Sentados num lugar desconhecido qualquer, o velho Buck fumando e bebendo uma cerveja que ele limpava da boca com a mão, os pelos do peito saindo pela camisa aberta, esse já deve ser o seu terceiro bar hoje, e ainda são dez da noite. Augusto, do lado, usa um terno como quem acaba de sair de um casamento ou uma ópera. Bebe um whisky com uma pedra de gelo, e seu olhar é distante, frio, tão cheio de desencanto quanto o nosso colega. Eu não me lembro como vim parar aqui. Tomo uma taça de vinho, ou talvez já seja a sexta. Olhamos uma foto pendurada na parede, num dos poucos pontos iluminados pela fraca luz amarela daquele lugar, um lugar para onde vão as pessoas que querem beber, não serem vistas. Mas aquela imagem nos chama a atenção.
O jovem se abaixa em pose fingida,
uma flor qualquer na mão e o sol
iluminando sua face de cristal
com um brilho nunca visto
Inclina o torso em cálculo estético,
flor cadáver entre dedos nervosos,
enquanto o sol, coveiro químico,
doura a epiderme intacta da ilusão
ele se abaixa porque sabe
que alguém está olhando,
segura uma flor que vai morrer rápido
e o sol faz o resto do trabalho
É um daqueles jovens distantes,
mas tão distantes da vida real,
que facilmente poderíamos confundir
com alguma criatura sobrenatural
Ser de distância ontológica,
incompatível com o atrito do mundo,
quase ectoplasma estético
num universo de carne cansada
esses caras não vivem aqui.
não pegam fila,
não cheiram a fracasso,
parecem ter vindo de outro turno da vida
De beleza fascinante,
de sensualidade ímpar,
um sorriso hipnotizante
dando ao mundo honra de sua vista
Estética tirânica do sorriso,
armadilha neurológica do desejo,
onde o belo humilha o feio
sem precisar dizer palavra
o sorriso dele não promete nada
e mesmo assim leva tudo.
não é gentileza,
é dano colateral
Lábios rosados em mármore claro,
num sonho meus dedos deslizam
pelas feições delicadas do seu rosto de anjo
mas eu sei que, na vida real
Labial epiderme de escultura viva,
onde o tato é delírio condenado,
pois o anjo só existe
na ausência do contato
eu imagino minhas mãos no rosto dele
sabendo desde o começo
que isso nunca sairia do campo da imaginação
e talvez seja melhor assim
Ele me afastaria como demônio.
Repeliria o corpo impuro,
como sistema imunológico do belo
expelindo o erro
na vida real
ele me empurraria sem pensar duas vezes
e seguiria o dia
Quase ninguém
poderia tocar aquela alma divina
e eu não sou contado entre eles
O belo não é democrático:
seleciona, exclui, apodrece o resto
ninguém toca esse tipo de cara
sem sair pior depois
Um daqueles jovens de beleza indescritível
droga!
Aberração estatística da carne,
excesso de forma num mundo falho
isso deveria ser proibido
ou ao menos distribuído melhor
Como pode existir alguém assim?
Como pode o mesmo criador a plasmar essa criatura,
ter formado um monstro como eu?
O mesmo laboratório cósmico
que erige o ídolo
fermenta o dejeto humano
o que me irrita não é ele existir.
é o mundo olhar pra mim depois
e dizer:
“foi o que deu.”

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