sábado, 30 de novembro de 2024

Aforismos

Talvez não seja você. E nem eu. Talvez conhecer o outro seja algo realmente impossível e que, por qualquer razão, pensamos ser realizável, e não é. Por isso somos assim. Por isso conversamos por anos e sentimos que não conhecemos o outro. Por isso sinto que não conheço o outro. Mesmo me abrindo, sendo transparente, claro com meus sentimentos e intenções. É como se eu sempre falasse sozinho. Porque acho que, no fundo, eu sempre estive falando sozinho mesmo.

Não sei bem explicar aquele impulso, mas foi por apenas um instante, tão ínfimo que, não fosse minha natureza poética dada a observar as pequenas coisas, nem mesmo poderia dizer-se que existiu. Mas apareceu, um brevíssimo aceno na minha mente, o olhei por um único segundo e então desviei a mente para a nota que não conseguia cantar. 

Fui dormir assustado, e instigado, com as provocações de Spare Me Your Mercy, a nova série estrelando Jayler e Thanapob Lee, trazendo algumas questões interessantes. Acabar com o sofrimento e dor de uma pessoa, mas também acabar com sua vida, ou preservar a vida, e prolongar a dor? 

Questão complexa que, não raramente, cai na avaliação superficial, sendo a própria questão, meio incoerente, por equiparar dor e sofrimento com o valor ontológico da vida. Mas eu não sou o mais indicado para dar uma avaliação sobre o assunto justamente porque, reconhecendo o valor da vida no outro, não a reconheço em mim, sendo que defendendo a vida ao outro, eu a nego a mim mesmo, senão que desejo que minha encontre a finitude mais breve possível, antes até da próxima refeição. 

Como disse Rubem Alves, "o que escrevo não é o que tenho; é o que me falta. Escrevo porque tenho sede e não tenho água."

Percebi, uma vez mais, a diferença entre quem decide ir pela vida intelectual e os que os rodeiam. Realmente o homem de estudos não pode esperar ser compreendido pelos outros, ele que precisa compreender. Portanto, o que faz o homem de estudos deve contribuir para que ele se oriente no mundo ao redor. 

Minha cabeça está explodindo da última ciclagem. É sempre essa dor incômoda, e claro que ninguém entenderia se eu não viesse trabalhar por causa disso. É sempre fácil julgar a dor do outro não é? Talvez devesse voltar pro debate sobre eutanásia, mas não, não estou aguentando muito bem, queria poder simplesmente voltar pra casa e dormir. 

Acabei de descobrir que além da famigerada e temida confraternização do trabalho eu ainda tenho reunião, e não consigo nem ficar com os olhos abertos direito. E ainda é sexta-feira, eu trabalho no sábado, e sábado tem evento, e essa semana teve cinquenta dias, e eu não participei do evento que eu queria ter participado, e isso é um inferno. 

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Desconexo

Michel Onfray

Em "Um Psicólogo no Campo de Concentração", Viktor Frankl versa acerca do sentido da vida e, determinado ponto me chamou a atenção, quando ele diz: "Quanto à origem do sentimento de falta de sentido, pode-se dizer, ainda que de maneira muito simplificadora, que as pessoas têm o suficiente com o que viver, mas não têm nada por que viver; tem os meios, mas não têm o sentido. Sem dúvida, alguns não têm nem mesmo os meios." 

Eu até queria poder falar mais sobre isso, queria poder fazer aqui uma contribuição filosófica, ainda que modesta. Mas não. Não é possível. Eu olho a minha frente e vejo as folhas verdes padecerem ao calor úmido dessa época do ano. Olho nas redes sociais a colega de trabalho saindo com aquela garota idiota. Olho ao meu redor e vejo coisas que precisam de mudança, mas mudanças que custariam dinheiro e esse é um problema que não é meu. Penso que vou voltar pra casa com toda essa umidade, e então percebo que vou ficar cansado demais pra conseguir estudar e ainda assistir alguma coisa com algum proveito, e então sei que vou fazer os dois, e não vou nem aprender direito e nem prestar atenção na série.

