segunda-feira, 31 de março de 2025

Não Pergunte


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,

(Carlos Drummond de Andrade)

Foram vários sorrisos, encantadores eu diria, alguns abraços apertados e até um beijo, meio atrapalhado. Por alguns brevíssimos instantes, enquanto isso acontecia, era como se aquela barreira, aquele Campo de Terror Absoluto, fosse desfeito, e então, eu pudesse tocar, ainda que de modo superficial, nesse grandioso e quase infinito, imensurável oceano da consciência do outro. 

Mas era apenas ilusão, um engano de percepção, a rápida euforia me deu essa impressão, movida pela carência, pela sensação do nada, do vazio (não, eu não li o Seminário Crítico XIX de Lacan, onde ele introduz a noção de vazio distinguindo-a da "falta" e do "nada"). Essa carência sempre faz isso, sempre. Faz ver afeto e proximidade onde não há. 

Depois, cada um foi para sua casa, eu não saí para beber como planejara, e as despedidas, pelo menos as minhas, foram rápidas, como se eu não passasse de um conhecido que, por acaso, estava ali, e era exatamente isso. 

É sempre isso. 

E então eu passei o dia seguinte inteiro na cama, não conseguia me mover. 

O dia inteiro

de nada

nada

nada

do mais absoluto 

e completo vazio.

Eu queria assistir, queria sair e tomar uma cerveja com algum amigo, queria ouvir música, em alguns momentos sentia essa vontade, mas eu não conseguia fazer nada disso, ela era engolida novamente pela escuridão, eu sentia como alguém tentando nadar contra a força invencível do oceano. Era apenas um corpo inerte, pesado, e uma mente vagando num deserto de sal, 

frio, sem ninguém, 

no coração de um mundo desabitado.

Quando já era noite eu precisei tomar energético para conseguir ter alguma disposição, por mais artificial que seja. Só então consegui, depois de muito esperando algum resquício de energia, fazer alguma coisa.

Sinto-me num pêndulo, como quem vive e morre várias vezes ao mesmo dia, eterno retorno, um inferno fechado em si, como o ourobouros que trago marcado ao peito. Naquela época eu não imaginava que ele seria tão emblemático.

Se retorno então à experiência daquele dia, e evoco aqueles momentos, felizes, é verdade, porém fugazes e talvez vazios, mais uma vez eu me dou conta daquela verdade. Aquela, de todas as experiências, me parece a mais brutal, a mais presente, ainda que poucos se deem conta. Ou talvez porque realmente eu seja o único condenado. Não por ser especial, pelo contrário, mas por ser diferente, um abortivo. Daí meu retorno a Instrumentalidade, a minha vontade de, por temer a carência, acabar desejando me tornar um com todos. Não pergunte por que, não existe outra maneira de existir. Mas é algo impossível, embora fosse da mais absoluta necessidade. A única realidade possível, ou que se realizou, é essa de que me dei conta mais uma vez:

"Sim. Existe um vazio bem no âmago de nossas almas. Uma imperfeição fundamental que tem assombrado todos os seres desde o primeiro pensamento. Em um nível primitivo, o homem sempre esteve ciente da escuridão que mora no núcleo de sua mente. Temos procurado escapar desse vazio e do temor que ele provoca, e o homem procura preencher esse vazio." (Neon Genesis Evangelion)

sábado, 29 de março de 2025

Isso

"Red Haired Man on a Chair", Lucian Freud

Sem analogias climáticas hoje, apenas uma grande estafa social, uma enorme vontade de ficar em casa fazendo absolutamente nada, mas, principalmente, sem ver ninguém. Isso justamente no fim de semana em que eu mais vou precisar ver gente. Todo mundo deveria ter o direito de desaparecer por alguns dias sem se explicar de modo algum, 

eu faria isso hoje, 

e amanhã. 

Agora, sim, me veio vontade de assistir, mas não posso virar essa noite, vai ficar para depois, e espero que depois eu ainda tenha disposição, o que é uma parte que falta em mim. 

Diante de um grupo, que nem mesmo é um grande grupo, nem próximo de uma multidão, eu só consigo estar consciente da minha própria individualidade. Como um idiota que só presta atenção no próprio umbigo. Irreparável e estupidamente solitário. 

