segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Novas narrativas

Gosto de novas perspectivas, histórias contadas de um modo novo que, além de trazer um novo frescor, por assim dizer, conseguem enriquecer ainda mais o meu imaginário. É para isso que tenho acompanhado tantas séries esses anos todos, e agora eu entendo: não é porque simplesmente me agrada o gênero BL, mas porque eu sabia que, na forma diferente de se contar aquelas histórias, havia um tesourou que, em algum momento, eu ia descobrir. Weil dizia que a atenção verdadeira é uma forma de amor. E tem sido assim.

Hoje percebo que não se trata apenas de preferência por um gênero específico, mas de algo mais profundo: uma formação do imaginário, um lento cultivo interior feito de imagens, gestos e silêncios que passam a habitar a memória e a sensibilidade. Roger Scruton fala da arte como algo que nos ensina a atentar, não a consumir estímulos. Essas narrativas não ficam na superfície do gosto; elas moldam o modo como se olha, como se espera, como se deseja.

Talvez porque o imaginário não seja um luxo, mas um órgão da alma. Aquilo que não é alimentado por imagens densas, narrativas bem construídas e conflitos verdadeiros acaba atrofiando. Bachelard dizia que o imaginário não é fantasia escapista, mas uma potência formadora da alma. As imagens que habitamos moldam nossa sensibilidade, nosso ritmo interno, nosso modo de desejar. Não pensamos apenas com conceitos: pensamos com cenas, gestos, rostos, silêncios. E toda obra que amplia esse repertório não nos distrai, nos educa interiormente.

Embora pouco comentada pelos fãs, Melody of Secrets tem sido uma grata surpresa para mim, tão interessante quanto o nome que tem. Force Jitcharapong e Book Kasidet são como velhos conhecidos. Me lembro da primeira série deles, Enchanté, que muitos consideraram não um fracasso, mas uma decepção. Mas isso só porque ela já estava gravada e foi lançada após um dos maiores sucessos da produtora que, mesmo apostando alto, não esperava um sucesso tão grande. Mas Enchanté tem aquele charme romântico e leve que a torna especial. 

Existe um erro recorrente na recepção cultural contemporânea: confundir valor com impacto imediato. Algumas obras não nascem para o estrondo, mas para a sedimentação lenta. Elas não nos arrebatam, mas permanecem. E aquilo que permanece costuma agir em profundidade, quase sem alarde.

Depois disso ele finalmente tiveram algo como uma segunda chance em A Boss and a Babe, mostrando que realmente tinham muita química e bom timing para a comédia. Na visão geral estavam redimidos. No entanto tinha ainda outro desafio pela frente: Only Friends. Com uma narrativa relativamente mais séria, próxima do estilo colegial americano, a série foi um sucesso estrondoso, mas também contava com elenco de peso e o diferencial de um tom completamente distinto. E é exatamente esse o ponto em que queria chegar: agora eles são a aposta, mais uma vez, para uma nova forma narrativa em Melody of Secrets. 

Com uma história mais séria, acompanhamos um Book que perdeu sua memória dez anos atrás e um Force que surge dizendo ser seu namorado que, por conta da perda de memória do outro, não conseguiu contato por todo essa tempo, já que seu relacionamento era secreto. A perda de memória, aqui, não é apenas um dispositivo narrativo, mas uma condição existencial: quem somos quando nossa história nos é retirada? O que permanece quando as justificativas desaparecem? Grandes narrativas sempre orbitam esse tipo de pergunta, mesmo quando não a formulam explicitamente.

Sem querer enxergar também simbolismos em cada pequena cena, ou várias e várias camadas de interpretação, a série em si já traz na sua superfície o suficiente para atrair um espectador atento por boas histórias. A narrativa é seca, quase crua, e talvez seja justamente aí que resida sua beleza. Ela exige do espectador não uma reação imediata, mas uma educação do olhar: aprender a sustentar o silêncio, a ausência de explicações, a frieza que não é desamor, mas contenção. 

Ver Melody of Secrets é aceitar que nem tudo se oferece de imediato — algumas coisas pedem tempo, atenção e permanência. Conserva as cores das produções da GMM TV: paisagens bonitas, ensolaradas, como se cada locação fosse perfeita para um momento de casal. Mas os personagens seguem uma espécie de diálogo permanente, mesmo em silêncio ou trocando ofensas, ou beijos, já que eles se aproximam bem rápido, o que também é um sinal diferente.

Há narrativas que confiam demais no excesso de explicação e outras que confiam no silêncio. As segundas tendem a respeitar mais o espectador. Elas pressupõem um olhar que não consome passivamente, mas participa, completa, interpreta. 

