Os últimos dias foram de um contraste muito intenso no meu coração. Assisti silenciosamente a um embate, ao mesmo tempo, interno e profundamente e particular, e aparente, brilhante. O clima de Natal, já conhecido por sua ambiguidade sociológica, sendo celebrado com a profundidade espiritual de um São Francisco de Assis ao tratar da grandeza do gesto de profunda humildade do Deus se fazer homem, pequenino, pobrezinho. Ao mesmo tempo, uma sociedade de consumo onde a mesma data se tornou, em si mesma, um produto. Mais do que vender produtos, hoje vende-se até mesmo a si.
Aqueles que eu admiro não estão alheios a isso. E foram justamente eles que me impressionaram. As diversas manifestações, as fotos em ensaios de Natal, com os cenários decorados, cenas montadas imitando momentos de intimidade, alegria e carinho, valores reais, mas aqui apresentados de modo artificial. Meus atores favoritos me encantando em imagens de uma beleza que eu sequer consigo descrever. Covers de músicas tradicionais de Natal. Cada uma daquelas fotos poderia ser exposta nas paredes de uma galeria de arte, numa grande ode à beleza. No entanto...
Há algo de inevitavelmente ambíguo na experiência do belo. Platão já havia intuído que o desejo nasce da falta, que ninguém deseja aquilo que já possui, e talvez seja por isso que certas imagens nos alcançam com tanta força: elas não prometem apenas prazer, mas revelam um abismo. É isso que eu sinto ao ver aquela imagem quase onírica de Ford Alan como se ele próprio fosse um floco de neve, Thomas e Kong cantando num cenário que parece ter sido montado pelos próprios ajudantes de Papai Noel, Net e JJ num momento de intimidade na cozinha, em meio a biscoitos de gengibre e bolo com chantilly. O corpo idealizado do ídolo não é só objeto de admiração, ele aponta silenciosamente para aquilo que me falta, para a distância entre o que somos e o que imaginamos poder ser. O desejo, então, deixa de ser leve e passa a ter peso.
O Belo é o Ideal do Eu e, como tal, não apenas atrai mas também fere, e profundamente. Rilke escreve que o belo é apenas o início do terrível, algo que suportamos porque ainda não nos destrói. Essa frase parece ecoar sempre que olho para essas imagens perfeitas: a pele sem falhas, a magreza, a delicadeza, a luz cuidadosamente calculada. Há nelas um encanto quase sagrado, mas também uma violência sutil. O belo não consola; ele fere com delicadeza. Ele não acusa, apenas se apresenta e, justamente por isso, nos obriga a medir a nós mesmos diante dele. Como finíssimas agulhas de aço frio penetram a pele. Vejo, admiro, sorrio, me encanto e sei que meus olhos brilham, e então, quando a tela se apaga e eu me vejo no reflexo, percebo o abismo que há entre nós. Mais do que geográfico, mas um abismo existencial, ontológico.
Não somos iguais, de modo algum. Em nada. Freud ajuda a compreender por que essa admiração dói tanto. Ao falar do Ideal do Eu, ele descreve uma instância interna que observa, julga e pune. Os ídolos contemporâneos parecem encarnar esse ideal: não exigem nada explicitamente, mas sua simples existência já nos coloca em julgamento. Admiramos, desejamos, e ao mesmo tempo nos sentimos insuficientes. O amor que sentimos por essas figuras vem misturado à culpa de não corresponder, de não alcançar, de não caber naquela forma.
Essa insuficiência, no entanto, não é apenas psíquica; ela atravessa o corpo, mais ou menos naquele sentido apontado por Foucault, ao lembrar que o corpo é investido por relações de poder, marcado, treinado, corrigido. O padrão de beleza que nos oprime não surge do nada: ele é produzido, repetido, reforçado por imagens, filtros, rotinas e expectativas. O corpo que não se ajusta, mais pesado, mais opaco, mais cansado, passa a carregar não só sua matéria, mas um juízo moral silencioso. Eu não posso fazer os procedimentos estéticos que eles fazem, não consigo malhar e cultivar o corpo perfeito quando até levantar da cama me dói cada fibra do corpo.