E é isso. 

Não consigo sorrir como eles, me entrosar como eles, brincar como eles. Parece que não estamos na mesma página, ou no mesmo planeta. Até posso ficar alegre ou sorrir, mas não é mesma coisa. Eles estão sempre lá.

Eu sempre aqui.

Ele me chamou a atenção de novo, e não foi bela beleza do seu rosto e nem do seu corpo, como fez de manhã quando levantou a camiseta, não, foi pelo imenso carinho com que ele olhava o crucifixo, como quem olha para alguém que ama muito. Não tenho como julgar isso, mas, se não é algo próximo de uma experiência mística, é, ao menos, uma importante tomada de consciência, uma daquelas viradas das mais importantes na vida de um homem: a descoberta da cruz.

Não me importei com aqueles duzentos olhares que poderiam nos ver, não somos importantes assim, mesmo que estivéssemos bem na frente. Ele chorava copiosamente, rosto vermelho lavado em lágrimas, então o puxei para mim, o envolvi em meus braços e senti sua respiração arfada, e ele chorou ainda mais. Apoiei minhas mãos em suas costas, e queria dizer com aquele toque que, sempre que precisar, meus ombros estão à disposição se ele precisar chorar.

Espero não acordar ninguém, mas tem uma leve brisa entrando pela porta ao meu lado. São quase três da manhã e estou ouvindo 10cm e Kim Sung Kyu, mas não consigo definir exatamente o clima da noite. Acho que fiz isso tudo porque queria ficar ao lado dele, ou só ao lado de alguém, isso me parece mais correto. Talvez o clima seja o do vazio de perceber que de nada adiantou, no fim, ele foi atrás de outra, como todos os outros. É, talvez seja isso.

Solidão, 

e nada.

"Enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida." (Machado de Assis)

quinta-feira, 27 de março de 2025

Essa coisa de distância

Penso se quem inventou essa coisa de distância tinha por objetivo esse aperto no peito. 

Uma mãe sentada na varada, a casa vazia e silenciosa, ela ouve o sino da igreja, já deve ser meio-dia, e os trabalhadores param para tomar seu almoço, mas seus filhos se foram, não há razão para fazer comida como antes, quando todos se sentavam ao redor da mesa contando como fora o dia. Os mais novos contavam das lições da escola, ou das brincadeiras com as crianças da vizinhança. O mais velho falava da beleza da jovem que se mudara para algumas ruas ali perto, o marido ouvia e sorria, até pigarrear e todos se silenciarem para a oração, antes de recomeçarem o falatório. 

Agora ela está ali, sozinha, e nem consegue mais dizer para onde foram todos eles. Segura um livro ao colo, Proust talvez, já nem lembra mais, pois parou de prestar atenção há muito tempo, e o deixa se fechar, adormecendo lentamente no que será mais uma tarde solitária, seguida de uma noite solitária e mais e mais dias solitários, até que, minguando suas forças, encontre um fim solitário, descansando solitária na terra, sem saber se algum deles vai voltar. 

Em outro lugar, debaixo de um sol ardente, um velho senta-se à sombra de uma bananeira, apoia-se num tronco seco para comer uma marmita que preparara de manhã cedo, antes que o dia clareasse. A enxada apoiada na árvore e as mãos, grossas e cheias de calos, tremendo, pela idade e pelo esforço. Não tem espelho, mas, se tivesse, veria cada ano debaixo do sol vincado nos sulcos profundos de sua pele maltratada. Foram muitos anos, já nem os conta mais. Apenas observa aquela terra que constantemente precisa ser cuidada, se estender num tapete marrom quase infinito. Ele seca algumas gotas grossas de suor do rosto antes de começar a comer. 

A saudade não tem uma forma, mas se personifica em episódios assim. Eu me vejo assim, de algum modo solitário com um livro ao colo numa casa sozinha, ou sentado a olhar apenas o trabalho infindável na minha frente. 

