum controle sobre elas. Não somos mais do que pó, e essa é uma reflexão mais do que propícia nessa Quarta-Feira de Cinzas, nossa existência é mínima, é um simples aceno na imensidão desse mundo, e sobre nada temos controle. Estamos como náufragos sendo levados para onde deseja o grande oceano, estamos nele e ele nos abarca completamente, ditando nossas vidas como bem deseja. 

O que posso fazer? Seguir meu caminho no meio da multidão, fechar os olhos e esquecer os momentos bons que passamos juntos, esquecer tudo o que um dia teve significado e que hoje ficou apenas no passado, tempos que não voltam mais, sorrisos que nunca mais vão sorrir, um tempo que passou, mas que passou por cima dos nossos corações sem piedade alguma. É sempre assim, o tempo passa e não há misericórdia para o homem, o tempo passa e o que não é aproveitado simplesmente desaparece, simplesmente se desfaz, como um grande castelo reduzido à cinzas, como uma grande amizade que se foi. 

Isso coloca o mundo em perspectiva, e eu já não consigo acreditar mais em coisas como amizades e amores eternos, essas coisas também são pó, se desfazem com o tempo, estão todas sob o mesmo peso do destino, fora do controle das nossas mãos.

Por entre essas palavras eu me levanto e pego uma xícara de chá, apesar de tudo a minha vida continua. 

Perda de Tempo


"Estamos por demais mortos para viver e vivos, para morrer." 
Byun Chul Han

Sabe quando nada de errado aconteceu mas ainda assim as coisas parecem que não estão no lugar certo? É assim que me sinto hoje. Pode ser efeito do calor desagradável que me ficar rolando na cama por horas ou o fato de que não consegui dormir direito, nem mesmo com a ajuda de remédios, e isso é algo que me incomoda profundamente. Eu só queria ter tido uma longa tarde de sono profundo, aliás, a essa altura da vida isso é tudo que eu quero. 

Pois bem, nada de muito grave aconteceu, mas eu ainda me sinto desanimado, ainda sinto como se algo estivesse errado, ainda sinto que gostaria de fugir daqui. Isso porque eu não me vejo acordando amanhã e as coisas dando certo, finalmente se alinhando. Amanhã será mais do mesmo, mais dessa vida que vai do tédio a dor, num pêndulo infinito. 

E o que eu posso fazer? Não quero acrescentar mais coisas a minha rotina, tudo me parece vazio e sem sentido. Não consigo mais dormir e fazer os dias passarem mais rápido e essa era minha única fuga. Parece que tudo está perdido, até o pouco de prazer que eu tinha no sono me foi tirado de mim, como posso dizer que essa vida não é injusta, se tudo o que eu amava eu perdi e até mesmo meu único refúgio me expulsou? 

Esse universo é hostil, viver é um empreendimento inviável e, ainda assim, insistimos nisso. Viver é um atraso, uma perda de tempo. Tenho visto o mundo com uma lente cinza, é tudo assim tão chato, vazio e sem contorno. Por mim dormiria e não acordaria mais, seria melhor assim. Estar acordado é um incômodo, é um incômodo lidar com problemas que eu não posso solucionar, e eles vão se acumulando dia após dia, e cada dia é mais chato que o anterior. Parece que viver nada mais é do que uma incômoda perda de tempo. 

terça-feira, 1 de março de 2022

Limites

"O amor tem seus limites", vi essa frase flutuando em alguma comunidade online, acho que é de um trecho de uma série, e ela logo me marcou pois, do que posso dizer de mim mesmo, conheço bem os limites do amor. 

Meu amor nunca foi capaz de tocar ninguém, por mais puro, nobre e poderoso que fosse. Meu amor já foi capaz de me prostrar, mas nunca chegou a ninguém. Ninguém nunca devolveu o amor que eu dei, eis o limite do meu amor, eu mesmo, o amor que, saindo de mim, retorna por não encontrar moradia em algum outro coração. É como um derramar-se no chão, espalhando-se mas sem se conter em outro recipiente.