Mas, aparentemente, tudo bem o ser humano viver assim, completamente ausente de sentido, contanto que consiga realizar algumas funções. É assim que somos classificados. Um homem será tão valioso, para essa sociedade doente, quanto possa ser útil, sem que para isso precise ter a mínima noção de sentido. 

Quando dizem que o trabalho dignifica o homem, isso só é verdade quando ele sabe disso, quando ele produz algo verdadeiramente útil, quando ele pode com isso prover seu sustento e de sua família. Mas, quando ele é apenas medido pela sua capacidade de repetir funções, de ser útil aos interesses do outro como quem usa uma ferramenta que, uma vez perdendo sua utilidade é descartada, não pode haver dignidade nenhuma nisso. 

Como pode ser digno ser uma criatura que só repete, repete e repete, e não pode sentir? Como pode ser digno se, nos dias que nem consigo me mover, ainda assim preciso sair da cama e dar respostas e preencher documentos e enviar imagens e ser funcional quando cada fibra do meu ser clama pela não existência? 

Simplesmente existir é incômodo demais.

Acho que, no momento em que decidi romper os laços de amor que restavam, eu acabei também com o que me restava de sentido, ou, ao menos, com aquilo a que me dedicava. Agora não consigo mais sentir nenhuma conexão. Mais do que nunca sinto que estamos distantes, tão distantes que não conseguimos sequer olhar um para o outro.

Distantes.

E isso porque o laço que nos ligava se rompeu. Mas ele também era a centelha que havia sobrado em mim. 

Sem amor não há mais nada. 

Tento pensar em outra possibilidade, mas meu pensamento trava na segunda página. Não quero mais amar ninguém, não vale a dor que causa, nem mesmo quando essa dor possa provar que eu estou vivo, coisa da qual duvido muito no momento. Acredito que é melhor ser uma casca morta, do que sentir dor o tempo todo por um amor impossível. 

E amor verdadeiro não existe.

Esperei pelo ônibus sentado, o calor e a umidade me dando a certeza que estaria suado, e molhado da chuva, antes das oito horas. Aquele menino não apareceu nos últimos dois dias, não que faça alguma diferença. Hoje vai ser um cão dos infernos. E ainda faltam três dias pro fim de semana.

Percebi, de novo, que não só não participei do grande evento de anúncios de 2025 como queria, como não consegui nem comentar como nos outros anos.

A desconexão é real. E não me desconectei apenas dele ou dos outros. 

Me desconectei de tudo. 

E de mim.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Noites como hoje

Mais um dia, em que chego e me jogo sobre a cama. Em que fecho os olhos por um breve instante e sinto cada membro doer. Viajei por metade da cidade, e o tempo já começa a ficar quente e abafado o dia todo, aumentando o cansaço. Sinto como se sugassem de mim cada pequena fagulha restante, mas não é bem isso, não é como se eu fosse uma fornalha ardente a ser consumida, eu já estava sem brilho há muito tempo.

E sei que disseram que minhas oscilações são perigosas, e que se elas continuarem, terão que encontrar alguém para me substituir. Sorrio. Sempre soube que seria assim. Absolutamente todo mundo é substituível. Na verdade, agora, eu queria mesmo ser substituído, ser descartado, ser jogado fora. Se isso significasse não precisar voltar lá e me desfazer assim. 

A vida é mesmo um cão dos infernos. Aqueles infelizes pelo menos vivem um pouco, enquanto outros vagam pela sarjeta. E esperam que eu faça isso pra sempre, que eu seja sempre útil, prestativo, sorridente. Raios, sorridente! Quando eu nem mesmo consigo controlar meu rosto para uma expressão além de choro ou de apatia, e esses fodidos ainda me sugam o resto que havia, deixando só uma casca vazia, uma sub figura de humano, e ainda querem que eu sorria. Todos são lixo, escória maldita. E cada vez que sorriem para mim eu imagino setenta formas de fazer aqueles olhos perderem a cor. Só que de modo violento. E é exatamente o que fazem comigo. E por que não é considerado crime? Um crime lento e silencioso. Eles lenta e silenciosamente acabam com a minha vida.

