quinta-feira, 4 de abril de 2024

Mais uma vez

Non c’è asilo per noi, padre, nel mondo!" (Giaccomo Puccini, Turandot - Act I)

Não quero deixar que lancem sobre mim mais responsabilidades do que posso aguentar. Precisando aprender a dizer "não", a me preservar um pouco que seja. Calma, controle e calma. Uma coisa de cada vez, um dia de cada vez. Sem repetir a loucura que foi essa quaresma, sem repetir o que fizeram comigo, deixando que tudo fosse lançado em cima de mim. Eu preciso aprender a me posicionar, a me preservar. Preciso aprender a dosar o quanto me dou, ou então não sobrará mais nada a se doar. É difícil, afinal tem uma vida inteira que me habituei a agir assim. Por isso a minha insistência em ir pra outra cidade visitar aquele amigo, por isso minha insistência em não abandonar as minhas séries e assistir mesmo quando estou extremamente cansado. Por isso minha insistência em permanecer eu mesmo, já que não posso deixar de ser, como gostaria, já que não é possível voltar ao nada. 

Queria conseguir falar mais alguma coisa, mas eu percebo que nesse momento nada ocupa mais a minha mente do que a imagem dele. Nem mesmo o acólito ocupa minha atenção dessa forma, mesmo com seu sorriso doce, não, nada mais ocupa a minha mente, é como se a luz que irradia dele brilhasse mais que o sol ao meio-dia. É por isso talvez que, mesmo com todos ao meu redor insistindo no mesmo ritmo frenético, eu tenho estado até mesmo irritado com isso, porque ao falarem comigo eles me roubam a imagem dele na minha mente, e isso é imperdoável. 

X

Será que seria possível? Mesmo abstraindo todas as situações que tornariam inviável, aquele olhar do jovem visitante, que me fitava com olhos brilhantes, de um verde escuro e profundo mas vívido, alegre, como quem descobriu um tesouro inestimável. Dedilhou de um jeito tímido as notas da ode to joy, mas ficou feliz de poder tocar um piano de verdade, como tantas vezes imaginou nas aulas. Não lembrava de todas as notas, os braços tremiam, e tremiam as mãos quando veio me cumprimentar, sem saber o que dizer. Poderia ser aquela admiração muda um sentimento nascendo no pequeno coração daquele desconhecido por um outro desconhecido que ele dificilmente tornará a ver? Será que os sentimentos podem surgir assim, tão repentinamente que fariam brilhar os olhos como a uma criança que vê um brinquedo novo e encantador como se fosse o melhor de todos os tesouros? Será que daria poderia nascer um amor?

X

Não há problema em me preocupar não é mesmo? Ou em não me contar nada. Está tudo bem, eu sou sempre aquele que releva, que deixa passar tudo, mesmo quando me machuca. Eu sou sempre o idiota que se magoa pra tentar ajudar os outros, principalmente quem eu amo, e o que sempre recebo em troca? Silêncio, é sempre assim. Eu realmente não sou nada para ninguém. 

Criatura desprezível! Não sou nada! Meu amor é nada! Não importa o quanto tente, o quanto me esforce, o quanto me dedique, o quanto me doe, nada importa. Eu olho ao meu redor e continuo sozinho. Sim, sozinho, isso mesmo, porque todos fazem questão de mostrar que não caminho aos seus lados, tamanho desprezo sentem pela minha presença e minha figura. Já não sou mais homem? Me tornei tão horrendo que a minha presença se tornou motivo de nojo aos outros? É o que parece. As palavras de carinho que me tenho são vazias de significado: é na noite, onde minh'alma busca aquele por quem clama, que percebo que, em verdade, estou sozinho, e tudo que tenho em resposta é o silêncio. Brutal, ensurdecedor e, acima de tudo, 

indiferente. 

É isso que é estar sozinho. 

Sozinho. 

Sozinho!

Entende a força dessa palavra? Mas a quem pergunto isto se estou cá eu mais uma vez, como sempre estive, sozinho?

X

"O que sou eu nos olhos da maioria – uma nulidade ou um homem excêntrico ou desagradável – alguém que não tem uma situação na sociedade e que não terá; enfim, um pouco menos que nada." (Vincent van Gogh)

terça-feira, 2 de abril de 2024

Dormindo um pouco

Como é bom poder descansar! Ah, finalmente eu pude me deitar sem me preocupar com o que fazer no dia seguinte, então pude deixar o efeito dos remédios pouco a pouco irem tomando conta de mim. Foi simplesmente maravilhoso e há muitas semanas esperava por isso!

Fiquei o dia todo deitado, dormindo a maior parte do tempo mas, no restante, ouvindo música baixinho, aproveitando o tempo ameno do outono e o silêncio de me manter afastado das redes sociais.

E é claro que poder passar um tempo assim me permitiu também reorganizar alguns pensamentos, como perceber que, em meio aquela loucura das últimas semanas, com o caos do trabalho e as preparações para a semana santa, eu ainda pensava nele, tolamente. E então, deitado sozinho, tive uma vez mais como que uma espécie de revelação, de que o amor não é para mim, e então eu amadiçoei esse sentimento, tão básico, tão falado por todos, tão procurado, tão explorado, mas que não é para mim. 