"O amor tem seus limites" é um adágio lamentoso, uma daquelas verdades inescapáveis. E eu não posso deixar de ver os outros felizes em companhia de alguém sem sentir que talvez eu tenha algum defeito, uma imperfeição fundamental que me torna horripilante aos olhos dos outros. E  aqui a minha sina é então ficar sozinho.

Já não recebo mais mensagens como antes, e nem tenho vontade de sair em busca de novas companhias. Tudo o que eu faço é dormir, dormir como se fosse encontrar ali a razão da minha existência, mesmo sabendo que é só uma fuga. Mas qual o problema de fugir quando o problema que se tem em mãos é grande demais pra resolver? 

Eu não sei o que fazer da minha vida, e isso é tudo. Eu sou um professor, alguém que deveria guiar os outros, mas eu nem mesmo sei onde estou. Como posso encontrar alguém estando perdido desse jeito? 

Hoje em dia as pessoas buscam por outras que possam completá-las e eu sou apenas vazio, não posso completar ninguém. O amor que eu sinto é limitado a me fazer sofrer, a entregar-se a quem não o quer. Foi assim com todas as minhas últimas histórias, eu entreguei amor e recebi em troca apenas frieza e ingratidão, e por isso eu enterrei o meu amor no profundo de mim mesmo, na frialdade inorgânica de uma terra onde nada pode nascer, não naquele jardim secreto onde se encontrava o meu amor cavalgando nas colinas como um gamo.

"O amor tem seus limites" e eu me deparei com a barreira intransponível do ser, esse muro das lamentações que impede que meu amor chegue aos outros. Tornei-me fechado em mim mesmo e não é assim que eu queria que fosse, mas as coisas são assim, e eu não tenho poder para mudar os limites do amor. 

"Solidão: um lugar bom de visitar uma vez ou outra, mas ruim de adotar como morada." 
Josh Billings

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Segunda de Carnaval

"Este mundo tem suas noites, e não são poucas." 
Johan Huizinga

É uma segunda de carnaval atípica, sonolenta. O calor incomoda e como que paira sobre a gente numa cama desagradável de suor sobre a pele. Tentei estudar assim que acordei mas fui vencido pelo sono, e cá estou eu agora esperando os remédios fazerem efeito para eu dormir o resto do dia todo. Já desde ontem eu tinha planos pra dormir hoje e me senti feliz a chegar a essa decisão, pois os dias de sono ainda são os melhores pra mim. 

Não consegui me concentrar suficientemente na leitura, algo na história não me prendeu, tenho experimentado esses dias um completo desinteresse por quase tudo. Embora esteja em hipomania identifico sinais de um episódio misto pois a antiga lente sépia sobre todas as coisas tem sido a única forma que eu vejo o mundo. 

As músicas continuam sendo minha companhia, mas não na ordem que eu as concebi, elas vêm numa aleatoriedade que me anima um pouco, me dão um pouco de alegria em acordes ascendentes e vozes pronunciando palavras desconhecidas do meu idioma. 

Elas são meu refúgio, elas e o sono irresistível, e eu já nem sei quantas vezes falei sobre isso aqui mas, se é verdade que a boca fala daquilo que o coração está cheio eu estou certo em me repetir. Por isso eu falo de como dormir é bom e de como o mundo me inunda de desesperança, deixando meu coração num luto permanente pela própria existência, vivendo um dia após o outro sem conseguir enxergar a luz, como se tudo fosse uma eterna noite escura.

Mas nessa noite há também inflamações do coração, uma história de amor ou uma música especial, que transformam as noites escuras, que às vezes até mesmo pode diminuir os terrores noturnos, que tornam as coisas um pouco mais agradáveis. Mas, ainda assim, continuam sendo noites escuras, mesmo de amor em vivas ânsias inflamadas. 