Mas as pessoas só percebem isso quando alguém tem coragem o bastante pra pegar uma corda e amarrar no pescoço. Meu único rancor é que ele fez isso antes de mim. Talvez eu corte os pulsos ou tome todos os meus remédios de novo, qualquer coisa que impeça aqueles trastes de me sugar, sendo que já não tenho mais nada. Mas eles não entendem, é claro que não! Eles não entendem nada, e nem dão a mínima pra isso. Dizem que isso é algo extremo, e que devem pedir ajudar. Mas eles não enxergam ou ouvem os pedidos de ajuda. Quando eu me afastei por alguns dias, estava pedindo ajuda, e eles no máximo cogitaram colocar alguém no meu lugar. E então falam do suicídio como se fosse algo horrendo e distante. Não podem entender que o suicídio não é sobre querer morrer, mas é sobre sentir que viver não é mais uma opção. É, como dizia Nietzsche, uma consolação que ajuda a suportar muitas noites. 

Noites como hoje.

“O que dói é a constante perda de humanidade naqueles que lutam para manter empregos que não querem, mas temem uma alternativa pior. Acontece, simplesmente, que as pessoas são esvaziadas. Elas são corpos com mentes temerosas e obedientes. A cor deixa seus olhos. A voz está desfigurada. E o corpo. O cabelo. As unhas. Os sapatos. Tudo. Quando eu era jovem, não conseguia acreditar que as pessoas deram a vida em troca dessas condições. Agora que estou velho ainda não acredito. Por que eles fazem isso? Por sexo? Por uma televisão? Por um carro com pagamentos fixos? Pelas crianças? Crianças que crescerão e farão as mesmas coisas?" (Charles Bukowski)

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Sem Vontade

"Pois quem não tiver para si dois terços de seu dia é um escravo, seja ele quem for." (Nietzsche)

Dia de ira.

Cada um tem como coisas importantes aquilo que, no seu coração, lhe desperta algo. Não é de hoje que as séries são algo que eu amo e uma das pouquíssimas coisas que me dão alegria. Poder acompanhar as histórias, poder me emocionar, como foi nas ultimas semanas com Kidnap, ou sorrir, como tem sido com Caged Again, ou simplesmente poder me surpreender e inspirar com a beleza genuína, como fiz com Every You, Every Me, me sentindo bem ao ver o Mick e o Top depois de acompanhar a produção por tanto tempo, ou ainda só sentir o coração quentinho ao poder ver, finalmente, os ThomasKong em Your Sky, depois de tantos vídeos virais no TikTok. Esse mundo das séries é o meu mundo, é o meu descanso depois dos dias cheios, dos incômodos, dos idiotas.

E então, no dia mais importante de todos, eu tenho que acordar cedo e tomar um ônibus, e vir trabalhar, e ouvir as sandices de um velho crítico de arte que ninguém lê. Nesse dia, eu refleti sobre o que tenho feito. Sobre o que tem sido minha vida.

Trabalhamos para conseguir viver. Mas, se nem o mínimo eu consigo, qual o sentido de fazer tudo isso? Qual o sentido de deixar minha carne ser esmagada assim? 

Volto aquele tema: eu não pedi por uma coisa grandiosa: eu não desejava ter ido pra Tailândia por uma semana pra assistir aos anúncios do próximo ano. Eu não pedi ao universo pra ir num dos três shows que aconteceram no Brasil nas últimas semanas. Eu só queria poder assistir, da minha casa, tomando um chocolate quente e ficando feliz pelos anúncios feitos. 

Só isso. 

Mas até isso me foi privado. 

Percebo agora o quanto eu sou escravo. Porque os outros, todos podem adoecer, todos podem viajar, todos podem ter sua larga cota de passatempos e chamar isso de trabalho. Podem mandar, aparecer para tirar algumas fotos e ir embora quando o vinho acaba. 

Eu preciso sacrificar até essas minhas pequenas alegrias. Irrelevantes a todos, importantes apenas pra mim. Eu não posso viver. Preciso sempre chegar em casa tão cansado que não aguento nada além de ir imediatamente pra cama. Preciso ficar até o fim, apagar as luzes, abaixar o som. 

