quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Nenhuma promessa

Realmente ontem foi dia de completa escuridão. Nos poucos momentos em que estive acordado, obviamente contra minha vontade, eu só sentia o peso de um animal raivoso no meu peito. Me imaginei jogando coisas no chão, em completo descontrole. Algo daquela potencialidade esquizofrênica habita meus pensamentos profundos.

Sabia que ia acordar hoje melhor, mas não quero ter que ficar perto das pessoas, pelo contrário, queria poder até mesmo cancelar os compromissos dos próprios dias e desaparecer. Não que eu esteja "aparecendo" muito. O único lugar que tenho ido é a igreja e, bem, basta olhar como se celebra por aqui para entender porque não tenho muita vontade de ir lá. Na verdade, não tenho vontade de nada. Queria só voltar pra cama e ficar lá, até enfim…  

Há lágrimas entaladas na minha gargante, e nada faz com que elas desapareçam. Penso que não vou segurar por muito mais tempo. Sinto que vou chorar numa cena, com uma música, enfim. 

Foi mais um dia em que me escondi, suportando o calor que já se anuncia com o início do verão nesse domingo. Eu odeio o verão, com todas aquelas pessoas suadas o tempo todo, e odeio porque tudo me deixa suado, o mínimo esforço já é demais. 

O mínimo esforço já demais. Vou precisar me esforçar pra conseguir ir à Missa amanhã, e mais ainda pra cantar, e ainda mais pra ver mais pessoas no ensaio da tarde. E ainda tem as missas de Natal, mais e mais pessoas. Eu não queria ver ninguém. 

x

Queria ter ficado mais tempo e assistido. Mas meu corpo absorveu o energético como se não fosse nada e eu fui dormir. Ele também rejeitava a ideia de passar mais tempo acordado. Caminhei como um zumbi e, embora estivesse fresco à noite, quando acordei estava banhado em suor. 

Droga.

O corpo sempre vence. Ele não debate, não faz concessões, não respeita entusiasmo. Só executa a sentença. Quanto mais você tenta enganá-lo, mais ele se vinga depois.

Hoje tentei dormir, à base de remédios, e fiquei com muito sono, é verdade, mas o barulho não deixou. Portas batendo, gritos e choro de criança. Um inferno do outro lado da porta, e eu pingando suor no meu maldito quarto que pega sol durante toda a manhã.

O inferno não precisa de fogo. Ele funciona muito bem com paredes finas e gente convencida de que o mundo é uma extensão da própria sala. Não existe direito ao silêncio, só a obrigação de aguentar. Dormir virou um luxo. Descansar, um privilégio indevido.

É Réveillon, e meus únicos planos são assistir, à meia-noite fumar um cigarro, talvez fazer pipoca. Já vejo todos animados, com conjuntinhos de peças brancas e, ao festejar, um sentimento que eu desprezo: esperança! Todos idiotas cheios de esperança. Estou com uma bermuda e faz calor demais pra usar camisa.

A esperança é o último delírio coletivo antes da realidade cobrar de novo. Vestem branco como se isso lavasse alguma coisa além da própria consciência. Prometem mudança porque é mais fácil prometer do que admitir que não vão a lugar nenhum.

À meia-noite vão gritar, se abraçar, fingir que algo recomeça, amanhã acordam iguais, só um pouco mais velhos e com menos paciência. Eu realmente não queria ter chegado ao fim desse ano, e nem começar outro "ciclo" maldito. 

Eu fico com o cigarro. Ele não promete nada.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Novas narrativas

Gosto de novas perspectivas, histórias contadas de um modo novo que, além de trazer um novo frescor, por assim dizer, conseguem enriquecer ainda mais o meu imaginário. É para isso que tenho acompanhado tantas séries esses anos todos, e agora eu entendo: não é porque simplesmente me agrada o gênero BL, mas porque eu sabia que, na forma diferente de se contar aquelas histórias, havia um tesourou que, em algum momento, eu ia descobrir. Weil dizia que a atenção verdadeira é uma forma de amor. E tem sido assim.

Hoje percebo que não se trata apenas de preferência por um gênero específico, mas de algo mais profundo: uma formação do imaginário, um lento cultivo interior feito de imagens, gestos e silêncios que passam a habitar a memória e a sensibilidade. Roger Scruton fala da arte como algo que nos ensina a atentar, não a consumir estímulos. Essas narrativas não ficam na superfície do gosto; elas moldam o modo como se olha, como se espera, como se deseja.

Talvez porque o imaginário não seja um luxo, mas um órgão da alma. Aquilo que não é alimentado por imagens densas, narrativas bem construídas e conflitos verdadeiros acaba atrofiando. Bachelard dizia que o imaginário não é fantasia escapista, mas uma potência formadora da alma. As imagens que habitamos moldam nossa sensibilidade, nosso ritmo interno, nosso modo de desejar. Não pensamos apenas com conceitos: pensamos com cenas, gestos, rostos, silêncios. E toda obra que amplia esse repertório não nos distrai, nos educa interiormente.

Embora pouco comentada pelos fãs, Melody of Secrets tem sido uma grata surpresa para mim, tão interessante quanto o nome que tem. Force Jitcharapong e Book Kasidet são como velhos conhecidos. Me lembro da primeira série deles, Enchanté, que muitos consideraram não um fracasso, mas uma decepção. Mas isso só porque ela já estava gravada e foi lançada após um dos maiores sucessos da produtora que, mesmo apostando alto, não esperava um sucesso tão grande. Mas Enchanté tem aquele charme romântico e leve que a torna especial. 

Existe um erro recorrente na recepção cultural contemporânea: confundir valor com impacto imediato. Algumas obras não nascem para o estrondo, mas para a sedimentação lenta. Elas não nos arrebatam, mas permanecem. E aquilo que permanece costuma agir em profundidade, quase sem alarde.

Depois disso ele finalmente tiveram algo como uma segunda chance em A Boss and a Babe, mostrando que realmente tinham muita química e bom timing para a comédia. Na visão geral estavam redimidos. No entanto tinha ainda outro desafio pela frente: Only Friends. Com uma narrativa relativamente mais séria, próxima do estilo colegial americano, a série foi um sucesso estrondoso, mas também contava com elenco de peso e o diferencial de um tom completamente distinto. E é exatamente esse o ponto em que queria chegar: agora eles são a aposta, mais uma vez, para uma nova forma narrativa em Melody of Secrets. 

Com uma história mais séria, acompanhamos um Book que perdeu sua memória dez anos atrás e um Force que surge dizendo ser seu namorado que, por conta da perda de memória do outro, não conseguiu contato por todo essa tempo, já que seu relacionamento era secreto. A perda de memória, aqui, não é apenas um dispositivo narrativo, mas uma condição existencial: quem somos quando nossa história nos é retirada? O que permanece quando as justificativas desaparecem? Grandes narrativas sempre orbitam esse tipo de pergunta, mesmo quando não a formulam explicitamente.

Sem querer enxergar também simbolismos em cada pequena cena, ou várias e várias camadas de interpretação, a série em si já traz na sua superfície o suficiente para atrair um espectador atento por boas histórias. A narrativa é seca, quase crua, e talvez seja justamente aí que resida sua beleza. Ela exige do espectador não uma reação imediata, mas uma educação do olhar: aprender a sustentar o silêncio, a ausência de explicações, a frieza que não é desamor, mas contenção. 

Ver Melody of Secrets é aceitar que nem tudo se oferece de imediato — algumas coisas pedem tempo, atenção e permanência. Conserva as cores das produções da GMM TV: paisagens bonitas, ensolaradas, como se cada locação fosse perfeita para um momento de casal. Mas os personagens seguem uma espécie de diálogo permanente, mesmo em silêncio ou trocando ofensas, ou beijos, já que eles se aproximam bem rápido, o que também é um sinal diferente.

Há narrativas que confiam demais no excesso de explicação e outras que confiam no silêncio. As segundas tendem a respeitar mais o espectador. Elas pressupõem um olhar que não consome passivamente, mas participa, completa, interpreta. 

Alguns anos atrás estávamos acostumados com as séries universitárias/colegiais, que tiveram nomes de muito peso, como SOTUS, Love By Chance, My Engineer, Love Mechanics e mais uma longa lista. Elas também seguiam uma fórmula onde os protagonistas geralmente se conheciam, passavam por algum tipo de conflito e, depois de um tempo, se aproximavam aceitando seus sentimentos. Cenas de sexo ou até mesmo beijo eram raras e mais poéticas. Aqui elas ainda conservam sua poesia visual, mas não são mais um tabu que só é apresentado ao fim de uma jornada. E estamos falando também de dois atores que estão crescendo em sua carreira, e que alimentam uma amizade de mais de quinze anos justificando a naturalidade deles em cena. 

Nesse sentido, a série deixa de ser apenas entretenimento e se transforma numa experiência estética formativa. Não há aqui a pressa da identificação fácil ou da catarse rápida; há um percurso. A obra acontece no espectador à medida que ele se dispõe a acompanhá-la, formando não apenas expectativas narrativas, mas uma certa postura interior diante da dor, da memória e do afeto.

Isso aponta para uma mudança mais ampla: não apenas no que se mostra, mas em como se mostra. A maturidade narrativa não está em chocar, mas em integrar. Integrar desejo, afeto, conflito e consequência. Quando isso acontece, a obra deixa de ser escapismo e se aproxima da vida, não da vida idealizada, mas da vida tal como pode ser sentida.

O resultado em Melody os Secrets é justamente uma série com uma pegada fria, poética em alguns sentidos, em que as coisas nos vão sendo reveladas à medida que o próprio protagonista vai tomando conhecimento delas. Personagens maduros, com conflitos sérios que não pedem soluções imediatas. A narrativa cria um espaço simbólico de elaboração psicológica, onde o que dói não precisa ser resolvido de imediato, apenas reconhecido. O silêncio, os diálogos truncados, os gestos ambíguos funcionam como zonas de suspensão, lugares onde o espectador também pode elaborar, junto com o protagonista, aquilo que permanece em aberto.

Poderia até explorar algum simbolismo em outro momento, mas agora julgo desnecessário. Não temos aquele ritmo acelerado dos adolescentes e nem tampouco melancolia em demasia, deixando o clima pesado, em resumo é basicamente uma história mais séria, numa pegada até fria, é verdade, mas ainda bela o suficiente para ser encantadora.

Talvez seja por isso que acompanhar essas séries ao longo dos anos tenha se revelado algo mais do que hábito ou preferência estética. Há nelas uma verdadeira ampliação do horizonte existencial: outras formas de amar, de sofrer, de esperar se tornam pensáveis. Não como modelos a serem imitados, mas como possibilidades que deslocam suavemente nossas certezas.