Enquanto isso os outros seguem suas vidas, enquanto eu estou paralisado. Meus pais não param um segundo sequer, meus vizinhos saem cedo e chegam tarde e eu continuo aqui, observador passivo da desordem do mundo, buscando um fundo de verdade em cada experiência humana. A voz melodiosa me deixa cheio de melancolia. Parece que o mundo se resume a isso, correria de um lado e melancolia do outro. Não muito além disso. 

Por mais que eu não tenha dormido como queira o dia foi marcado por uma sonolência pesada, olhos fechados e calor intenso. O calor era tanto que me impediu de dormir, e acho isso um saco. 

Fiz alguns planos para a noite, de ouvir uma sinfonia, daquele jeito, com muita atenção a cada pequeno detalhe, já faz algum tempo que não faço isso e acho que mereço um tempo assim. 

Procuro agora um encerramento para esse texto, o que tem me custado muito porque eu simplesmente fui colocando as coisas aqui, sem nenhuma pretensão de estilo ou coisa do tipo, mas agora a finalização exige de mim um arremate que lhe dê sentido, mas, se a própria vida de que falo aqui não tem sentido algum, por qual razão um texto sobre ela teria? 

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Ilusão

É como uma tempestade. 

Ela se anuncia com nuvens grossas e pesadas que transformam qualquer paisagem com uma lente cinza e quando chega, o faz com uma violência tal que ninguém pode se eximir de sentir os impactos da sua presença. E ela tudo abala, sopra ventos que lançam com violência coisas aos ares, os raios e trovões cada vez mais pertos e altos dão testemunho de sua força esmagadora. Num clarão e num estrondo o mundo todo para e levanta os olhos ao céu, para sentir as gotas pesadas baterem com força contra janelas e peles descobertas, é como se a ira do mundo se derramasse por sobre casas e ruas. 

Não há como fugir dela, uma tempestade sempre alcança. Só o que posso fazer é esperar, por longas noites, que ela passe e dê lugar novamente ao céu claro e límpido, ao sol que faz as gotículas de água lentamente desaparecerem.

É a quarta vez essa semana que eu recorro a eles. É como se não quisesse mais viver e tivesse vontade apenas de dormir, para não ver o mundo, não ver o outro. É como disse no outro dia, eu não sou um pessimista, sou um realista de luto, alguém que já desistiu de tentar, já desistiu até mesmo de observar o mundo. Tudo o que me toma a atenção agora são breves instantes de lucidez entre uma música e outra, antes que o próximo remédio faça efeito. Antes que meus sentidos comecem a anuviar-se e eu pouco a pouco perca a consciência mergulhando no delicioso oceano do sono profundo, abraçado por Hypnos, segurando sua mão enquanto ele me leva para o profundo domínio dos sonhos. 

Queria ser mais, explorar até os últimos limites as minhas potencialidades. Quantas línguas eu poderia falar hoje? Que emprego bem sucedido poderia fazer cair muito dinheiro na minha conta? Quantas experiências, quantas pessoas eu poderia conhecer?  Uma vida inteira que poderia ter sido e que não foi. Potencial desperdiçado, apenas isso. Tempestades que destruíam o porto donde deveriam partir as minhas viagens. E cá estou, no porto destruído, vendo a próxima tempestade que se aproxima, e sem saber se vou sobreviver a ela também. 

O sono já me entorpece os sentidos, é hora de partir, de me entregar, de sonhar com um mundo onde eu consiga me realizar, de sonhar com algo melhor do que essa realidade fria. Sonhar mas um sonho impossível. Iludido por Morfeu. 

