terça-feira, 21 de abril de 2026

Assuntos de Liturgia


Que a CNBB é um órgão que há muito ocupa-se de basicamente falar ao vento dando voltas como farrapos, não é nenhuma novidade para nenhum fiel atento. Não foi uma surpresa quando, durante a 62° Assembleia dos Bispos do Brasil, publicaram uma reflexão acerca dos "Assuntos de Liturgia." Antes melhor seria se continuassem em sua empáfia ignorância do assunto, num caso claro em que, optando pelo silêncio parecendo desconhecer o assunto, preferiram falar e dar a certeza que o desconhecem. 

Como não poderia ser diferente, o apelo à obediência é sempre tomado como pilar onde sustentam, porca miséria, as suas desobediências. Disfarçada de uma suposta preocupação com a evolução do permanente caminhar da reforma litúrgica proposta pelo Concílio Vaticano II, em detrimento de ambos extremos, seja o conservadorismo seco e estéril tanto como a criatividade pessoal que tem, em muitas comunidades, preferência sobre a comunidade celebrante e a fecundidade que a celebração tem sobre esta. Bem, como é fácil perceber, a nota na verdade apenas ataca, com aquele ar de superioridade débil, as comunidades conservadoras, enquanto incentiva, as invencionices da nossa "liturgia brasileira."

"Sob o influxo do Movimento Litúrgico, reconheceram que a forma
ritual, então prevista nos livros litúrgicos, já não favorecia suficientemente o
envolvimento direto, consciente e efetivo dos fiéis. Do mesmo modo, a
ministerialidade então vigente não expressava de maneira adequada a riqueza
da pertença eclesial em sua complexa dinâmica de comunhão, como
manifestação viva da diversidade de membros que compõem o Corpo de Cristo."

Não há esforço algum em afirmar que a liturgia que, por tantos séculos, formou e alimentou a vida de tantos santos, conhecidos ou não, simplesmente, de um dia para o outro, tornara-se obsoleta e, até mesmo, prejudicial à vida da Igreja. Aqueles que, em união como pastores de um só rebanho, deveriam defender, ao custo de suas próprias vidas, como tantos outros fizeram desde o princípio da Igreja, agora a atacam como se todos os séculos estivessem errados e então, depois de dois mil anos caminhando na escuridão de uma ritualística fechada, o Espírito do Concílio, desceu sobre nós despertando então a dinâmica manifestação do Corpo de Cristo.

Apelando ao pontificado do Papa Francisco, e seus esforços para uma celebração efetivamente participativa, não no sentido que aqui entende-se, de que todos devem fazer algo, o que multiplica nas nossas paróquia cada vez mais o crescimento de sub-casta sacerdotal, os assim chamados ministros. Da comunhão (que, não raramente, atuam como acólitos, destruindo uma das mais ricas fontes de vocações da Igreja), da acolhida (que nada mais fazem do que dizer "bom dia", sem nenhum acolhida verdadeira na comunidade) e outros que, sob a desculpa de ajudar o ministério sacerdotal, mais atrapalham do que ajudam.

Voltando ao Papa Francisco, que várias vezes apelou para uma formação que efetivamente colocasse a comunidade ciente da celebração que participam, arrogam para si, não sem razão, a primazia pelo ensino, discernimento e acompanhamento das nossas equipes de liturgia, seguindo, é claro, o Guia Litúrgico-Pastoral da CNBB. Bem, mas os senhores bispos não o fazem, e creio que realmente é melhor que não o façam, se a liturgia aqui definida for justamente a que, sob pretexto de inclusão, apela ao pauperismo simplista (sim, o gerúndio se faz necessário) e torna por transformar nossas assembleias em teatros, mimetismo de religiões afro ou protestantismos, numa massa amorfa que já não se parece mais com nada, mas que acolhe a todos, e confunde a todos igualmente. 

Não esquecem de atacar também, embora sem citar nomes como fizeram numa nota de cunho político poucos anos atrás, por ocasião das eleições presidenciais, o crescente movimento formativo, encabeçado por leigos que, cansados dessa realidade, buscaram nas fontes puras da Tradição, para usar a expressão de São Pio V, o que de fato significa celebrar de modo fecundo. 

"Contudo, essas mesmas comunidades veem-se também confrontadas com
critérios identitários estranhos a esse projeto eclesial, difundidos por pessoas e
grupos que atuam como formadores de opinião e que acabam por interferir na
forma celebrativa de nossas assembleias. O chamado “personalismo identitário”,
que incide diretamente sobre as celebrações litúrgicas, tende, por vezes, a
obscurecer a gratuidade da graça e a primazia da ação divina."

Em tradução ao português isso significa que o movimento conservador fecha e torna a liturgia complexa demais para o povo, não que os desmantelos que se multiplicam mais e mais não o façam, claro. Apenas o tradicional é prejudicial. A reflexão até cita, de passagem, os exageros feitos em nome da inculturação e da inclusão. Mas o faz de modo a não parecer tendenciosa ao leitor mais desatento. Não que um documento de doze páginas em linguagem formal que fala sem dizer claramente o que se pretende dizer, tenha algum alcance. Particularmente conheço bem poucos leigos, que não sejam próximos ou estudiosos eles mesmos dos assuntos eclesiais, que sequer tomem conhecimento desses documentos. A própria Assembleia é uma incógnita. Que os bispos estão reunidos, todos sabem. O motivo? Ninguém faz ideia. Mas aqui temos um bom exemplo: estão reunidos para, arrogando-se mais Igreja do que dois mil anos de Igreja, atacar aqueles que tentam ser Igreja.