A minha saudade tem nome e sobrenome, se manifesta num aperto triste no coração que dura o dia todo e se intensifica à noite, quando, sozinho, preciso dormir. É vazio, e dói ainda mais quando me lembro que ele não deve sentir o mesmo, que não deve querer me abraçar e ficar ao meu lado. É como se deixasse cair o livro, ouvindo o sino da catedral, uma procissão passa ao fim da rua, e eu não consigo me levantar porque não há braço em que me apoie. Talvez seja melhor apenas fechar os olhos e apenas adormecer. 

Penso se quem inventou essa coisa de distância tinha por objetivo esse aperto no peito chamado saudade.

Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 26 de março de 2025

O mundo, os gênios, e eu

Percebi, muitas semanas atrás, que venho preferindo iniciar meus textos com uma breve descrição do clima, numa tentativa de encontrar certa relação entre o tempo, o céu, a temperatura, e o meu estado mental. Não é naquele erro comum, como se o mundo refletisse meu interior, não, não é assim. Olhando o mundo, e como ele se expressa das mais diversas formas, eu busco formas de explicar o meu interior. 

Finalmente as estações mudaram. Os dias quentes, abafados e úmidos agora dão lugar a uma brisa fresca que sopra no início de cada manhã. O sol pode ainda brilhar com força em alguns dias, e queimar com violência, com a ausência das nuvens, mas com a diminuição da umidade não se torna tão desagradável assim, tornando possível passeios e momentos de tranquilidade, como sentar-se a calçada e ver as pessoas passarem, algo que há muito já não se faz, como diz na música do Pe. Zezinho onde "na varanda, meus compadres e comadres tiram prosas repartindo as esperanças."

Me recordo então das variações presentes nas sinfonias de Mahler e, mais recentemente familiarizado, Shostakovich. Expressões de alegria, de resiliência que se contrastam com atmosferas de intranquilidade, explosões de fúria e patriotismo, verdadeiras guerras, políticas ou apenas dos sentimentos conflitantes da alma humana. A esperança pela redenção que perpassa o caminho de Dante e Fausto nas Sinfonias da Ressurreição e Dos Mil de Mahler, ou aquela complexa rede relacional entre cada homem e o regime soviético na Sinfonia Stalingrado de Shosta. 

Penso ainda nas intrincadas relações de cada um desses homens, ainda que tivessem visões que hoje nos parecem equivocadas. Beethoven e sua sinfonia Eróica com seus ideais revolucionários em apoio a Revolução Francesa que, hoje sabemos, teve consequências desastrosas em todos os aspectos da vida humana. Mas esses homens tinham ciclos relacionais imensos, alguns frequentavam cortes, bailes, conheciam os principais intelectuais da época, nas mais diversas áreas, para além da música, como a literatura, a filosofia...

E então eu percebo o meu círculo diminuto, e me pergunto se isso se reflete na minha obra, ainda em gérmen, e em como ela gira apenas em torno desses pequenos problemas, imaturos, que nada se parecem com a luta de um homem. Qualquer um com maturidade deveria ser capaz de resolver tudo em poucos minutos, e essas coisas ocupam espaços enormes na minha mente, e no coração.

Fiquei feliz, brevemente, que um jovem rapaz veio falar comigo ontem no CAPS. Me assustei quando o vi sorrindo na minha frente, e me tocando com a mão pequena e fria, embora seja maior que eu. 

Algo simples, pequeno, mas algo. 
Numa vida vazia, 
numa existência sem nenhum propósito, 

qualquer coisa pode ser algo.

Achoo que hoje deve permanecer fresco e nublado o dia todo.

"O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão."

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 25 de março de 2025

Universo Possível


Eu sigo o meu caminho incompreendido
Sem crença e sem amor, como um perdido
Na certeza cruel que nada importa.

(Vinícius de Moraes)

De novo aquele cansaço extenuante, dores abdominais que, em mim, são sinais de ansiedade grave. A cabeça dói e pesa de sono. Os últimos dias foram de muita tensão, como uma guerra sendo travada e várias outras em prenúncio. Mas já não consigo lidar com todas, no fim, só quero encostar a cabeça um pouco, queria também abraçar aquele corpo branco, nu, também a me abraçar e beijar e apertar aquele bumbum redondinho e gozar e enfim adormecer. Porém, esse corpo na realidade se encontra distante, fugidio, inalcançável. 

Talvez nem mesmo exista.
Talvez eu também não exista.

