A gente até tenta, mesmo depois de tudo.
Mesmo depois de tanto fracasso, dia após dia,
acordando e me vendo no espelho,
cada vez mais gordo
e mais inútil.
E aí, numa noite fria,
no meio do outono,
tento ver um filme,
comer um hamburguer,
e um pedaço de bolo.
Faço isso na esperança de conseguir
extrair alguma gota miserável
de alegria nesse corpo
mas é em vão.
Embora o filme continue ótimo,
e a comida também,
e a noite linda e silenciosa,
eu continuo vazio,
gordo e inútil.
Penso em voltar ao mundo,
voltar a trabalhar,
pois todos precisam trabalhar,
e só consigo pensar no inferno que foram aqueles meses,
com chefes imbecis e incompetentes,
e demandas e mais demandas,
cada vez mais ridículas,
e o peito apertado,
porque cada maldita manhã,
que eu chegava e sentava minha bunda
naquela cadeira giratória, numa mesa minúscula,
e ligava o computador,
bombardeado de mensagens idiotas,
e a vontade de simplesmente sumir daquele lugar.
Essa lembrança,
o peito apertado,
a ânsia que me vem como a ânsia de um cardíaco,
a vontade de chorar,
e de bater na cada de algumas pessoas,
tudo isso me apavora
paralisa
e então, mais de um ano depois
eu continuo aqui,
no quarto
tentando me curar,
mas sem acreditar que existe uma cura,
com medo
e me olhando no espelho,
me vendo cada vez mais gordo
e inútil.

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