Talvez seja justamente aí que resida seu maior mérito: ao invés de inflamar emoções passageiras, a série constrói um espaço interior. E quando uma obra cria espaço, para pensar, sentir, lembrar, ela cumpre uma função que vai além do gosto pessoal. Ela amplia o horizonte do possível. Ensina-nos, ainda que silenciosamente, a perceber melhor a nós mesmos.

Em tempos de consumo acelerado de imagens, Melody of Secrets convida a uma recepção estética ética, feita de atenção e paciência. Não exige adesão imediata nem recompensa rápida; oferece, em vez disso, uma permanência silenciosa. Ao final, não saímos confortados, mas um pouco mais atentos, e talvez seja essa a forma mais discreta e honesta de enriquecimento pessoal que uma obra pode oferecer.

No fundo, toda obra que realmente permanece não o faz por aquilo que conta, mas pelo modo como reorganiza a sensibilidade de quem a recebe. A formação do imaginário não acontece por acúmulo de informações, mas por convivência prolongada com imagens, ritmos e conflitos que passam a operar interiormente, muitas vezes sem que se perceba. Nesse sentido, a experiência estética não é fuga da realidade, mas um modo indireto e profundamente humano de educação ética e psicológica: aprendemos a nomear afetos, a sustentar ambiguidades, a reconhecer limites e desejos por meio de narrativas que nos oferecem um espaço simbólico seguro para elaborar aquilo que, na vida cotidiana, surge de forma bruta ou desordenada. Quando uma obra exige atenção, silêncio e permanência, ela não está sendo fria, está nos ensinando a ver melhor, a sentir com mais precisão, e, sobretudo, a habitar o mundo com um pouco mais de consciência.

sábado, 27 de dezembro de 2025

O Salto e o Silêncio



“Alcançar o vazio supremo
é guardar o repouso verdadeiro.”

(Tao Te Ching)

Me lembro da primeira vez em que assisti O Tigre e o Dragão (2000) de Ang Lee, e fiquei absolutamente fascinado com aquelas lutas acrobáticas, com a leveza e, ao mesmo tempo, letalidade das técnicas. Era uma criança deslumbrada com esses poderes, encantado com essa combinação de força e graciosidade. Hoje, mais velho, continuo tendo esse como um de meus filmes favoritos, ainda me deslumbro com as cenas e sonho com um mundo onde lutar daquele jeito fosse possível, mas agora também consigo identificar alguns detalhes que só ficam claro quando o se conhece algo do ponto de vista literário e filosófico da coisa. 

Uma das minhas incompreensões da época era sobre a lendária espada "Destino Verde", pois eu pensava que ela concedia poderes ao seu usuário. E mesmo revendo percebo que pode parecer isso... Mas não. Ao menos não no sentido "mágico" que temos na literatura fantástica do ocidente. 

A obra é ambientada num universo Wuxia, um gênero tradicional da cultura chinesa que mistura artes marciais, ética, poesia e fantasia, centrado em heróis errantes que lutam por justiça, honra e retidão, muitas vezes à margem das autoridades. Alguns dos elementos essenciais desse estilo incluem uma sociedade paralela de mestres marciais, seitas e clãs. Um estrito código de honra de lealdade, sacrifício e o valor da palavra. As cenas de ação são de estilizadas, com movimentos quase sobrenaturais como voar, correr sobre a água, se apoiar em finos galhos. Armas simbólicas, espadas que refletem o caráter do portador, e é sobre isso que vou tratar logo mais e, a relação entre destino e tragédia: o herói quase nunca vence sem perder algo.

Nesse, armas lendárias carregam prestígio, história, simbolismo e uma qualidade técnica tão perfeita que o portador se torna mais eficiente, mas normalmente elas não aumentam poder vital, não adicionam habilidades e não transformam um guerreiro comum em um mestre. O “poder” da espada vem da sua fabricação lendária, equilíbrio perfeito, leveza, resistência absurda e da aura espiritual que ela representa. Nesse filme em particular é dito que a "Destino" possui mais de 400 anos e foi forjada com uma técnica perdida, tornando-a única no mundo.

Ela potencializa quem já é bom, ,as quem não tem cultivo marcial não vira um super-guerreiro só por segurá-la. Por isso Jen, que já tinha grande habilidade oculta, “brilha” com a espada, ela já era boa, a espada só revela isso.

Gosto muito da contraposição das lutas entre Jen e Shu Lien e a de Jen contra Li Mu Bai. Em primeiro lugar, Jen e Shu Lien se enfrentam num embate tão violento como poucas vezes é visto entre duas mulheres. Essa é uma das partes mais ricas do filme e tem vários motivos escondidos ali:

Jen é um prodígio, literalmente um talento sobrenatural dentro da lógica daquele universo. Ela treinou secretamente com a Raposa de Jade (que era limitada, mas tinha técnicas poderosas. sendo uma criminosa reconhecida), leu os textos marciais proibidos que sua mestra não conseguia entender, absorve estilos rapidamente, tem impulsividade, flexibilidade e força técnica muito acima da média para sua idade. Jen é o tipo de figura “do destino” que aparece na ficção wuxia: um talento brilhante, porém rebelde, o que se revela quando ela nega ser treinada por um mestre de verdade.

Shu Lien, interpretada pela incrível Michelle Yeoh, é mais experiente, mas luta “contida”, embora visualmente bem mais violenta que Li Mu Bai. Ela é uma guerreira mais velha, disciplinada, estratégica e tem senso moral muito forte. Ela não quer machucar Jen, e sso tira vantagem dela. Em muitas cenas, Shu Lien segura golpes, não contra-ataca com tudo, e tenta desarmar, não ferir.

Com a Destino Verde, Jen tem mais alcance, velocidade (pela leveza da arma), mais precisão e consegue cortar praticamente qualquer arma que Shu Lien usa. Isso é um detalhe brilhante do filme: ela precisa compensar a vantagem absurda da espada e mesmo assim, ela só equilibra a luta, não domina. Para muito além da beleza violenta de duas guerreiras formidáveis num embate de tirar o fôlego, a cena é, na verdade, uma representação da tradição contra a juventude em busca da própria identidade. O equilíbrio da luta é simbólico: é o choque entre dois “mundos”, não só duas guerreiras.

A luta é coreografada para mostrar contraste, não superioridade. Ang Lee queria mostrar o estilo duro, firme e elegante de Shu Lien, a expressão da experiência, com o estilo mais fluido, imprevisível e selvagem de Jen. Então, por construção cinematográfica, nenhuma deveria “ganhar” de cara.

Depois desse embate violento, Jen se confronta com Li Mu Bai, o verdadeiro dono da espada, mas que tomou certo horror pela mesma graças a quantidade de sangue que derramou com ela. Se recuando numa comunidade de monges lutadores, ele aceita empunhar a Destino mais uma vez apenas para honrar a morte de seu mestre pela Raposa de Jade. Importante notar que esse desejo de vingança não é motivado por ódio, mas pelo código de honra que esses guerreiros seguem. Ele mesmo rejeita a ideia de vingar-se quando percebe uma centelha de ódio em si, e então busca reequilibrar seus sentidos. 

Não sei se é possível chamar o embate de Jen e Li Mu Bai de luta. Além de dominar o tempo todo, ele não ataca, mas mostra que o espírito tranquilo é sempre superior ao que se deixa levar pelos sentimentos. Seus movimentos são leves, fluidos, a cena é silenciosa, de uma beleza e graciosidade ímpar, e isso irrita Jen ao se ver subjugada por um inimigo que se recusa a atacá-la. Isso vai contra tudo que ela aprendeu: embora tenha lido os pergaminhos, adquiriu a habilidade da batalha, mas não os valores de um guerreiro. 

O final é daqueles que bate devagar, feito um sino distante. Ele parece estranho à primeira vista, mas dentro da tradição wuxia e da filosofia chinesa, ele é profundamente simbólico. Após a morte de Li Mu Bai, tendo vingado seu mestre, Jen aceita ir para a comunidade que ela mesma rejeitara e jurara destruir, e que era símbolo dessa força repleta de honra. Mas, ao chegar lá, no topo de uma montante, ela salta.

O salto de Jen não é suicídio, é libertação, expiação e mito.  Muita gente no Ocidente lê aquela cena como apenas trágica, mas no contexto cultural dela, o sentido é outro.

A lenda mencionada no filme diz: “Quem se joga da Montanha de Wudan com um desejo sincero pode voar.” Essa lenda carrega três camadas, a primeira dela é a da libertação do peso das escolhas. Jen passou o filme inteiro dividida entre a liberdade e o dever, a paixão e a honra, a impulsividade e a responsabilidade, o mundo aristocrático da família e o mundo das artes marciais. O salto representa o abandono de tudo que a aprisiona, tanto social quanto emocionalmente. É o gesto final de alguém que não encontra caminho possível dentro dos limites que tem.

A segunda camada é a da expiação: Jen carrega culpa por enganar Shu Lien, causar sofrimento a Li Mu Bai que se ofereceu para treiná-la e ensiná-la seguir por um caminho de virtude, corromper seu próprio talento com imaturidade e provocar consequências que ela não imaginou. O salto é uma forma de restituir o equilíbrio, não como punição, mas como um gesto de sinceridade absoluta. No wuxia, quando a alma está em desarmonia, o corpo não encontra paz. O gesto extremo é uma forma de restaurar o fluxo natural.

Por fim, temos o retorno ao Tao. O wuxia bebe da filosofia taoísta, em que retornar ao “vazio”, dissolver-se na natureza e abandonar as amarras do mundo são formas nobres de transcendência. O salto de Jen ecoa isso: ela não foge, finalmente se encontra. Li Mu Bai representa a moderação, a sabedoria, o “caminho correto”. Seu amor por Shu Lien sempre foi contido porque ele se sentia “preso” pelo passado. Quando ele morre dizendo “eu te amo”, ele finalmente rompe essa prisão. Em paralelo, Jen rompe a dela. É a rima espiritual do filme.

O filme deixa o salto da personagem ambíguo. A câmera acompanha Jen até metade do ar… e então ela simplesmente desaparece da vista. 

Não vemos o impacto.

Não ouvimos nada.

Não há reação.


o que importa não é o que aconteceu fisicamente, mas espiritualmente.


Para uns, ela morreu.

Para outros, ela foi “salva” pela lenda.

Para outros, ela alcançou transcendência.


E todos estão corretos, porque o wuxia opera mais no nível poético do que literal.


