domingo, 6 de novembro de 2022

Dia de Finados

"Tudo em volta induz à loucura, ao infantilismo, à exasperação imaginativa. Contra isso o estudo não basta. Tomem consciência da infecção moral e lutem, lutem, lutem pelo seu equilíbrio, pela sua maturidade, pela sua lucidez. Tenham a normalidade, a sanidade, a centralidade da psique como um ideal. Prometam a vocês mesmos ser personalidades fortes, bem estruturadas, serenas no meio da tempestade, prontas a vencer todos os obstáculos com a ajuda de Deus e de mais ninguém. Prometam SER e não apenas pedir, obter, sentir, desfrutar.”

(Olavo de Carvalho)

Também tive a experiência de, pela primeira vez, ir ao cinema sozinho. Saindo do trabalho aproveitei uma sessão que começaria em alguns minutos e que ficava bem perto de onde estava. E eu que, sendo tão dependente afetivamente, tão carente, sonhava com isso. É um passo simples, tão normal para tantas pessoas, mas para mim foi um marco, de que eu já não preciso depender dos outros. Não me senti sozinho, não me senti triste, mas ao contrário, eu me senti suficiente. Não que me considere suficiente o tempo todo mas ali, eu não esperava por ninguém e ainda me sentia bem com isso. Coisa parecida quero sentir com os homens que passam por mim, todos belos e que despertam em mim desejo e admiração mas, um dia, espero que sejam apenas isso, outras pessoas sem maior significado para mim. Como nas palavras de Santa Terezinha ao falar a Deus sobre sua relação com os outros:

"Que eu nunca procure e nunca encontre senão a Ti
Que as criaturas não sejam nada para mim
E que eu nada seja para elas
Mas que Tu, Jesus, sejas tudo... tudo!"

E assim, mas com um pessimismo profundo no olhar, eu me fecho em mim para não desejar e nem esperar nada do outro. Esperar em Deus, dos homens apenas dor e decepções. Que eu nada espere deles e que eles nada esperem de mim. E que eu continue meu caminho de busca da Verdade ainda que na solidão do homens, certo apenas da companhia dos sábios e do próprio Cristo que é a Verdade. 

Por isso o dia de hoje, Comemoração dos Fiéis Defuntos no calendário litúrgico, é de cor sóbria e fechada, o preto, o mesmo preto que há em minh'alma e que não espera outra luz senão a do próprio Deus. E então é com esse espírito que fecho os olhos para os homens bonitos, para os desejos de fama e dinheiro que esvaziam o conteúdo do ser fechando-o em si mesmo. E é isso, encerrando em mim eu me abro ao transcendente, esquecendo essa realidade imanente que me cerca e me traz tantas dores. 

Penso em assumir uma posição ainda mais silenciosa e contemplativa pois, cansado de falar e não ser ouvido eu não quero mais me forçar a ser compreendido mas, antes disso, eu preciso fazer o esforço constante de compreender, e por isso a contemplação silenciosa e amorosa se faz necessária. As palavras têm enchido a mente das pessoas de confusão, há muito falatório por todo lado e isso acaba por cegar as pessoas para a verdade, passam a se ouvir em vez de ouvir a Verdade e, quando isso acontece, a loucura se espalha por todos os lados. 

"... quanto mais você sabe, menos você será compreendido por aqueles que não sabem. Se você quer pagar este preço, se você acha que o conhecimento vale isso - eu acho que vale, dediquei a minha vida a isso e não estou nem um pouco arrependido, mas eu tive que aprender ao longo do tempo a não esperar ser compreendido pelos ignorantes, eles não têm como compreender - então essa é a primeira coisa..."

(Olavo de Carvalho)

Mudando um pouco de assunto mas não completamente, dei uma diminuída no ritmo ontem à noite, e achei que iria acordar bem mais pra baixo, no entanto foi justamente o contrário, acordei mais cedo do que era necessário e aproveitei para estudar um pouco, com uma estranha disposição antes mesmo do sol nascer. Mas isso não significa que eu vou ficar o tempo todo assim. Mesmo disposto eu ainda estou introspectivo, até um pouco taciturno, e torcendo pra ninguém (ou a menor quantidade possível de pessoas) venha aqui no trabalho hoje. Mas eu não queria ficar só deitado, queria até mesmo poder caminhar na beira do mar como fiz ontem à tarde ou me sentar num parque, quem sabe ouvir uma música. 

É um belo dia, embora o sol esteja forte e brilhante não faz calor, inclusive algumas pessoas estão até usando casaco na sombra, e por mim poderia ficar sempre alternando entre dias assim e dias completamente nublados... Ironicamente pra alguém que gostaria de ficar em silêncio eu preciso falar bastante. Pelo menos eu não posso reclamar que também não gosto de falar. 

X

Em meio ao que me parece um episódio misto ontem eu experimentei esse fluxo maior de energia, por outro lado hoje acordei com um cansaço extremo, como se tivesse feito exercício durante toda a noite, algo próximo a ter atravessado a nado a bacia do rio Amazonas. Foi como se centenas de agulhas perfurassem a minha carne, como se as fibras de meus músculos se rompessem, rasgadas violentamente quando forcei me levantar. A claridade violenta agredindo meus olhos e um peso extremo, como se estivesse amarrado, preso a correntes incandescentes, uma tortura de um dia inteiro que apenas cessará quando cair na escuridão e silêncio de uma boa noite de sono.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Abismos Incomunicáveis

Muitas vezes venho tendo um leve sonho, algo como um devaneio, pensando enquanto olho um jardim ou passo na frente de algum lugar, como um café ou uma praça... Penso em nós dois andando por ali, sorrindo baixinho de alguma piada boba, olhando o céu claro num dia raro onde a chuva não caiu aqui, sentindo o carinho da luz em nosso rosto e nossas mãos se tocando levemente. 

Eu sorrio baixinho, quase ninguém percebe porque parece que estou apenas vendo algo engraçado na internet, mas na verdade o meu pensamento está em você, na sua companhia numa paisagem bela, a brisa afagando seu cabelo, ou minhas mãos fazendo carinho enquanto você se deita em meu colo. 