É sempre esse inferno. Ninguém liga se você tem algo pra fazer, uma vida ou outro interesse, ninguém se importa. É sempre essa porcaria de vida, sugando cada pequena alegria, até que não sobre nada. Somos brinquedos, fantoches nas mãos de deuses. E a vida faz questão de foder cada um de nós, até que não sobre nenhuma vontade, nenhuma força. Até que sejamos apenas cascas vazias e mecânicas cumprindo missões. 

Cá estou eu, fazendo parte da lixeira da miséria humana. Perdido entre as festas e os sorrisos de pessoas completamente vazias, e a mercê do julgamento dessas mesmas pessoas. A minha vida está em suas mãos, e elas fazem o que quiserem de mim. 

É um inferno, um ciclo interminável, e todos não passam de lixo: eles que mandam e eu que obedeço, todos lixo, e nada mais!

Quisera eu poder expressar nessas palavras o desprezo que sinto por eles me controlando assim, por saber que eu não tenho nenhum poder sobre minha própria vida, que sou escravo, que sou apenas um sem vontade. 

Talvez tenham eles percebido que eu sou um grande vazio, e por isso queiram se aproveitar. Ou talvez nem sequer me reconheçam como humano também. 

De fato hoje não sou mais homem. Se olho no espelho vejo apenas um reflexo triste, e nada mais. 

"O trabalho estava me dando nos nervos. Seis anos, e não tinha um centavo no banco. Era assim que pegavam a gente - só davam o bastante para a gente se manter vivo, mas nunca para acabar se escapando." (Charles Bukowski)

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Aforismos

Arnold Böcklin

"Se a voz da noite responder
Onde estou eu, 
onde está você
Estamos cá dentro de nós 
sós"

(Chico César)

Sempre vemos o quadro parcialmente. Ao olharmos o outro não vemos senão uma fração que ele permite que vejamos, ou que ele consegue demonstrar. De um modo ou outro nossa visão da realidade é limitada.

Com isso não quero dizer que estamos todos num grande engodo kantiano, numa espécie de matrix, não, apenas estou repetindo o óbvio: o homem é limitado por sua própria natureza, nossa inteligência sendo então diferente da dos anjos, que a tudo conhecem num relance. Somos parciais, embora sejamos parte do todo (todo que "neles vivemos, nos movemos e somos" como disse S. Paulo). 

O outro também pode estar passando um inferno. Assim como eu também. E me sinto culpado por não ver o inferno em que está o outro. O outro também não se aproxima do inferno que há em mim. Somos todos condenados iguais? 

Toda existência é solitária assim, dolorida assim, triste assim. A imensidão desses espaços infinitos de Pascal, o pavor, tremendo horror. Mas o que resta senão a pergunta: há salvação? 

X

Você lembra de detalhes de mais de dois anos atrás. Saber disso faz algo se remexer em mim, mas não sei dizer o que é. Antes diria que era amor, mas sufoquei esse sentimento. Finalmente acredito ter extinguido isso de mim. Com isso foi-se o que restava para não ser uma casca vazia. O vazio ficou. Não há mais amor em mim. Mas, se o amor era aquilo que ainda fazia brilhar uma centelha em mim, que pode ser de mim agora? Nada. 

E lembro de quando eu cantava, imitando S. Terezinha, para que Deus fizesse "de meu nada, amor. Só. amor."

Agora ainda sinto as dores daqueles dias tensos. Não vou sair da cama. Quero que sintam minha falta e, assim, vejam que não podem deixar tudo em cima de mim. Mas, seja em plena loucura e correria, ou durante uma manhã de chuva fina como hoje, olho pra cima por um breve instante, elevo os olhos a Vós ó Pai, e depois retorno a mim, sentindo apenas esse meu enorme vazio.

X

Eles nunca vão mudar, sempre viverão nessa loucura, nessa pressa, numa incessante busca, perdendo de vista o que está bem a sua frente. Essa pressa é louca. São todos loucos. Estamos todos loucos. Perdemos de vista a quem devemos agradar, queremos ser aceitos pelos mais banais de nós, pelos mais idiotas, queremos a aprovação dos mais tolos, daqueles que não seriam aceitos por ninguém que tivesse algum bom senso. 

