Tenho sentido falta dos amigos.
De vez em quando, de quando em vez, me surge algo que chama a atenção, em meio a apatia de alguns episódios depressivos. São raros. Lampejos de luz.
Isso porque, nesses dias, é tudo escuridão. Silêncio e escuridão. Não é exatamente tristeza, porque isso já seria alguma coisa. É mais como se nada tivesse graça. Aos poucos tudo vai ficando assim, sem graça, vazio, sem contorno.
Por fora, parece desinteresse, ou ingratidão. E uma vez mais eu vejo as pessoas se afastando. Porque eu não consigo ser como elas. Eu não consigo sair quando elas querem. Não fico feliz com as mesmas coisas. Outros pensam que eu estou com preguiça, ou irritado.
E não descanso.
E só percebo que ela não me tocou mais, quando ela acabou.
E as coisas não fluem, e isso é uma das que mais machucam.
É como se a vida, de todos, continuasse, mas eu não consigo alcançar.
Me lembro das coisas que aprendi com a terapia no último ano, em tratamento no CAPS. No transtorno bipolar, especialmente em fases depressivas, isso pode acontecer porque o cérebro reduz a resposta ao prazer, à motivação e ao interesse. Ou seja: Não é que nada presta, é que naquele momento, o sistema emocional não está conseguindo registrar as coisas do mesmo jeito. E esse detalhe muda tudo porque quando você entende isso, você para de se atacar por “não aproveitar a vida”… e começa a agir com estratégia. O que costuma ajudar nesses momentos: Reduzir a meta do dia; Criar pequenos momentos; Manter algum contato com o mundo; Não esperar vontade para começar; Proteger sono e rotina; Repetir pequenas ações até o prazer reaparecer.
Na depressão bipolar, a vontade nem sempre vem antes. Muitas vezes ela volta depois da ação consistente. E então eu insisto naquela série que lembro que me fez bem quando vi. Naquele sorriso, naquela história.
Mas, isso foi o que aprendi. Ou talvez não tenha aprendido, porque ainda não consigo fazer assim. A vida parece continuar, mas não pra mim. As coisas perdem a cor, tudo que resta é a sensação do suor na minha cama. Sei que devia tomar um banho. Mandar alguma mensagem. Abrir a janela e deixar o ar do outono renovar um pouco aquele peso úmido do verão.
Eu sinto saudades das pessoas, dos amigos, é verdade. Não é que elas parecem sem graça, eu é que não consigo acompanhar. E então o silêncio delas, machuca. Mas eu não consigo responder, não consigo... Me conectar. Nada parece valer o esforço. Mas eu sinto falta dos amigos. Sair dá trabalho. Me arrumar dá trabalho. Qualquer coisa se torna difícil demais. Mas eu sinto falta dos amigos.
Quanto mais esses episódios duram, mais eu me afasto de tudo e todos. Os dias em casa se multiplicam. Um fim de semana. Uma semana. Duas. Um mês. E então já faz um ano que saí do emprego. De repente não tem mais pizza depois da missa, e depois nem mais aquela conversa depois da missa. As mensagens diminuem. Os grupos se calam. Mas só pra mim.
E eu sigo sentindo falta dos amigos.
E, ainda assim, maybe they just don't give a damn...
“Você acha que sua dor e seu coração partido não têm precedentes na história do mundo, mas então você lê. Foram os livros que me ensinaram que as coisas que mais me atormentavam eram as mesmas coisas que me conectavam com todas as pessoas que estavam vivas, que já tinham estado vivas.” (James Baldwin)

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