Até algumas pessoas dizem me amar, mas não é verdade, elas podem admirar algumas coisas em mim, podem admirar o fato de eu responder algumas perguntas ou de as apoiar, mas não me amam, sempre colocam um muro entre elas e eu. Podem me tocar a mão ou me sorrir gentilmente, mas é tão e apenas isso. E até aqueles que conseguem se entregar a estranhos conseguem algum tipo de conexão, enquanto eu contiuo sozinho. Descansando, sim é verdade, mas sozinho. 

Por isso escrevo essas palavras brevemente, registrando um pouco do que sinto, e torno a dormir, aproveitando enquanto posso brevemente descansar. 

Como eu esperava, eles não notaram, nem minha presença e nem minha ausência. O toque breve de nossas mãos, em que senti a delicadeza inesperada daquela pele fria, foi esquecido rapidamente, não foi mais do que isso, como duas pétalas que se tocam ao voarem por aí, levadas sem rumo pelo vento forte. E quanto a ele, bem, nem sequer deu conta de minha presença, tamanho volume de informações na sua mente, não havia ali espaço para mim, para meu amor. 

Nunca há espaço para mim.

E esse já é o terceiro dia em que me encho de remédio para dormir o dia inteiro, e hoje à noite ainda tenho uma reunião, provavelmente sobre alguém que reclamou algo de mim para o padre, é sempre assim. Não estou preocupado, aliás, se me pedissem para sair imediatamente eu faria com alegria. Eu não dou à mínima. 

Poucos minutos depois de o salário ter caído na conta o dinheiro já havia ido todo embora, e é sempre assim, mas a quantidade de trabalho não diminui, pelo contrário, aumenta cada dia mais. De que adianta todo esse trabalho, todo esse esforço se, no fim, não há nenhuma recompensa além de mais trabalho? A vida é esse lixo e ainda querem que a gente fique feliz com elogios sobre nosso esforço e toda essa porcaria. 

É por isso que eu durmo sempre que posso, pelo menos essa é uma recompensa quase gratuita, e quase porque eu ainda preciso trabalhar para ter dias de folga. Do que adianta todo esforço se, no fim de semana, não vou conseguir nem mesmo ir a festa daquele amigo ou comer algo diferente? E querem que a gente fique feliz por essa miséria.

Em casa é a mesma porcaria. Continuam brigando e se enfurecendo por causa daquela criatura espúria. Eu já finjo que não tenho nada com isso, querem continuar na sua cegueira do encarar a verdade que deixá-la ir. Não entendem que isso seria o melhor para todos. E isso me irrita profundamente porque ficamos vivendo tentando equilibrar situações que não são mais sustentáveis. 

Não há amor. 

Não há dinheiro. 

Não há harmonia. 

O que há de errado com todos? 

Queria poder simplesmente sair e me mudar, morar sozinho e não precisar me preocupar com isso, me isentar dessa convicência horrenda. Mas, como dito acima, isso é impensável, eu preciso me controlar para conseguir comprar o que comer durante o mês, mesmo trabalhando tanto, como pensar em morar só? Preciso aguentar essa situação. 

Preciso aguentar essa situação? Não poderia simplesmente dar fim a isso de algum modo? Por qual motivo eles não percebem que nossas vidas seriam mais fáceis se simplesmente desistissem deles? Já desistiram de mim, que diferença faria?

Minha reunião foi cancelada, mas ironicamente descobri que alguém reclamou porque não faço reuniões o suficiente. As pessoas daqui estão afogadas na própria burocracia, tudo precisa ser aprovado, assinado, carimbado em três vias reconhecidas em cartório, tudo é muito complicado. São todos uns idiotas, em intermináveis reuniões sobre o que falaremos nas próximas reuniões. 

Então amanhã eu preciso voltar ao trabalho, inferno, e já não tenho mais dinheiro nenhum, e hoje ainda é o segundo dia do mês. Acho que eu ganho mais se eu voltar a dormir. 

X

"Nunca me senti só. Durante um tempo fiquei numa casa, deprimido, com vontade de me suicidar, mas nunca pensei que uma pessoa podia entrar na casa e curar-me. Nem várias pessoas. A solidão não é coisa que me incomoda porque sempre tive esse terrível desejo de estar só. Sinto solidão quando estou numa festa ou num estádio cheio de gente. Cito uma frase de Ibsen: ‘Os homens mais fortes são os mais solitários’. Viu como pensa a maioria: ‘Pessoal, é noite de sexta, o que vamos fazer? Ficar aqui sentados?’. Eu respondo sim porque não tem nada lá fora. É estupidez. Gente estúpida misturada com gente estúpida. Que se estupidifiquem eles, entre eles. Nunca tive a ansiedade de cair na noite. Me escondia nos bares porque não queria me ocultar em fábricas. Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.” (Charles Bukowski) 

domingo, 31 de março de 2024

Minha breve experiência pascal

Foi uma das quaresmas mais difíceis que já vivi, passei por humilhações extremas e nem sei quantas vezes pedi que desaparecesse, simples assim, sumindo no ar, já que não podia simplesmente desistir, coisa que meu senso de responsabilidade não me permite fazer. E então eu fui, e continuei, e lutei, e insisti, até que não sobrasse mais nem mesmo tempo ou vontade de viver algo mais...