Por isso acho que talvez nem eu mesmo exista. Aos poucos vou sentindo os limites da minha mente se dissiparem, como se eu me expandisse, mas não abarcando tudo, e sim desaparecendo, como uma lufada de fumaça que se dispersa até que não se veja mais nem mesmo os fios mais finos.

Só poderei dormir, numa cama que mais se parece com agrestes escarpados de tão vazia, ou melhor, sem a presença dele. Sem a presença de ninguém. Essa sensação, essa ausência, esse nada, cada dia mais familiar, mais marcada em mim do que essas tatuagens que trago ao peito, parece que também suga por algum buraco negro, toda força e toda vontade, deixando apenas menos do que metade, na frialdade de lágrimas melancólicas de soledade.

Em algum universo possível, bem distante daqui, passo lentamente os dedos pelo seu corpo nu, a luz do sol filtrada pela cortina branca ilumina todo o lugar, um santuário, ele, que minha mão toca preciosamente, meu grande tesouro. Mas só num universo muito longe daqui. Não no meu universo real, aqui.

Às vezes vem cantando um passarinho
Mas passa. E eu vou seguindo o meu caminho
Na tristeza sem fim de uma alma morta.

(Vinícius de Moraes)

sábado, 22 de março de 2025

Canções de Morte

Iniciando a manhã do modo mais dramático possível, ouvindo as canções de morte da Sinfonia N° 14 de Shostakovich, tomando chá de oito ervas, aproveitando o início fresco do outono, antes da tarde mais quente. Hoje admito que vou dormir sem nenhuma razão. Eu sabia que isso acontecer. Já há muito sou um dependente desses remédios, e então isso acontece, eu só não quero. Torço para esquecerem do ensaio, torço para esquecerem até de mim, que eu aproveite essa leve brisa e o sol brilhante, em contraste com o azul-claro opaco do meu coração, e o mais que faço não vale nada!

I

Perdi o rumo completamente
como se acertado por um golpe forte
seco, no alto da cabeça
me derrubando a rolar em pedras

Dei-me conte do corpo cheio de dores
escoriações, sangue quente a escorrer de minha cabeça
e meu inimigo do alto do monte a encarar silenciosamente
e a minha visão turva, ouvindo o rio próximo gritar

O mesmo rio que tantas vezes me alegrou
com sua cor e seu correr alegre
agora me agitava o sangue ameaçadoramente
como se apenas o seu grito fosse me devorar

II

Choro de criança
dolorido
tão inocente quanto seu riso
mas carregado

E o homem
o que tem ainda dentro de si
algum coração a sangrar
chora junto sem cessar

Apieda-se
comove-se
inquieta-se
adquire ânsias de herói

A querer salvar 
a frágil criança
e consolá-la em seus braços
acalmar de seus pesadelos

Mas ao homem
que tem ainda dentro de si 
um coração a sangrar
o choro do inocente é esse sim, o pesadelo

sexta-feira, 21 de março de 2025

Olhar de Ligação e Olhar Nenhum

"Aqui, olhe para mim. Qual o seu nome? 

Respire. 
Devagar.
 Você está respirando errado. 

Devagar. 
Aqui..."

(Top Form The Series)

Controlar as emoções não é uma tarefa fácil, nunca foi. Controlar emoções que não são suas, imagino que deva ser ainda pior. 

Ou não. 

O fato é que aquele veterano conseguiu, por meio do olhar e da respiração, controlar as emoções do mais jovem, sem perceber ele mesmo, que ao fazer aquilo, ao sincronizarem suas respirações, tocava profundamente seu coração, criando entre eles um vínculo que só mais tarde ele perceberia. Ali estava traçado seus destinos, ligados por algo tão forte que não pode ser chamado de emoção.

Os olhos de ambos carregados de lágrimas, pesadas, que desceram marcando uma linha fina, dourada, que brilhava com o sol que já se aproximava do poente. Essa linha, ao descer, apontava para o coração de cada um, indicando de que natureza era aquele sentimento de ouro. Depois daquilo nada mais seria igual. 