Tiraram uma foto minha enquanto sorria, e sorria de verdade. Sorrio quando estou confortável e com pessoas que amo. E então, pessoas que não são próximas e que não entendem nada de mim porque nunca me olharam de verdade, disseram que aquela foto, do meu sorriso, capturava minha essência, como se houvesse de lindo e brilhante dentro de mim e que apenas umas poucas vezes vem até a superfície.

E é claro que ninguém vê quem fica até o final, quem varre o chão e apaga as luzes depois que acaba a festa. Todos se lembram do bobo que dançou depois da segunda garrafa, ou do anfitrião que propôs o brinde. 

Não, a minha essência não é sorridente. Eu sorrio, mas tenho uma alma triste, profundamente triste. Meu coração cinza jaz numa escuridão profunda.  

Principalmente agora, passada a euforia, a música alta, e todos os desencontros, de toda aquela subserviência patética. Sobrou apenas o vazio, o nada. 

"Acaso busco eu agora a aprovação dos homens ou a de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se eu ainda procurasse agradar a homens, não seria servo de Cristo" (Gl1, 10)

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Um quadro geral

Gustave  Caillebotte

"Já lhe aconteceu, algumas vezes, encontrar num livro uma ideia vaga que se teve, alguma imagem embaciada que volta de longe e que parece a completa exposição de seu mais sutil sentimento?" (Gustave Flaubert)

Me sentindo um idiota por ter reagido daquela forma, por ter me deixado abalar tanto, por ter caído num dia que deveria descansar, por ter deixado a minha mente me dominar dessa maneira e me levar aos círculos mais profundos do inferno. Me sentindo leve por esse peso ter sido retirado das minhas costas, mas agora sinto como se tivesse carregado tudo por nada. E assim, simples como um bipe ou um aceno, tudo acabou...

E agora, no dia seguinte, com o corpo dolorido, de toda aquela tensão nos últimos três dias, eu vejo o peso que colocaram sob minhas costas. No entanto, olhando o horizonte, não vislumbro melhora. Não sei como poderia sair dessa situação. Devo pedir demissão? E com que forças eu vou procurar outro emprego? E se o outro for ainda pior, com chefes ainda mais idiotas e incompreensíveis? Mas e se for melhor? E se tudo isso for apenas fraqueza minha, afinal não é a primeira vez que uma situação me deixa doente.

Acredito que estou de frente com um problema e, como ensinou o Prof. Olavo, problemas não se resolvem como se acredita: por meio do pensamento e análise até alcançar uma resolução. Apenas verdadeiros gênios fazem isso, e mesmo eles uma ou duas vezes na vida. Problemas se resolvem por uma alteração do quadro geral das coisas, uma modificação tal da situação que independe do homem. Em verdade aquilo que conseguimos controlar é pouco, quase nada, em relação a tudo aquilo que nos vem de fora e que, não raras vezes, nos esmaga completamente. 

Por isso me pergunto se não seria o caso de assumir uma postura diferente, uma transformadora e, até mesmo combativa. Uma postura mais firme, que não apenas receba a lide com aquilo que se vem contra mim. Mas também não estou certo disso. Uma transformação da atitude ou de toda a situação, como quando vim pra Joinville? Mas, embora eu nunca tivesse essa esperança, vir pro Sul mudou completamente a minha vida, e cá estou eu, pouco mais de dois anos depois, mergulhado em desesperança novamente, numa tristeza e aflição profunda. O que me indica que essa melancolia não é reacional, não é uma resposta ao meio, é algo inerente ao meu ser, não sendo então algo que possa ser resolvido, sendo não um traço, mas algo essencial, algo tão profundamente arraigado em mim que não se pode dissociar meu eu da tristeza que sinto. 

Devo fugir? Enfrentar? Como fugir e como enfrentar? Como mudar o quadro geral das coisas, como resolver o problema? Como entender o problema? São questões demais, e o tempo lá fora combina um dia nublado e abafado, quer fazer sair o sol ao mesmo tempo que chove torrencialmente. Também não se decide, se perde nessa dualidade que há em meu peito.

