(Fernando Pessoa)
Me sentia total e absolutamente sozinho, ainda que estivesse cheio de gente por ali. Andava de um lado a outro, sem saber o que fazer, sem saber para quem sorrir ou, sequer, quem cumprimentar. Alguns rostos conhecidos, aqui e acolá, mas ninguém de quem eu realmente quisesse me aproximar. Eu sei que eu não pertenço a esse lugar. Sei que eles são amigos, de verdade, mas que eu sou só um estranho, que aparece de vez em quando. Me identifico com o dito por Fernando Pessoa: “Nunca tive quem me amasse. As pessoas tiveram sempre pena de mim.” No meu caso nem mesmo isso, nada de pena. Um esquisito, alguém que apareceu, mas que não pertence, nem àquele lugar nem a lugar nenhum.
Fui chamado ali para ajudar com uma coisa, acabei indo mais cedo, talvez na débil esperança de sei lá o quê. Mas, no fim, não precisaram de mim. Sou apenas o amigo da necessidade, que recebe beijos e abraços, mas que não se lembram depois que acabam as obrigações. Ai não sentem nem mesmo pena. Não sabia se ficava ou ia embora, e acabei ficando. Parte de mim pensava que poderia ser uma chance de me aproximar daquele cara, o que tem o nome igual ao meu, mas a minha tentativa foi ridícula.
Tinha uma visão panorâmica, onde costumo ficar para tirar fotos desses eventos, mas eu não era o fotógrafo daquele dia. Fiquei ali observando os jovens sentados em grandes mesas circulares, conversando, rindo e sorrindo, tirando fotos e mexendo no celular. As vozes abafadas pelo prédio com um pé direito alto não me deixavam entender nada, mas ainda assim a massa sonora indicava, entre outras coisas, um afeto crescente de pessoas que, se conhecendo melhor ali, faziam novos laços. Muitos se abraçavam, sorriam em cumprimentos alegres e íntimos, nomes ditos com carinho, aquele tom próprio dos jovens, jocoso ou irônico, mas que guarda o desejo da permanência daquela amizade. Muitos passaram por mim como se eu não estivesse ali, e talvez não estivesse mesmo. Às vezes duvido de minha própria presença. Talvez eu sequer ocupe verdadeiramente um lugar no mundo.
Fiquei olhando aquele pessoal como quem observa um aquário: tudo iluminado, vivo, cheio de movimento, enquanto eu permanecia do lado de fora do vidro. E o pior é que nem posso culpá-los. As pessoas se aproximam de quem é leve, engraçado, espontâneo. Eu não. Eu chego carregando um silêncio pesado demais, desses que estragam a temperatura do ambiente sem precisar dizer uma palavra. Talvez eu tenha transformado introspecção numa espécie de vaidade triste, como se sofrer calado me tornasse mais profundo do que os outros, quando na verdade só me torna mais distante. Enquanto eles aprendiam naturalmente a pertencer uns aos outros, eu analisava cada gesto, cada risada, cada aproximação, como um antropólogo cansado estudando uma tribo da qual secretamente gostaria de fazer parte.
Devia ter ido embora. O lugar estava cheio e eu não queria ficar ali no meio, não faria sentido algum, então fiquei do lado de fora, onde estava frio. Foi Cioran que disse: “Não é a solidão que pesa sobre mim, mas a incapacidade de suportar qualquer companhia.”
Hoje, que preciso cantar, percebo que ficar no vento frio foi uma péssima ideia.
O que eu esperava? Cativar o rapaz com minha personalidade incrível e, na primeira conversa, fazer um amigo e logo conseguir evoluir? Eu mesmo reconheço o quanto sou patético!
Me lembro da última vez que deixei me levar por sentimentos. Idiota! E ele pisou como se não fosse nada, e continuou andando sem olhar pra trás. Até hoje, sabendo o impacto que isso teve em mim, ele não deu nenhuma importância.
Hoje eu tenho horror ao amor. Prefiro o sexo desconhecido, silencioso, sem que precise saber sequer o nome do parceiro, ao invés desse sentimento horrendo em que, entregando o coração inteiro, recebe apenas a poeira dos pés desse amado. Sinto raiva, espuma nos lábios, e uma revolta com isso, mas de que adiantaria reclamar?
Acho que minha irmã achou uma nova namorada. Em quatro anos aqui ela terminou um namoro, casou, e toda semana aparece com novos amigos. Claro, todos de caráter questionável e duvidoso. Tenho o hábito de não confiar em pessoas que defendem facções criminosas. Mas ela fez amigos.
Tudo que faço é observar as amizades, os amigos que saem juntos, e raramente estou com eles.
Depois de tantos anos de estudo, ainda sinto falta de amizade, ainda sofro com a solidão e me sinto péssimo por um traço tão imaturo, pois, se depois de tanto aprendizado, ainda estou preso a algo como a companhia medíocre, significa que não aprendi de fato nada tão substancial assim e que continuo sendo apenas um moleque que se recusou a crescer. Um bichinho assustado com o mundo.
(Dostoiévski)

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