Voltando para a realidade, de profundis clamavi pelo amor, por essa fibra de carne que se consome em chamas, ardendo os corpos que se entrelaçam se unindo de tal modo que já não se distinguem mais. Os gemidos inefáveis, sussurrando nomes e desejos, o suor que escorre em linhas brilhantes pelos traços avermelhados das unhas e o vapor quente que escapa dos lábios cada vez que a intensidade aumenta. Esses mesmos lábios reprimem os gemidos ao se tocarem num beijo, numa expressão genuína de uma força que nasce no íntimo dos homens como fonte que brota num jardim secreto, por entre as açucenas olvidada. 

E então é nesse tocar de lábios que dá-se o início de um encontro entre dois universos distantes que se tocam, que se chocam, como se entrasse em colapso o tecido da realidade que os separa, todos os escudos baixados, mas esses mundos não se destroem ao se tocarem, antes disso, tornam-se maiores, um só, misturando a miscelânea de cores que os compõe, transformando o que antes eram mundos vazios e sem contornos nas mais belas paisagens existentes. É a fusão de elementos díspares, contrastantes, que dão origem ao novo universo.

No entanto, embora culmine nessa relação onde dois tornam-se um só, o beijo verdadeiro nem sempre termina desse modo, pode também ser um beijo de despedida, gentilmente dado no pescoço, por onde passa uma linha de sangue, e que leva diretamente ao coração, e assim transporta toda sorte de sentimentos que ali contém. 

Eu posso sonhar assim, com você algum dia novamente perto de mim? Com você segurando minha mão? Posso sonhar em beijar mais uma vez a linha do seu pescoço? Posso sonhar com seus braços apertados ao meu redor? Posso sonhar com nós dois juntos?

Eu fecho os olhos e sorrio baixinho sabendo que não, eu não deveria sonhar com nada disso. 

X

Um silêncio atroz me constrange, uma ira escorre vigorosamente da lâmina que donde pinga sangue em pesadas pérolas carmesim. O rubro líquido se mistura com a areia marcando-se até que desapareça com o tempo. Uma risada maligna soa longe, mesmo tempo que o barulho seco parece vir do meu lado, ou até mesmo de dentro de mim, escapando como um urro gutural abafado por uma mão poderosa. E então fecho os olhos, imaginando um enxame de vespas brutalmente provocadas que parecem rodear uma plantação, mas foram atraídas pelo sangue, pelo cheiro metálico e doce como o de rosas, para então amontoarem-se no que, na realidade, é carne apodrecida depois de destrinchada pela fúria dos inimigos.

X

Um dia na praia com a família, depois de uma vitória que meu pai e primos consideram importante em algum campeonato de futebol. Eles gritaram muito durante o jogo e continuaram animados hoje nesse passeio. Embora eu tenha me divertido muito eu não consegui compartilhar em nada da alegria deles. Até minha mãe estava estranhamente feliz, as piadas e brincadeiras altas, e eu apenas por perto, ouvindo o barulho das ondas quebrando baixinho (o mar não estava agitado) e observando a imensidão cinza e azul, símbolos do infinito, do transcendente que a tudo circunda e abarca, e essa foi a minha alegria. Nada de gritarias e nem risos, apenas uma contemplação amorosa e silenciosa, poucas palavras foram necessárias. 

Via alguns casais passarem por mim, o péssimo gosto dos homens daqui para mulheres é uma coisa absurda... Mas nem mesmo isso me chamava muita atenção, claro, eu olhava brevemente e voltava minha atenção para o titã que se abria a minha frente. Nem a figura do meu primo despido na minha frente foi o suficiente para tirar de mim esse estado de contemplação que, exteriormente, tanto se parece com tédio, motivo pelo qual minha família pensou que eu estava profundamente descontente em estar ali quando, na verdade, estava sim me divertindo muito mas apenas de um jeito diferente.

Eu gosto de beber quieto, assistindo algo ou ouvindo música baixinho no escuro. Os outros gostam de barulho, risos e jogos, e bebem bem mais do que eu consigo. Eu gosto de ficar deitado perto de quem amo, segurando a sua mão em silêncio, até o sexo é seguido ou precedido de momentos assim, e os outros preferem uma fria distância, quase higiênica. Até gosto de um belo dia como esse, colorido e ensolarado, que vai bem com uma cerveja e quem sabe uma música ambiente que se misture com o som das pequenas ondas se quebrando e o som das gaivotas no céu. Eu gosto disso, mas não corri gritando em direção ao mar e nem sou afeito aos exageros. E tudo bem que eles se expressem assim, muito embora eu prefira a contemplação silenciosa.  . 

Experiências de dias assim me deixam ainda mais consciente de que eu não estou na mesma vibração que as outras pessoas e sim, essa explicação é boba e não explica realmente nada, senão que é apenas um chavão que eu peguei e que uso porque no momento não me ocorre meios literários de dizer isso com mais precisão me restando apenas apelas para o senso poético da coisa e tentar, de algum modo, dizer o que sinto. É como a distância entre o céu e o próprio mar que, parecendo tocarem-se no horizonte na verdade estão muito longe um do outro, assim como estamos todos no mesmo lugar eu ainda estou muito distante de todos. 

Somos, os outros e eu, abismos diferentes e incomunicáveis. 

"Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada."
(José Régio)

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Frenesi

Percebi antes de dormir ontem à noite que algo estava mudando e por conta do cansaço talvez não tivesse não notado mais cedo, mas mesmo indo dormir bem mais tarde que o normal eu não estava com sono, e acordei elétrico, cantando, disposto até a arrumar o cabelo mais do que como de costume. E então eu entendi, que tinha entrado num novo episódio de hipomania, chegando ao trabalho tendo feito o trajeto a pé em metade do tempo habitual. 

Minha fala está notavelmente mais rápida, preciso ficar atento aos visitantes aqui no trabalho para não falar demais, mas a mente começa a girar, informações se cruzam de um jeito que não deveriam, um sinal de confusão mental, a atenção girando ao redor de tudo ao mesmo tempo. Acabei me incomodando com isso e, olhando no espelho vi que minha feição estava visivelmente alterada, pupilas dilatadas... Fiz um pouco de chá na esperança de me acalmar um pouco mas, como não sabia que isso ia acontecer, acabei trazendo energético pro trabalho, o que significa que isso vai maximizar ainda mais os efeitos do episódio hoje. Nesse momento estou na cozinha, escrevendo, depois de comer, tirar fotos, responder mensagens, ver um vídeo e ouvir música, e ainda nem passou metade do horário de almoço. 

