Nossa Senhora é um dos orgulhos de nosso Brasil: tanto pela devoção à padroeira de nossa nação, sob o título de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, generalíssima do Exército Brasileiro e padroeira de Brasília, cujo santuário basílica atrai fiéis de toda parte do país e de todo o mundo, para pedir e agradecer, quanto pelo igualmente grandioso Círio de Nazaré, que reúne mais de 2 milhões de fiéis, segundo dados da Polícia Civil e do próprio portal do santuário. Outros títulos despertam grande devoção entre nosso povo: Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora do Carmo e tantos outros dão nome a incontáveis paróquias, e um conhecido hino resume tanto carinho: "Roga por nós, ó Mãe tão pia! Eis-nos aqui para te louvar. Piedosa virgem, ó Maria, para te pedir e suplicar."
No entanto, como era de se esperar, a ocasião também entristece pela quantidade de abusos litúrgicos, que levam muitos fiéis a confundir os atos de devoção com a liberdade para toda e qualquer ação durante as celebrações. As penitências do povo de Deus, expressas pelos fiéis que se ajoelham nas escadarias, carregam imagens, velas e outros símbolos das graças recebidas, são expressão de fé autêntica e salutar. Mas, em outros lugares, as lideranças de nossas paróquias encontram grande dificuldade em honrar a Mãe do povo fiel de modo correto. Digo “correto”, pois seria errôneo dizer “indigno”, quando muitos o fazem com a melhor das intenções.
O problema surge da falta de formação. Seja entre as lideranças, seja entre membros do clero, enxergamos uma deficiência latente.
Não se trata de uma exigência secundária, tampouco de um preciosismo reservado a especialistas. O Concílio Vaticano II, na constituição Sacrosanctum Concilium, ensinou que a participação plena, consciente e ativa dos fiéis na liturgia pertence à própria natureza das celebrações (n. 14). Para isso, determinou que os pastores se empenhassem na formação litúrgica do povo cristão, com diligência e paciência (n. 19). O mesmo documento distingue claramente a liturgia das práticas de piedade popular: estas são recomendadas, mas devem harmonizar-se com a ação litúrgica e conduzir os fiéis a ela, pois a liturgia, por sua natureza, lhes é superior (n. 13). A devoção, por mais antiga e comovente que seja, não autoriza que se confundam seus gestos próprios com os ritos da Igreja.
São João Paulo II voltou a advertir, na encíclica Ecclesia de Eucharistia, que a celebração eucarística não é propriedade particular do sacerdote nem da comunidade que a realiza (n. 52). Não cabe, portanto, a cada paróquia reinventar a Missa segundo suas preferências, como se as normas litúrgicas constituíssem obstáculos à criatividade. Mais recentemente, o Papa Francisco, na carta apostólica Desiderio desideravi (2022), dedicou especial atenção à necessidade da formação litúrgica, distinguindo a formação para a liturgia daquela que acontece pela própria experiência da celebração (nn. 34–47). A formação não pode limitar-se ao aprendizado de rubricas, mas também não pode dispensá-las: os gestos, os sinais, o silêncio e as palavras da liturgia possuem uma linguagem própria, recebida da tradição da Igreja, que precisa ser conhecida para ser verdadeiramente vivida.
Essa formação também está relacionada à maneira como os fiéis acolhem os frutos espirituais dos sacramentos e sacramentais. Os sacramentos conferem a graça de Cristo pela ação sacramental, embora seus frutos em cada pessoa estejam relacionados às disposições com que são recebidos; os sacramentais, por sua vez, não conferem a graça da mesma maneira, mas, pela oração da Igreja, preparam para recebê-la e dispõem a cooperar com ela (Catecismo da Igreja Católica, nn. 1128 e 1670). Formar liturgicamente uma comunidade é ajudá-la a reconhecer aquilo que recebe e a participar com maior consciência e fruto. Não é a abundância de enfeites, o volume da música ou a grandiosidade de uma apresentação que torna uma celebração espiritualmente fecunda.
Mas infelizmente o que vemos, e em dias como esses a internet se enche de manifestações desse tipo, são verdadeiros shows de estilo teatral e circense, quando não carnavalescos.
Em minha própria paróquia, uma de nossas comunidades realizou uma encenação do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida no rio. Encenação bem feita, preparada com carinho e atenção aos detalhes: o barco, as vestes dos pescadores e até as redes de pesca, mas que não caberia de modo algum durante a missa e, penso, nem diante do altar. Outra comunidade criou uma estrutura para acolher a imagem que incluía um grande arco e canhões de luz que acompanharam as crianças que entraram dançando para a coroação, num espetáculo nada menos do que carnavalesco, com direito inclusive a tiros de confete.
