domingo, 11 de outubro de 2026

O dia veio mesmo assim

Na noite escura, eu buscava
o que eu não sei nomear;
minha alma, em velhas ânsias,
já não sabia esperar.

Estava inquieto, 
não foi só um compromisso cancelado
foi mais uma decepção,
mais uma vez que saí da vida dos outos

Nem uma estrela no céu;
só nuvens, grossas, cerradas.
Do mangue, o canto dos sapos
corria às ruas molhadas.

Depois, quando vir os risos e sorrisos,
e olhar ao redor e não ver ninguém,
vou lembrar de cada vez que cancelei algo como hoje

Por fora, a chuva parara;
por dentro, não acabava.
Na pele, agulhas de gelo;
no rosto, o sal que queimava.

Tudo doía, e continua doendo,
como se tivesse corrido uma maratona,
e minhas pernas cobrassem uma taxa 
de cansaço e fadiga

Na carne de um cadáver adiado
caía a chuva que restou;
no lençol, um lago de sal
que nem a noite enxugou.

Eu tremia, 
e me escondia atrás de uma porta,
não conseguia fingir um sorriso,
e os outros já temiam meu rosto

De novo, o mesmo recado;
de novo, o mesmo pesar.
Não era a estrada o meu medo:
era não voltarem a chamar.

Me disseram que já estão com medo de mim,
que meu olhar sempre diz que estou com raiva

Na tela, coube um “não posso”;
não coube o resto da dor.
Do outro lado, um amigo;
deste, o medo e o tremor.

Não perceberam que não é apenas raiva,
de mim, de tudo, de todos, 
até da chuva e da brisa

Meu velho voltou ao trabalho;
e outra também seguiu.
Olhei tudo o que já fui
e não soube por onde ir.

E eu não consigo seguir

Eu me lembrava das salas,
dos quadros, do que ensinei;
lembrava também as feridas
e os lugares que deixei.

E eu ainda não consigo seguir,
como é patético,
ficar aqui na cama, 
enquanto o mundo segue e anda

De tanta coisa que eu soube,
nenhuma me socorria;
eu sabia falar de séculos,
mas não atravessar um dia.

E então esses dias foram se acumulando
semanas
meses
anos
e eu não conseguia seguir

As noites iam ficando
quentes demais para dormir;
eu evitava o verão
e os dias que tinham de vir.

E o que era difícil naquele lugar,
tornou difícil tudo mais

Eles vinham. Sempre vinham.
Uma tarde. Outra manhã.
Outro dia.
Outro dia terrível.

E eu ia dormir, 
esperando que o próximo fosse melhor.

Fiquei, e não fiquei mais leve;
só deixei de me obrigar.
O corpo, cansado da noite,
já não sabia levantar.

Dormi esperando a dor passar,
ou as dores

Acordei com gosto de ontem,
com os ossos ainda em sal;
nem toda ressaca vem do vinho,
a minha veio do temporal.

Olhei pela janela, 
céu coberto de nuvens

Já não havia força.
O corpo, largado,
só pensava na cama que,
embora vazia,
não era mais fria.

Queria fazer disso poesia,
boa poesia, que repetissem 
como experiência humana,
mas nem isso conseguia.

Não conseguia.

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