Claro, é ótimo sentir energia e disposição, coisa que, embora ultimamente não tenha tido tanto problema assim, ainda são coisas que me faltam, sendo que continuo bem menos ativo que ouras pessoas, mas ao mesmo tempo esse furor, esses estado de certa confusão mental, me incomodam, me assustam, porque bem sei que, se não vigiar cada passo, cada movimento, eu posso acabar fazendo algo errado, dizendo algo errado ou me comprometendo negativamente. 

Sinto como se pudesse construir uma casa inteira, facilmente virar a noite assistindo ou, quem sabe, numa festa ou uma orgia, talvez tudo isso ao mesmo tempo. É eletrizante e, embora seja claro aqui, é também assustador pois eu sinto que a qualquer momento isso pode se esvair ou, pior, eu posso acabar explodindo, e eu nunca sei como ou quando isso pode acontece.

X

Preciso fazer a minha barba, aplicar alguns produtos pra melhorar a aparência do meu rosto. Tantos pelos me incomodam e eu fico cada vez mais recluso porque essa imagem me angustia tanto que eu preciso me afastar de todos para não incomodar com minha presença e, ao mesmo tempo, conseguir pensar em paz. Aqueles rostos belos, sem nenhuma imperfeição, também passam por um processo, o qual eu não consigo acompanhar, de se cuidar o tempo todo. Andam com equipes que se preocupam em lembrar a hora de reaplicar o protetor solar, são patrocinados pelas melhores marcas de skincare, os melhores maquiadores e fotógrafos de modo que o resultado seja sempre perfeito. 

Eu preciso me barbear e depilar, peito e pernas, preciso fazer uma maquiagem cuidadosa, de modo a não ser carnavalesca demais mas ainda passar a imagem de plenitude que conquistam os demais. Depois disso talvez o conjunto fosse aceitável, mas nem sempre o é. E isso me incomoda porque uma vez mais eu me pego admirando-os, sonhando como ser ser aceito e amado, admirado por ser belo e carismático. 

É um sinal claro de pequenez intelectual, querer ser aceito e, ainda por cima, usando aspectos que são tão efêmeros e superficiais que nem deveriam entrar na conta da minha perspectiva do ser. Isso mostra o quanto estou ainda preso nas minhas limitações e o quanto preciso caminhar para conseguir me preocupar tão somente com o que é importante. 

Discussões políticas que não levam em consideração planos maiores de ações políticas, mas que apenas se preocupam com o imediatismo. É algo do qual que preciso me livrar. Embora a beleza esteja sim presente nos homens belos, por uma participação da beleza divina neles, essa ainda é muito limitada, devendo ser buscada em lugares cada vez mais elevador. 

"Que as coisas do mundo jamais consigam perturbar min'alma, e que eu nada seja, para elas..."
(Santa Terezinha)

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Crítica da crítica

Alguns dos cânones estabelecidos da arte contemporânea é a constante desconstrução de tudo, seguindo aquela máxima propagada pela Escola de Frankfurt e tirada de Marx de fazer a "crítica de tudo quanto existe". A princípio o discurso convence por apontar os erros e as dificuldades a serem superadas, e convence mesmo porque já há muito tempo que essa máxima de desconstrução impera na arte como um imperativo categórico, até poderia dizer que é como um mandamento divino mas os artistas contemporâneos não acreditam em Deus pois é uma ideia limitante, eles dizem. 

E então não acreditando em Deus eles acreditam na força das suas próprias narrativas, mas a narrativa foi desconstruída porque era limitante. A sua arte é constituída de linhas e borrões, não têm figuras delimitadas porque as figuras são limitantes e as linhas agora são limitantes também. O espectador, leigo coitado, precisa aprender a desconstruir toda sua mentalidade ao entrar em contato com sua obra, e ao dar voz ao seu impulso ordenador e dizer "eu não entendi" ou "o que isso significa?" os artistas respondem que não há significado ou que o significado deve ser encontrado por eles mesmos, mas ninguém lhes pode dizer e, se o dizem, está errado. Não podem então buscar uma linha, uma regra ou um cãnone, porque tudo isso é limitante, e nesse afã eles criam um supercânone: o de que nada pode ser dito de verdade, não há certeza, tudo é extremamente subjetivo. 

Seus borrões e rabiscos estão cheios dessa vontade desconstrucionista, mas se alguém ousar dar alguma interpretação que seja distante dessa está errado. No mais eles dizem que não há certo ou errado, contanto que nada evoque de bom, de belo, justo ou verdadeiro, esses cânones são limitantes. Mas a arte engloba todo o processo, sendo a obra final apenas um objeto a mais, muitas vezes sem importância mesmo sabendo que ninguém está vendo o processo e sim apenas o objeto, uma obviedade que lhes escapa completamente a percepção. Os significados são múltiplos, mas todos dentro desse espectro destrutivo, dentro dele a arte pode significar qualquer coisa, é tudo. E uma outra obviedade que eles não percebem é que dizer que a arte pode ser qualquer coisa é o mesmo que dizer que ela não é nada. 

Falam disso com ares de superioridade como se a arte contemporânea inteira não fosse só e exatamente isso há mais de um século. Andy Warhol chocou ao colocar um mictório numa galeria de arte, tudo bem, talvez tenha valido a provocação, mas parece que a arte atualmente se compõe apenas disso, provocações sucessivas, uma desconstrução da desconstrução. Todas as sugestões são etéreas, inexistem, apenas propõem que as coisas sejam revistas de novo e de novo mas que nada seja feito de novo. É o trabalho do negativo de Hegel elevado à enésima potência. E ninguém pode contestar essa contestação, ninguém pode desejar um pouco de brilho ou de beleza, uma mensagem construtiva, uma reflexão sobre as virtudes ou os vícios que possa somar verdadeiramente. 