Por fim, embora aqui eu possa incorrer no risco de soar pedante, a mensagem final, por assim dizer, é a de que ninguém vence as próprias correntes sem saltar. Shu Lien vive presa à honra. Li Mu Bai vive preso ao passado. Jen vive presa ao desejo de ser livre. O tempo todo somos confrontados com prisões invisíveis. O salto final, poético e brutal ao mesmo tempo, afirma:

a virtude custa caro, e exige coragem absoluta.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A luz sem pertença

Os últimos dias foram de um contraste muito intenso no meu coração. Assisti silenciosamente a um embate, ao mesmo tempo, interno e profundamente e particular, e aparente, brilhante. O clima de Natal, já conhecido por sua ambiguidade sociológica, sendo celebrado com a profundidade espiritual de um São Francisco de Assis ao tratar da grandeza do gesto de profunda humildade do Deus se fazer homem, pequenino, pobrezinho. Ao mesmo tempo, uma sociedade de consumo onde a mesma data se tornou, em si mesma, um produto. Mais do que vender produtos, hoje vende-se até mesmo a si. 

Aqueles que eu admiro não estão alheios a isso. E foram justamente eles que me impressionaram. As diversas manifestações, as fotos em ensaios de Natal, com os cenários decorados, cenas montadas imitando momentos de intimidade, alegria e carinho, valores reais, mas aqui apresentados de modo artificial. Meus atores favoritos me encantando em imagens de uma beleza que eu sequer consigo descrever. Covers de músicas tradicionais de Natal. Cada uma daquelas fotos poderia ser exposta nas paredes de uma galeria de arte, numa grande ode à beleza. No entanto...

Há algo de inevitavelmente ambíguo na experiência do belo. Platão já havia intuído que o desejo nasce da falta, que ninguém deseja aquilo que já possui, e talvez seja por isso que certas imagens nos alcançam com tanta força: elas não prometem apenas prazer, mas revelam um abismo. É isso que eu sinto ao ver aquela imagem quase onírica de Ford Alan como se ele próprio fosse um floco de neve, Thomas e Kong cantando num cenário que parece ter sido montado pelos próprios ajudantes de Papai Noel, Net e JJ num momento de intimidade na cozinha, em meio a biscoitos de gengibre e bolo com chantilly. O corpo idealizado do ídolo não é só objeto de admiração, ele aponta silenciosamente para aquilo que me falta, para a distância entre o que somos e o que imaginamos poder ser. O desejo, então, deixa de ser leve e passa a ter peso. 

O Belo é o Ideal do Eu e, como tal, não apenas atrai mas também fere, e profundamente. Rilke escreve que o belo é apenas o início do terrível, algo que suportamos porque ainda não nos destrói. Essa frase parece ecoar sempre que olho para essas imagens perfeitas: a pele sem falhas, a magreza, a delicadeza, a luz cuidadosamente calculada. Há nelas um encanto quase sagrado, mas também uma violência sutil. O belo não consola; ele fere com delicadeza. Ele não acusa, apenas se apresenta e, justamente por isso, nos obriga a medir a nós mesmos diante dele. Como finíssimas agulhas de aço frio penetram a pele. Vejo, admiro, sorrio, me encanto e sei que meus olhos brilham, e então, quando a tela se apaga e eu me vejo no reflexo, percebo o abismo que há entre nós. Mais do que geográfico, mas um abismo existencial, ontológico. 

Não somos iguais, de modo algum. Em nada. Freud ajuda a compreender por que essa admiração dói tanto. Ao falar do Ideal do Eu, ele descreve uma instância interna que observa, julga e pune. Os ídolos contemporâneos parecem encarnar esse ideal: não exigem nada explicitamente, mas sua simples existência já nos coloca em julgamento. Admiramos, desejamos, e ao mesmo tempo nos sentimos insuficientes. O amor que sentimos por essas figuras vem misturado à culpa de não corresponder, de não alcançar, de não caber naquela forma.

Essa insuficiência, no entanto, não é apenas psíquica; ela atravessa o corpo, mais ou menos naquele sentido apontado por Foucault, ao lembrar que o corpo é investido por relações de poder, marcado, treinado, corrigido. O padrão de beleza que nos oprime não surge do nada: ele é produzido, repetido, reforçado por imagens, filtros, rotinas e expectativas. O corpo que não se ajusta, mais pesado, mais opaco, mais cansado, passa a carregar não só sua matéria, mas um juízo moral silencioso. Eu não posso fazer os procedimentos estéticos que eles fazem, não consigo malhar e cultivar o corpo perfeito quando até levantar da cama me dói cada fibra do corpo. 

Essa constatação, que ultrapassa a mera, porém completa, diferença estética mas, como disse, até mesmo ontológica, me deixa em estado de crise: entro no ponto do desespero, doença até a morte onde percebo que quero me tornar algo que jamais serei. Schopenhauer dizia que quase todas as nossas dores nascem da comparação, e talvez seja aqui que o sofrimento se torne mais evidente. Não é o belo em si que machuca, mas o gesto quase automático de nos colocarmos ao lado dele. A imagem perfeita não diz “seja assim”, mas nós ouvimos do mesmo jeito. O olhar se transforma em balança, e o corpo próprio nunca parece suficiente. 

É como se todos eles, os que mais amo, estivessem ao meu redor, apontando cada um de meus defeitos, mesmo sabendo que não, eles apenas estão fazendo seu trabalho, que consiste em perpetuar a imagem da perfeição. Ainda assim, causa uma ferida, aprofundada por Lacan ao afirmar que o Eu nasce numa alienação fundamental. O espelho não nos devolve quem somos, mas quem gostaríamos de ser. Os ídolos funcionam como espelhos idealizados: olhamos para eles buscando algo de nós, e encontramos apenas uma imagem impossível. Ainda assim, continuamos olhando, porque há nisso uma promessa,  mesmo que nunca se cumpra, como aqueles pedidos da infância que fazíamos para estrelas cadentes. 

Reconheço que meu amor carrega um estranho tom. O sujeito amoroso, é aquele que espera. Amar um ídolo é habitar essa espera infinita, sem posse, sem reciprocidade concreta. É um amor feito de contemplação, de distância, de silêncio. Não é menor por isso; é apenas mais frágil, mais exposto, mais próximo da ferida. Algo como conceber inconscientemente o amor platônico como resistência silenciosa à posse, uma relação dúbia, pois quero exatamente por saber que não posso ter, ou ser.

Um nome que vem ganhando popularidade ultimamente, talvez por descrever um mundo no qual nos identificamos, e o digo com um gosto amargo na boca, é o de Byung-Chul Han. Ele observa que vivemos numa sociedade que exige transparência total, exibição constante. Tudo deve ser mostrado, iluminado, polido. Em especial ao tratar do cansaço ele aprofunda na exigência da demonstração constante de eficiência. Nesse excesso de imagem, o eros se empobrece, porque não há mais mistério. As fotos de Natal, tão perfeitas, tão limpas, não deixam espaço para o peso, para a sombra, para o corpo que falha. Elas não mentem, mas também não dizem tudo. As minhas fotos, de um ensaio do ano passado, escondem. São apenas as luzes enquanto meu corpo aparece como contraste, quase como se mostrasse que eu sou o total oposto do brilhante, do belo.

A graça só entra onde há vazio. O corpo que sofre, que pesa, que não corresponde ao ideal, pode ser também o lugar de uma verdade mais profunda. O corpo escuro no meio das luzes. Onde a imagem falha, algo humano insiste. Onde a perfeição se quebra, talvez exista espaço para respirar. Eu só não o encontrei ainda. Tudo que faço no momento é sentir a dor em sua intensidade, porém silenciosamente. É como olhar para o reflexo na água e, de repente, passar o dedo sobre ela, e o reflexo tornar-se cada vez mais difuso, ou jogar uma pedra pesada, até que não tenha mais reflexo nenhum.

Assim, a relação com os ídolos não é apenas alienação nem apenas consolo. Ela é um campo de tensão: entre desejo e dor, admiração e inadequação, leveza e peso. Amar o belo, às vezes, é carregar essa contradição sem resolvê-la, e escrever a partir dela é uma forma de não deixar que o silêncio se transforme apenas em culpa.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Céu, Espada Quebrada e Neve

“O desapego absoluto é a condição para que a verdade se revele.”
 (Simone Weil)

Há obras que não se oferecem ao entendimento imediato. Não raramente sua interpretação pede recolhimento. O filme Herói (2002) é uma dessas experiências raras em que a imagem parece conter mais silêncio do que som, mais ausência do que gesto. Assistir ao filme é como atravessar um pátio, como aqueles que costumamos ver em produções orientais, chão de pedra e grandes portões, um pátio grande demais para os próprios pensamentos: cada passo ecoa, cada certeza se torna incômoda e se confronta no íntimo daquele que caminha.

Há algo de ritual nessa travessia. Como se o filme exigisse que o espectador também deixasse as armas do lado de fora: pressa, opinião pronta, necessidade de julgar. O pátio não é apenas um espaço físico, mas um intervalo entre o ruído do mundo e uma escuta mais profunda. Ali, até o pensamento aprende a andar mais devagar

A história que se desenrola diante de nós, não busca convencer, mas depurar. Nada ali é excessivo por acaso, nenhuma beleza é gratuita. A violência não é celebrada, tampouco negada: ela é observada, contida, pensada. O que se conta não é apenas a trajetória de um homem sem nome diante de um rei histórico implacável, mas a lenta renúncia de tudo aquilo que sustenta o desejo de vencer.

Vencer, aqui, não é triunfo, é ruído. O filme parece nos ensinar que toda vitória carrega um excesso que precisa ser retirado, como se a alma só pudesse atravessar certos limiares após se tornar leve o suficiente para não deixar rastros.

Talvez por isso o filme avance como uma sucessão de versões: não porque a verdade seja instável, na própria abertura ouvimos que toda guerra tem heróis de ambos os lados, isso porque o espírito humano precisa esgotar suas paixões antes de alcançar o silêncio. E quando finalmente chegamos a ele, já não importa quem triunfou. Resta apenas a pergunta que atravessa toda grande obra: o que estamos dispostos a perder para que algo permaneça?

Talvez por isso a pergunta permaneça suspensa, sem resposta. Algumas questões não existem para serem resolvidas, mas para nos acompanhar, como uma lâmina invisível entre o que somos e o que desejamos ser. Uma lâmina incômoda como uma espada quebrada.

Esse é o primeiro ponto a ser destacado: a verdade não nos é entregue, ela é contada, corrigida, confrontada, complementada. Cada versão é uma construção moral que usa de uma estética própria, delicadamente distinta, para nos colocar frente aos acontecimentos, mais ou menos no sentido apontado por Walter Benjamin de que um narrador não transmite fatos, mas sentidos. O longo diálogo do herói com o rei é a apresentação de diversos significados para o acontecido que permitiu que ambos ficassem frente a frente.

