quarta-feira, 27 de maio de 2026

E depois um banho

Se entregaram a uma tal modo que outros teriam os chamado de loucos, ou endemoniados. Mas a verdade é que eles apenas deram espaço a um desejo que os outros, mesmo os tendo em igual gênero e grau, não o dizem em voz alta. Jamais assumiriam que possuem esses desejos, embora os satisfaçam, mas escondidos do mundo e, não raro, escondidos até de si mesmos. 

Beijaram-se com a respiração entrecortada por longas horas de paixão, os lábios vermelhos e brilhantes daquela avulsão nívea, acompanhada de fortes arpejos do peito e do coração. 

Mas aqueles outros, os veriam apenas como devassos, loucos, endemoniados. Mas apenas escolheram não esconder os seus desejos, não mais profundos, agora apenas desejos. 

Observo, não sem inveja, por vários motivos. Seus corpos fortes e belos, os seus desejos satisfeitos, entregues como feras que se deleitam no sangue de suas presas, encontrando no sabor doce do que foi lançado no rosto daquele amante, os olhos ensandecidos, o sorriso de canto... 

Mas os meus desejos não mais existem. Ou talvez possa dizer que desejo ter um desejo? Essa palavra perdeu significado no meu vocabulário e no meu coração. Meu corpo não responde e nem reage. E então vejo aquele sorriso, entre beijos, respiração pesada e lábios desejosos daquele néctar que, lentamente, escorria do rosto luxurioso do amado. E até esse movimento do líquido parecia deliciosamente depravado.

Eles devem gostar de tomar banho depois, com o rosto ainda sorridente e sacana. Um começa a lavar o outro primeiro, espalha espuma pelas costas tatuadas, perfumando o banheiro, desce a mão e ensaboa também o saco, como massageando, de um jeito provocativo. E então lava o pau, percebendo que ele continua duro, e beija aqueles lábios vermelhos, antes de se virar e o outro fazer o mesmo.

O outro começa já pegando no pau, ficando atrás do parceiro, encostando o corpo em suas nádegas, redondinhas e convidativas, ensaboando suavemente e demorando mais do que o necessário. Depois pega a parte de trás das pernas, a bunda, as costas largas, e então o vira e o beija, e mais uma vez o pau, para dar sorte. Outro beijo, e um deles sai primeiro, se seca com uma toalha mas a deixa no box e sai pelado. Essa liberdade dos dois era incrível, nunca usavam roupas quando estavam juntos. E então o outro sai, depois de uma ducha um pouco mais quente.

Geralmente ainda é a calmaria do início da manhã, quando todos nos quarteirões ao redor saíram para trabalhar e os únicos barulhos são de alguma senhora estendendo roupas no varal. Eles pensam no que mais poderiam fazer enquanto preparam ovos, chá e torradas. Bem, ficar juntos já resolve a maior parte do problema, na verdade, resolve tudo,

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