O ato de desconstruir finda em si mesmo porque, destruindo e julgando tudo como incorreto, nada constrói ou sugere em substituição, gerando apenas confusão, caos, numa estimulação contraditória e permanente que faz o homem se sentir ainda mais perdido em relação ao próprio ser e ao mundo em que vive. Não percebem eles que as obras clássicas são clássicas porque suas críticas não se limitavam a uma determinada época ou lugar, mas transcenderam o tempo e o espaço chegando até nós justamente porque dizem respeito a toda humanidade, se pautam na experiência humana não banal e flutuante, mas naquelas experiências profundas, ruins o quão fossem ou não, e que todos em algum modo conseguem se identificar. 

Mas essa experiência humana se perdeu, pelo menos para eles que, do alto de seus pedestais que, como deuses julgam a humanidade e até o próprio Deus, a única experiência válida é a que destrói tudo, menos o seu direito de serem como deuses.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Resenha - The Eclipse

Muitas vezes é preciso ver a escuridão para dar valor a luz. The Eclipse foi uma série que desde o anúncio chamou atenção do pessoal por trazer uma carga dramática maior que alguns dos projetos mais famosos da GMM TV, com dois atores que já são nossos conhecidos mas que, trabalhando juntos, trouxeram uma perspectiva nova e sensacional. 

Akk (First Kanaphan, de Not Me e The Shipper) é o líder dos monitores do Colégio Suppalo, uma instituição de elite com rígidos padrões de comportamento. A vida dele muda completamente quando, ao assumir o cargo, alguns alunos começam a protestar contra as políticas opressivas da escola e com a chegada de Ayan (Khaotung Thanawat, de TonhonChonlatee), um jovem que deliberadamente se coloca contra as regras da escola além de desafiar até mesmo os professores durante as aulas, além de parecer esconder um segredo, já que vive procurando informações sobre um antigo professor do lugar. 

Claro que a primeira reação de ambos é o ódio. Eles brigam todas as vezes que se encontram, e Ayan ameaça Akk dizendo que se o monitor bater nele, ele vai beijá-lo. Ne tentativa de evitar que o novo aluno traga mais problemas ao grupo de monitores Akk passa a vigiar ele de perto, o que eventualmente os aproxima a medida que ele vai entendendo que o outro tem razões importantes para seu comportamento. Além disso há uma lenda que circula a escola, que surgiu desde um eclipse anos atrás, e que desde então os alunos que iam contra as regras do lugar eram punidos de forma sobrenatural. Os alunos que protestam logo são pegos pela tal maldição, deixando a escola e principalmente os monitores em estado de alerta. 

Depois desse início conflituoso pouco a pouco os dois vão abaixando a guarda e se abrindo. Ayan é implicante e debochado, o que irrita Akk o tempo todo, mas ao mesmo tempo ele começa a enxergar sentido nas coisas que o outro diz e passa a questionar também a sua lealdade cega a escola e ao Professor Chadok, chefe da coordenação disciplinar. 

Também temos como casal secundário Kan e Thua (Neo Trai e Louis Thanawin, ambos de Fish Upon The Sky). O primeiro sendo um dos melhores amigos de Akk e membro do grupo dos monitores e o outro o eficiente e tímido presidente da turma. Embora de personalidades distintas eles se aproximam por razões acadêmicas enquanto Kan começa a sentir algo em relação ao outro que passa por dificuldades para se expressar. As dúvidas, no entanto, parecem dar lugar a um sentimento que vai crescendo entre eles. 

Em matéria de atuação essa série é sensacional, e os protagonistas possuem diversas camadas que são exploradas muito bem. Akk sofre uma pressão tremenda por ser de família pobre e precisar ser o melhor possível para conseguir uma bolsa de honra na faculdade, enquanto Ayan tem um quadro de depressão e ansiedade, o que torna a sua busca para entender o que aconteceu com seu tio ainda mais dolorosa naquela escola. Eles vão então encontrando um no outro um lugar onde podem se abrir e serem vulneráveis, enquanto ostentam na escola uma imagem de perfeição acadêmica e de oposição a opressão. As cenas mais lindas são, de longe, aquelas em que eles choram um na frente do outro, num abraço desajeitado, pelo peso do fardo que precisam carregar. 

First e Khao ostentam carisma e química dentro e fora da série, foram muitas as entrevistas em que eles choraram ao dizer o quanto se dedicaram e o quanto se envolveram com os personagens e como isso os aproximou ainda mais. Tudo isso é visivelmente percebido nas interações dele na tela, seja com os olhinhos de jabuticaba mais lindos do mundo do First ou o sorriso doce e contagiante do Khao. 

Temos então uma série que aborda as injustiças, saúde mental, opressão e revolta, companheirismo e confiança, até a descoberta e aceitação da sexualidade. First e Khaotung deram um show tanto nas cenas dramáticas, com direito a muitas lágrimas e uma expressão corporal poderosa, até as cenas mais cômicas, onde um implica com o outro o tempo todo. Neo e Louis também deixaram de ser apenas o alívio cômico que foram em Fish Upon The Sky e mostraram maturidade e força na atuação também, fazendo os fãs pedirem que eles ganhem uma série só para eles agora.  

No primeiro teaser, aquele feito antes do início das gravações oficiais, a série apresentou uma fotografia bem diferente, mais escura e bem séria, quase sufocante, e eu acho que se tivessem continuado nessa linha teria sido melhor, não que a atual, mais viva e colorida, não seja boa, apenas teria combinado mais com a carga dramática que os personagens trazem. Mas não chega a ser um problema, de todo modo Khao e First estão incrivelmente lindos e apaixonantes em todos os episódios. A trilha sonora se destaca pela faixa Over The Moon que o Khaotung canta, simplesmente maravilhosa. 

Enfim, com uma história de personagens cativantes que transformam o clichê do romance colegial numa jornada de lutas pela liberdade e a justiça The Eclipse é uma continuação sutil e gentil de Not Me, abordando pautas importantes numa combinação de força e delicadeza. 

Nota: 10/10

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Clamor

Eu tinha tentado escrever de modo sincero, mas acabei me perdendo em citações e reflexões outras que foram aparecendo e que acabaram por enevoar o que eu queria dizer, de modo que a mensagem está lá, mas rodeada de tantas outras coisas que acabou se perdendo.