O rei escuta como quem pesa o mundo nas mãos. Não reage, não se defende, não se apressa. Tem a delicadeza para observar o desejo do outro pelo tremular das chamas, mas governa com firmeza, chora ao descobrir que o homem que tentou matá-lo o compreendeu mais que sua própria corte. Há nele a consciência de que governar é escolher quais mortes serão lembradas e quais serão esquecidas. O diálogo não é um interrogatório, é um duelo silencioso entre narrativas que disputam o direito de se tornarem História.

Como disse, a estética aponta uma construção moral, estados de espírito. A primeira vez que o Sem Nome narra seu contato com Espada Quebrada e Neve, a saturação das cores, o vermelho intenso, revela a face da história que ele queria destacar. Os personagens aqui são movidos pela honra ferida na traição, pela paixão, possessão e o ciúmes. Nessa fase as lutas são mais coreografadas de maneira particularmente bela, mas bastante teatral. Podemos ver isso na defesa da escola de caligrafia e na luta de Neve e Lua, em que as folhas secas do outono obedecem ao movimento das espadas das guerreiras e, depois, tornam-se mais e mais vermelhas conforme a verdade da morte inevitável e do amor não correspondente vai se tornando inevitável. Essa versão apresenta os três guerreiros mortos, Céu, Espada Quebrada e Neve, como passionais, sendo esse o ponto explorado por Sem Nome para detê-los e, assim, receber a recompensa e se aproximar do rei: ele se coloca como controlado e sereno enquanto os demais se destroem.

O vermelho pulsa como um coração exposto. Tudo ali é excesso: gesto, sentimento, ferida. É a cor do amor que ainda acredita na posse, da honra que ainda sangra, da espada que ainda precisa provar seu valor. Nada repousa, tudo queima.

O rei o interpela e então temos a mudança da atmosfera: o azul toma o lugar do vermelho. Essa versão nos apresenta os mesmos personagens, mas de forma contida, disciplinada. Eles sentam-se e assistem ao Sem Nome com uma serenidade digna dos guerreiros implacáveis que são: não precisam se sobressaltar. A violência, o dilema moral, se apresenta como combate espiritual: matar ou não o rei, três anos após a tentativa fracassada. Um dever que ainda pede para ser cumprido e uma dor contida, percebida apenas em pequenos gestos e olhares. O azul esfria o mundo outrora em chamas. Não apaga a dor, mas a disciplina. Aqui, o sofrimento não explode, se sustenta. Os guerreiros já compreenderam que a verdadeira batalha não acontece entre lâminas, mas entre aquilo que se deseja fazer e aquilo que precisa ser feito.

Por fim, temos um equilíbrio: no branco encontramos o esvaziamento. As cores são como estações do espírito, e o branco torna tudo quase metafísico. Fala-se do paraíso, não há ornamentos: o sacrifício não é belo, nem teatral, é consciente, mas dolorido. O branco não é pureza: é ausência. É o ponto em que já não se luta por si, nem contra o outro. Tudo o que restava para ser retirado foi retirado. O gesto final não busca beleza, apenas necessidade.

As cenas de luta também são de uma particularidade estética sutil. Muitos acham brega essas lutas com piruetas e rodopios no ar, mas eu as acho de uma graciosidade belíssima: sem dúvidas uma das minhas coisas favoritas no cinema. As desse filme são paradoxais, elas parecem acontecer primeiro na mente e já estão decididas antes que os guerreiros se aproximem um do outro. A luta no lago, após a morte de Neve, é de uma delicadeza ímpar. O lago, de uma água translúcida e parada, retrato da paz de espírito, é então perturbado pelas espadas que cortam a superfície ou quando os guerreiros a tocam, com o combate se dando no ar. É a perturbação do espírito. Sem Nome e Espada Quebrada lutam não por vontade, mas porque a honra os impele a isso.

A simbologia também se encontra nos nomes dos protagonistas, são uma espécie de alegoria moral, figuras quase ao tipo platônico. Sem Nome é aquele que abdica de seu ego, o que prefere desaparecer em nome do seu objetivo. Espada Quebrada é a interrupção, o confronto interno, uma arma que não quer matar, ao passo que Neve é a beleza letal. Temos ainda Lua, o amor que vive sob a luz de seu mestre. Nomes, aqui, não individualizam: revelam destinos. São menos identidade e mais função. Cada personagem existe para cumprir um sentido e depois desaparecer.

Todos os personagens, no entanto, com suas diversas concepções, desejam a paz. Temos vários reinos em guerra, um rei que deseja unificar todos à força, guerreiros que acham que a tirania não é a solução e planos orquestrados para alcançar a paz. Hegel aponta o indivíduo consciente como aquele esmagado pela razão da história. O rei de Qin realmente existiu, apesar de governar com braço de ferro, unificou a China e criou as bases do império. Isso apresenta conflitos de grande complexidade, como a paz coletiva em detrimento da ética e o dever como um preço alto e invisível.

Esse preço é pago pelo sacrifício de Sem Nome, não é um mártir passível de romantização. Morre como criminoso, mas é enterrado como herói. Esse aspecto do sacrifício como esvaziamento de si ecoa o Cristo morto na cruz sem nenhuma glória. 

A história pede o silêncio do espectador a medida que se apresenta como um percurso, aqui me valho da caminhada até o trono do rei, cruzando o pátio de pedra e a longo salão real. Essa caminhada silenciosa é uma suspensão do imediatismo, e vai nos acrescentando elementos, como as vestimentas e suas cores, que funcionam como os estados da alma. A luta mais como fato da alma do que do corpo, a ambiguidade dos desejos, a unidade como promessa às custas de sacrifícios sem glória. É uma obra que não consola, apenas nos apresenta a verdade e, depois, nos abandona lentamente em silêncio.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Um vício caro

Dia de ira. Acordei quando abriram minha porta pela manhã, sem perceber que o sol já queimava minha perna. Odeio esse calor logo pela manhã. E odeio perceber que estou cercado por idiotas, e que eu mesmo sou um deles. Alguns dias começam como um erro administrativo do universo. Nada deveria funcionar, mas tudo insiste em girar.

Droga, eu nem queria ter acordado. Mas esses pássaros cantando, esse maldito sol brilhando, e as pessoas lá fora já andando apressadas. Na próxima semana já será Natal, alguns poucos desgraçados ainda trabalham, para chefes sedentos por dinheiro, e usam das suas últimas forças para saírem de casa nesse calor dos infernos. E esses chefes dos infernos, que agora viajam para outros países. Demônios. Malditos. O mundo não para porque não sabe para onde ir. Então finge produtividade e chama isso de dignidade. Passei um café, mesmo já sendo noite. Queria acordar um pouco dos remédios que tomei pra dormir o dia todo. Mas o gosto do café me lembrou daquele trabalho nojento, daquela chefe nojenta, e eu quase vomitei. 

Há muito percebi que já não aguento mais a loucura. Não aguento sair do quarto e achar que um furacão passou por aqui. Ou talvez tenha passado dentro de mim também. Destruindo tudo, lançando tudo pelos ares. E acho que eu queria destruir tudo e lançar pelos ares, e me lançar pelos ares, como se tivesse uma espada capaz de explodir qualquer coisa em que toca ou de incendiar uma cidade inteira, eu certamente me deixaria consumir por suas chamas. Há dias em que a violência não quer vítimas, quer silêncio.

Até a música está num volume insuportável, porque não quero ouvir meus pensamentos. Nem mesmo colocá-los em ordem para escrever. De nada vai adiantar. Pensar é um vício caro quando a realidade cobra à vista.

Também não quero ouvir ninguém. Parece que não percebem a loucura em que vivem. Não eram nem sete da manhã e já estavam batendo alguma coisa com som metálico, reclamando da caixa d'água, lavando roupas, gritando com criança. E fugir pro reino da internet? Pior ainda. Lá todos odeiam, só sabem odiar, são incapazes de amar o que quer que seja. A diferença é que lá o ódio vem com legenda e filtro.

E eu nem queria ter acordado, com esse maldito sol queimando minhas pernas, num quarto abafado, porque isso é tudo que eu posso pagar. O aluguel vence. O corpo também. Só o dia insiste em não acabar.

Musas, fadas e deuses

Sei que há certa dose de angústia que venho tentando ignorar, sem muito sucesso. Percebo que a cada noite eu espero que amanhã seja melhor, e quando amanhece eu só quero que termine logo.  Já não olho para as relações do mundo como quem queria participar delas. Apenas as vejo como algo que existe ao meu alcance, senão que é como uma invenção, algo mítico. 

Também percebo que tenho fugido sempre mais e me refugiado sob a sombra de certas criaturas. De certos deuses que pairam os bosques e riachos, oferecendo frescor da água para alguém que escapou de uma guerra que não podia vencer. Aquele sorriso de Sea Tawinan, como um Ganimedes a conquistar até mesmo o grande Zeus, é como um bálsamo a ser aplicado nas feridas abertas de uma vida dolorida demais.

Por isso gosto de ver, observar e sonhar com esses silfos e náiades, musas de uma poesia tão elevada que não sou capaz de escrever, apenas e tão somente ouvir. Sei da fragilidade dessas imagens, bem como da fragilidade que me levou à criá-las. O ídolo também é frágil, mas essa fragilidade é cuidadosamente ocultada para sustentar o encanto. Assim me aparecem figuras de beleza surreal, como os atores e modelos Jeff Nathadej e Longshi Lee, por quem tenho algo comparável a uma devoção. Eles representam a força acompanhada da beleza inquestionável, personificações de um Apolo cujo torso arcaico nos convida a conversão de vida.

Esses seres de perfeição são como inspiração, um novo ar para respirar depois dos escombros. Tay Tawan é modelo, fotógrafo, ator e cantor, homem belíssimo e sempre simpático nas suas aparições públicas. Ao afirmar que "o ideal do eu é o herdeiro do narcisismo primário”, Freud sugere que ídolo surge exatamente aí onde o eu falha. Ele não é apenas admirado: ele ocupa o lugar daquilo que gostaríamos de ter sido antes da ferida, antes da queda, antes da consciência da insuficiência. E ele ainda diz que “amamos aquilo que possui as perfeições que desejamos alcançar para nosso próprio eu”, isto é, não é o outro que se ama, mas uma promessa: a de um eu possível, mais leve, mais belo, mais aceitável. Em lugar dessa insuficiência, aqueles que podem fazer um pouco de tudo, de modo bem feito. 

