quinta-feira, 21 de maio de 2026

Aquecendo o inverno

Uma das coisas que considero mais interessantes na literatura universal é que cada obra condensa, ao seu modo, aquelas experiências que poderiam ser chamadas extremas: nela encontramos a mais prístina bondade ou mais abissal crueldade, a leviandade, a sensibilidade... Todo o que compõe o homem, aquilo que forma seu imaginário, e que em cada um de nós se encontra em diversas proporções, ali podemos também encontrar, conhecer e reconhecer as mais diferentes experiências humanas, de forma que, numa vida, podemos viver dezenas, ou até centenas, de outras vidas, de modo que cada um daqueles personagens, do mais vil, maquiavélico, inocente ou caridoso, passa a habitar também em nós, isto é, assim como nossa experiência real vai compondo quem somos, as experiências que temos por meio da arte também encontram lugar e passam a fazer parte de nosso ser. 

Há, por vezes, um grande choque de realidade. E aqui já me refiro a uma obra específica. Um jovem, que sempre viveu rejeitando a virulência fundamental de sua família, de repente encontra noutra casa, na simplicidade de uma pequena família que se refez, um calor que ele jamais conhecera. As noites não eram mais de tensão sobre o futuro violento moldado pelos laços de sangue, mas eram sorrisos e partilha das coisas boas de cada dia, de modo que aquele momento, que sempre pareceu uma tortura, se tornou tão agradável que o sabor daquela comida o emocionou, e ele se esforçou para não chorar. Essa cena de Lately, It's Winter Season me partiu o coração.

Suer trazia consigo uma fachada alta: seu alto desempenho no futebol, que ele gostava de fazer, era sua própria recompensa pelo alto desempenho nas disciplinas avançadas, exigido por sua família. O garoto bonito escondia na perfeição pública um repúdio por quem queriam que ele fosse, um mundo que ele sempre negou. Encontrou em Nao, o garoto falante do time de futebol, ciumento com o irmão e péssimo em tudo menos nos jogos, uma autenticidade até então desconhecida. Porque para ele tudo sempre fora mentira: a imagem de família bem sucedida que era usada para esconder os negócios violentos e ilegais da máfia tailandesa, bem como sua própria imagem que escondia essa verdade grotesca e servia, até para ele mesmo, como forma de convencimento de que ele podia ser diferente. A máscara que ele ostentava era, e sempre foi, a manifestação não de uma mentira, mas de algo que ele queria ter.

Mas então veio sua iniciação naquele mundo do qual ele sempre fugiu. O disparar da arma o manchou de sangue, um sangue que não era dele. Não era como o sangue da sua boca que aparecia quando brigava com os moleques da vizinhança de Nao. Não, esse era um sangue brutalmente quente. E em quem ele pensou quando finalmente saiu de lá? Naquele menino alegria, que falava palavrão e tinha pose de briguento, mas que adorava comer doces num café com as paredes pintadas de um rosa neon enjoativo.

Ele se lançou nos braços de Nao sem nenhuma máscara. Sem pose de bom menino e nem de aluno exemplar. Ainda sujo daquele sangue em seu pescoço e parte de seu rosto, ele deixou rolar pesadas lágrimas de desespero, arrependimento por um pecado que ele não queria cometer. Ele nunca chorara antes. E então, pediu perdão. Perdão ao Nao, que nem mesmo sabia o que podia ter acontecido, inocente que estava dormindo depois de jogar por várias horas. Mas ali, Nao era a bondade que ele ousara manchar, mesmo que obrigado. Nao era tudo aquilo que ele queria ser e que agora, maculado uma vez por todas, jamais seria. E então, ao implorar perdão, se alguém tão bom e puro lhe perdoasse, talvez ainda existisse alguma chance de redenção para ele. Talvez aquele abraço, quente, numa noite marcada pela frieza de uma execução, fosse o único refúgio possível para ele que percebera que não poderia mais viver ignorando aquela verdade, mas que precisaria ostentar de uma vez por todas uma máscara para esconder seu pecado. 

Tão jovem, bonito, e forçado a cometer uma atrocidade, e pior, acreditando ser culpado, e pedindo perdão como se ele tivesse puxado o gatilho por vontade própria, e não pela maldade dos outros. Era inverno, mas o abraço daquele garoto, na porta de um simples restaurante de comida caseira, era um raio de sol que aquecia tudo aquilo. 

Há um paralelo que achei particularmente interessante. Há uma espécie particular de dor em ser acolhido justamente quando nos sentimos menos dignos de acolhimento. Porque a bondade do outro deixa de ser conforto e passa a ser espelho. O que há de especialmente belo nessa cena é que ela reencontra uma das experiências espirituais mais antigas da literatura: o momento em que alguém, ao tocar a bondade verdadeira, finalmente percebe a própria ferida. Não a culpa no sentido jurídico, não a culpa racionalizada, mas a consciência dolorosa de ter sido arrancado de si mesmo. É exatamente aí que Dostoiévski aparece, não como influência estética direta, mas como presença humana fundamental.

Quando Raskólnikov se ajoelha diante de Sônia, o que ocorre não é apenas um pedido de perdão. Ele vê nela algo que já julgava impossível: uma pureza que continua existindo apesar da sordidez do mundo. Sônia, prostituída pela miséria, conserva intacta uma espécie de luz interior. E isso o destrói, porque a simples existência daquela bondade torna insuportável a permanência da máscara intelectual e moral que ele construiu para justificar seu crime. O perdão que ele busca nela não é absolvição social; é a esperança desesperada de que ainda exista um caminho de retorno ao humano.

É exatamente essa estrutura espiritual que reaparece em Suer e Nao. Nao não compreende o que aconteceu, mas isso torna a cena ainda mais poderosa: sua inocência não julga, apenas acolhe. Ele diz que vai ouvir Suer quando o outro estiver pronto pra isso, naquele momento ele oferecia seus braços. E justamente por isso o abraço se torna quase insuportável. Porque Suer já não está chorando apenas pelo ato cometido ou pela violência testemunhada; ele chora pela perda de uma possibilidade de si mesmo. O sangue em seu rosto não é apenas sangue físico: é a marca visível da entrada brutal num mundo ao qual ele jamais quis pertencer. Ao correr para Nao, ele busca aquilo que Dostoiévski compreendia tão bem: alguém diante de quem ainda seja possível existir sem cinismo.

Talvez seja por isso que certas obras contemporâneas nos atingem, me atingem, tanto quando são honestas. Não porque repitam a alta cultura, mas porque reencontram, sob novas formas, os mesmos dramas eternos da alma humana. A literatura russa do século XIX e uma série asiática recente podem parecer mundos completamente distintos, mas ambos tocam o mesmo centro: a necessidade humana de redenção, o medo de se tornar irreconhecível para si mesmo e a esperança de que o amor de alguém possa ainda salvar aquilo que restou.

Assim arte revela sua dignidade perene: quando nos faz perceber que, apesar da mudança das épocas, das linguagens e dos cenários, o coração humano continua sangrando pelas mesmas coisas. E de corações que sangram eu não só compreendo como também sangro o meu próprio.

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