O fato que eu queria falar é simplesmente do meu sentimento, nada mais elaborado do que isso. Gostaria de falar do quanto gosto de você e do quanto penso em você em todos os momentos, que chego a sonhar com seu abraço e seu perfume, o seu sorriso e o quanto tenho vontade de segurar sua mão, de ver as estrelas deitado sob seu peito... E isso é tudo o que posso dizer porque quando digo em palavras que te amo mais do que poderia imaginar e mais do eu consigo expressar é verdade, não há como eu dizer o que sinto porque minha capacidade de expressar isso é limitada, tudo o que consigo dizer é que te amo mas, de algum modo, essas palavras não conseguem conter o que eu sinto de verdade. O fato é que eu te amo, mas você entende o que isso significa? Entende que eu não apenas quero ser seu amigo ou companheiro mas que quero ficar ao seu lado pra sempre? Que quero segurar a sua mão, beijar seus lábios, me tornar um com você? Essas palavras também são apenas descrições mais ou menos gráficas, também não dão conta do que sinto de verdade, apenas apontam em certa medida pro sentimento maior, inexpressável que há em mim, e que talvez só pode ser visto transbordando de meus olhos e nas vibrações da fibra do meu ser, quando cada parte do meu corpo clama pela sua presença...

X

Dia de faxina, e o contato com as coisas fora de ordem deixam essa impressão forte do espírito ordenador do homem. Há em nós esse ímpeto de tentar captar a ordem porque a desordem nos é desesperadora. 

Então a minha mãe dá vasão a uma longa ladainha sobre como a casa é apertada e de como isso é um problema aqui. Pra mim a solução seria simples: diminuir as coisas na casa. Mas isso parece que nem passa pela cabeça dela. E então a casa está entulhada de coisas, que ela quer que caibam aqui dentro de todo modo. E nada combina com nada, é apenas uma desordem total que grita para ser ordenada. Essa falta de senso das proporções, do que deveria ser desfeito ou não, é apenas sinal de uma mente que se distorceu, que já não é capaz de captar a realidade. 

E então eu fecho meus olhos e finjo não entender nada, porque sei que seria entendido errado. Mas essa confusão também me incomoda, e por isso eu saio e caminho um pouco, a vista do mar me ajudando a esquecer, fazendo com que meus pensamentos sejam levados como aquela maré, sumindo no horizonte com as gaivotas. 

X

Ouvi de algumas pessoas que é bom sair da rotina e ver algo de arte que lhes possa ajudar a respirar. Bom, eu até entendo que as coisas sejam assim para elas mas, o fato é que essa visão diminui e muito o que é a arte e o que ela pode fazer pelo homem. A arte não é apenas para recarregar as energias e ajudar a sair do mundo horrível por meio de algo melhorzinho, ela faz isso também, mas a arte é algo que constantemente vai povoando o imaginário daquele que a vê, que vai enriquecendo seu horizonte de consciência, e que não pode ser deixada pra segundo plano, mas deve ser vista diariamente, porque é justamente ela que nos faz viver o cotidiano sem esquecer que há melhor do que as horas trabalhadas diariamente. Por isso a importância da poesia em nos ajudar a expressar até as experiências mais banais, da música em compor nosso universo exterior e das artes plásticas em treinar nossa visão para o belo. A arte não é acessório, ela é quem nos ajuda a chegar ao centro mesmo do ser, apontando para ele e, por isso mesmo, é algo que não deve ser vista apenas no fim de semana. 

Não estou dizendo que as pessoas precisam largar o trabalho e viver de arte, pelo contrário, mas conseguir colocar a arte nas suas vidas patéticas e vazias. Ler um livro na parada de ônibus ou no caminho até o trabalho, ouvir música quando toma banho, sair um pouco do TikTok e ver um filme, nem precisa ser uma grande obra, mas que consiga captar dele alguma mensagem, positiva ou não, mas é deixar-se levar pela arte, que toma o homem pela mão e aponta de certo modo pra Verdade. 

X

Olhei a água inquieta do mar e não vi meu reflexo, mas vi como que um monstro saindo de lá, gigante, feroz, um Leviatã pronto a devorar, com uma sanha assassina, o caos primitivo. Eu sou esse monstro que se ergue das águas da criação apenas para devorar e destruir. 

Sinto nojo de mim mesmo ao imaginar os cenários mais torpes e imundos que nenhum hedonista, nem o pior dos pervertidos conseguiria conceber. Cenas onde a chama luxuriosa consome a carne ao ar livre corpos que se entrelaçam sem pudor à luz do sol, no meio de folhas e gramas ou na areia molhada da praia, nas pedras banhadas pela lua ou nas águas de uma piscina por corre uma água de prata, seja nas mesmas pedras ou nos corpos por onde ela jorra num rompante, êxtase de gozo entre corpos fortes, pernas trêmulas, mãos que apertam e cravam as unhas na carne, curvas voluptuosas que acendem aos céus como montes, membros rijos e preciosos como nenhum lapidário jamais descreveu. 

Meu corpo exposto e disponível, pernas abertas em sinal de desejo lancinante que se abre ao prazer inebriante de ser tocado, devorado, penetrado, deflorado com força, capturado por braços fortes e sentindo o gemido alto e primitivo de quem já não se segura, que se entrega completamente aos desejos mais bestiais até o derradeiro orgasmo.

É como se eu fosse apenas uma fera que se alimenta dessas ilusões, das tentações luxuriosas mais profundas. Foi isso que constatei sobre mim, e é apenas isso que eu vejo ao fechar os olhos. Mesmo que não queria ninguém por perto, mesmo que não queria nem mesmo conversar eu ainda penso nessas coisas, eu ainda me vejo nesse cenário desprezível, como se nele pudesse achar a realização da vida, o sentido da existência no corpo de alguém. Mas são apenas gemidos inefáveis, gotas de suor e pele avermelhada. Muito embora o contato sexual contenha em si diversas dimensões, dentre as quais o contato direto da carne e da história do ser, seus antepassados, sua genética, impulsos hormonais, valores morais e, por fim, o amor propriamente dito, tudo o que eu consigo conceber é a parte mais baixa desses apetites. 

Olhei a água inquieta do mar e não vi o meu reflexo mas, ao olhar o abismo ele olhou de volta para mim. O homem que nesta terra miserável vive entre fera sente também inevitável vontade de também ser fera, disse o poeta. 