"Ó vós outros, quem quer que sejais, rústicos deuses, que nesta desconversável paragem habitais, ouvi as queixas de tão desditoso amante, a quem uma longa ausência e uns fantasiados zelos hão trazido a lamentar-se nestas asperezas, e a queixar-se da dura condição daquela ingrata e bela, fim e remate de toda a humana formosura." (Miguel de Cervantes)

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Sobre a Linguagem


Comunicação. Como é uma coisa complicada. E nem me refiro as grandes teorias e discussões acerca da insuficiência e objetivos da linguagem, como no De Magistro de S. Agostinho, passando pelos séculos até chegar em Kant, David Hume, Wittgestein e tutti quanti. Foi esse diálogo, um workshop na série Every You Every Me entre Mick e Top (os atores) que me deixaram boquiaberto, ao mesmo tempo, entendendo as várias camadas de significados que eles apresentavam ali, mas por saber que a mesma dificuldade que eles interpretavam em cena, numa espécie de metalinguagem, já que os atores interpretavam atores que estavam com problemas na sua atuação justamente por conta dos problemas de suas vidas pessoais. 

- Eu sinto muito!
- Eu estou bem.
- Eu sinto muito!
- Eu estou bem.
- Eu sinto...

O ponto pacífico é: o homem sempre tem, e provavelmente sempre terá dificuldade em se expressar, em dizer o que sente, em comunicar os afetos de sua alma, mas também de compreender os mesmos afetos da alma do outro.

Quantas comunicações são completamente incompreensíveis a quem quer que seja? Tomo pelos choros do meu sobrinho, que aposto nem sequer entende o que sente, mas de que, de algum modo, comunica, mostrando o desesperar-se no trauma de emergência da razão. Tomo pelas incontáveis expressões artísticas que tentam traduzir, expressar isso que trazemos no profundo do ser. A densidade das sinfonias de Mahler, toda a loucura da música contemporânea expressando a bestialidade em que o homem se meteu, as infindáveis páginas, de Homero a Proust, Augusto dos Anjos e os novos poetas da internet, uma lista sem fim, de pessoas tentando dizer algo para outras, ou, antes disso, tentando entender o sentem ao ponto de conseguirem dizer a si mesmas.

E então, a totalidade dos homens, esses que me rodeiam, e que não conseguem dizer, e não conseguem me ouvir ou entender, e por isso sofremos. Sofremos porque somos, sempre e sem chance de não ser, ouriços na vida uns dos outros. Por aqueles sentimentos que habitam nosso tão profundo que quase nem nós mesmos conseguimos dizer que existe, e aquilo que não dizemos porque de fato não o é, e toda sorte de confusões que daí se originam.

Continuo então sem entender, muitas vezes desistindo. Porque percebo que o outro não tem interesse no que digo, que sua mente parece tão distante que não seria exagero dizer que nós estamos em universos diferentes, caindo no clichê tosco, porém verdadeiro, de que cada um é um universo por si. Mas, então, sendo assim, onde podemos encontrar na comunicação aquele princípio estabilizador, universal, que nos permite definir cada um como um universo e não como apenas parte de outro universo. Onde está aquela estabilidade na linguagem que permite a duas pessoas se entenderem? Dito isso, é possível que duas pessoas se entendam? Porque parece que, ao falarmos das coisas profundas do coração, não fazemos mais do que meu sobrinho, em balbucios que, nem sequer compreendemos e tampouco conseguimos transmitir a outros. 

Daí, apelamos: escrevemos músicas, poesias, tiramos fotos e pintamos telas e, quando nada disso funciona, tentamos olhar no fundo dos olhos da outra pessoa e dizer "eu sinto muito", repetindo cada vez com mais verdade e mais vontade, podendo até alcançar o seu coração. Ou também podendo continuar distantes, incompreendidos e incompreensíveis. Essa parece ser nossa sina. Nossos amores jamais chegarão a saber que amamos e nem o quanto amamos. Nossos inimigos nunca vão entender a dor que nos causaram, e nossos amigos nunca vão entender o bem que nos fizeram. E por fim, morremos assim, sem nunca tocar o outro.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Ansiedade

Every You, Every Me

O último dia. Sol que brilha, em verdade arde, nas folhas como esmeraldas iluminadas no corpo de alguma musa. Amanhã cessará o silêncio, o descanso do corpo. Em verdade, meu corpo está em dor já desde ontem, quando a ansiedade tomou conta de tudo. E me deitei, e sentia meus músculos se repuxarem, as articulações se condoerem, mostrando no corpo o que na alma havia se quebrado: o equilíbrio frágil da vida humana. 