Não nos vemos há várias semanas, cruzamos rápidamente uma ou duas vezes e ele nem sequer notou minha presença mas, hoje, enquanto cantava, eu olhava diretamente pra ele, e era como se aquelas 300 pessoas não estivessem lá, eu só queria que a minha voz o alcançasse, e por isso cantei com todo o restante de força que ainda tinha. Vou dormir, a primeira vez que deito sem me preocupar se conseguiria ou não formar um coral com pessoas que nem mesmo se conheciam e que não queriam cantar juntas umas com as outras... 

Vou dormir, liberto, sonhando que talvez minha voz o tenha alcançado...

... Mas sem esperar mais do que nossa habitual distância.

E qual foia  minha surpresa quando ele se aproximou de mim para me fazer uma pergunta pela segunda vez, e ainda uma terceira, e o sorriso tímido mas genuíno com um sinal discreto entre servidores de altar que eu lançei a ele. Ao ite Missa est, Aleluia, aleluia, eu delicadamente toquei a mão dele, que repousou sobre a minha, fresca, delicada, não parecendo alguém que joga vôlei todas as noites.

O salmista canta que sua "alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo" no salmo 41 (42)  e mais à frente ele afirma "subirei aos altares do Senhor, Deus da minha alegria." Numa parafráse eu trago essas palavras ao meu coração ferido de amor: a minha alma tem sede daquela presença, subindo ao lado dele eu teria a minha alegria. Essa é minha salmódia, tantas vezes tornada em Lamentações. "Ferida de amor não se cura, senão com a presença e a figura" diz São João da Cruz.

Esses dias foram, é claro, cheio de impressões que eu não podia registrar naqueles momentos. Como ao ouvir as preces pelos batizados na Vigília Pascal. Em nossa comunidade não tivemos batizados, mas nas comunidades vizinhas sim, e minha amiga mandou foto do seu afilhado de quize anos que recebeu o santo Batismo na Noite Santa, e eu me alegrei por ele e ela pois agora somos todos membros do mesmo corpo de Cristo. 

E numa conversa com minha queria amiga Patrícia falávamos sobre como nos portamos, em como nos doamos tanto a ponto de não sobrar mais a nós, e que a virtude da temperança aqui é fundamental para que, ajudando aos outros, eu cosiga manter-me firme nos meus propósitos sem me exaurir. Ela me fez perceber, uma vez mais, o quanto me dei e com isso atrai quem apenas queria me sugar, de modo que , aprendendo o equilíbrio eu devo conseguir encontrar a alegria do dar e do receber. 

E que tem a ver todos esses assuntos? Bom, tudo está interligado. Seja o meu amor, ao cantar olhando para ele que, no fundo da igreja não deve ter me visto, ainda mais com as luzes apagadas. Mas a luz do círio em meio às trevas nos lembra que há esperança, e cantei ao lado daquela luz, silenciosamente em meu coração repetindo a prece do Precônio "O círio que acendeu as nossas velas, possa essa noite inteira fulgurar. Misture sua luz à das estrelas, cintile quando o dia despontar." É uma luz que ilumina as trevas durante a Noite Escura, durante aqueles momentos de maior desesperança, mas que não se limita a isso, ela se une a luz das estrelas, enfinitamente maiores em números, e brilha com vigor quando passa o período de árduo deserto. 

Também a luz do círio não perde ao dividir o seu fulgor, quanto mais velas ele acendia, mais brilhava vivamente, e mais iluminava ao redor, O que me traz de volta ao equilíbrio de doar a minha luz sem perder com isso meu fulgor. E então, quem sabe, animado eu pois pela ressurreição do Cristo, possa vislumbrar mais uma centelha de esperança, simbolizada pelo fato de que não sei se toquei seu coração com minha voz, mas no dia seguinte recebi o toque gentil de nossas mãos...

quinta-feira, 28 de março de 2024

Firme

Anne Magill

Como já o disse tantas e tantas vezes, apenas quero me distrair com o amor e a beleza dos outros, pois que de mim já desisti há muito.

Preciso aguentar mais alguns dias. Firme. Tríduo Pascal e meu corpo e mente já no limite. Muitas perguntas, muitos compromissos, muitas respostas, muito de tudo, e bem pouco Gabriel a sobrar para oferecer assim. Admito que gostaria de ser mais. Só preciso aguentar mais um pouco, não há espaço para mudanças de humor.

Não, isso é uma mentira, eu não queria ser mais para ninguém, muito pelo contrário, queria ser menos, queria não ser, queria apenas ser uma abstração, uma ideia, sem dores, sem amores, sem cobranças, apenas algum tipo de perenialismo a pairar por sobre os homens sem a pressão de ser o suficiente, sendo que há muito deixei de ser o bastante até mesmo para mim. Já há muito não consigo ser, já há muito eu apenas estou por aqui, mesmo sem estar, mesmo sem querer, mesmo sem conseguir.