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Resenha - Oh! My Sunshine Night


Como é belo ver a construção de uma relação de confiança que vai, pouco a pouco, se fortalecendo. Oh! My Sunshine Night é mais um trabalho do famoso ship OhmFluke que já estão juntos há mais de três anos como parceiros, desde a sensacional Until We Meet Again.

Acompanhamos a história de Sun (Fluke Natouch, de UWMA e My Bromance), um estudante de música que entra na universidade com o objetivo de se tornar membro da banda sinfônica. Ele acaba esbarrando com Khim (Ohm Thitiwat, de UWMA), estudante do terceiro ano que, embora seja talentoso no violoncelo, é bastante frio e introvertido, tendo poucos amigos. A princípio eles se desentendem porque Sun é bastante expansivo e isso incomoda Khim que prefere ficar quieto. Acontece que Sun possui um grave problema cardíaco e, ao ver o outro se sentindo mal, Khim decide ajudar, o que acaba por aproximar a ambos. 

Khim é irmão mais novo de Rain (Noh Phouluang, de Nitiman), um veterano do último ano que é um dos mais populares da universidade e estrela do time de Rugby. Ao contrário do irmão Rain é simpático e muito comunicativo, além de extremamente maduro e responsável, por isso sendo alvo do pai que gostaria que ele se dedicasse mais a empresa da família, uma das maiores do ramo imobiliário no país, e menos ao Rugby, já que Khim só pensa em música e nunca deu indícios de se preocupar com os negócios, o que gera muito atrito entre ele e seus pais. 

Os irmãos contam com a ajuda de Phayu (Peterpan Thasapon) filho do mordomo da família e que age como motorista e secretário dos meninos além de trabalhar meio período numa churrascaria. Embora seja próximo de ambos desde a infância, Phayu não consegue realmente se sentir um amigo à altura deles por causa da sua posição, além de uma paixão platônica que ele tem por Rain, de quem é mais próximo e tenta cuidar com o máximo de carinho.

A história vai se desenrolando então conforme Khim e Sun se aproximam lentamente, tentando superar as dificuldades que que aparecem pela diferença de suas personalidades. Khim tenta afastá-lo e, ao mesmo tempo, se preocupa com o outro a ponto de sempre buscar ficar por perto para ajudá-lo, ainda que não admita nem mesmo pra si. Também vemos a complicada relação dos irmãos com os pais, que querem querem que os filhos se preocupem com os negócios. Vendo que o irmão não pode ser feliz longe da música e de uma vida mais reclusa Rain decide abandonar suas próprias escolhas e se dedicar a empresa, enquanto se vê na complicada relação com Phayu que, embora goste dele, sempre se afasta para não prejudicar o seu mestre.

A relação de Khim e Sun vai crescendo conforme eles vão adquirindo confiança um no outro, muitas vezes se entendendo depois de uma discussão ou de buscarem um sintonia na música já que, ao entrar na banda, eles precisam fazer um dueto numa apresentação importante e por isso precisam se conhecer melhor, além de contarem com uma ajudinha de Rain. 

Sun, por seu problema grave de saúde, está sempre diante da perspectiva da morte, o que o leva a encarar a vida de modo mais espontâneo, já Khim está sempre profundamente incomodado e tem uma visão pessimista de tudo, já que sofre a pressão constante de ser criticado por fazer o que gosta. Pode parecer um dilema bobo de menino rico mas a forma como isso é mostrado é de uma beleza incrível.

E isso me leva ao ponto que eu queria chegar: a beleza dessa série! Além da estética belíssima, seja nas lindas locações e da fotografia exuberante e melancólica, a construção das relações é bela. Tudo se dá de forma lenta e gradual, o que é uma crítica quase unânime na internet com a qual eu não concordo. As pessoas disseram que a série é parada e que nada acontece, mas o fato é que elas não conseguiram pegar a sutileza da construção mostrada. Os personagens muitas vezes não dizem nada ou fazem coisas pequenas que já demonstram muito sentimento. Rain dormindo na cama de Phayu mostra que ele se sente próximo e íntimo do outro, enquanto ele se afasta. Khim se preocupando em comprar maçãs para Sun ou ficando por perto, do lado da parede, quando o outro está passando mal mas sem se aproximar a ponto de deixa-lo desconfortável, são pequenas coisas que mostram um interior que vai transbordando.
 

O auge da série é quando o Khim, homem sério e fechado, revela suas lágrimas e medo para um Sun acolhedor e compreensivo que gentilmente o abraça. Ou ainda quando Sun admite ter medo da morte e Khim fica ao seu lado, emprestando o ombro pro outro derramar suas lágrimas. E há ainda uma promessa capaz até mesmo de fazer ambos superarem uma das maiores dificuldades que podem aparecer na vida, quando são envolvidos numa trama ainda maior, que leva a série para um outro patamar. O que começou sendo um romance doce e problemas familiares se torna uma disputa mortal por poder que acaba engolindo os nossos personagens num turbilhão quase impossível de escapar. A qualidade da trama aqui dá um salto impressionante. 

Phayu também é um personagem que me conquistou, a atuação de Peterpan consegue mostrar toda a angústia dos sentimentos conflitantes dele por Rain. Ele cuida do mestre ao mesmo tempo que busca sacrificar sentimentos pelo bem dele, mas acaba só deixando Rain ainda mais preocupado. A força e a maturidade de Rain em se sacrificar também é de uma virtuosidade notável. 
Claro, não poderia deixar de falar da já conhecida atuação impecável do Fluke, mas aqui também tivemos bastante espaço pro Ohm e dessa vez os dois foram devidamente colocados no mesmo nível. Ambos se entregaram e se mostraram excelentes nas cenas de maior carga dramática e até nas cenas mais cômicas. Pra quem diz que o Ohm não sabe atuar e que faz sempre a mesma cara, quando na verdade não conseguem entender a limitação de um ator e a característica do personagem, essa série provou o contrário.