Pensei um pouco, sobre a linguagem, tema do meu próximo texto, que só publicarei amanhã para não quebrar a ordem dos textos escritos durante os dias em que fiquei afastado do trabalho devido ao atestado do psiquiatra, mero capricho de um escritor lido por dois ou três amigos. 

Voltando à linguagem, fui dormir impressionado com as atuações de Mick Monthon e Top Piyawat. O plot sobre comunicação me rendeu uns bons gatilhos. Quantas vezes eu disse algo com toda a sinceridade que me era possível e, o outro lado não entendeu, assim como eles repetiam um ao outro, de um lado com sinceridade de coração e do outro, a vontade de acreditar, mas a dor criando um muro entre eles. Quantas vezes declarar o meu amor, com todas as palavras que me eram possíveis, de todas as formas que poderia, de nada adiantaram. Meu amor de nada adiantou. Minhas palavras foram todas em vão. 

O canto forte dos pássaros aqui do lado de fora, o brilho das folhas, as flores exuberantes do nosso jardim e da vizinha, tudo canta as maravilhas de Deus, e ainda assim parece que ninguém percebe. Por qual razão então entenderiam as palavras limitadas? 

De nada adianta, de nada adianta. 

No fim, só queria que conseguisse ver o brilho nos meus olhos quando pensava em você. Mas nem isso existe mais. O brilho se apagou. Todos os apaixonados foram dormir, e eu vou segui-los em sacra procissão, entoando preces de que seja perdoado, não por amar a um homem, mas por não me amar, por me odiar, por tantas vezes desejar que nem mesmo existisse. 

Uma manutenção sem planejamento deixou a cidade inteira sem água, mesmo com um calor insuportável e sabendo que a maior parte da população trabalha de forma braçal. Amanhã inclusive eu preciso voltar, mesmo sem querer. O vento sopra frio, a temperatura vai cair, sinto saudades do inverno.

Mais uma tarde e uma noite. O último dia. 

"Decorrera tanto tempo que havia desistido de aplicar sua vida a um objetivo ideal e limitava-a a perseguir satisfações do dia a dia, que julgava, sem nunca o afirmar formalmente, que aquilo não se modificaria até sua morte; ainda mais, já não sentindo ideias elevadas no espírito, deixara de crer na realidade delas, sem todavia não poder negá-las de todo." (Marcel Proust)

domingo, 17 de novembro de 2024

O bloqueio das nuvens



"Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó."

(Cartola)

Alguns raios teimosos de sol atravessam a grossa camada de nuvens dessa manhã de Domingo. Acabei de ter a confirmação de que o evento de anúncio dos novos projetos da GMM TV vai acontecer num dia que não poderei folgar. A essa altura é impossível que me convençam que essa vida não é um inferno por si. As minhas séries são uma das poucas coisas com as quais eu realmente me importo e até isso vem sendo esmagado atualmente. 

É uma miséria sem fim...

Okay, calma. Sei que isso pode demonstrar uma completa falta de senso da realidade, ou senso das proporções. Não poder acompanhar o anúncio dos lançamentos não significa que não vou acompanhar as séries, mas é algo que já faz parte de uma tradição pessoal minha, fazer apostas, vibrar com os lançamentos esperados e me surpreender com outros. 

O que me leva para aquela coisa da qual já falei várias e várias vezes: a vida parece fazer questão de esmagar cada pequeno sonho de modo a não sobrar mais nada. O destino de todos os homens com o mínimo de despertar é sempre o desespero. Não é como se eu faltasse trabalho para ver séries. Eu só assisto nos poucos momentos que me resta alguma energia nesse corpo morto. Então, quando brevemente eu precisaria, ou gostaria, de ver algo relacionado, as únicas coisas que despertam em mim algum ânimo: a vida faz questão de destruir esse sonho. 

Claro que não estou sendo fatalista no sentido de que algo realmente deseja que eu não veja, ainda defendo a indiferença do universo perante o homem, mas essa indiferença ainda nos coloca em situações assim. "Todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo", dizia Schopenhauer. 