Um homem que há anos vivia sem viver, interpretando, sorrindo, fotografando, mas sem permitir que ninguém visse que ele era de verdade. Ninguém via ele fazendo skincare, pois os primeiros sinais da idade já começavam a surgir, ou ele comendo pudim de chocolate como se fosse a principal refeição do dia. E outro que tinha um ar e um olhar apático, para ele tudo sempre estava bem, qualquer coisa servia, qualquer trabalho, e fora parar ali assim, porque o mundo o levou, não buscara a atenção da mídia. Apenas chegou ali. 

Mas agora, olhando fixamente aquele homem, finalmente seus olhos se acenderam, uma chama surgiu, tão brilhante quanto aquele sol poente que lhes beijava a face, deixando aquele que estava à sua frente, como se fosse um deus, envolto num halo de luz, enquanto as lágrimas pesadas caíam. 

Essa visão de tantas emoções, dessa ligação tão forte me fez numa série de coisas que venho descobrindo nesse período de pausa também. Por exemplo, a quantidade de problemas que fui acumulando, eu passei a funcionar pela mera aglutinação deles, sem conseguir mais separar uma coisa da outra.

O cansaço, generalizado do burnout, por exemplo, eu já não conseguia distinguir um dia cansativo porque tinha feito muita coisa e um dia que tinha saído com amigos e me divertido e, por isso, estava cansado. Cansaços diferentes, mas é como se tudo fosse o mesmo, eu só estava simplesmente cansado. 

Quantas e quantas vezes eu deixava a barba crescer por preguiça, cansaço extremo, e parava de me cuidar, ou perdia o interesse em coisas que amava. Com que tristeza eu percebi que já tinha entrado no automatismo ao ver séries, algo que eu amo, que é meu momento de conexão com outro mundo, em que posso esquecer, mas que se tornou apenas uma obrigação. Eu fiz disso uma obrigação como os contatos que precisava fazer diariamente, como as satisfações que precisava dar aos idiotas. 

Tenho prestado atenção no meu corpo, no quanto o machuquei tomando café e chá-verde para ficar acordado e ter bom rendimento e, ao chegar em casa, desabava em cansaço. Prioridades invertidas. E eu continuava gastando, em remédios naturais, em cápsulas de café, óleos essenciais e livros, achando que isso ia me fazer sentir melhor, mas não fazia. E as outras pessoas, que trabalhavam tanto ou mais do que eu, continuavam conseguindo viajar aos fins de semana, ir ao cinema, cafés, e chegavam bem. Então por qual razão só eu estava assim, tão exausto sempre?

E ainda tentaram colocar a culpa em mim, sempre. "Você não faz exercícios o suficiente, você não come direito". Raça de víboras! Como se eu tivesse tempo fazendo sozinho o que três deveriam fazer, resolvendo problemas que não eram meus, ou melhor, resolvendo não-problemas inventados pelas mentes mais burras que já conheci e que diziam, com um sorriso amarelo, que queriam que eu fizesse isso para sempre. Era, na verdade, um sorriso de quem desejava ver minhas forças consumidas em nome de seus excessos. 

E agora, afastado por incapacidade, nem mesmo um olhar de desprezo. A utilidade se foi não é? Nesse tempo tento seguir o conselho do poeta e dormir, já que perdi os amigos, não tentei nenhuma viagem e nem tenho terra, carro ou navio.

"Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
[...] não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas"

(E. E. Cummings)

quinta-feira, 20 de março de 2025

Poeira

Não é preciso olhar de perto para notar que a poeira se acumula ao meu redor. Não gosto que entrem no meu quarto, sempre arrumei tudo, mas agora, bem, a poeira tem tomado de conta.

Na filosofia de Aristóteles, potência é a possibilidade de transformação ou de um ser vir a ser, fazer ou produzir. O conceito de potência, nesse contexto, geralmente se refere a qualquer "possibilidade" que uma coisa possa ter. 

Tenho pensado nisso, em como as pessoas ao meu redor encontram possibilidades. Elas encontram tempo, dinheiro e disposição para irem a bares e cafés, todas as sextas e, às vezes, em dias de semana. Vão ao cinema, conhecem novas marcas de perfume, e velas aromáticas, fazem amigos a marcam encontros com eles. 

Enquanto isso, a poeira se acumula ao meu redor.