Aqui é necessário recordar o princípio da “nobre simplicidade”, estabelecido pela Sacrosanctum Concilium (n. 34): os ritos devem resplandecer pela clareza e sobriedade, sem acréscimos desnecessários. O próprio espaço litúrgico possui uma hierarquia de sinais que não pode ser ignorada. A Instrução Geral do Missal Romano determina que o presbitério se distinga do restante da igreja (n. 295) e reconhece no altar o centro da ação de graças eucarística (n. 296), estabelecendo ainda critérios de sobriedade para sua ornamentação e para os objetos nele colocados (nn. 305–306). O altar não é cenário, nem o presbitério uma extensão do salão paroquial. Quando encenações, coreografias, efeitos luminosos e adereços disputam com ele a atenção dos fiéis, corre-se o risco de inverter a ordem dos sinais sagrados. O Concílio também estabelece que ninguém, nem mesmo o sacerdote, pode por iniciativa própria acrescentar, retirar ou modificar elementos da liturgia (SC, n. 22, §3). É perfeitamente possível promover belas representações da história de Nossa Senhora Aparecida ou coroações cuidadosamente preparadas; a questão é reconhecer que nem toda expressão de fé, por mais bem-intencionada que seja, tem lugar dentro da ação litúrgica. E que a dignidade do espaço sagrado continua a merecer respeito mesmo fora dela.
As crianças não têm culpa. As coordenações, sim, já que parecem priorizar sempre o show ao invés de uma devoção que encontra seu lugar no coração do povo: os Arautos do Evangelho, que cuidam de um santuário nessa cidade, sempre realizam a coroação acompanhada de hinos tradicionais, mas de forma sóbria e solene: Nossa Senhora é levada num andor em um estilo quase militar, mas não há excesso de crianças vestidas de anjinho unicamente para as mães verem; a coisa é levada a sério.
Em nossas paróquias, se o objetivo é promover demonstrações de uma fé sentimentalista, deveriam encontrar lugar em outros momentos ou espaços, como à frente da igreja, num salão ou algo do tipo, acompanhadas, por exemplo, de uma cantata feita pelas próprias crianças, seguida de uma confraternização. É apenas uma sugestão, mas aponta para algo mais profundo: nossas paróquias precisam encontrar maneiras de expressar suas homenagens de modo sóbrio nas celebrações ou fora delas. O mesmo vale para homenagens como o Dia das Mães e o Dia dos Pais: o presbitério sempre se torna palco, enquanto a mesma apresentação, seguida de confraternização no salão paroquial, seria mais adequada.
O problema, afinal, não é a alegria do povo, nem sua necessidade de manifestar publicamente a fé. O problema começa quando se toma a intensidade da emoção como medida da qualidade de uma celebração. Uma comunidade pode emocionar-se profundamente e, ainda assim, desconhecer o sentido dos ritos que celebra. Pode organizar uma apresentação impecável, mobilizar dezenas de voluntários, arrancar lágrimas da assembleia e continuar oferecendo uma formação litúrgica miserável. É uma contradição que deveria inquietar, sobretudo, aqueles que possuem a responsabilidade de conduzir e formar o povo de Deus.
Olavo de Carvalho faz comentários interessantes em uma de suas aulas acerca desse tema. Ele recorda de um aluno (ou ex-aluno), que o escreveu dizendo que foi a um encontro de uma comunidade religiosa, um encontro em que tinha milhares de pessoas e que apareceu lá um padre e que só pela presença todos sabiam que era um santo. A resposta do professor foi "olha, pense bem essa frase: identificar um santo pela presença é um dom angélico. Ninguém tem esse dom. Ninguém pode conhecer um santo pela simples presença. Ninguém. E, se você estudar as vidas dos santos e a vida do próprio Jesus Cristo, verá que a presença de nenhum deles era muito impressionante."
A própria Bíblia diz que Jesus Cristo não tinha encantos mas, ao contrário, na cruz sequer tinha aparência humana. E, se a presença dele, se a simples presença mostrasse santidade, todo mundo teria se convertido e não somente aqueles poucos. O próprio Jesus não tinha isso, se sabia e se confirmava a missão de Jesus pelos seus milagres e ele fazia os milagres exatamente por causa disso. Ele diria: "Olhando para mim, vocês não vão acreditar no que eu estou fazendo, mas veja o que eu estou fazendo."
Naquele quando perguntam: "Quem é você? Você é o Messias que estamos esperando ou devemos esperar outro?" Ele diz "é o João Batista que está perguntando isso, digam a João o que vocês viram e ouviram. Vocês viram o paralítico andar, viram o cego enxergar. Em suma, pelos seus frutos os conhecereis. Daí, o rapaz dizia: "Não, pela pregação, todo mundo chorou." Se você quer saber o que é uma pregação de um santo: São Vicente Ferrer fez uma pregação em Paris durante sessenta dias e sessenta noites sem parar para comer, dormir ou ir ao banheiro. Isto é um santo. Agora, porque o sujeito falou bonito e fez você chorar, é um santo?
Então, o mundo hoje está cheio dessas organizações que preparam encenações coletivas para emocionar as pessoas, para fazer o homem de classe média chorar, e as pessoas ficam arrebatadas por isso. E elas não percebem que isso é uma caricatura grotesca, monstruosa da religião. O Pe. Pio jamais impressionou ninguém pela sua presença. Você olha o retrato do Pe. Pio e diz: "não me impressionei nada, ele parece o homem da padaria". O fato é que se você chegar para confessar com ele, não precisa confessar, ele dirá que os seus pecados são este, este e este. Isso não para uma pessoa, mas para milhares, inclusive seu próprio.

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