Enfim, com uma narrativa delicada e de sutileza poética a série mostra o crescimento dos protagonistas e como eles vão encontrando no amor a coragem para ir construindo seus próprios caminhos. Com uma fotografia impecável e visuais belíssimos, além de um trilha sonora emocionante, Oh! My Sunshine Night é uma excelente série que, infelizmente, não foi bem compreendida, resultando em hate desnecessário aos atores principais que já têm outros projetos em vias de lançamentos. Realmente uma pena pois contém uma bela mensagem. 
Nota: 10/10

domingo, 23 de outubro de 2022

Novos

Resolvi colocar em prática algo que dito a mim mesmo que faria quando começasse a trabalhar: procurar novas amizades. Primeiramente pelo fato de que estou agora morando numa cidade onde só conheço meus parentes e o pessoal do trabalho, então sim eu preciso de amigos, mas também preciso começar a conhecer pessoas e conversar no sentido de tentar buscar um companheiro, e não apenas ficar sentado lamentando a minha falta de sorte sem precisar conhecer gente nova. Em Valparaíso eu já havia desistido, e quanto mais amigos se afastavam de mim menos vontade eu tinha de conhecer pessoas novas, no fim eu estava falando com duas ou três pessoas e nenhuma delas era frequente na minha casa como antes, em que via meus amigos quase todos os dias. 

Tem sido um esforço porque desde então eu tenho cultivado um absoluto desinteresse pela vida das pessoas, nem tanto pelo fato de que a maior parte dos caras estão apenas procurando sexo, se fosse isso eu até estaria bem já que não sou de recusar, mas justamente pelo peso que é conhecer alguém e que as pessoas dificilmente percebem. Por exemplo, ter contato com os gostos e aspirações de alguém, num primeiro momento pode parecer que trata-se apenas de superficialidades mas não, na verdade é um vislumbre do que alimenta e guia aquela alma, do que busca aquele ser, e isso é um peso assustador justamente porque falam como se não fosse nada. 

Quando eu digo que gosto de música eu não estou dizendo simplesmente que gosto de ouvir musica enquanto faço qualquer coisa, eu estou dizendo que a música ocupa um lugar central na minha vida porque por meio dela eu consigo aprender a captar sutilezas da alma que de outro modo não conseguiria, eu estou dizendo que a coleção de melodias na minha cabeça  me prepara para apreender as mais diversas situações, das mais apavorantes as mais alegres e que em palavras nem sempre é possível expressar mas, por meio delas, eu consigo ir compreendendo aos poucos e assim expressar de algum modo uma vez que o meu imaginário está cheio de referências das mais ricas. E tudo isso ao dizer que gosto de música, e o mesmo se aplica a tantos outros aspectos da vida.

Conhecer alguém não é simples, antes disso, é um ato de grande desafio justamente porque as pessoas mostram muito de si sem nem prestarem atenção na importância que elas mesmas têm. É assustador ficar de frente com uma pessoa nova e ver que, por um lado ela não entende a profundidade das coisas que digo e que, por outro, ela mesma não faz ideia do poder daquilo que ela está dizendo. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Um sorriso contagiante e um choro genuíno

Lembro que conheci o First Kanaphan quando anunciaram o seu papel como protagonista em The Shipper, e posspivel relação do personagem dele com o Ohm Pawat, antigo conhecido. Embora o final dele tenha sido particularmente triste eu fiquei absolutamente encantado com a atuação dele, que conseguia ir da comédia caricata até as cenas de maior dramaticidade com muita facilidade. Depois o vi também em Blacklist, repetindo o feito porém com menos destaque já que o elenco era maior e todo formado por estrelas da GMM TV.

Em Not Me ele ganhou um espaço maior e uma boa visibilidade numa série que tratou de importantes questões sociais. Ele eternizou um dos personagens mais incríveis dos BLs, o artista Yok, membro de uma gangue de justiceiros sociais. Delicado em sua obra e dedicado e fazer o que acha certo, capaz de entender e perdoar. Ele deu um baita show seja nas cenas de ação quanto naquelas mais intimistas mostrando muita química com o Fluke Gawin, que também estava incrível. O ponto alto deles foi a cena em que Yok desenha Dan que, estando nu, sente como se mostrasse todos os seus erros para o amigo que ele conheceu de maneira inesperada (Yok o resgatou de um incêndio que ele e seus amigos tinham provocado e, tendo se apaixonado, ele perseguiu o policial e inclusive roubou a sua carteira, até ser capturado, finalmente conhecendo-o). Dan tinha matado um homem durante uma missão anos atrás e nunca se recuperara da lembrança, lutando por meio da arte contra a corrupção das instituições desde então. Yok com incrível sensibilidade conseguiu capturar a angústia do outro no desenho com carvão e depois o consolou, num terno abraço que, para mim, é uma das cenas mais bonitas de que me recordo.

Agora em The Eclipse ele tem entregado outro trabalho espetacular como Akk, o chefe dos monitores de um rígido colégio para garotos. Ele precisa se destacar entre seus colegas pois, sendo bolsista, quer garantir uma bolsa também na universidade, encarnando por isso as regras injustas da escola que suprimem a individualidade em nome da excelência. Nesse cenário ele conhece Ayan, um novato rebelde que chega questionando todas as atitudes autoritárias da instituição mas que, por alguma razão, Akk não consegue se afastar dele. A princípio ele persegue o outro apenas para descobrir o que ele planeja fazer mas, ele logo percebe isso, tem algo mais no rapaz que o encanta e o faz ir atrás dele. 

Akk e Ayan criam então um laço complicado. O chefe dos monitores tem boas razões para tentar ser o mais disciplinado possível, ele não quer decepcionar seus pais e professores e nem os colegas que o admiram. Mas Ayan enxerga essa pressão que o faz agir assim e consegue superar a barreira que Akk criou com uma imagem de perfeição, vendo as lágrimas que ele esconde tão bem. E o mesmo Akk faz com Ayan, vendo por trás da sua aparência rebelde um garoto traumatizado e enlutado que tenta entender melhor o que aconteceu com uma pessoa importante em sua vida. E então vemos First entregando mais um personagem completo, com diversas nuances, que a princípio sorri de modo tímido e se revela só para os amigos mais próximos, mas com Ayan tem um sorriso especial, afetuoso e caloroso. Seu olhar também muda, o que antes tinha apenas a severa disciplina passou a ter confusão, medo e ansiedade, mas depois também mostra o carinho pelo garoto, um sentimento crescente que vem tomando conta dele. O sorriso na piscina e depois na cama quando Ayan lhe pede em namoro, ambos antecedendo dois beijos, são de uma sensibilidade artística ímpar. 