Segundo a nota, nossas equipes deveriam ser formadas para, cada vez mais, afastarem-se de toda e qualquer influência pré-conciliar. Como se já não bastasse as profundas modificações já sofridas nos livros litúrgicos. Defende, de modo sutil, que a liturgia pode ser adaptada (leia-se mutilada) ao público que a assiste, mas jamais pode adquirir o caráter solene e sacro que outrora nossos pais celebraram.

"Cabe às Equipes de Liturgia articular os esforços dos diversos ministérios
litúrgicos da comunidade, incluído o ministério da presidência, para que a Liturgia
seja vivida como momento fundante da fé e da identidade eclesial. Elas
cooperam, ainda, para que a celebração não se torne propriedade de ninguém,
mas permaneça claramente como ação de Cristo e da Igreja. Seu serviço se
distingue pela promoção de um estilo celebrativo fiel aos livros litúrgicos, atento à
índole, ao grau de formação, à cultura e à religiosidade do povo, evitando que as
celebrações se submetam a arbitrariedades pessoais ou a modelos estranhos à
reforma litúrgica e à eclesiologia conciliar, frequentemente difundidos de modo
acrítico nas mídias sociais."

O movimento conservador, ao menor litúrgico, se difundiu na internet especialmente após a luz que nos foi dada pelo Santo Padre, Papa Bento XVI, em sua "Reforma da Reforma." Aos poucos os livros tradicionais, os estudos aprofundados de vários elementos, como os movimentos arquitetônicos, o canto gregoriano, a polifonia sacra, e vários outros, são hoje parte do cotidiano de muitos de nós que buscam celebrar cada vez melhor, isto é, usando dos elementos que a Igreja, como Mãe e Mestra, nos ensinou e nos deu como instrumentos de santificação. 

"As Equipes de Liturgia podem tornar-se valiosas aliadas da
pastoral diocesana - cujo primeiro responsável é o bispo - contribuindo eficazmente
para prevenir interferências indevidas de práticas litúrgico-pastorais
desconectadas da realidade local e do projeto eclesial assumido pela Igreja."

Não precisa ser nenhum estudioso para entender o que se diz: não queremos que nenhum de vocês, com inclinações conservadoras, em qualquer grau, interfira na vida das nossas igrejas. Se há alguns parágrafos eles apelavam ao pontificado de Francisco, conhecido pelo acolhimento à diversidade (embora o conservadorismo também fosse excluído ali), nossos bispos defendem justamente que os conservadores não podem, de modo algum, interferir pois, como uma doença a ser combatida, somos profundamente prejudiciais para o projeto eclesial.

Ao passar então para uma defesa de um análise dos quatro principais documentos conciliares que culminam na reforma litúrgica. Criticam a ignorância desses mesmos documentos nos, já citados, grupos conservadores, ignorando eles mesmos que são os seus adeptos mais próximos que carecem de formação teológica sólida, em detrimento de uma formação sociológica que inverte a relação entre comunidade e Igreja, como é facilmente notar ao afirmarem que, somente após o Concílio Vaticano II "a Liturgia voltou a ser reconhecida como realidade constitutiva da Igreja e do próprio fundamento da sua fé, expressão viva do mistério celebrado, e não como simples ornamento ou elemento secundário da vida eclesial." Ignorando, portanto, total e completamente, a forma como era tratada a Liturgia.

Ornamento é, por definição, algo complementar ao essencial. Os brincos e colares são ornamentos da veste que cobre o corpo. Os cristais e quadros são ornamentos da casa que protege. Portanto, como pode um mero ornamento ter tomado tamanha proporção na vida da Igreja de tal modo que nada era tão difundido, incentivado, participado e tido como centro quanto a Santa Missa?

"A introdução de elementos pré-conciliares ou de criatividades individuais
desarticula a coerência da Liturgia e compromete o fluxo vivo da Tradição que os
livros litúrgicos, sob a legítima autoridade do Concílio, se propuseram a restaurar,
reconhecendo a celebração como a primeira e fundamental escola da fé. Tal
prática pode implicar na negação daquela Igreja-comunhão que a forma
simbólico-ritual é chamada a mediar e tornar visível por meio das palavras, dos
gestos, das preces, dos espaços, dos cantos e dos ministérios."

Talvez num deslize aqui o objetivo da nota se faz claro sem rodeios. Qualquer elemento tradicional não dialoga com a Igreja. Não há meio termo. Admite-se que a reforma total não só é absoluta como ainda está em caminhos de extinguir os resquícios que, inconscientemente, possam ter sido transmitidos. A Liturgia pré-conciliar é a lepra que deve ficar de fora da cidade que os bispos querem criar.

Numa nota em tom de superioridade afetada, o conservadorismo é, mais uma vez, ditado como o inimigo a ser derrotado. Como os fiéis não chegam a ler essas coisas, por falta de conhecimento ou estômago, após a Assembleia, nas formações litúrgicas seremos bombardeados com as orientações de nossos bispos, em defesa, mais uma vez, da autoridade episcopal que, existindo, se faz acima de qualquer crítica. E então, qualquer defesa da Fé em sua prístina transmissão tradicional, será posta como farisaísmo, contramão, retrocesso e qualquer outro adjetivo aos quais nossos formadores foram acostumados Que Deus tenha piedade da orfandade da Igreja no Brasil.

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Disponível em: https://www.asli.com.br/restrito/img/downloadss/6a5f352e94d507d267f0bc4b0788eab0.pdf

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