Como já o disse tantas e tantas vezes, apenas quero me distrair com o amor e a beleza dos outros, pois que de mim já desisti há muito. 

E minha cabeça não pára de doer, como se a qualquer momento fosse explodir espalhando miolos a esmo, e pior que acho que é bem possível ou, pior ainda, acho que eu gostaria disso. Na verdade eu só queria poder abrir uma garrafa de qualquer coisa forte o suficiente pra me derrubar num copo só e poder ficar bêbado o fim de semana inteiro, sem dissipar o que restou da minha vida em responder perguntas e pessoas irritadas comigo por pouca coisa. E parecem que todos têm prazer em me ver sofrer, qual é o problema com todo mundo?

Como já o disse tantas e tantas vezes, apenas quero me distrair com o amor e a beleza dos outros, pois que de mim já desisti há muito.

"Metade da sua capacidade é dedicada a iludir-se e a outra, a justificar essa ilusão." (Liev Tolstói)

quarta-feira, 27 de março de 2024

Algumas coisas felizes

Ganhei um terço, daqueles feitos à mão, e a moça que me entregou disse que ele foi feito por aquele rapaz. Meu coração deu um salto na hora e eu sorri, terno, mesmo sabendo que provavelmente foi algum tipo de sorteio e que ele não deve pensar em mim o suficiente para fazer algo assim. De todo modo ele tem meu nome, e passou alguns minutos, que seja, pensando em mim, o que já me deixa bem mais feliz do que estive nos últimos dias. Kaoru, pelas mãos do acólito de meus sonhos a tocar o vaso sagrado do meu coração.

Gostaria de estar dormindo, se tornou um hábito, certo vício em me alienar e me distanciar de todas as coisas. É simples, eu só não quero ver, não quero ter que me preocupar, não quer estar sóbrio ou consciente. 

Até tentei, algumas vezes, falar sobre o que me incomodava, sobre o que me machucava, mas tenho estado tão cheio de coisas, tão atolado completamente em obrigações, formações, dúvidas, escalas, ensaios, grupos, que tenho achado melhor tirar proveito da apatia que sa abateu sobre mim num episódio misto brutal, em que tenho experimentado uma depressão que me faz pensar na morte a cada cinco minutos ao mesmo tempo que meu corpo reage aos estímulos da pressão social. Consigo ir a todos os compromissos, mas a minha alma continua adormecida na cama, sonolenta, e minha vontade é de simplesmente voltar ao nada. 

Odeio tudo isso, odeio como me tratam como idiota, e sei que deveria dizer algo, mas me falta força para encarar esse embate, me falta vigor, tudo que quero é paz, mas mesm ficar assim não tem me deixado em paz, aliás, nem sei se isso existe. Mas tenho enfrentado isso, e meu corpo já vem dando sinais de não suportar, até porque abusei dos remédios pra dormir no último fim de semana e já comprei mais para o próximo. Não tenho dado nenhuma importância pra saúde, não quero me autopreservar, ao menos não no sentido de prolongar minhar vida, apenas não quero ser incomodado. Só isso já me basta. Já não sonho com o amor, com a fama ou o sucesso, tampouco com a santidade. Só quero poder voltar pra casa e dormir, em paz. 

Foi inesperado quando, no meio de tudo isso, uma amiga me pediu que enumerasse as últimas coisas boas que tinham me acontecido, e percebi que, embora simples, essas coisas realmente me deixaram um pouco melhor. De fato me abriram a perceber esses pequeninos detalhes que, no meio de todo oceano que me tem acontecido, tornam alguns momentos um pouco mais leves. 

Fiquei feliz pela chegada do outono, com alguns dias um pouco mais frescos. Poder chegar até a parada de ônibus sem estar suado é um diferencial e tanto, talvez devesse considerar morar numa cidade onde é sempre mais frio. Encontrei uma nova playlist com músicas leves, mas não tristes, e a ouvi inteira três vezes nos últimos dois dias. Embalado pelo ritmo simples, delicado, das vozes e dos poucos instrumentos eu respiro um pouco mais fundo, me recordando que esse dia vai acabar e essa semana também. O café que fiz ficou uma delícia, e desde que comecei a tomar café me esqueci de como é parar para apreciar uma caneca assim, fumegante e perfumada, sentindo o sabor e o aroma ao meu redor. E fiquei feliz ainda pelo terço que ganhei, e me recordo de ter dormido segurando-o, em algum dia daqueles de depressão mais profunda, seja numa centelha de esperança de uma ajuda divina ou pelo conforto da memória de saber que, por alguns minutos, ele pensou em mim ao separar cada uma daquelas pequenas contas de rezar. 

Nem tudo precisa ter um significado profundo, discutido exaustivamente pelos maiores filósofos e pensadores. Na verdade, no meu atual estado, sentir o perfume do café enquanto escuto uma boa música, mesmo em meio ao caos, tem sido tudo que eu posso tirar da vida. E o mais qu faço não vale nada!