Alguns anos atrás estávamos acostumados com as séries universitárias/colegiais, que tiveram nomes de muito peso, como SOTUS, Love By Chance, My Engineer, Love Mechanics e mais uma longa lista. Elas também seguiam uma fórmula onde os protagonistas geralmente se conheciam, passavam por algum tipo de conflito e, depois de um tempo, se aproximavam aceitando seus sentimentos. Cenas de sexo ou até mesmo beijo eram raras e mais poéticas. Aqui elas ainda conservam sua poesia visual, mas não são mais um tabu que só é apresentado ao fim de uma jornada. E estamos falando também de dois atores que estão crescendo em sua carreira, e que alimentam uma amizade de mais de quinze anos justificando a naturalidade deles em cena. 

Nesse sentido, a série deixa de ser apenas entretenimento e se transforma numa experiência estética formativa. Não há aqui a pressa da identificação fácil ou da catarse rápida; há um percurso. A obra acontece no espectador à medida que ele se dispõe a acompanhá-la, formando não apenas expectativas narrativas, mas uma certa postura interior diante da dor, da memória e do afeto.

Isso aponta para uma mudança mais ampla: não apenas no que se mostra, mas em como se mostra. A maturidade narrativa não está em chocar, mas em integrar. Integrar desejo, afeto, conflito e consequência. Quando isso acontece, a obra deixa de ser escapismo e se aproxima da vida, não da vida idealizada, mas da vida tal como pode ser sentida.

O resultado em Melody os Secrets é justamente uma série com uma pegada fria, poética em alguns sentidos, em que as coisas nos vão sendo reveladas à medida que o próprio protagonista vai tomando conhecimento delas. Personagens maduros, com conflitos sérios que não pedem soluções imediatas. A narrativa cria um espaço simbólico de elaboração psicológica, onde o que dói não precisa ser resolvido de imediato, apenas reconhecido. O silêncio, os diálogos truncados, os gestos ambíguos funcionam como zonas de suspensão, lugares onde o espectador também pode elaborar, junto com o protagonista, aquilo que permanece em aberto.

Poderia até explorar algum simbolismo em outro momento, mas agora julgo desnecessário. Não temos aquele ritmo acelerado dos adolescentes e nem tampouco melancolia em demasia, deixando o clima pesado, em resumo é basicamente uma história mais séria, numa pegada até fria, é verdade, mas ainda bela o suficiente para ser encantadora.

Talvez seja por isso que acompanhar essas séries ao longo dos anos tenha se revelado algo mais do que hábito ou preferência estética. Há nelas uma verdadeira ampliação do horizonte existencial: outras formas de amar, de sofrer, de esperar se tornam pensáveis. Não como modelos a serem imitados, mas como possibilidades que deslocam suavemente nossas certezas.

Talvez seja justamente aí que resida seu maior mérito: ao invés de inflamar emoções passageiras, a série constrói um espaço interior. E quando uma obra cria espaço, para pensar, sentir, lembrar, ela cumpre uma função que vai além do gosto pessoal. Ela amplia o horizonte do possível. Ensina-nos, ainda que silenciosamente, a perceber melhor a nós mesmos.

Em tempos de consumo acelerado de imagens, Melody of Secrets convida a uma recepção estética ética, feita de atenção e paciência. Não exige adesão imediata nem recompensa rápida; oferece, em vez disso, uma permanência silenciosa. Ao final, não saímos confortados, mas um pouco mais atentos, e talvez seja essa a forma mais discreta e honesta de enriquecimento pessoal que uma obra pode oferecer.

No fundo, toda obra que realmente permanece não o faz por aquilo que conta, mas pelo modo como reorganiza a sensibilidade de quem a recebe. A formação do imaginário não acontece por acúmulo de informações, mas por convivência prolongada com imagens, ritmos e conflitos que passam a operar interiormente, muitas vezes sem que se perceba. Nesse sentido, a experiência estética não é fuga da realidade, mas um modo indireto e profundamente humano de educação ética e psicológica: aprendemos a nomear afetos, a sustentar ambiguidades, a reconhecer limites e desejos por meio de narrativas que nos oferecem um espaço simbólico seguro para elaborar aquilo que, na vida cotidiana, surge de forma bruta ou desordenada. Quando uma obra exige atenção, silêncio e permanência, ela não está sendo fria, está nos ensinando a ver melhor, a sentir com mais precisão, e, sobretudo, a habitar o mundo com um pouco mais de consciência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário