Como não poderia ser diferente, o apelo à obediência é sempre tomado como pilar onde sustentam, porca miséria, as suas desobediências. Disfarçada de uma suposta preocupação com a evolução do permanente caminhar da reforma litúrgica proposta pelo Concílio Vaticano II, em detrimento de ambos extremos, seja o conservadorismo seco e estéril tanto como a criatividade pessoal que tem, em muitas comunidades, preferência sobre a comunidade celebrante e a fecundidade que a celebração tem sobre esta. Bem, como é fácil perceber, a nota na verdade apenas ataca, com aquele ar de superioridade débil, as comunidades conservadoras, enquanto incentiva, as invencionices da nossa "liturgia brasileira."
Não há esforço algum em afirmar que a liturgia que, por tantos séculos, formou e alimentou a vida de tantos santos, conhecidos ou não, simplesmente, de um dia para o outro, tornara-se obsoleta e, até mesmo, prejudicial à vida da Igreja. Aqueles que, em união como pastores de um só rebanho, deveriam defender, ao custo de suas próprias vidas, como tantos outros fizeram desde o princípio da Igreja, agora a atacam como se todos os séculos estivessem errados e então, depois de dois mil anos caminhando na escuridão de uma ritualística fechada, o Espírito do Concílio, desceu sobre nós despertando então a dinâmica manifestação do Corpo de Cristo.
Apelando ao pontificado do Papa Francisco, e seus esforços para uma celebração efetivamente participativa, não no sentido que aqui entende-se, de que todos devem fazer algo, o que multiplica nas nossas paróquia cada vez mais o crescimento de sub-casta sacerdotal, os assim chamados ministros. Da comunhão (que, não raramente, atuam como acólitos, destruindo uma das mais ricas fontes de vocações da Igreja), da acolhida (que nada mais fazem do que dizer "bom dia", sem nenhum acolhida verdadeira na comunidade) e outros que, sob a desculpa de ajudar o ministério sacerdotal, mais atrapalham do que ajudam.
Voltando ao Papa Francisco, que várias vezes apelou para uma formação que efetivamente colocasse a comunidade ciente da celebração que participam, arrogam para si, não sem razão, a primazia pelo ensino, discernimento e acompanhamento das nossas equipes de liturgia, seguindo, é claro, o Guia Litúrgico-Pastoral da CNBB. Bem, mas os senhores bispos não o fazem, e creio que realmente é melhor que não o façam, se a liturgia aqui definida for justamente a que, sob pretexto de inclusão, apela ao pauperismo simplista (sim, o gerúndio se faz necessário) e torna por transformar nossas assembleias em teatros, mimetismo de religiões afro ou protestantismos, numa massa amorfa que já não se parece mais com nada, mas que acolhe a todos, e confunde a todos igualmente.
Não esquecem de atacar também, embora sem citar nomes como fizeram numa nota de cunho político poucos anos atrás, por ocasião das eleições presidenciais, o crescente movimento formativo, encabeçado por leigos que, cansados dessa realidade, buscaram nas fontes puras da Tradição, para usar a expressão de São Pio V, o que de fato significa celebrar de modo fecundo.
Em tradução ao português isso significa que o movimento conservador fecha e torna a liturgia complexa demais para o povo, não que os desmantelos que se multiplicam mais e mais não o façam, claro. Apenas o tradicional é prejudicial. A reflexão até cita, de passagem, os exageros feitos em nome da inculturação e da inclusão. Mas o faz de modo a não parecer tendenciosa ao leitor mais desatento. Não que um documento de doze páginas em linguagem formal que fala sem dizer claramente o que se pretende dizer, tenha algum alcance. Particularmente conheço bem poucos leigos, que não sejam próximos ou estudiosos eles mesmos dos assuntos eclesiais, que sequer tomem conhecimento desses documentos. A própria Assembleia é uma incógnita. Que os bispos estão reunidos, todos sabem. O motivo? Ninguém faz ideia. Mas aqui temos um bom exemplo: estão reunidos para, arrogando-se mais Igreja do que dois mil anos de Igreja, atacar aqueles que tentam ser Igreja.