Phuwin é o menino que vi tornar-se homem. A carinha fofa deu lugar ao artista sério, comprometido com seus valores, incansável em esforço para melhorar e que esteve presente nos momentos em que eu mais tinha sido dominado pela desilusão. O mesmo de Fourth e Keen, que estou vendo crescer. Além de canto e atuação, na participação ativa dos caminhos da própria carreira, em sorrisos que me dão forças, trabalhos que me inspiram ou simplesmente que me fazer sorrir quando tudo parece frio e escuro.

Me imagino num lugar distante, por isso reforço ser um mecanismo de fuga, com uma vida diferente, estruturada. Ainda reclusa, é verdade, mas ainda participante de algum modo do todo. Como se pudesse viver como um escritor desses que não encara as pessoas de frente, por medo ou completo desinteresse, mas que precisa continuar escrevendo e, por alguma razão, continuam a lê-lo. Influência algo de um Bukowski. Queria escrever sem precisar conviver com os idiotas das artes, ocupados em se elogiarem mutuamente sem produzir nada substancialmente relevante. 

Pois bem, nesses devaneios de um mundo ideal aparecem essas figuras de que comentei. Perfeitas demais para andarem nas ruas junto aos homens de verdade. Winnicott ao tratar dessa espécie de fantasia vai dizer que “é no espaço transicional que o indivíduo pode viver criativamente”, ou seja, a criatividade, o meu sonho onde aparecem esses ídolos, ocupa esse espaço intermediário entre o real insuportável e a fantasia necessária. Aqui pessoas que quase não parecem existir de tão perfeitas, Nunew e Namping, fadas entre nós, Jeff Satur, Keng Harit, Daou e Offroad erguendo-se como colunas, estátuas gigantescas num templo universal de culto ao que é perfeito. Não é delírio, é sobrevivência criativa, é aquele desespero do corpo afundando na água que só consegue pensar em alcançar novamente o ar para seus pulmões. 

Fadas de sorrisos encantadores, como o Hong do Lykn ou o Pluggy do PERSES, que caminham, dançam e sorriem cativando pelo simples fato de existirem. Penso que seja por isso que os ídolos existem: para vermos neles, maximizados, aquilo que desejamos a nós. Porque, sim, quando olho para uma foto minha e vejo minha aparência imensa, quase animalesca, e depois os vejo, magros, elegantes e desejáveis, percebo que há aqui uma relação de admiração e desejo. 

Lacan, ao abordar esse desejo, diz que “o desejo do homem é o desejo do Outro”, no sentido de que ele nos devolve uma imagem organizada do desejo quando o nosso está disperso, confuso, ferido. Também a tradição filosófica trata do assunto, pois, para Platão, o ídolo não é fim, mas meio: ele fecunda o pensamento, a escrita, o sonho. O amor não quer possuir; quer produzir sentido. 

Na literatura, Proust mostra muito bem que “o desejo floresce na ausência”, a distância não empobrece o amor; ela o organiza, o torna possível, quase respirável num mundo intoxicado. Eu fecho os olhos e eles aparecem, estendendo a mão. Me vejo sorrindo e comendo com eles, me sinto participante inclusive de suas tristezas, medos e inseguranças. 

Há algo de profundamente humano, e nada acidental, nesse gesto de elevar certas figuras à condição de musas, fadas ou deuses menores. O desejo não nasce do encontro pleno, mas da falta, e é justamente por isso que ele se organiza em imagens: ama-se no outro aquilo que se pressente como possível em si, mas ainda não alcançado. O ídolo, nesse sentido, não é apenas um corpo belo ou uma presença encantadora, mas um espelho idealizado, um lugar simbólico onde o eu deposita aquilo que perdeu, aquilo que nunca teve ou aquilo que teme jamais possuir. Como no amor platônico, o belo não se oferece para ser possuído, mas para fecundar, não o corpo, mas o pensamento, a imaginação, a escrita. E assim, entre a carência psíquica e a promessa de forma, constrói-se o mito: uma narrativa onde o desejo encontra linguagem e a ausência se torna suportável. Não se trata de engano, mas de mediação; não de alienação pura, mas de sobrevivência estética. O espetáculo, então, não é apenas aquilo que se vê, mas a relação silenciosa que se estabelece entre quem contempla e aquilo que é contemplado, um pacto íntimo onde o olhar encontra sentido, ainda que saiba, no fundo, que esse sentido é frágil, provisório e, justamente por isso, necessário.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O coelhinho branco e a arte de amar em silêncio

Alguns encontros são difíceis de explicar, ou talvez eu superestime minha capacidade literária que, admito, é limitada cada vez mais pelo meu estreito horizonte de consciência. Mas ainda assim, mesmo que não consiga dizer, penso que não seja um esforço em vão falar dele. Quero aqui me valer da extrapolação poética para tentar iluminar o que sinto.

Há encontros que não pedem explicação, apenas permanência. Eles não se impõem como eventos, mas como assombros suaves: ficam. Talvez escrever seja só uma maneira de tocar o que não pode ser tocado, de prolongar o instante em que o olhar ainda não se despediu. Por isso, tudo bem não conseguir explicar algo assim como quem descreve o funcionamento de uma máquina num manual. Foi Rainer Maria Rilke quem disse que “amar é guardar o outro como um mistério, não resolvê-lo.” Sei que não vou conseguir explicar, e isso é minha força. O mistério permanece intacto, e é justamente isso que o torna poético.

Me lembro quando o vi a primeira vez, e fiquei encantado. Ele era como uma fada: o corpo esguio, rápido, o olhar penetrante e provocador, o sorriso, embora doce e delicado, também guardava aquela curiosidade virginal, just like a bunny in heat, que deixa homens como eu bobos de paixão. 

Há belezas que não se oferecem como espetáculo, mas como revelação. Não se trata apenas do corpo, mas de algo que escapa dele, um excesso, um resplandecer que não se aprende, não se ensaia. O encanto nasce exatamente aí, nesse ponto onde o desejo se confunde com admiração.

Dante cria Beatriz como presença que transforma o mundo só por existir. “Ela não parecia filha de homem mortal, mas de Deus.” Apo aparece para mim assim, não como alguém que entrou na minha vida, mas como alguém que reorganiza seu olhar sobre ela. Como tantos outros nessa minha jornada para a Tailândia.

Ele dançava, ou melhor, flutuava, como uma bailarina. A batida da música, a sensual "White Rabbit" de Daou Pittaya, parecia fluir por ele, seja nos contrastes de luz e sombra ou na relação da caçada e do caçador: ele se mostrava frágil como um coelhinho, mas provocava um grande lobo, cuz you only neat on the surface, white rabbit.

A dança, nesse instante, não era movimento — era linguagem. O corpo dizia aquilo que nenhuma palavra ousaria dizer: que a fragilidade pode ser uma forma de poder, e que provocar não é atacar, mas permitir-se ser visto.

É claro que imediatamente fui atrás daquela figura. Descobri que Apo, do grupo DICE, tem uma personalidade impar. Não parece fingir um arquétipo de menino, mesmo estando num grupo de meninos. Gosto de como essa geração de grupos tailandeses tem permitido essa demonstração, não sei bem como explicar, dos meninos, como o Pluggy do PERSES ou o Lego do Lykn, que usam saia, rebolam, falam dos meninos bonitos, não tem vergonha da própria sexualidade...

Talvez o que mais encante não seja a beleza, mas a naturalidade com que ela se assume. Há uma coragem silenciosa em simplesmente ser: sem ironia, sem defesa, sem o peso de justificar o próprio corpo.

E o Apo ama coisas da Hello Kitty, e sai com uma bolsinha ou um daqueles copos grandões, afinal a Tailândia é bem quente e ele ta sempre dançando e cantando. E coleciona coisinhas da personagem. Também adora comer e sempre posta foto dos restaurantes por onde vai. Faz biquinho para as fotos, e dança mostrando a cintura fininha, a pele clara e delicada e aquele sorriso alegre, fofo, com uma pitada de provocação. 

É nesses detalhes que o amor platônico encontra sua morada: no gesto pequeno, no gosto aparentemente banal, na doçura que não precisa seduzir porque já existe. Amar assim é não querer possuir, mas guardar, como quem guarda uma imagem no coração para visitá-la em silêncio. 

Sou um poeta do outro lado do mundo apaixonado por Apo. Ele nunca nem vai saber da minha existência, mas, no meu coração, ele ocupa um lugar iluminado, só dele. Sei que o Apo de quem não é apenas o artista real, mas o efeito íntimo que ele produz em mim. E esse efeito é verdadeiro, mesmo que o encontro nunca se concretize. No meu coração ele é um objeto de admiração, de contemplação amorosa, como dizia Platão "O amor é o desejo de possuir para sempre o bem.”

Talvez amar assim seja aceitar que certas presenças não vêm para ficar, mas para iluminar. Ele não sabe do lugar que ocupa em mim, e isso preserva a pureza desse sentimento: não há cobrança, não há medo, não há perda. Há apenas a alegria silenciosa de saber que, em algum ponto do mundo, ele existe, dança, sorri, vive, e que isso, por si só, já basta para tornar o mundo um pouco mais habitável. Se o amor precisa de um corpo, que seja o meu; se precisa de um nome, que permaneça em silêncio. Porque há afetos que não querem destino: querem apenas durar.

“Amar é não perguntar.” 
(Clarice Lispector)

Três Vozes

Sentados num lugar desconhecido qualquer, o velho Buck fumando e bebendo uma cerveja que ele limpava da boca com a mão, os pelos do peito saindo pela camisa aberta, esse já deve ser o seu terceiro bar hoje, e ainda são dez da noite. Augusto, do lado, usa um terno como quem acaba de sair de um casamento ou uma ópera. Bebe um whisky com uma pedra de gelo, e seu olhar é distante, frio, tão cheio de desencanto quanto o nosso colega. Eu não me lembro como vim parar aqui. Tomo uma taça de vinho, ou talvez já seja a sexta. Olhamos uma foto pendurada na parede, num dos poucos pontos iluminados pela fraca luz amarela daquele lugar, um lugar para onde vão as pessoas que querem beber, não serem vistas. Mas aquela imagem nos chama a atenção.

