sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Um vício caro

Dia de ira. Acordei quando abriram minha porta pela manhã, sem perceber que o sol já queimava minha perna. Odeio esse calor logo pela manhã. E odeio perceber que estou cercado por idiotas, e que eu mesmo sou um deles. Alguns dias começam como um erro administrativo do universo. Nada deveria funcionar, mas tudo insiste em girar.

Droga, eu nem queria ter acordado. Mas esses pássaros cantando, esse maldito sol brilhando, e as pessoas lá fora já andando apressadas. Na próxima semana já será Natal, alguns poucos desgraçados ainda trabalham, para chefes sedentos por dinheiro, e usam das suas últimas forças para saírem de casa nesse calor dos infernos. E esses chefes dos infernos, que agora viajam para outros países. Demônios. Malditos. O mundo não para porque não sabe para onde ir. Então finge produtividade e chama isso de dignidade. Passei um café, mesmo já sendo noite. Queria acordar um pouco dos remédios que tomei pra dormir o dia todo. Mas o gosto do café me lembrou daquele trabalho nojento, daquela chefe nojenta, e eu quase vomitei. 

Há muito percebi que já não aguento mais a loucura. Não aguento sair do quarto e achar que um furacão passou por aqui. Ou talvez tenha passado dentro de mim também. Destruindo tudo, lançando tudo pelos ares. E acho que eu queria destruir tudo e lançar pelos ares, e me lançar pelos ares, como se tivesse uma espada capaz de explodir qualquer coisa em que toca ou de incendiar uma cidade inteira, eu certamente me deixaria consumir por suas chamas. Há dias em que a violência não quer vítimas, quer silêncio.

Até a música está num volume insuportável, porque não quero ouvir meus pensamentos. Nem mesmo colocá-los em ordem para escrever. De nada vai adiantar. Pensar é um vício caro quando a realidade cobra à vista.

Também não quero ouvir ninguém. Parece que não percebem a loucura em que vivem. Não eram nem sete da manhã e já estavam batendo alguma coisa com som metálico, reclamando da caixa d'água, lavando roupas, gritando com criança. E fugir pro reino da internet? Pior ainda. Lá todos odeiam, só sabem odiar, são incapazes de amar o que quer que seja. A diferença é que lá o ódio vem com legenda e filtro.

E eu nem queria ter acordado, com esse maldito sol queimando minhas pernas, num quarto abafado, porque isso é tudo que eu posso pagar. O aluguel vence. O corpo também. Só o dia insiste em não acabar.

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