Essa constatação, que ultrapassa a mera, porém completa, diferença estética mas, como disse, até mesmo ontológica, me deixa em estado de crise: entro no ponto do desespero, doença até a morte onde percebo que quero me tornar algo que jamais serei. Schopenhauer dizia que quase todas as nossas dores nascem da comparação, e talvez seja aqui que o sofrimento se torne mais evidente. Não é o belo em si que machuca, mas o gesto quase automático de nos colocarmos ao lado dele. A imagem perfeita não diz “seja assim”, mas nós ouvimos do mesmo jeito. O olhar se transforma em balança, e o corpo próprio nunca parece suficiente.
É como se todos eles, os que mais amo, estivessem ao meu redor, apontando cada um de meus defeitos, mesmo sabendo que não, eles apenas estão fazendo seu trabalho, que consiste em perpetuar a imagem da perfeição. Ainda assim, causa uma ferida, aprofundada por Lacan ao afirmar que o Eu nasce numa alienação fundamental. O espelho não nos devolve quem somos, mas quem gostaríamos de ser. Os ídolos funcionam como espelhos idealizados: olhamos para eles buscando algo de nós, e encontramos apenas uma imagem impossível. Ainda assim, continuamos olhando, porque há nisso uma promessa, mesmo que nunca se cumpra, como aqueles pedidos da infância que fazíamos para estrelas cadentes.
Reconheço que meu amor carrega um estranho tom. O sujeito amoroso, é aquele que espera. Amar um ídolo é habitar essa espera infinita, sem posse, sem reciprocidade concreta. É um amor feito de contemplação, de distância, de silêncio. Não é menor por isso; é apenas mais frágil, mais exposto, mais próximo da ferida. Algo como conceber inconscientemente o amor platônico como resistência silenciosa à posse, uma relação dúbia, pois quero exatamente por saber que não posso ter, ou ser.
Um nome que vem ganhando popularidade ultimamente, talvez por descrever um mundo no qual nos identificamos, e o digo com um gosto amargo na boca, é o de Byung-Chul Han. Ele observa que vivemos numa sociedade que exige transparência total, exibição constante. Tudo deve ser mostrado, iluminado, polido. Em especial ao tratar do cansaço ele aprofunda na exigência da demonstração constante de eficiência. Nesse excesso de imagem, o eros se empobrece, porque não há mais mistério. As fotos de Natal, tão perfeitas, tão limpas, não deixam espaço para o peso, para a sombra, para o corpo que falha. Elas não mentem, mas também não dizem tudo. As minhas fotos, de um ensaio do ano passado, escondem. São apenas as luzes enquanto meu corpo aparece como contraste, quase como se mostrasse que eu sou o total oposto do brilhante, do belo.
A graça só entra onde há vazio. O corpo que sofre, que pesa, que não corresponde ao ideal, pode ser também o lugar de uma verdade mais profunda. O corpo escuro no meio das luzes. Onde a imagem falha, algo humano insiste. Onde a perfeição se quebra, talvez exista espaço para respirar. Eu só não o encontrei ainda. Tudo que faço no momento é sentir a dor em sua intensidade, porém silenciosamente. É como olhar para o reflexo na água e, de repente, passar o dedo sobre ela, e o reflexo tornar-se cada vez mais difuso, ou jogar uma pedra pesada, até que não tenha mais reflexo nenhum.
Assim, a relação com os ídolos não é apenas alienação nem apenas consolo. Ela é um campo de tensão: entre desejo e dor, admiração e inadequação, leveza e peso. Amar o belo, às vezes, é carregar essa contradição sem resolvê-la, e escrever a partir dela é uma forma de não deixar que o silêncio se transforme apenas em culpa.

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