Tempo, dinheiro e disposição.

Estou de licença médica, o exagero e o assédio me renderam um colapso nervoso, eu não poderia mais ficar lá. Mas isso também significa que meu dinheiro, que já era pouco, diminuiu ainda mais, e a depressão, agravada pelo colapso, me tirou o restante de disposição que me restara. Já não vou mais à ópera ou... Ou... Bem, eu nem sei o que mais eu fazia, acho que nada.

Me recuso agora a aceitar a potencialidade do meu ser. Como sei que aquilo que entra no ser, por um instante infinitesimal que seja, não pode retornar ao nada. Mesmo sendo essa a minha única vontade: retornar ao nada. Portanto, meu ser deseja a inércia. Não podendo não-ser, serei sem ser de verdade, o que já sou: um ser que não é. 

Eu observo uma miragem distante. Nela não há bares e cafés, as cidades estão destruídas, reduzidas a ruínas, já não há cinemas e nem amigos para conhecer, não há sobreviventes. Mas, o que seria o fim do mundo para todos, para mim, já é a realidade, pura e simples. 

Ruínas e solidão, e a poeira que se acumula ao meu redor.

Quando olho ao meu redor, tudo que vejo são pessoas derrotadas, absolutamente vencidas, maceradas pela realidade. Até mesmo aqueles anjos, imagens dos deuses entre nós, volta e meia aparecem deprimidos, isto é, no mesmo estado de colapso que eu, mesmo que tenham peles perfeitas, cabelos impecáveis e talento e amigos que os rodeiam. Ainda sentem o vazio como eu, e desejam voltar ao nada.

Todos os outros estão lutando uma batalha que não podem vencer. Chegam em casa todos os dias chateados e cansados, e vivem apena algumas horas por semana, nas outras são escravos, humilhados e assediados. Não constroem nada de valor. Até mesmo os bilionários, com suas mansões que serão vendidas para o próximo bilionário e o seu dinheiro, os números no algoritmo de algum banco, serão divididos, multiplicados, retidos, distribuídos de forma tão confusa quanto seu corpo será devorado pelos vermes debaixo da terra.

Por isso desisti, comentei com um amigo, dois amigos, na verdade, nos últimos dias. 

Desisti de novos amigos, 
desisti de namorar, 
desisti de cuidar da aparência,
desistir de melhorar
desisti dos sonhos que tinha, 
hoje tão distantes que já nem lembro que sonhava, 
desisti de guardar segredos e fazer planos.

Os dias devem ficar mais amenos a partir de agora, isso vai facilitar muita coisa. 

Desisti de novos amigos, pois parece que não há mais pessoas que buscam conhecimento e que se contentem com a realidade sem se apegar a um sentimentalismo religioso barato, proporcionalmente inverso a religiosidade verdadeira por cultuar o próprio homem e o que sente.

Desisti de namorar, pois as suscetivas tentativas fracassadas tão miseravelmente me fizeram que essa realidade não é para mim. Que algumas pessoas podem encontrar outras que as amem e que se esforcem por elas, mas não eu. 

Desisti de cuidar da aparência, pois é uma luta perdida. Alguns até podem se dar bem com cosméticos e procedimentos, mas também já percebi que há um limite para isso.

Desistir de melhorar, não vale a pena querer prolongar essa vida.

Desisti dos sonhos que tinha, hoje tão distantes que já nem lembro que sonhava, pois esmagado pelo dos meus pecados, descobri que o mundo é um moinho, e vai triturar cada um de nossos sonhos.

Desisti de guardar segredos e fazer planos, pois o mundo vai reduzi-los a pó.

Sei bem que muitos podem até questionar: tá, mas qual a importância de tudo isso? De um sentido, de amigos que compartilhem seus ideais, de companhia para a vida? 

Não sei, só sei que ao pensar em todas essas coisas eu sinto algo faltante, como se algo que fizesse parte de mim, já não estivesse mais. E assim eu sigo, sentindo apenas o vazio da parte que falta em mim, e a poeira ao meu redor que se acumula cada vez mais. 

Uma criança inocente segura o meu dedo, mais uma vida nessa existência miserável, pobre condenado.