As palavras dos livros não têm conseguido me prender esses dias, uma espécie de ressaca literária, eu leio e as palavras não se fixam completamente, minha mente vaga para longe dali. As palavras baixas dos contos eróticos parecem prender mais a minha mente, mas até elas evanescem logo. E parece que minha mente tem problemas pra se fixar em coisas reais, está sempre flutuando no mundo das ideias platônicas, nunca no mundo real. Mesmo quando eu me deito no sofá ou na cama e me incomodo com o calor a minha mente logo se põe a viajar, ela não se detém. E então eu viajo, sem que consiga usar como roteiro o livro que comecei agora à tarde, sem que eu possa seguir um sonho acordado dirigido. É como se apenas meu corpo vivesse preso as leis desse mundo, mas a minha mente, meu espírito, vagasse livremente por outras realidades, onde eu não sou apenas eu, mas onde eu sou mais e melhor. Trata-se de outra ilusão. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Trombetas

Nós conversamos, mas amizade não voltou, eu não pude ignorar tudo o que aconteceu, não pude fingir que tudo aquilo não tinha se passado entre nós. É uma constatação a qual eu chego no escuro, sozinho, numa noite de sexta-feira, quando a solidão bate a porta e vem se deitar ao meu lado, para ficar até o domingo. 

Foi um dia longo e entediante, assisti a três longas horas de um documentário mas sinto que não aprendi nada, tampouco consegui passar mais do que alguns minutos lendo, em alguns dias a mente simplesmente não funciona, ou talvez seja eu exigindo demais dela mesmo sabendo que o que retive está dentro dos limites aceitáveis, é bem da minha natureza reclamar mesmo quando tudo vai bem. 

Bem, não é como se eu fosse um pessimista sempre, me considero um realista de luto, luto pela vida inteira que poderia ser e não fui, por todos os talentos desperdiçados e oportunidades perdidas, luto pelas amizades que se foram e pelos amores que fracassaram. É com um sorriso de profunda ironia que eu penso que em nenhum aspecto da minha vida eu fui feliz, até mesmo na igreja onde poderia  dizer-se que fui importante pra minha comunidade eu sei que não fiz mais do que qualquer um com o mínimo de boa intenção faria. 

O que me restou então foi essa profunda sensação de desânimo, um desespero velado que pouco a pouco se revela, que vem se aproximando lentamente com seus tentáculos gelados e me envolve, me levando para águas mais profundas, donde não há escapatória. Essa é a imagem que tenho numa sexta à noite: a de um fim que nunca chega mas que nunca cessa de se prenunciar com trombetas fulgurantes, impedindo qualquer vida com um desespero sempre crescente. 

Assim é o mundo para mim, assim é na minha pequena mente distorcida. As imagens de luz e cor que eu vejo não são mais do que o mero reflexo das músicas que eu escuto, que me permitem vaga fuga, apenas isso. 

Por isso meu sorriso é assim, tímido, apenas um esboço, pois reflete a descrença do meu coração num mundo melhor pois, entre guerras e epidemias, nosso melhor é a morte. 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Perdido


“A vida oscila, como um pêndulo, de um lado para o outro, entre a dor e o tédio.” 
Arthur Schopenhauer.

Acordei, mas preferiria ter continuado dormindo e sem o conhecimento de todas as obrigações para o dia de hoje. Mensagens e mais mensagens com cobranças, e eu só queria um pouco da paz, de silêncio. As pessoas perderam completamente a noção da importância do silêncio, para onde quer que eu olhe sou bombardeado por todo tipo de informação. A paz que eu tanto quero é agora uma sombra pálida de um sonho distante. 

Eu não sei lidar muito bem com um número grande de informações, me sinto perdido, por isso me sinto incomodado quando recebo muitas mensagens, quando muita gente fala ao mesmo tempo, não consigo processar tudo de uma vez, minha cabeça dói e tudo o que eu quero é sair dali. 