Segundo a nota, nossas equipes deveriam ser formadas para, cada vez mais, afastarem-se de toda e qualquer influência pré-conciliar. Como se já não bastasse as profundas modificações já sofridas nos livros litúrgicos. Defende, de modo sutil, que a liturgia pode ser adaptada (leia-se mutilada) ao público que a assiste, mas jamais pode adquirir o caráter solene e sacro que outrora nossos pais celebraram.
O movimento conservador, ao menor litúrgico, se difundiu na internet especialmente após a luz que nos foi dada pelo Santo Padre, Papa Bento XVI, em sua "Reforma da Reforma." Aos poucos os livros tradicionais, os estudos aprofundados de vários elementos, como os movimentos arquitetônicos, o canto gregoriano, a polifonia sacra, e vários outros, são hoje parte do cotidiano de muitos de nós que buscam celebrar cada vez melhor, isto é, usando dos elementos que a Igreja, como Mãe e Mestra, nos ensinou e nos deu como instrumentos de santificação.
Não precisa ser nenhum estudioso para entender o que se diz: não queremos que nenhum de vocês, com inclinações conservadoras, em qualquer grau, interfira na vida das nossas igrejas. Se há alguns parágrafos eles apelavam ao pontificado de Francisco, conhecido pelo acolhimento à diversidade (embora o conservadorismo também fosse excluído ali), nossos bispos defendem justamente que os conservadores não podem, de modo algum, interferir pois, como uma doença a ser combatida, somos profundamente prejudiciais para o projeto eclesial.
Ao passar então para uma defesa de um análise dos quatro principais documentos conciliares que culminam na reforma litúrgica. Criticam a ignorância desses mesmos documentos nos, já citados, grupos conservadores, ignorando eles mesmos que são os seus adeptos mais próximos que carecem de formação teológica sólida, em detrimento de uma formação sociológica que inverte a relação entre comunidade e Igreja, como é facilmente notar ao afirmarem que, somente após o Concílio Vaticano II "a Liturgia voltou a ser reconhecida como realidade constitutiva da Igreja e do próprio fundamento da sua fé, expressão viva do mistério celebrado, e não como simples ornamento ou elemento secundário da vida eclesial." Ignorando, portanto, total e completamente, a forma como era tratada a Liturgia.
Ornamento é, por definição, algo complementar ao essencial. Os brincos e colares são ornamentos da veste que cobre o corpo. Os cristais e quadros são ornamentos da casa que protege. Portanto, como pode um mero ornamento ter tomado tamanha proporção na vida da Igreja de tal modo que nada era tão difundido, incentivado, participado e tido como centro quanto a Santa Missa?
Talvez num deslize aqui o objetivo da nota se faz claro sem rodeios. Qualquer elemento tradicional não dialoga com a Igreja. Não há meio termo. Admite-se que a reforma total não só é absoluta como ainda está em caminhos de extinguir os resquícios que, inconscientemente, possam ter sido transmitidos. A Liturgia pré-conciliar é a lepra que deve ficar de fora da cidade que os bispos querem criar.
Numa nota em tom de superioridade afetada, o conservadorismo é, mais uma vez, ditado como o inimigo a ser derrotado. Como os fiéis não chegam a ler essas coisas, por falta de conhecimento ou estômago, após a Assembleia, nas formações litúrgicas seremos bombardeados com as orientações de nossos bispos, em defesa, mais uma vez, da autoridade episcopal que, existindo, se faz acima de qualquer crítica. E então, qualquer defesa da Fé em sua prístina transmissão tradicional, será posta como farisaísmo, contramão, retrocesso e qualquer outro adjetivo aos quais nossos formadores foram acostumados Que Deus tenha piedade da orfandade da Igreja no Brasil.
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Disponível em: https://www.asli.com.br/restrito/img/downloadss/6a5f352e94d507d267f0bc4b0788eab0.pdf
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