Hoje acordei perto das duas da tarde e fiquei olhando para o teto por quase uma hora, como se alguma rachadura ali pudesse finalmente me explicar alguma coisa.
jogando no ar uma mistura de hortelã pimenta e lavanda,
e eu pensei que ele parecia mais vivo do que eu.
roupas amontoadas numa pilha na cama,
uma espécie de mapa da minha própria desistência.
Só comum.
A decadência em sua forma pura.
Já havia um tempo, algumas semanas apenas, que eu não abusava tanto dos remédios. Mas, nos últimos dias, ainda que não tenha sentido nenhuma daquelas obscuras trevas desesperadoras, que me fazem querer fugir para um abismo profundo do sono, venho me refugiando nesse mundo, simplesmente pela completa falta de perspectiva nesse mundo desperto.
nem para esquecer, mas só para criar uma névoa
entre mim e o mundo.
As pessoas falam muito sobre sobreviver, sobre lutar, sobre esperança, mas ninguém menciona o cansaço humilhante de precisar reunir forças para responder mensagens ou abrir uma janela. Existe algo profundamente degradante em perceber que a própria vida vai encolhendo até caber inteira entre o colchão, o banheiro e a cozinha.
E então aparecem esses pequenos lampejos ridículos de humanidade. Um cheiro vindo da rua. Um cachorro dormindo tranquilo numa calçada. Uma música qualquer tocando baixo em algum apartamento vizinho. Coisas pequenas o suficiente para não exigirem nada de mim. Talvez seja isso que ainda me mantém aqui. Não grandes sonhos, não ambições, nem essa conversa de “propósito”. Só esses acidentes mínimos que aparecem no meio da sujeira.
Queria voltar a ler, mas os livros já acumulam uma grossa camada de poeira, mesmo os que estão na minha cama, ao alcance das mãos. Sinto que estou perdendo muita coisa. Queria conseguir, ao invés de dormir, ler o dia todo, pelo menos poderia dizer que a depressão me ajudou em algo.
então tomo os comprimidos.
não para morrer,
nem exatamente para dormir.
tomo para criar distância.
Não consigo tentar de novo. ler alguma coisa. abrir um livro grosso, sublinhar frases, voltar a acreditar que a inteligência salva alguém. mas o corpo pesa. o corpo pesa como se tivesse atravessado guerras que nunca aconteceram de fato. Há dias em que escovar os dentes parece um ato de heroísmo. Ontem consegui lavar o cabelo e fazer a barba, a pele já cheia de feridas, foi uma pequena vitória, particular. Ninguém ficou sabendo e, se soubesse, não importaria. E ainda assim, de algum modo absurdo, há luz em algum lugar. não uma grande luz. não essas iluminações épicas que as pessoas contam nos filmes.
É menor do que isso.
E não é para mim.
Como falar então em ler quando, até mesmo escrever que sempre me foi tão natural, se torna penoso a ponto de esquecer completamente o que queria dizer ao ver a página em branco?
Já disse, preciso voltar a trabalhar, mas essa ideia ainda me assusta. Ainda me lembro dos abusos que sofri nas mãos daqueles idiotas, e a perspectiva de outra experiência parecida me enoja, me enoja profundamente.
A verdade é que eu ainda sinto fome. Não de comida, embora às vezes também. É outra coisa. Uma fome antiga, quase infantil, de encontrar algum lugar onde eu pudesse baixar a guarda sem medo.
onde eu pudesse finalmente baixar a guarda.
Sentar em silêncio sem precisar parecer forte,
interessante ou curado.
Um lugar onde ninguém transformasse fragilidade em munição.
Mas a vida adulta parece feita justamente do contrário: pessoas feridas competindo para ver quem consegue machucar primeiro.
mas a cidade inteira parece feita de gente ferida
tentando morder primeiro.
então a noite chega
e eu rio sozinho, baixo, quase sem som,
lembrando de todas as vezes
em que pensei:
não vou conseguir atravessar isso.
e atravessei.
mal, torto, dopado, atrasado,
mas atravessei.
e talvez seja só isso a vida:
um homem exausto caminhando por quartos escuros,
tentando proteger
o pequeno pássaro azul
que ainda insiste em sobreviver dentro dele.
Dormir ainda é a coisa mais próxima que conheço de ser acolhido.

Nenhum comentário:
Postar um comentário