De novo, não é um grande sonho, não é uma grande aspiração, não é uma ambição movida pela inveja ou ganância. Não sou um monstro, nesse sentido. Mas até essas pequenas coisas, a vida fez questão de pisar em cada uma delas. Triturar cada pequeno vislumbre de felicidade que possa existir. 

Essa vida é uma desgraça sem fim.

O céu agora está estranho, a luz do sol se espalhou por trás da camada de nuvens, então não está nublado e nem claro, as nuvens bloqueiam o sol e brilham, mas sem que consigamos sentir o meio realmente iluminado. Tanto o sol quanto as nuvens tentam fazer algo simples: se estabelecer, e simplesmente não conseguem. 

Mas também sei que é absolutamente inútil pensar nessas coisas. Elas são assim, e pronto. E hoje tem a estreia de uma série que esperei por muitos meses, a maior espera do semestre, e as expectativas estão bem altas, mas tenho certeza que nenhum tipo de entidade trabalhou para que eu estivesse em casa hoje para ver. As coisas são assim e pronto. A vida é uma desgraça e, de vez em quando, coisas boas acontecem, apenas isso.

E então, de repente é fim de tarde de um domingo, o mais miserável dos dias da semana, e eu começo a ter uma crise de ansiedade por conta do trabalho acumulado nos dias em que estive de atestado, por causa de uma crise de ansiedade. E assim dou início a mais um ciclo infernal da minha vida. Isso me faz perceber o quanto eu estou fundamentalmente quebrado.

Foi-se a tarde e lá vem a noite. Quarto dia. 

sábado, 16 de novembro de 2024

Pensamentos de um sábado meio chuvoso

"Nada será tão fatal quanto abrir os olhos numa manhã qualquer e, logo após, subir à garganta a amargura brutal de uma alma que viu morrer sua humanidade consigo mesma, quando amaldiçoou o corpo

por ter acordado mais uma vez." (pevon)

Amanheceu chuvoso, aquela chuva fininha, persistente. Nessa época, ano passado, o calor já era insuportável. 

Aos pouco eu começo a perceber como o ambiente tem me deixado doente. Apesar de ontem ter me desesperado e apelado pros remédios por conta de pouca coisa, agora que se aproxima o dia de voltar, já sinto a ansiedade crescendo dentro de mim. Já prevejo os problemas que me aguardam e as idiotices que vou ter que responder. 

Me sinto descansado, pude dormir, ler, assistir e realmente me deixar envolver pelo que via, a história de busca por perdão de High School Frenemy que, com toda certeza, é um romance. Ainda não senti disposição o suficiente para andar um pouco, mas tudo bem. Também não respondi quase nenhuma mensagem, não sinto vontade de falar com muita gente e, mesmo quem eu respondi, não quero conversar por muito tempo. Parece que cada palavra que as pessoas me dizem só tornam ainda mais óbvia a distância entre elas e eu.

Não quero voltar, não desse jeito. Quero poder ficar longe assim, pensar com calma, e não se atingido por essa pressão doentia.

Mas eu sei que isso é só o desejo bobo de uma manhã chuvosa. É, pena, será um dia bonito, com a chuva caindo fininha o tempo todo, estragado pela ansiedade de uma semana infernal. Acho que eu realmente não quero voltar, e com isso alguns pensamentos acabam aparecendo: não precisaria voltar se eu não estivesse aqui. 

Acho que talvez seja a hora de tomar aquela decisão. Aquela que, em verdade, foi tomada, mas que não tinha dia certo a que se deveria tomar as providências necessárias. 

Talvez eu devesse deixar todos na mão. Não acho que seria tão importante assim e, na verdade, alguns até merecem isso. 

Acho que pode até ser que haja salvação, mas não pra mim. De nada adianta tentar um novo remédio, ou fazer terapia. Nem mesmo mudar de emprego ou de paróquia. De nada adianta. Acho que é hora de botar um fim nisso. Mas, por enquanto, vou dormir. 

Veio a tarde e uma noite, a chuva ainda cai fraquinha de vez em quando. Terceiro dia.