O jovem se abaixa em pose fingida,
uma flor qualquer na mão e o sol
iluminando sua face de cristal
com um brilho nunca visto

Inclina o torso em cálculo estético,
flor cadáver entre dedos nervosos,
enquanto o sol, coveiro químico,
doura a epiderme intacta da ilusão

ele se abaixa porque sabe
que alguém está olhando,
segura uma flor que vai morrer rápido
e o sol faz o resto do trabalho

É um daqueles jovens distantes,
mas tão distantes da vida real,
que facilmente poderíamos confundir
com alguma criatura sobrenatural

Ser de distância ontológica,
incompatível com o atrito do mundo,
quase ectoplasma estético
num universo de carne cansada

esses caras não vivem aqui.
não pegam fila,
não cheiram a fracasso,
parecem ter vindo de outro turno da vida

De beleza fascinante,
de sensualidade ímpar,
um sorriso hipnotizante
dando ao mundo honra de sua vista

Estética tirânica do sorriso,
armadilha neurológica do desejo,
onde o belo humilha o feio
sem precisar dizer palavra

o sorriso dele não promete nada
e mesmo assim leva tudo.
não é gentileza,
é dano colateral

Lábios rosados em mármore claro,
num sonho meus dedos deslizam
pelas feições delicadas do seu rosto de anjo
mas eu sei que, na vida real

Labial epiderme de escultura viva,
onde o tato é delírio condenado,
pois o anjo só existe
na ausência do contato

eu imagino minhas mãos no rosto dele
sabendo desde o começo
que isso nunca sairia do campo da imaginação
e talvez seja melhor assim

Ele me afastaria como demônio.

Repeliria o corpo impuro,
como sistema imunológico do belo
expelindo o erro

na vida real
ele me empurraria sem pensar duas vezes
e seguiria o dia

Quase ninguém
poderia tocar aquela alma divina
e eu não sou contado entre eles

O belo não é democrático:
seleciona, exclui, apodrece o resto

ninguém toca esse tipo de cara
sem sair pior depois

Um daqueles jovens de beleza indescritível
droga!

Aberração estatística da carne,
excesso de forma num mundo falho

isso deveria ser proibido
ou ao menos distribuído melhor

Como pode existir alguém assim?
Como pode o mesmo criador a plasmar essa criatura,
ter formado um monstro como eu?

O mesmo laboratório cósmico
que erige o ídolo
fermenta o dejeto humano

o que me irrita não é ele existir.
é o mundo olhar pra mim depois
e dizer:
“foi o que deu.”

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Sobre manhãs irremediáveis

Sonata para piano N° 8, Op. 13 em Cm - "Patética" de Beethoven

Alguns dias já amanhecem como dias difíceis. Há manhãs que nos encontram antes mesmo de despertarmos, como se já houvesse um peso nos esperando na borda da cama ou no umbral daquele quarto. É o tipo de manhã que não nasce: apenas se arrasta. É como se a luz do sol, mesmo clara, fosse filtrada por um véu. Não me refiro às cortinas, mas a algo menos tangível, como se, ao me levantar, olhasse pela janela e visse não um dia que começa, mas uma tragédia que se anuncia. Aquele instante em que o corpo já sabe da derrota antes mesmo de o pensamento alcançá-la. E esse pressentimento silencioso é justamente o que a música expõe logo de início: a abertura é um Grave, quase litúrgico, uma Missa de Requiem que, depois, se transforma num Allegro, um contraste, a introdução lenta que cede lugar à pressa, aquele frenesi, aquele sangue fervente.

É o começo do fim. O tipo de fim que não precisa ser grandioso para ser devastador. Aquele fim silencioso, que ninguém vê. Não o fim do mundo ou algo assim, mas quando o coração acelera a tal ponto, quando não se consegue mais conter a ira que tudo se torna escuro, como se aquele véu da manhã cobrisse tudo. O Allegro cai sobre nós como uma verdade que não queríamos saber, mas que insiste em existir. A música traduz isso com seus golpes, suas frases empurradas ao limite do suportável. E então essa fúria se repete, num coração amargo, uma verdade impossível de se esquecer.

E então, quando cessa a corrida, ou a luta, o coração lentamente retorna ao Grave: um fantasma que não deixa a tensão morrer. Ele paira, retorna, e com ele vêm lembranças que preferiríamos não visitar. É como voltar a uma sala onde o ar nunca renovou, tudo ainda cheira ao que se tentou esquecer. É quando tentamos respirar, mas sem consolação. Estou sozinho, os olhos se fecham numa ternura ferida: é aquela melancolia por uma época remota demais para se recordar, mas que se sabe que não era tão dolorida como agora. Nesse ponto, a música fala com uma sinceridade que dói, não porque grita, mas porque suspira.

O homem busca em si uma cura para as feridas da batalha, mas não encontra, elas continuam abertas. Há feridas que não se fecham simplesmente porque desejamos que se fechem. Beethoven as expõe como quem vira uma cicatriz para a luz, não para curá-la, mas para analisar quanto tempo faz que ela ainda está lá,  para entendê-la. A confissão de sua incapacidade se encontra no famoso tema principal do segundo movimento. É uma confissão que se expande aos poucos, a ponto de tomar conta do próprio ser. Cada variação parece apertar um pouco mais o peito, como quem tenta ordenar sentimentos que não se deixam ordenar. Em algum momento ouve-se um canto, frágil, distante.

Esse olhar para dentro de si se transforma num movimento impaciente. A introspecção, ao invés de apaziguar, acende outra inquietação, e outra, e outra. É como se o próprio silêncio tivesse pressa. O mundo continua, ainda que eu não esteja pronto, ainda que corra, tropece e tente escapar de algum modo. A agilidade desse movimento contrasta com algumas passagens que aparecem como sombras, o final é repentino, cruel. Não há volta, nem remendo: a peça termina como certos dias terminam, cortando abruptamente o que não se resolveu. 

É propositalmente inacabado.

Entre escombros: a tragédia do encontro

A arte tem como esse magnetismo capaz de nos fazer conectar com ela para, numa troca, experimentarmos essa identificação. Por vezes ela nos toma pela mão, pois diz ou mostra, aquilo que não conseguimos dizer, mas que sentimos de forma poderosa e até devastadora. Talvez por isso Walter Benjamin insistisse que a obra de arte verdadeira “nos lê” antes mesmo de a lermos; ela se antecipa à nossa consciência e desvela aquilo que mantemos escondido até de nós mesmos.

Burnout Syndrome é uma das grandes apostas da GMM TV para esse ano. Após duas séries medíocres, a galinha dos ovos de ouro da empresa, o ship formado por Off Gun viria com mais uma produção com uma temática madura, como aquelas que consagraram os dois, que acabam de completar 10 anos como parceiros. Theory of Love e Not Me foram, cada uma a seu modo, marcantes na indústria BL a seu modo, mas tinham esse fator em comum: não eram produções simples, isto é, fugiam completamente da abordagem da maioria dos projetos, inclusive da própria empresa, sendo um ponto de virada para experimentações cada vez mais profundas, o que nos traz exatamente a Burnout Syndrome, que além do ship conta com a adição de Dew Jirawat como terceiro elemento. Há algo de Dostoiévski nesse tema do trio, as três personalidades que se chocam, se entrelaçam, se dissolvem uma na outra, criando um campo de forças onde cada gesto tem um eco moral e psicológico.

Como diria Blanchot, toda obra genuína exige esse trânsito entre o lúcido e o indizível, entre o comentário e o delírio, por isso esse breve ensaio vai flutuar da análise à poesia sem aviso prévio, não creio que possa falar de uma obra de arte de outro modo. E é bom que seja assim.

Como sempre, o simbolismo empregado nas obras audiovisuais são a chave de interpretação do todo por meio de suas partes: os símbolos fecundam nossa imaginação, ainda que não os interpretemos de forma consciente. Bem, aqui temos três personagens mostrados de forma visceral: todos estão absolutamente destruídos. Mas estamos apenas no terceiro episódio, enquanto escrevo, e o que virá adiante? Superação e queda? A psicanálise diria que, quando um personagem aparece quebrado logo no início, a narrativa o conduz não rumo à cura, mas ao reconhecimento, aquilo que Lacan (acho) chamaria de “encontro com o real”, o ponto duro onde nenhuma fantasia salva.

De todo modo, como dizia, todos estão destroçados. O que não é surpresa a partir do próprio nome. Mas somos apresentados a diversas formas dessa síndrome de exaustão que deixa nossos personagens à beira do completo colapso. Exaustão não só como falência emocional, mas como esvaziamento do desejo, e aqui há ecos de Kierkegaard: “o desespero é a doença do eu” e não apenas doença, mas "doença até a morte".

Jira, o personagem de Gun Attaphan, é um artista fracassado. Não só não consegue trabalho para pagara as dívidas crescentes como se encontra estagnado em sua própria obra, sua inspiração se foi. Ele lutou, e muito, mas continua pedindo dinheiro emprestado, pulando de bico em bico e ainda assim não consegue sair de uma linha abaixo do medíocre, por mais que se esforce. Não posso deixar tecer os elogios ao Gun que sempre entrega personagens incríveis com grande densidade emocional. Jira encarna o arquétipo do criador ferido, um Orfeu sem lira e sem Eurídice, preso naquilo que Freud chamaria de “inibição da função”. Sem criação, ele perde não só função, mas identidade. Não consegue nem mesmo interpretar num comercial qualquer. 

Dew, na ordem de apresentação na série, me deixou completamente chocado desde a primeira cena como Pheem. Claramente um homem em seu limite, incapaz de dar os passos necessários para sair de sua situação, mas prestes a explodir. Ele chega, se senta junto de Jira e, com um sorriso algo forçado, quase desesperado, inicia um diálogo com claras conotações de duplo sentido. Seu tom de voz, os pequenos trejeitos com as mãos, a forma de beber, o arrumar os óculos, o próprio sorriso: tudo aponta para um homem que mostra apenas uma pequeníssima parte de si. Uma pequena bola de luz flutuando num oceano de escuridão, com toda a violência que essa comparação implica. Ele será certamente o personagem a colapsar. É o tipo de personagem que me lembra o Raskólnikov antes do crime: tensão acumulada, um coração que ainda não sabe que já quebrou, mas que já se encontra nos umbrais de uma manão escura.

Enquanto Pheem tenta equilibrar a carreira e uma amizade aos frangalhos, Koh é o homem que criou tantas proteções ao seu redor que pode se dar a liberdade de ser quem é e agir como quer. Mesmo sendo bem-sucedido, aplicando técnicas lógicas de mercado às custas de um peso maior em cima de seu amigo e funcionários, ele quase não sai de seu refúgio pessoal. O personagem de Off não usa nada feito sob medida, comprando as coisas mais sem graça: a originalidade, o coração, o afeto, lhe tomaram tudo. Ele não dorme, não encontra paz e não tem força para mostrar o contrário. Num restaurante de luxo onde todos usam terno de alfaiataria, ele usa uma camiseta surrada de banda pop-rock. Em casa, anda de cueca ou simplesmente nu, ou enrolado num roupão. Abusa dos remédios para dormir e do álcool, aliás garrafas, copos e remédios se encontram jogados por toda parte. Usa os outros para fazer e falar. 