Mas os outros parecem não entender isso, parece que o caos é desejável. Eles se comprazem na loucura dos dias. Eu só consigo enxergar um niilismo nesses dias de Baco. Eu não vejo beleza nessa loucura, apenas o horror de ser sem saber quem se é, de não conseguir ouvir o próprio coração. Eu sei que eles não querem se ouvir, mas eu preciso, preciso ouvir e sondar aquilo que há no meu núcleo. Pouco me importa se todos querem ignorar a própria voz e fazem isso reverberando seus gritos desesperados, eu tenho a minha própria voz e preciso ouvi-la. 

Não quero desperdiçar o meu tempo e o pouco de sanidade que me resta em conversas vazias, em frivolidades, em coisas tão passageiras como o soprar do vento. Eu quero me deter na realidade, ao mesmo tempo que quero fugir dessa realidade de mentiras, desse ambiente artificial, onde as pessoas fingem ser o que não são, onde só há miséria moral para onde quer que se olhe, onde os grandes valores se perderam, diluídos numa atmosfera de egoísmo e mentes fechadas. 

As pessoas não entendem que eu quero lidar com essas grandes coisas, continuam me obrigando a ver essa realidade feia, repleta de nada travestido de valores, mas esses valores de nada valem, são vazios, tão vazios quanto as vozes que me obrigam a ouvir. Só fazem barulho e abafam os valores de verdade e justiça. 

Estou cansado de catástrofes, hecatombes, cansado de um mundo de caos onde preciso lutar pra enxergar a ordem por debaixo das coisas. 

Enquanto o mundo se aquece em disputas internacionais as minhas caixas de remédio se empilham cada vez mais, e eu nem consigo entender o que está acontecendo. Me sinto perdido, e enjoado. O que está acontecendo? Não consigo me situar, para onde quer eu olhe só vejo o caos, não deveria haver um fundo de ordem por trás de tudo isso? Me sinto engolido por um oceano de águas negras, afundando cada vez mais, me fechando cada vez mais, sem esperança de voltar a luz da superfície. 

E o mundo se destrói no seu caos, e eu me perco no meu próprio caos. Vagando no vazio, sem rumo, sem destino. E quanto mais tento enxergar uma saída, menos entendo o que está acontecendo. Onde estou? Nem para esta pergunta eu tenho resposta... E a cada dia eu acordo com essa pergunta presa na garganta, e a cada dia eu durmo sem saber a resposta. Completamente perdido. 

Vejo então o mundo ansioso com uma possível guerra, e muitas pessoas ansiosas em dar opiniões, e eu perdido, sabendo que ainda preciso estudar mais pra conseguir sequer entender o que se passa. Eu olho para minhas prateleiras de livros, repletas de muitos conhecimentos que eu ainda preciso adquirir, esperando por mim. Mas imaginar tanta coisa é também um pouco paralisante. 

Eu sei que não deveria ser assim, que não há necessidade nenhuma de querer saber tudo agora, que eu hei de aprender o que for preciso no momento certo, mas é também verdade que ficar frente a frente ao meu horizonte de ignorância é um pouco assustador. Me sinto pequeno, e sei que essa sensação é, na realidade o meu lugar no mundo, modesto lugar, num mundo gigantesco. Mas então, como prestar atenção a verdade quando ela paralisa?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Seguir ou não

Não é como se pudesse dizer que eu não tentei. Terminei de ler um livro, O que aconteceu com Annie de C.J. Tudor, e o final me decepcionou. Li uma entrevista do meu professor para uma repórter romena sobre alguns aspectos do pensamento dele, o que foi bem impressionante. Assisti a vários episódios de séries durante a tarde toda, sorri com algumas cenas bobas em Semantic Error e me encantei com as fofuras de Jeff Satur e Gameplay em Ingredients, mas não foi o suficiente.

Muito embora meu coração tenha sido alimentado por essas coisas ainda ficava em mim uma sensação de querer sumir, de que não valia pena continuar desperto, um desejo intenso pelo sono profundo. 