Depois assistir ao fim de todos os homens, tomados de ódio e ganância, e sento numa pedra, ou no escombro do que já foi um prédio qualquer, ou na minha cadeira de plástico na minha sacada de frente para o mangue. De todo modo só vejo destruição. A poeira se acumulou tanto que toma todo o chão. Acho que isso é tudo que restou. 

quarta-feira, 19 de março de 2025

Rigor

"Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
[...] não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas"

(E. E. Cummings)

Foi um dia quente, não tanto quanto nas últimas semanas, mas felizmente o vento mais fresco do outono que se aproxima torna as coisas um pouco mais suportáveis. Ao menos no plano da temperatura, claro. 

Passei a maior parte do dia deitado, e as poucas atividades que fiz, como programar as postagens nas redes sociais da paróquia e ouvir músicas para sugerir para a semana santa, fiz com grande esforço e o mais rápido possível, para voltar para a cama, mesmo meu corpo já dando sinais de desconforto. 

Venho tentando exercitar algumas habilidades, especialmente a atenção, para conseguir manter o foco nos extremos da depressão e da mania. Comecei a ver uma série, uma das mais dramáticas e emblemáticas para mim, 180 Degrees Longitude Between Us, mas perdi o interesse antes do fim do segundo episódio, ou parece que o energético não fez efeito, talvez porque tenha tomado demais nos últimos dias. Pensei em ver algo da lista de melancólicas séries japonesas ou das belas coreanas, mas acho que já é tarde demais. 

No momento escuto uma partita desacompanhada do Bach, é linda, e não sei por qual razão não a escuto sempre, especialmente na interpretação do Daniel Lozakovich (usando um terno largo demais para ele).

Em dado momento do dia adormeci um tanto quanto revoltado quanto o protagonista de  180 Degrees Longitude Between Us com relação às pessoas que vivem apenas cedendo, sem nunca irem buscar seus sonhos, sendo ele alguém que vai atrás e enfrenta, se revoltando com o conformismo de uma sociedade acostumada com a desigualdade. Mas, noutro plano, como estamos presos aos nossos ideais e não enxergamos as possibilidades que se abrem diante de nós. Como alguém que sonha com a menina perfeita, mas não enxerga que todas as qualidades que projeta nela, se encontram no amigo para quem ele conta seus devaneios. Isso me revolta mais do que o conformismo ou a hipocrisia.

Talvez a única coisa bela agora, já que tirei a série, sejam os lábios levemente rosados, a pele perfeita e o cabelo bagunçado do violinista sueco. Será que ele é idiota assim?

De todo modo, minha revolta também se encontra envolta em conformismo: num pessimismo latente que jamais cessa senão nos momentos de sonhos, delírios infantis, não raras vezes induzidos pelas drogas. 

De fato, o sol amanheceu brilhando com toda sua força e glória, algo que considero simbólico no dia do grandioso São José. Mas como José o tempo está fresco, traz aquela segurança, aquela simplicidade séria. Apenas uma impressão, não mereço ser um devoto dele. 

Já que falei das drogas antes, acabei misturando os remédios diários com mais alguns para dormir. Não comi nada, nada me apetece. Pensei em esperar começarem a fazer efeito para escrever, talvez ouvindo a Trágica de Mahler, mas acabei impressionado por uma das sinfonias da Shostakovich, nome que tem aparecido bastante nas minhas sugestões já que tenho ouvido o primeiro movimento de sua sétima sinfonia quase todos os dias, prestando atenção especial num percussionista lindíssimo se esforçando na pauta da música que exige bastante potência desse naipe.

Não sei dizer se esse longo excurso é apenas uma pausa dramática ou reflexo do meu constante vazio existencial que busca se preencher com qualquer coisa que lhe apareça, mesmo que nenhuma delas seja realmente importante. 