A relação entre esses três, para além de uma bomba relógio, mostra a ambiguidade do coração de cada um, revelando nuances que não esperavam. Há também muitos elementos visuais à disposição, mas talvez eu deve rever anotando para conseguir descrever todos. Em especial notei a óbvia placa de "cuidado, piso molhado" que é tirada da frente de Jira quando ele decide voltar a trabalhar para Koh, mesmo desprezando-o. Jira vai tirar proveito da inspiração que aquele homem lhe dá, Koh vai descobrir no jovem artista algo que o faz sentir vivo depois de muito tempo, no sentido terno do termo, afinal ele conseguiu dormir em cima das roupas não porque elas lhe lembravam a infância, mas porque uma presença afetiva ao lado das roupas lhe lembravam a infância. Quando ele percebe que não dorme tão bem sem a presença do outro, toma consciência do ponto que o fere, que escapa ao discurso e atinge direto a memória afetiva.

A tensão sexual dos três também é óbvia, e nenhum deles faz questão de disfarçar. Aqui, o eros é ferida, não força vital, é o eros de Bataille, o eros que sempre beira o sacrifício, eros envolto em luto e melancolia. Pheem assusta ao revelar que se apegou tanto a Jira que deseja que ele fique ainda pior para que volte para ele. Destroçado, ele se faz uma companhia agradavelmente necessária para pessoas exaustas, pois parece ter relacionamentos casuais recorrentes, a fim de barganhar seu afeto. Fazer com quem Jira o queira o coloca numa posição que preenche o vazio em que ele se afundou ao destruir sua carreira em nome de uma amizade com Koh que também se deteriorou. Koh sabe que Jira olha para ele de modo sexual, Jira assume ficar excitado, com os sentidos artístico e literal do termo confluindo, mas não consegue reagir. 

Por isso, se existe um pensador capaz de iluminar o tipo de relação que se desenha entre os três protagonistas, esse pensador é Bataille, talvez o único que colocou eros, morte e ruptura interior como partes inseparáveis do mesmo gesto humano. Em Bataille, o erotismo nunca é apenas sexual; é sempre um movimento de atravessamento, um impulso que faz o sujeito perder algo de si para entrar em contato com o outro. É uma ferida aberta que pede outra ferida. É sempre excesso, risco, desordem. O eros ali não aparece como romance, nem como desejo puro, mas como busca desesperada por dissolução, como se cada um deles precisasse abandonar uma parte de si para suportar a própria existência. 

E é aqui que entra o luto, outro pilar batailliano. Cada um desses personagens está em luto por algo que não sabe nomear: Jira pelo artista que não conseguiu ser. Pheem pelo homem que destruiu tentando salvar o amigo. Koh pela versão de si que um dia ainda acreditou por conta do afeto de seus pais para com os outros e que foi a causa da falência e destruição deles.

Eles não apenas choram seus mortos. Eles os carregam seus dentro do corpo, como um peso constante. E quando esses mortos internos encontram o eros que circula entre eles, o resultado é o que Freud chamaria de melancolia, mas o que Bataille nomearia como uma forma de sacralidade profana: a sensação de que só existe verdade quando algo dentro de nós se rompe.

A melancolia aqui não é contemplativa; é febril, inquieta, lascada. É a melancolia de quem se deseja e, ao se desejar, se ameaça. A tríade toda se move nesse território: Eros tenta costurar o que o luto rasgou. O luto aprofunda o buraco onde o eros tenta se enfiar. A melancolia é o estado intermediário, o ponto de partida. 

Ao passo que Koh devolve a inspiração para Jira, o ambiente tóxico, melancólico e depressivo, achatado, cinza e com cheiro de whisky e carvalho envelhecido do apartamento do milionário é opressivo demais, e ele encontra nos olhares provocantes de Pheem um lugar para usar a alegria que lhe é concedida ao ver retornar sua capacidade de produzir arte. É como se ele se recarregasse em um para aproveitar com outro. É com Pheem que ele ousa brincar de jogar vinho na camisa para criar uma obra espontânea, é com ele que canta e grita e sorri, é com ele que aceita ir para a cama. A cena em que Gun e Dew estão no sofá carrega o peso que será o mote principal, embora não fisicamente presente, as ligações de Off interrompendo os beijos e toques dos dois mostra o dilema: Jira não pode perder sua fonte de inspiração. Pheem não pode perder aquele que o faz ter vontade de dar um passo a mais. Koh não pode perder essa sensação tão estranha, mas ao mesmo tempo, tão familiar. 

É por isso que essa tríade não é romântica e não é trágica apenas, ela é transgressiva. Eles não se encontram para curar. Eles se encontram para se expor, para violar a superfície dura da própria solidão e descobrir, no instante do contato, que eros e luto são duas faces do mesmo movimento de perda. A melancolia é o preço, e a revelação. No fim, o que liga esses três não é o desejo, nem a dor, nem a dependência, mas a experiência quase sagrada e ao mesmo tempo dolorosamente mortal de encostar a própria ruína na ruína do outro, e sentir, por um instante, que esse toque os mantém vivos.

Essa relação coloca em evidência, pelo aumento e cessar do som, seja da música ou do trânsito, em cena várias vezes, de modo a mostrar a linha tênue que agora os separa do que eles querem, daquilo que eles precisam. A  literatura está cheia de “triângulos” que não são exatamente amorosos, mas forças humanas que se chocam, como placas tectônicas afetivas, morais ou espirituais. E ninguém fez isso com mais brutalidade lúcida do que Dostoiévski e, por isso, acho que vale a pena aprofundar um pouco mais nisso. 

Para esse gigante russo, mestre do moralismo (no sentido filosófico do termo), sempre que três figuras se cruzam, não se trata de um triângulo comum. É um campo de batalha espiritual, um encontro de mundos interiores que não se encaixam, mas se precisam. Temos Raskólnikov, Sônia e Porfíri em Crime e Castigo. Em O Idiota acompanhamos Íppolit, Míchkin e Rogójin e os Irmãos Karamázov, Aliocha, Ivan  e Dmitri. Cada trio é composto por aquele que busca redenção, o que está à beira da destruição e o que tenta mediar, compreender ou sobreviver ao choque entre os dois. Eles não se completam: eles se fraturam mutuamente. Um vive a partir do buraco do outro, um deseja o que o outro teme, um tenta salvar aquilo que o outro é incapaz de conceder. Isso é o que captei, de algum modo, em Burnout Syndrome.

Quando três figuras se colocam no mesmo espaço, existencialmente falando, algo maior do que elas começa a se mover. Não é só relação: é fricção. Não é só narrativa: é colisão de estruturas internas.  Pheem é o desejo de ser visto, no sentido de não decepcionar os amigos e ajudar desconhecidos que encontra no bar. Jira é o desejo de criar sentido. Koh é o desejo de controlar o caos. Os três desejos coexistem em qualquer pessoa, mas, separados em personagens, tornam-se forças vivas, independentes, famintas. E é justamente por estarem divididas dessa forma que elas entram em conflito. Cada uma busca aquilo que as outras duas ameaçam. Cada uma revela, sem querer, o ponto de ruptura das outras.

E aqui entra a tensão central: Esses três homens não se relacionam apesar de suas feridas, eles se relacionam por causa delas. Embora Koh afirme não sentir nada por Jira, é exatamente o que ele sente que o faz se aproximar, mesmo quando seu comportamento corriqueiro o diz para fazer o contrário.

Isso que a literatura sempre soube: quando três personagens se encontram num ponto de exaustão, o que se cria não é um triângulo amoroso, mas uma espécie de organismo psíquico coletivo, onde cada parte depende da dor das outras para permanecer de pé. Em Dostoiévski, isso aparece em todas as grandes tríades, o que busca redenção, o que está à beira da destruição, o que tenta mediar ou manipular o choque , e o efeito é sempre o mesmo: ninguém sai ileso.

Com Pheem, Jira e Koh, vê-se claramente essa relacão emocional devastadora. Pheem precisa do desespero de Jira para preencher seu próprio vazio. Jira precisa da dureza de Koh para reacender a fagulha criadora que perdeu. Koh precisa da vitalidade de Jira e da amizade competitiva com Pheem para não desmoronar por completo. Cada um se alimenta da fragilidade do outro, não por maldade, mas porque é ali que encontra a peça que lhe falta.

É o que Freud chamaria de circuito de desejo. Lacan chamaria de dependência ao olhar do Outro, e que Dostoiévski chamaria simplesmente de destino.

E é por isso que tudo aqui se dá como tragédia, não no sentido de algo “ruim”, mas no sentido grego, estrutural, inevitável: quando três forças incompatíveis se atraem, o resultado não pode ser harmonia. Só pode ser tensão. O encontro dos três é o encontro de três modos de existir que se precisam e se devoram, três necessidades que não se completam, mas se ferem. Cada aproximação é um risco e cada toque é um corte. 

Assim, talvez a melhor imagem não seja a de um triângulo, mas de uma arena. O campo minado onde o humano, dividido em três, tenta sobreviver ao choque de si mesmo.

É um triângulo que também lembra Marcel Proust mais do que qualquer romance contemporâneo: ninguém deseja o outro, mas sim o que o outro desperta, o desejo se torna reflexo, eco, espelho quebrado. As longas descrições de Proust que são como a composição psicológica dos seus personagens se mostram aqui nas complexas construções visuais: o apartamento destruído, a obra de arte em cores revividas, os trejeitos e olhares. Se em Swan, Proust usa as longas descrições aparentemente banais da paisagem, de dias claros ou chuvosos, na construção da personalidade e das memórias do personagem, aqui nós vemos essa relação na expressão visual deles. Pheem é elegante, social, sedutor mas sem ser indelicado, revelando em pequenos pontos o seu interior. Koh já desistiu, não se veste em casa, casa esta que está sempre uma bagunça mesmo sendo luxuosa, e Jira muda a forma de se vestir conforme sua situação melhora, não no sentido de usar roupas melhores, mas por perceber que reencontrou inspiração e trocar a aparência cansada e opaca pelo casaco cor de rosa.