Talvez sejam as brigas aqui em casa, ou a minha completa descrença quanto aos sonhos de futuro dos meus pais, seja qual for o motivo ele me deixa cansado, me faz querer sumir. Porque eu não acredito, não acredito que esses sonhos possam nos levar a algum lugar, não acredito que o futuro seja muito diferente do que á agora. E é com os olhos opacos e cinzas que eu digo isso. 

Talvez o que eu precise é de uma boa história de amor pra acalmar o meus ânimos e voltar a crer em algo belo novamente. Eu preciso disso se quiser seguir em frente.

Seguir em frente, rumo ao quê?

Eu não sei dizer, mas ficar parado me parece errado, por isso eu tento seguir em frente. Não que tenha grandes esperanças de futuro, eu já desisti disso, mas apenas não consigo ficar parado, enquanto em outros momentos, como agora, tudo o que quero é ficar parado, e é o que farei a seguir, ao terminar essas palavras. 

É que tem dias que uma música é suficiente pra tornar meu dia melhor, e tem dias que só o sono profundo pode me dar paz, e hoje fico com a segunda opção. 

"Não há dor que o sono não consiga vencer."
Honoré de Balzac

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Feras, abismos e flores

E já nem sei mais o que significa cuidar de mim, não tenho tido vontade para cuidar de nada, os afazeres se acumulando e eu lutando para que eu não tenha que fazer nada, porque simplesmente não há de onde tirar forças para fazer, não há como forçar. 

E a cada dia a imagem que vejo no espelho está ainda pior, e a cada dia cuido menos dela, entrei num ciclo de autodestruição e parece que esse tem sido meu único objetivo.  Já não me reconheço mais, embora o ser que me olha repita os mesmos gestos que eu não consigo me ver nessa fera que me encara. 

"O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera", disse o poeta Augusto dos Anjos, e assim eu me sinto, transmutado em fera, quimera que não tem mais forma humana, que a cada dia se aproxima mais da bestialidade completa. Não tem mais seus lábios vermelhos e seus cabelos desgrenhados gritam a alucinada verdade de sua mente. 

Uma música, que vai na antípoda do que tenho dito alguém, tenta me salvar. My Cutie Pie, do NuNew, age como a beleza que salva, que me resgata do profundo abismo em que entrei e que agora me encara com seus olhos negros como a própria escuridão encarnada. É o que me impede de cair no completo desespero. 

Mas não é capaz de me fazer ir além, apenas me resgatou do oceano escuro e me deixou na praia, mas aqui eu ao menos consigo ver as estrelas e a lua, me deixar levar por essa luz que me guia com mais clareza que a do meio-dia. Mas ela me salvou, foi o resgate de hoje. E de volta a minha casa eu vejo novamente o espelho e, olhando pra fera, ela olha de volta pra mim. Fera que não mais busca a quem devorar, que já desistiu, eu já desisti. E o mais que faço não vale nada. 

A santa e doutora disse que "há almas nesta terra que buscam a felicidade em vão, mas é justo o contrário, para ela alegria habita em seu coração. E sua alegria é amar o sofrimento." E eu tomo essa premissa como minha a partir desse momento. "Sim minha alegria é amar o sofrimento, e eu sorrio mesmo entre lágrimas vertendo, aceitando com agradecimento os espinhos que entre rosas vou colhendo." (Sta, Terezinha do Menino Jesus)

Abismo. 

Fera. 

Resgate. 

Espelho. 

Sofrimento. 

Aceitação. 

Flores. 

Alegria. 

O caminho que devo seguir. Encarar o abismo e a fera que nele habita, permitir-se ser resgatado pela beleza, ressignificar o sofrimento pela beleza, aceitar como parte integrante do ser e, finalmente, aceitada essa verdade, encontrar alguma alegria na resiliência, na aceitação de as coisas são assim.

Por trás de todo esse caos há certa ordem, você consegue levantar o véu e enxergar a verdade?