Outra coisa que me chama atenção são os bastidores e outros momentos dos meninos que foram registrados. Revelaram alguns vídeos de workshops onde First chorava copiosamente se declarando pro Khao, o mesmo em entrevistas e no evento de aniversário do amigo. Também as muitas declarações de amizade de ambos o First sempre se emociona e enche os olhinhos de lágrimas, e é bonito ver o quanto ele se entrega ao personagem, o quanto ele realmente sente aquelas emoções e como ele e o Khao construíram uma relação de companheirismo tão bonita juntos, tendo que entregar personagens com tantas nuances e tão complexos. conseguindo entregar um trabalho que emociona e aquece o coração em tantos momentos. 

É, é para coisas assim que eu vivo. Consigo me emocionar, sorrir, me sentir bem mesmo num dia cinza (e não me refiro ao céu sempre nublado de Joinville) que me ajudam nos momentos mais difíceis me dando um significado, ainda que pequeno e sutil porém de grande beleza e valor para minha vida. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Névoa Matutina

Amanheci com a mente enevoada, meio perdido. Demorei vários minutos para conseguir me colocar de pé e, mesmo depois, só consegui me arrumar no automático. Geralmente assim que desperto já começo a pensar em algo, uma música, uma aula, mas hoje não me veio nada. Apenas segui sem prestar muita atenção ao que estava fazendo... Assim peguei o ônibus e estou aqui no trabalho. Minha mente divagou um pouco, e precisei voltar a mesma página do livro uma segunda vez porque lera não mas não entendi, não prestei atenção, ao que foi dito. Pode-se dizer que acordei em baixa frequência. 

Só quero ficar quietinho, acho que nem consigo responder as mensagens no celular, isso porque não sei o que dizer, não sei o que pensar, e por isso quero apenas existir, fechar os olhos um pouco ouvir os pássaros aqui, respirar fundo sentindo a umidade e esperar, esperar que passe, que eu acorde, que eu possa chegar em casa e ficar um pouco no escuro, que eu possa dormir depois de olhar a lua.

Não é uma reclamação mas uma constatação, que o cansaço tem sugado até mesmo boa parte do meu ímpeto criativo: tenho chegado em casa cansado demais para escrever o que me vem a mente durante o dia, aproveito algum tempo livre para escrever é claro, mas ainda assim sinto que isso tem sido prejudicado. O mesmo digo do tempo que uso pra estudar e assistir. Não consigo me concentrar em algo muito complexo por muito tempo, bem como já vou assistir com muito sono e não consigo comentar sobre, senão que aquilo nem mesmo encontra tempo para fecundar minha imaginação porque, pouco depois de ver eu já vou logo dormir e no outro dia a rotina começa logo cedo. Claro, isso é parte da miséria humana, e eu já sabia muito bem disso, mas ainda acho que vale a pena falar sobre. 

X

Agora minha chefe pediu que eu elaborasse perguntas para entrevistar a artista que vai expor aqui na galeria a partir da próxima semana, e minha mente não consegue pensar muita coisa, e por isso eu preferi vir aqui escrever.

Mesmo sem ter muito a perguntar a exposição deixou em mim algumas impressões. São quadros pintados em cima de um tecido colorido, o Jacquard, e nele além da estampa, em sua maioria florais, se encontram então o desenho de figuras humanas, a maior parte dela de rostos, que se sobrepõe, dois ou três em cada obra. É interessante porque mostra o complexo tecido das nossas relações, sejam as familiares ligadas ou não por laços de sangue, até relações entre amantes, amigos, colegas de trabalho, todas as pessoas que, de um modo ou de outro vão se sobrepondo a nós, ou sendo sobrepostas por nós, criando assim uma concepção nova, uma terceira coisa, que nasce dessa relação com o próximo. 

Isso me faz pensar nas minhas próprias relações, no que eu tenho deixado com o outro e o impacto que ele tem em mim. Tenho simplesmente fugido da maioria das relações, e converso apenas com o pessoal do trabalho por profissionalismo e em casa converso, pouco, com minha família por simples falta da existência de campos de interesse comum, com alguns amigos até consigo ir até a segunda base mas, no geral, apenas consigo diálogo com pessoas que estão longe de mim, no tempo e no espaço. Esse diálogo se constrói, por exemplo, a partir da voz do meu professor que ecoa diariamente na minha mente, sobre a qual eu medito por horas todos os dias na tentativa de conseguir, mesmo que em partes e de modo bem superficial, o caminho que ele trilhou. 

Ontem eu tomei uma boa dose de remédios pra dormir e dormi praticamente o dia todo. Uma amiga me perguntou se eu não temia morrer, ao que respondi que não, não temo morrer porque pra mim não faz tanta diferença assim. Tenho certo medo de sofrer, ou de ver outros sofrendo por minha causa como seria o caso da minha mãe, mas pessoalmente eu não me importaria se morresse nesse momento porque, ao pensar no futuro, eu não vejo coisas que eu queria realizar, não vejo objetivos a cumprir, não tenho nada que se pareça com um sonho a alcançar. Apenas o que faço é viver um dia de cada vez, sem esperar nada demais, e apenas vou fazendo isso. Até penso em coisas como um relacionamento ou algo do tipo, principalmente quando vejo tantos homens bonitos aqui, mas isso dura apenas alguns breves instantes, e até a beleza deles logo se esvai da minha mente como fumaça. Se puder conhecer um pouco mais da realidade, ótimo, mas também não me preocupo em querer saber tudo porque sei que isso se dá na eternidade então, não acho que importe muito o que eu aprenda aqui se lá vou aprender infinitamente mais. 

Como aqueles seres que no Silmarillion vão cantando um tema proposto por Erú, cada qual cantando uma parte que lhe foi concedida conhecer, eu vou entoando esse meu tema, sabendo que ele deve fazer parte de um todo sinfônico maior, mas que eu mesmo não consigo apreendê-lo totalmente sozinho, e então aguardo pelo dia que ele se revele inteiramente, fazendo uso de todos os temas, inclusive os dissonantes, que todos ao meu redor entoam. E então, retornando ao trabalho da artista, é como se cada um entoasse um canto, cada um aparece com seu traço e suas formas e, juntos, formam uma grande sinfonia, ou uma grande pintura.