E talvez seja justamente aí, nesse ponto em que nada se resolve e tudo permanece suspenso, que a história, a arte, me captura de vez, mais uma vez. Os três seguem ali, rondando abismos, presas, e eu, seguindo junto, sem respostas, sem garantias, caminhando entre ruínas que ainda não sei se serão reconstruídas. Há histórias que não avançam em linha reta, mas se aprofundam, como areias do tempo que escondem séculos embaixo de si. E enquanto cada um deles tenta sobreviver ao próprio cansaço, sinto que o que virá não será continuação, mas queda ou voo, ou aquele território estranho entre os dois, onde só a boa arte nos permite permanecer sem desespero, ou que nos conduz diretamente a ele.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Pequenos infernos de um dia qualquer

 "O que resta de nós quando tudo já ardeu?" (Emil Cioran)

Hoje foi um dia daqueles: acordei de péssimo humor e nada mudou isso. Às vezes o mundo desperta antes de nós e já nos espera com os dentes à mostra. Quis ficar longe de tudo e todos durante o dia, e o fiz tanto quanto possível. Era como se qualquer presença fosse uma agressão, como se o simples ato de existir ao lado de alguém custasse energia demais. O calor insuportável parece que finalmente chegou, e não conseguia usar o difusor de óleos essenciais e o ventilador ao mesmo tempo. O ar parado parecia zombar de mim, pesado, quase como se colocasse a mão pesada sobre mim. O barulho no quarto ao lado era infernal, aquela peste da minha irmã insiste assistir como se todo o quarteirão estivesse interessado nos programas de fofoca que exaltam os bandidos que ela tanto gosta. Nada pior do que o gosto alheio quando se está à beira do colapso. Deve ser minha cruz morar com uma pessoa com um caráter tão nojento.

Esse desconforto durou o dia todo, e eu dormi quase o dia todo, dopado, porque simplesmente não suportava abrir os olhos e sentir aquele sol maldito queimando minha pele, ou o barulho, ou a constatação de que não temos dinheiro para ar-condicionado, ou ainda sair e ver a bagunça que há em todo lugar. A bagunça externa sempre encontra um jeito de cutucar a interna, e então as duas se alimentam mutuamente. Essa maldita bagunça! E ainda assim, quando reclamo, me pedem paciência, as coisas vão melhorar, é o que dizem. É curioso como as pessoas oferecem esperança como quem oferece água a quem está se afogando. Nada vai melhorar. Eu sei disso. Todos sabem, mas eles preferem se agarrar a essa mentira para não caírem no desespero da verdade, o mesmo em que me encontro. É cansativo ser o único a admitir o que todos sentem e ninguém ousa dizer.

Acho que perdi minha capacidade de reclamar por páginas e páginas, não tenho conseguido escrever mais como antes. É como se a língua interna, aquela que só se move quando ninguém vê, também tivesse desistido. Já tenho sono. Tenho sentido vontade fumar também. O cigarro, às vezes, parece mais uma pausa do mundo do que um vício. Queria assistir, coloquei uma série, mudei para outra, por fim desliguei tudo. Nenhuma me convenceu, nem a beleza do Bank Nuttawat, um dos meus favoritos, em Destiny Seeker, e nem a fofura do romance de Cherry Blossoms After Winter. Quando nem nossos refúgios preferidos funcionam, é porque alguma coisa importante se deslocou. Espero conseguir dormir, já sinto meu pescoço grudento de suor. Droga. O que há de bom em tudo isso?

As cidades de todo o estado estão em alerta devido à passagem de um ciclone que vai atingir toda a região e uma parte do sudeste. E já choveu a noite toda, numa mistura de umidade com calor. Desconfortável. O clima parece combinar com o que sinto: pesado, carregado, sem direção.

Quando olho pela janela, vejo que, ano após ano, as casas estão cada vez menos enfeitadas para o Natal. A ausência das luzes dói mais do que a presença delas um dia iluminou. Como geralmente é celebrado em família, é só mais uma vítima do desgaste da relação através do tempo. Enfim, não quero escrever um ensaio sobre como, com o passar dos anos, as festas em família se tornam recordação daqueles que já se foram e passam a ser insuportáveis. Mas é difícil não notar que o tempo rói tudo — até as tradições que deveriam nos manter de pé.

Eu, por outro lado, prefiro me concentrar na parte religiosa, fico feliz com a bela liturgia de Natal depois da espera do Advento, mas se as pessoas lamentam os entes que se foram, eu lamento como celebramos. A forma diz tanto quanto a fé, e quando ela se deteriora, a alma sente o golpe. No último domingo, véspera da solenidade da Imaculada Conceição, eu fiz o que pude para sair da cama, contra toda vontade do meu corpo e conseguir ir à Missa. Às vezes, a devoção é sustentada por pura teimosia — e ainda assim vale a pena. O desmantelo foi tamanho, que nenhum grupo parecia se entender. A liturgia foi definida em cima da hora, as músicas eram do tempo comum (nem mesmo do Advento). Nada mais triste do que uma festa espiritual desmontada, tropeçando em si mesma. Voltei para casa triste, me perguntando se devia ter me esforçado tanto assim. E essa pergunta pesa mais quando já se chega cansado de si.

Esses filhos da puta

os mortos vêm correndo de lado segurando anúncios de pasta de dente, os mortos ficam bêbados na véspera
de Ano Novo satisfeitos no Natal 

gratos no Dia de Ação de Graças entediados no 4 de Julho vadiando no Dia do Trabalho confusos na Páscoa 
sombrios em enterros fazendo palhaçadas em hospitais 
nervosos no nascimento; 

os mortos compram meias e calções e cintos e tapetes e vasos e mesinhas de centro, os mortos dançam com os mortos os mortos dormem com os mortos 
os mortos comem com os mortos.

os mortos ficam famintos contemplando cabeças de porcos. os mortos ficam ricos. os mortos ficam mais mortos. 

esses filhos da puta. 

este cemitério acima do solo. Uma lápide para a bagunça, eu digo: humanidade, você entendeu tudo errado desde o começo.


(Charles Bukowski)

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Anatomia do desespero

“Tudo em mim é uma ferida viva.”
(Fernando Pessoa)

Sonata para piano N° 23, Op. 57 em Fm - "Appasionatta" de Beethoven 

Há obras que possuem uma capacidade maior do que nos tocar o sentido: elas verdadeiramente atravessam nosso ser. A Appassionata é uma delas. Beethoven não a compôs como quem escreve música, mas como quem rasga a escuridão à procura de uma forma de existir. O que se ouve não é apenas o temperamento de um homem em confronto com o destino, é a própria estrutura interna da luta humana, exposta sem cortes, sem misericórdia, sem explicações.

O primeiro movimento emerge como quem abre uma porta proibida. Não é uma introdução, mas uma descida: acordes abafados, subterrâneos, insinuam um mundo que respira antes de ruir. A tensão cresce como se tivesse pulsação própria, uma criatura que se forma no escuro. E quando finalmente se ergue, já não é música: é uma força. Beethoven trabalha a matéria sonora como quem golpeia metal incandescente — fragmenta motivos, os distorce, os ergue ao limite da ruptura. O movimento inteiro parece duvidar de si, como se cada frase fosse empurrada pela certeza de que não há escolha senão avançar.

Sempre achei um ato de subserviência intelectual o fascínio, proporcional ao desinteresse, que as pessoas têm pela música clássica, mas especialmente pelo piano. É comum que, ao verem de perto um longo piano de cauda, preto e brilhante com detalhes dourados, se encantam com sua beleza e dizem "eu acho piano uma coisa linda" com afetação. Mas, ao se depararem com uma música que não seja adaptação de algo do repertório pop, já se afastam aterrorizadas, pois, para elas, a música clássica é mais do que chata, é sonolenta, entediante.

Essa peça é só uma, dentre tantas outras, que mostram o quanto esse julgamento é absurdamente errado, expediente de alguém que se deixa levar pelo preconceito contra todo e qualquer produto de verdadeira intelectualidade, ou da contaminação profunda pelos estímulos contínuos da nossa arte contemporânea. Assim como fazem com a própria vida intelectual, apegando-se aos símbolos e desprezando o conhecimento que ele evoca, apegam-se a beleza do instrumento enquanto desprezam os tesouros que para ele foram criados. Beethoven não faz o pianista tocar uma instrumento, o faz arremessar um martelo sobre ele: é visceral. 

Me recordo da primeira vez que ouvi essa peça. Esperando aquela cadência romântica, doce ou melancólica, algo que encontraria mais tarde em um Debussy ou Chopin, mas encontrei uma verdadeira tempestade.

Há explosões, atropelos. Linhas melódicas brutalmente interrompidas por uma tensão que vai costurando por entre as variações do tema. É uma corrida em desespero, os pés sangrentos arrastados enquanto o vendaval destrói tudo por onde passa.

Ao atingir o segundo movimento, muitos esperam repouso. Seria natural que, depois da tormenta, viesse alguma espécie de serenidade. Mas Beethoven oferece outra coisa: um lamento contido, quase religioso, que tenta se sustentar sobre a própria fragilidade. O tema simples, quase despojado, parece pedir calma, mas suas variações são fissuras internas, pequenas rachaduras emocionais que revelam o quanto essa calma é uma mentira necessária. Não é uma pausa; é a consciência da própria exaustão.

Aqueles cortes brutais do primeiro movimento aqui deixam escapar fumaça e sangue, e então percebemos que se tratava de um buraco no peito do próprio homem que, agora, deixa fluir numa torrente sua tristeza, a raiva contida, e tantos outros sentimentos mesclados ali. A impressão de estranheza, no entanto, não acabou, Beethovem continua numa linha melódica tensa, desconfortável. Arpejos mostram um pensamento quase alucinado, não seria estranho se realmente o fosse. Repete-se numa busca, num olhar para o céu à espera de algo.

A transição para o terceiro movimento é como a perda súbita de um mundo inteiro. Quando o Allegro surge, ele irrompe como uma língua de fogo. Não deixa espaço para reflexão. Não permite dúvidas. É o triunfo da intensidade sobre qualquer tentativa de contenção. As mãos do pianista se tornam martelos e serpentes, construindo um espaço sonoro onde tudo é velocidade, combustão, desespero. Deslizam numa velocidade vertiginosa, mas ainda assim cada nota tem a sensibilidade de um soco no estômago. A famosa coda final, brutal, precipitada e inevitável, é Beethoven admitindo que não há salvação no controle, mas apenas no enfrentamento.

Ao fim, resta uma sensação estranha: a de que algo dentro de nós foi arrancado. A Appassionata não nos leva para lugar algum. Ela nos despoja. É um ritual de perda, uma explosão que continua a ecoar no corpo depois que o último acorde se desfaz no ar. Tudo aquilo que se esvaiu nos rasgos anteriores agora é iluminado, mas não de uma esperança bela e gloriosa, como novamente poderíamos esperar, mas apenas uma luz que evidencia ainda mais o que há exposto: um coração.

E talvez seja por isso que ela permanece tão viva. Porque existe uma verdade incômoda ali: no turbilhão que nos suspende entre o impulso de resistir e a vontade de desistir, há uma centelha, algo que brilha e fere, que ilumina e esvazia. Não responde à escuridão, a atravessa. E no rastro da sua passagem, descobrimos que também somos feitos desse mesmo fogo que consome e ilumina.

Entre os golpes e o silêncio, Beethoven não narra uma vida: ele a despedaça.