Alguns encontros são difíceis de explicar, ou talvez eu superestime minha capacidade literária que, admito, é limitada cada vez mais pelo meu estreito horizonte de consciência. Mas ainda assim, mesmo que não consiga dizer, penso que não seja um esforço em vão falar dele. Quero aqui me valer da extrapolação poética para tentar iluminar o que sinto.
Há encontros que não pedem explicação, apenas permanência. Eles não se impõem como eventos, mas como assombros suaves: ficam. Talvez escrever seja só uma maneira de tocar o que não pode ser tocado, de prolongar o instante em que o olhar ainda não se despediu. Por isso, tudo bem não conseguir explicar algo assim como quem descreve o funcionamento de uma máquina num manual. Foi Rainer Maria Rilke quem disse que “amar é guardar o outro como um mistério, não resolvê-lo.” Sei que não vou conseguir explicar, e isso é minha força. O mistério permanece intacto, e é justamente isso que o torna poético.
Me lembro quando o vi a primeira vez, e fiquei encantado. Ele era como uma fada: o corpo esguio, rápido, o olhar penetrante e provocador, o sorriso, embora doce e delicado, também guardava aquela curiosidade virginal, just like a bunny in heat, que deixa homens como eu bobos de paixão.
Há belezas que não se oferecem como espetáculo, mas como revelação. Não se trata apenas do corpo, mas de algo que escapa dele, um excesso, um resplandecer que não se aprende, não se ensaia. O encanto nasce exatamente aí, nesse ponto onde o desejo se confunde com admiração.
Dante cria Beatriz como presença que transforma o mundo só por existir. “Ela não parecia filha de homem mortal, mas de Deus.” Apo aparece para mim assim, não como alguém que entrou na minha vida, mas como alguém que reorganiza seu olhar sobre ela. Como tantos outros nessa minha jornada para a Tailândia.
Ele dançava, ou melhor, flutuava, como uma bailarina. A batida da música, a sensual "White Rabbit" de Daou Pittaya, parecia fluir por ele, seja nos contrastes de luz e sombra ou na relação da caçada e do caçador: ele se mostrava frágil como um coelhinho, mas provocava um grande lobo, cuz you only neat on the surface, white rabbit.
A dança, nesse instante, não era movimento — era linguagem. O corpo dizia aquilo que nenhuma palavra ousaria dizer: que a fragilidade pode ser uma forma de poder, e que provocar não é atacar, mas permitir-se ser visto.
É claro que imediatamente fui atrás daquela figura. Descobri que Apo, do grupo DICE, tem uma personalidade impar. Não parece fingir um arquétipo de menino, mesmo estando num grupo de meninos. Gosto de como essa geração de grupos tailandeses tem permitido essa demonstração, não sei bem como explicar, dos meninos, como o Pluggy do PERSES ou o Lego do Lykn, que usam saia, rebolam, falam dos meninos bonitos, não tem vergonha da própria sexualidade...
Talvez o que mais encante não seja a beleza, mas a naturalidade com que ela se assume. Há uma coragem silenciosa em simplesmente ser: sem ironia, sem defesa, sem o peso de justificar o próprio corpo.
E o Apo ama coisas da Hello Kitty, e sai com uma bolsinha ou um daqueles copos grandões, afinal a Tailândia é bem quente e ele ta sempre dançando e cantando. E coleciona coisinhas da personagem. Também adora comer e sempre posta foto dos restaurantes por onde vai. Faz biquinho para as fotos, e dança mostrando a cintura fininha, a pele clara e delicada e aquele sorriso alegre, fofo, com uma pitada de provocação.
É nesses detalhes que o amor platônico encontra sua morada: no gesto pequeno, no gosto aparentemente banal, na doçura que não precisa seduzir porque já existe. Amar assim é não querer possuir, mas guardar, como quem guarda uma imagem no coração para visitá-la em silêncio.
Sou um poeta do outro lado do mundo apaixonado por Apo. Ele nunca nem vai saber da minha existência, mas, no meu coração, ele ocupa um lugar iluminado, só dele. Sei que o Apo de quem não é apenas o artista real, mas o efeito íntimo que ele produz em mim. E esse efeito é verdadeiro, mesmo que o encontro nunca se concretize. No meu coração ele é um objeto de admiração, de contemplação amorosa, como dizia Platão "O amor é o desejo de possuir para sempre o bem.”
Talvez amar assim seja aceitar que certas presenças não vêm para ficar, mas para iluminar. Ele não sabe do lugar que ocupa em mim, e isso preserva a pureza desse sentimento: não há cobrança, não há medo, não há perda. Há apenas a alegria silenciosa de saber que, em algum ponto do mundo, ele existe, dança, sorri, vive, e que isso, por si só, já basta para tornar o mundo um pouco mais habitável. Se o amor precisa de um corpo, que seja o meu; se precisa de um nome, que permaneça em silêncio. Porque há afetos que não querem destino: querem apenas durar.

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