E claro, mais uma coisa me fez feliz: ver uma foto dele, sorrindo, simplesmente tentando me fazer feliz num dia como esse. Isso fez toda a diferença.

"Meu amor, essa é a última oração, pra salvar seu coração..."

terça-feira, 26 de março de 2024

Um fim de semana difícil

Playing Their Song, Joseph Lorusso

"Pequeno estudo sobre o consolo
Dorme-se"

(Ricardo Domeneck)

Sei que disse que está ao meu lado, meu amigo, mas eu ainda me sinto só, não importa para onde eu olhe. Sinto que toda vez que converso estou a falar sozinho, e sei que isso não é culpa sua, e nem minha, pois essa é minha condição, a solidão é minha condição por algum pecado não lembrado, uma fraqueza da minha personalidade, uma falha fundamental. Sei que disse que está ao meu lado, mas eu não vejo ninguém. Você está com seus filhos na sua casinha branca, de varanda, no campo, e eu estou sozinho, no meio da tempestade.

Ela me perguntou qual a origem da minha dor, eu não sei o que responder, eu realmente não sei. Me sinto cansado o tempo todo, mas acho que é mais do que isso. Não importa o quanto durma, não me sinto melhor. Algumas pessoas dizem que preciso mudar a dieta, fazer exercícios, parar de beber, e talvez estejam certas, mas hoje eu nem consegui sair da cama, elas têm alguma ideia do que estão me dizendo? Eu não sei a origem da minha dor, eu sei que estou sempre cansado, que estou sempre sozinho, e que sempre me aparecem mais e mais coisas para resolver, e eu já não consido dar conta nem das mais simples. E tudo me incomoda e machuca. Minha família, pelo desrepeito comigo, a falta de amigos, por ver todos tendo alguém ao seu lado, o trabalho, com as obrigações sem fim. Mas eu achava que era só cansaço, que eu só precisava dormir muito, mas é mais do que isso. É um vazio imenso, é uma vontade de voltar ao nada, é um simples desejo de não ser, não sentir. É mais do que eu consigo dizer.

"Estou fervendo por dentro e por fora. 
Tudo está queimando, minha alma, corpo, fora, dentro, coração, carne... 
Entende?" 

(Albert Camus)

E esse tem sido um dos fins de semana mais difíceis de que me recordo. Muitas vezes senti que apenas meu corpo estava presente, e as pessoas ainda me faziam perguntas e eu precisava dar respostas precisas, e ainda têm coragem de me criticar. Acontece, quando a gente acha que já está morto vem um sujeito e mostra que talvez haja espaço pra uma última pira de ódio antes de se apagar completamente.

Dormi ontem o dia inteiro, e hoje espero que seja igual. Não quero ver nem ouvir nada. Quero apenas me recolher ao casulo da minha insignificância e, se possível fosse, retornar ao nada. Sim, vou encher a cara de remédios hoje de novo, e isso deve estar destruindo meu organismo por dentro, mas quem é que liga? Não sei o que eu farei se não conseguir mais comprar esses remédios, esse maldito governo que em tudo se mete. Só quero dormir o bastante pra não ver nada, nada em casa, dessa família ridícula que insiste nos mesmos erros, insiste em acreditar numa criatura que não tem nenhum futuro. E eu sou obrigado a conviver, eu sempre sou obrigado a conviver, eu sempre sou obrigado, só queria, por uma vez, não ser obrigado a nada.

Só consigo pensar agora em como amanhã precisarei estar de pé e sorrindo. Essa maldita exigência de sorrir. Eu penso na minha morte em cada momento do meu dia e ainda querem que eu sorria. Malditos!

"Pensar tão profundamente cansa.
Bebo mais uma desta 
e vou me deitar."

(Alberto Pimenta)

segunda-feira, 25 de março de 2024

O que atrai meu coração

Claude Monet (Le Liseur), 1872 -  Pierre-Auguste Renoir

"Sou o homem indicado para uma tarefa à qual talvez me atraiam os impulsos de meu coração mais do que qualquer afinidade justificadora." (Thomas Mann)

Em alguns dias eu mesmo me pergunto o que atrai meu coração. Pareço ter certa propensão, eufemística, para o sofrimento. Sou algum tipo de alvo, como se descontar em mim ansiedades fosse algo comumente prazeroso. Ao mesmo tempo que sou, como já o disse tantas vezes, aquele que faz o que ama e que por isso acham que eu sou capaz de fazer tudo, não poderiam estar mais enganados. Eles assim acabam por engessar qualquer vestígio de capacidade que poderia haver. É uma completa falta de perspectiva. Ou talvez eu já não tenha perspectiva de mais nada... Me enfureço, me entristeço, me encho de preguiça, me vem uma vontade pular de uma ponte, de abraçar e ser abraçado, de ficar em silêncio, de pedir demissão, de dizer umas verdades, de simplesmente desaparecer. E eu quero tudo e nada disso ao mesmo tempo, mas apenas uma coisa permanece imutável em meio a toda a tempestade de sentimentos, é o amor por ele, é a única coisa que se mantém firme. Em qualquer um desses momentos, se fecho os olhos, eu consigo ver claramente a sua imagem diante de mim. E esse fato diz mais sobre mim do que qualquer palavra que eu possa escrever.