Tudo que posso, e tenho a dizer, é que uma vez mais estou tomado da mais profunda desilusão, e por isso torno a não querer sair do quarto. A mim basta vez o vento farfalhar as cortinas verdes e ouvir músicas de terras distantes. As pessoas lá fora, os homens especialmente, já não me encantam, me causam preguiça ou horror. Sua beleza apenas me recorda que, ou é algo inalcançável a todos os homens e, portanto, não há porque eu continuar a tentar e por isso olho para alguém de aparência perfeita, como Top Piyawat e o comparo com meu reflexo, a barba grande e desleixada, o cabelo oleoso e a pele macilenta, é hora de parar de tentar, ou isso ou essas visões são uma lembrança da finitude, já que todo rosto, por mais lindo que seja, é facilmente desfigurado num acidente ou até mesmo pela putrefação natural da morte. E por falar nela, talvez o que sinto já um tipo de rigor mortis antecipado, já que mais de uma vez me identifiquei como cadáver adiado.

Carrego a mesma vontade de um cadáver: nenhuma. Convites e sorrisos me são tediosos, quero apenas a docilidade dura e fria da minha cama vazia, já nem sequer desejo um ombro a encostar. Tal coisa é demais para mim. Já não ouso desejar mais nada. Até a cerveja na geladeira eu desisti de tomar. Do que ainda não desisti? O que há ainda nessa vida, nessa maldita existência, para desistir?

Perder amigos, amores que passam, não ter terra, carro ou navio, já me parecem até mesmo sonhos de grandes homens, reis, deuses até. Cavaleiros traídos em batalhas, Messias vendidos por moedas de pratas, reis deixados por suas rainhas e que causam guerras e dor em centenas de guerreiros. Não, não sou cavaleiro, nem rei e muito menos deus. Porque é tudo mentira, é tudo uma ilusão. É tudo fruto do desespero de homens como eu que, ao se verem diante da grande muralha da realidade, se frustraram, se apavoraram com a verdade e então criam esses mundos, esses príncipes, essas histórias só são histórias de amor se você não acredita nelas, do contrário se tornam histórias de horror. 

Minha existência pouco a pouco desvanece, como quem olha um reflexo na água que se torna turva. Logo não é mais do que um amontoado de cores sem sentido. Sentimentos sem sentido. Ser sem sentido.

"Amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade." (João Guimarães Rosa)

terça-feira, 18 de março de 2025

Seguir em frente

Já fazia algum tempo que não chovia.

Algumas pessoas nos fazem bem, simplesmente pela presença delas junto a nós. Não precisam fazer muito. São pessoas de ouro.

Outras nos fazem desejar por sua presença, mas, não raramente, a sua presença causa apenas desilusão, dor. São presenças sem sentidos que desejamos porque acreditamos que serão boas para nós. Mas não são. São apenas um simulacro de bem, uma forma vazia, se olhamos de perto, vemos que em nada nos fazem bem como aqueles que o fazem sem esforço.

Gosto do som dos trovões e das luzes dos relâmpagos. Aqui, de vez em quando, vemos um raio acertar algum lugar. Sorrio imaginando se ganharia poderes se um deles me acertasse. Mas acho que seria apenas fulminado.

Relações são sempre complexas. Me senti chateado com o que acontecera, e todos ao meu redor notaram: eu já não queria mais estar ali. Apenas queria ir embora. Não consegui mais sair de casa depois disso. Queria dar um abraço de desculpa a uma pessoa dourada, mas não foi possível, tinha outra presença inconveniente.

Mas não se engane, leitor, não estou me iludindo de novo. Esse homem já não existe, e até a última desilusão já era mais do que esperada, era desejada, para que pudesse logo seguir em frente. 

Seguir em frente, contra minha vontade, mas seguir, para a próxima desilusão, esperada e desejada. Para que não possa mais sair da cama, para que apague em remédios, para que estrague meu tratamento, para que prove na minha carne, em cada marca e cicatriz profunda, que o amor é apenas uma espada de aço frio a nos cortar.

Tem um rapaz novo no lugar onde tenho feito tratamento, é muito bonito, e também o psiquiatra que me atendeu. Também um paciente, é a segunda vez que o vejo, está no espectro autista, é bem observador, mas não ouvi sua voz, nem tentarei. Assim como não tenho mais vontade de tentar nada. Notei a beleza deles, mas isso é tudo.

Meu corpo todo dói, precisei ir na consulta, e já havia três dias que não saia da cama. 

Já fazia algum tempo que não chovia, agora, pelo som dos trovões, acho que hoje deve chover.

"O adulto é triste e solitário." (Clarice Lispector)