X

Foi uma cena patética, e tenho certeza que teriam rido de mim, se alguém tivesse me visto. Achava que sairíamos para beber, nuam sexta de folga inesperada mas, quando olhei ao redor, estava sozinho, esquecido por todos assim que viraram as costas para mim. Voltei pra casa no ônibus meio vazio sem que ninguém notasse. Assim como esvaziei uma garrafa inteira sem que ninguém notasse, assim como chamei aquele garotinho pra conversar porque me sentia sozinho e porque o outro, o que eu amo, não consegue entender uma só palavra do que digo, então se for pra ser incompreendido, que eu ao menos possa dizer qualquer coisa. 

Estou ouvindo músicas num idioma que não conheço, mas reconheço bem que algumas falam de sexo e outras só dos sentimentos, e todas de algum modo falam de alguém, companhia parece ser o tema comum a todas elas, e todos seus autores, poetas e amantes. 

Misturei leite condensado no vinho, porque queria algo doce, mas queria mesmo aquilo que escorre, ou jorra, do membro dele, e não me envergonho de dizer isso, nem por estar bêbado ou tão brutalmente cansado que já não dou a mínima pra mais nada. Ele também está tão cansado que não entende o que eu digo, e talvez só ouvisse a putaria se eu dissesse, por isso mudei de assunto, por isso abri outra garrafa, por isso estou bebendo sozinho, pensando em como seria ter ele dentro de mim, numa proximidade completamente oposta a nossa distância. Mas ter seu pau parece tão impossível quanto seu coração.

X

Acordei por apenas uma hora nessa manhã, e já tomei remédios para voltar a dormir, e voltar a acordar somente à noite, quando tenho ainda mais um ensaio para a semana santa. Preciso apagar, descansar nem que seja à força, porque meu corpo está cada vez mais próximo do limite, e ontem, enquanto bebia sozinho, numa solidão mais dolorida que as tantas outras que já vivi, percebi que meu coração também está próximo do limite.

Me recordo dessa solidão, ainda com dor ao peito, sei bem que não sou companhia desejável a ninguém. Não encontrei quem pudesse me consolar, e agora já não quero mais, pois não existo mais, como os filhos de Raquel a gemer e chorar.

"Assim como, à sua vista, muitos ficaram embaraçados, tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana." (Is 52, 14)

sábado, 23 de março de 2024

Aforismos sobre eu e os outros

"Sur le Pont de I'Europe" - Gustave Caillebotte

Ficaria grato se as pessoas aprendessem o seu lugar. Aprendessem que as coisas não funcionam como elas supõem com sua simples visão de mundo. E ainda sou obrigado a ouvir as piadas, como se a depressão fosse algo que eu escolhi ter, como pintar o cabelo. Me olham com a barba desgrenhada ou as unhas sem fazer, como era de costume, e dizem que estou relaxado, e aí eu lembro de ontem, quando olhava as fotos dos meninos bonitos na internet e pensava em me levantar, tomar um banho, fazer a barba e as unhas, uma limpeza de pele, e que eu nem mesmo conseguia me mexer, que eu simplesmente fiquei ali parado, por horas, olhando o céu, as madeiras das paredes, e nem sequer conseguia prestra atenção na música. Essas pessoas não imaginam como é. Nem mesmo sonham em como é limitante, como é sentir-se tão pesado que nada faz com que seu corpo reaja. Eu poderia ter morrido sentado ali, por horas, e acho que eu realmente queria ter morrido ali. 

X

Você deve saber como é isso. Como é olhar-se no espelho e ver os olhos fundos, as noites de sono já não adiantam muita coisa. O brilho se esmaeceu e o sorriso, já não consegue mais se acender como antes. E então parece que os dias passam sob um véu, distantes, sem cor, e aí aprendemos que não adianta o esforço, que os outros vão continuar esperando que nossos olhos estejam sempre brilhantes, a pele linda, as unhas bem cuidadas, sem perceber que nesses dias fazemos um esforço enorme apenas pra sair da cama, e em alguns dias nem isso conseguimos. 

E os problemas se acumulam, e continuam esperando que demos conta de todos eles, e os dias passam, quentes e úmidos, e parece que ninguém nos vê, e talvez não vejam mesmo. E só continuem falando, e reclamando, e esperando de nós mais do que podemos dar, e mais do que eles mesmos poderiam. 

X

Observo que todos experimentam certo nível de solidão, desde o homem que, todas as noites, se apaga de remédio porque não quer enfrentar a cama vazia ao seu lado, que se perde nas histórias e personagens porque não quer enfrentar a verdade de que não há histórias e nem personagens na sua própria vida. Também a criança deixada pelos pais, que só queria seu carinho e aprovação, que ainda hoje se esforça para ser o melhor em tudo que faz, que ainda espera um abraço ao voltar para casa, mas que se acostumou, acostumou a sentir-se inseguro e insuficiente. Estamos todos sozinhos, irremediavelmente sozinhos. 

Me disseram que, às vezes, a solidão é necessária. Imagino que deva ter nela algum aprendizado. É, deve ser assim. Mas ainda me sinto triste, e sozinho, e ainda olho ao meu redor pensando que todos parecem se encaixar, de algum modo, enquanto eu continuo desonfortável, onde quer que seja, sempre esperando ou procurando alguém... Por isso todas as noites são uma tortura, pois estendo os braços, olho ao redor, e não vejo ninguém. Ninguém. Qual a necessidade disso?

X

Uma vez mais eu sou tomado daquele cansaço extremo, daquela angústia ansiosa, naquela fase em que a fadiga começa a cobrar de mim uma taxa mais alta do que consigo pagar. Ânimos exaltados também, e eu precisei me impor, coisa que só fiz com uma consequente ansiedade. Mas acho que já aguentei demais sem conseguir reagir. 

Reagir. 

É interessante usar essa palavra no atual contexto pois parece que tudo que faço é reagir ao meio, nunca agir realmente. Numa passividade mórbida, apática e vazia. Essa tem sido a minha existência. E só queria um abraço forte onde pudesse repousar. 

X

O mais difícil em nossas relações com os outros é o que talvez pareça ser o mais simples: é reconhecer essa existência própria, que os faz semelhantes a nós e no entanto diferentes de nós, essa presença neles de uma individualidade única e insubstituível, de uma vocação que lhes pertence e que devemos ajudá-los a realizar, em vez de nos mostrarmos invejos ou de querermos infleti-la para conformá-la à nossa. (Louis Lavelle)

sexta-feira, 22 de março de 2024

Aforismos sentimentais

"The Reader" - Ferdinand Hodler


Diagnóstico
Sentimento faz mal pra saúde

(Cacaso)

Não posso mentir, nem mesmo em meio ao caos de todas as conversações e preocupações, ouvi-lo me chamando de amigo fez algo se remexer aqui dentro, como se as borboletas no meu estômago, há muito mortas, voltassem brevemente a vida apenas para reagir a essas palavras. Sei que ele poderia estar bêbado, afinal era seu aniversário de 18 anos e ele já pode beber oficialmente, ou ele talvez só estivesse ocupado e distraído. Mas, poucos minutos depois da meia noite, ele me chamou de amigo, e parecia contente. Talvez algumas borboletas possam voltar a voar aqui dentro...

X

O vazio toma conta de mim nessa manhã quente. Parece que todos estão se escondendo do calor. Eu também estou me escondendo ainda, embora nesse momento de luto quisesse alguém que ficasse ao meu lado, em silêncio. Por isso eu não respondi à mensagem dele. Eu entendi a profundidade daquilo, que a distância não era suficiente para separar corações que estão juntos, e é verdade, mas é verdade também que ele não vê o que isso implica e o que isso significa de verdade. E então me machuca quando diz isso sem saber o que significa para mim. E então eu me entrego ao vazio e me escondo de tudo e todos também, nessa manhã de calor.

Me entrego ao vazio de nunca ter tido uma resposta clara, mesmo sabendo a verdade com clareza. Me entrego ao vazio do abismo que cavei com minhas próprias mãos que, agora vejo, estão cheias de sangue e terra. Me entrego ao vazio de ser patético, e sempre amar sem ser correspondido, de ser esquecido quando qualquer pessoa dá as costas à mim. 

Mais uma vez ele usou aquela palavra para me machucar, mostrando não algo que nos aproxima, mas um limite que ele levantou entre nós. E mais uma vez eu desejei do fundo coração não sentir isso novamente por mais ninguém, não sentir isso por ele que, à distância, não percebe o laço que nos une e insiste em nos separar, e nem por ninguém mais, como os meninos que passaram pela minha rua de madrugada, sorrindo e brincando, inconscientes da minha existência. É claro que eu não faria parte disso, afinal quem sou eu? 

Você entende o que significa dizer que a distância entre nós não nos separa? 

Talvez seja a dolorida lição que aprendi ao rever I Told Sunset About You, o quanto é duro esperar por alguém que não sabe o que quer, que não diz a verdade inteira e que está confortável do jeito que está por medo de encarar a si mesmo. O quanto é cruel e humilhate dar tudo de si a alguém que não pode, ou muitas vezes não quer, fazer o mesmo.

Já na noite de domingo eu sinto o quanto sou dispensável na vida de todos, ocupados com seus problemas, com seus encantamentos... Com aquele convite daquela pessoa especial que, embora conheça há bem menos tempo que eu, já goza de grande prestígio, ou das ansiedades e medos futuros.

Fico aqui, na noite escura, ouvindo música baixinho, e pensando em todos aqueles que sequer se lembram de mim.

Se eu o abraçasse, num abraço apertado ou num daqueles ternos carinhos, ajudaria alguma coisa? Mas não é por mim que ele quer ser consolado. Eu tenho uma serventia limitada, faço o que ninguém mais quer fazer, e isso poderia ser motivo de orgulho para mim mas, se isso também é a causa de tamanha solidão, não faço senão amaldiçoar a minha vida por estar sempre só. 

X

"O que sempre e em toda parte me surpreendeu na vida real é que, até a idade avançada, nunca consegui formar uma noção razoável da pequenez e da miséria do ser humano." (Schopenhauer)

X

Quando olho ao meu redor já não vejo mais pessoas, nem mesmo as que convivem comigo, ou as que estão distante. Tudo o que vejo são os muros que nos separam, as barreiras levantadas, os limites de suas consciência que, não raramente, são usados como arma para me afastar, e assim eu continuo sozinho, numa existência miserável. Não porque me faltam comida ou um teto, não, mas porque me faltam pessoas, humanas.

Não consigo deixar de pensar, quanto mais olho e escuto as pessoas ao meu redor, que aquele homem que tirou a própria vida tomou a decisão certa. Não havia mais razão para continuar. E os outros falam em pedir ajuda? Para quem? Houveram sinais, e mais do que simples rumores, mas as pessoas continuam sendo um peso umas para as outras. Quando alguém pede ajuda ela recebe um sermão, ela recebe essas estúpidas mensagens de positividade, otimismo e gratidão. Gratidão pelo quê? Pelas pessoas patéticas que nos rodeiam e que ignoram o óbvio? Que se recusam a ver o outro? 

Eu sabia que isso ia acontecer e, de algum modo, senti quando aconteceu. Mas todos os outros só souberam apontar o dedo e dizer que ele deveria ter pedido ajuda de quem menos poderia ajudar. Não o culpo, pelo contrário, me solidarizo, e talvez siga os passos dele um dia, sem pedir ajuda para receber em troca um sermão ou que me peçam para me animar. 

Olho para essas pessoas e só consigo pensar que tirar a própria vida e se livrar de todos nós foi a melhor coisa que ele poderia ter feito.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Aforismos

"Tantas pessoas viviam fechadas em si mesmas como se fossem caixas, mas de repente se abriam revelando-se de um jeito tão lindo se você demonstrasse interesse por elas." (Sylvia Plath)

X

Uma boa conversa, tão simples quanto encantadora, com desconhecidas, conseguiu me despertar um pouco do torpor no qual estava mergulhado nos últimos dias. Acredito que trate-se de um episódio misto, minha mente estava completamente enevoada ao passo que meu corpo experimentava certa inquietação e ansiedade, o que deve ser uma das definições não formais do inferno. Nos últimos dias não consegui nem mesmo pensar em todos os problemas que tenho em andamento e menos ainda nos novos que começam a aparecer. Não pensei em nada, apenas fitava o computador com jeito sério quando, na realidade, eu olhava um vídeo estático apenas prestando atenção numa longa playlist de MeloMance, e quase nada nesse dia me chamou atenção, só queria voltar pra casa e, com custo, não fui dormir imediatamente, querendo apenas e tão somente deixar de existir e voltar a mergulhar na inconsciência. 

X

“Agora me causaste a primeira dor,
uma dor profunda.
Dormes, homem cruel e sem piedade,
o sono da morte.
Abandonada, olho em torno:
vazio o mundo.
Eu amei e vivi.
Agora, a vida me deixou
Recuo, entro em mim mesma.
Que tombe o véu.
Em mim tenho a ti
e a minha felicidade perdida.”

Schumann

X

Tudo bem, já nem penso muito nisso também. Ele nada disse e eu nada perguntei, e talvez seja melhor assim. Todos sabemos que não estou com muito tempo para me preocupar com coisas, nem mesmo as do coração. Na verdade não tenho conseguido lidar com nenhuma questão. Consigo acompanhar com bastante atenção aos livros, aos personagens das séries... Mas quanto aos meus problemas, bem, esses eu não faço ideia nem de como vou começar. Na verdade não sei se vou, talvez só espere uma mudança no panorama geral, assim mesmo, sem pensar muito. Talvez seja isso que todos queriam não é? Me deixar num estado de torpor e me impedir de agir... De algum modo parece que essa era a vontade do mundo. 

Estou acordando depois de mais de oito horas de sono durante o dia, um dos poucos em que consigo descansar, e só consigo pensar no quanto isso é bom, no quanto o não viver é doce tanto mais se parece com a morte, com o não ser. 

X

Será que as pessoas percebem e simplesmente fingem que não estão vendo? Assim como muitas vezes eu também finjo não ver e não perceber várias coisas, talvez elas façam o mesmo. Em alguns dias simplesmente bate a depressão, vem como um grande peso sobre minhas costas, e aí tudo desmorona. Como hoje de manhã eu acordo e, olhando a luz que entra pela janela, eu desejo só poder ficar ali, não para voltar a dormir, não estou falando de preguiça, mas de algum modo porque desejo me enfiar na cama e me fundir com ela, num desejo de me diluir no ser, de voltar ao nada, como costumo dizer. 

X

"O meu estado não é o da infelicidade e tampouco o de felicidade, não é o da indiferença nem o da fraqueza, não é cansaço nem o interesse em outra coisa, mas o que é então?" (Franz Kafka)