sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Musas, fadas e deuses

Sei que há certa dose de angústia que venho tentando ignorar, sem muito sucesso. Percebo que a cada noite eu espero que amanhã seja melhor, e quando amanhece eu só quero que termine logo.  Já não olho para as relações do mundo como quem queria participar delas. Apenas as vejo como algo que existe ao meu alcance, senão que é como uma invenção, algo mítico. 

Também percebo que tenho fugido sempre mais e me refugiado sob a sombra de certas criaturas. De certos deuses que pairam os bosques e riachos, oferecendo frescor da água para alguém que escapou de uma guerra que não podia vencer. Aquele sorriso de Sea Tawinan, como um Ganimedes a conquistar até mesmo o grande Zeus, é como um bálsamo a ser aplicado nas feridas abertas de uma vida dolorida demais.

Por isso gosto de ver, observar e sonhar com esses silfos e náiades, musas de uma poesia tão elevada que não sou capaz de escrever, apenas e tão somente ouvir. Sei da fragilidade dessas imagens, bem como da fragilidade que me levou à criá-las. O ídolo também é frágil, mas essa fragilidade é cuidadosamente ocultada para sustentar o encanto. Assim me aparecem figuras de beleza surreal, como os atores e modelos Jeff Nathadej e Longshi Lee, por quem tenho algo comparável a uma devoção. Eles representam a força acompanhada da beleza inquestionável, personificações de um Apolo cujo torso arcaico nos convida a conversão de vida.

Esses seres de perfeição são como inspiração, um novo ar para respirar depois dos escombros. Tay Tawan é modelo, fotógrafo, ator e cantor, homem belíssimo e sempre simpático nas suas aparições públicas. Ao afirmar que "o ideal do eu é o herdeiro do narcisismo primário”, Freud sugere que ídolo surge exatamente aí onde o eu falha. Ele não é apenas admirado: ele ocupa o lugar daquilo que gostaríamos de ter sido antes da ferida, antes da queda, antes da consciência da insuficiência. E ele ainda diz que “amamos aquilo que possui as perfeições que desejamos alcançar para nosso próprio eu”, isto é, não é o outro que se ama, mas uma promessa: a de um eu possível, mais leve, mais belo, mais aceitável. Em lugar dessa insuficiência, aqueles que podem fazer um pouco de tudo, de modo bem feito. 

Phuwin é o menino que vi tornar-se homem. A carinha fofa deu lugar ao artista sério, comprometido com seus valores, incansável em esforço para melhorar e que esteve presente nos momentos em que eu mais tinha sido dominado pela desilusão. O mesmo de Fourth e Keen, que estou vendo crescer. Além de canto e atuação, na participação ativa dos caminhos da própria carreira, em sorrisos que me dão forças, trabalhos que me inspiram ou simplesmente que me fazer sorrir quando tudo parece frio e escuro.

Me imagino num lugar distante, por isso reforço ser um mecanismo de fuga, com uma vida diferente, estruturada. Ainda reclusa, é verdade, mas ainda participante de algum modo do todo. Como se pudesse viver como um escritor desses que não encara as pessoas de frente, por medo ou completo desinteresse, mas que precisa continuar escrevendo e, por alguma razão, continuam a lê-lo. Influência algo de um Bukowski. Queria escrever sem precisar conviver com os idiotas das artes, ocupados em se elogiarem mutuamente sem produzir nada substancialmente relevante. 

Pois bem, nesses devaneios de um mundo ideal aparecem essas figuras de que comentei. Perfeitas demais para andarem nas ruas junto aos homens de verdade. Winnicott ao tratar dessa espécie de fantasia vai dizer que “é no espaço transicional que o indivíduo pode viver criativamente”, ou seja, a criatividade, o meu sonho onde aparecem esses ídolos, ocupa esse espaço intermediário entre o real insuportável e a fantasia necessária. Aqui pessoas que quase não parecem existir de tão perfeitas, Nunew e Namping, fadas entre nós, Jeff Satur, Keng Harit, Daou e Offroad erguendo-se como colunas, estátuas gigantescas num templo universal de culto ao que é perfeito. Não é delírio, é sobrevivência criativa, é aquele desespero do corpo afundando na água que só consegue pensar em alcançar novamente o ar para seus pulmões. 

Fadas de sorrisos encantadores, como o Hong do Lykn ou o Pluggy do PERSES, que caminham, dançam e sorriem cativando pelo simples fato de existirem. Penso que seja por isso que os ídolos existem: para vermos neles, maximizados, aquilo que desejamos a nós. Porque, sim, quando olho para uma foto minha e vejo minha aparência imensa, quase animalesca, e depois os vejo, magros, elegantes e desejáveis, percebo que há aqui uma relação de admiração e desejo. 

Lacan, ao abordar esse desejo, diz que “o desejo do homem é o desejo do Outro”, no sentido de que ele nos devolve uma imagem organizada do desejo quando o nosso está disperso, confuso, ferido. Também a tradição filosófica trata do assunto, pois, para Platão, o ídolo não é fim, mas meio: ele fecunda o pensamento, a escrita, o sonho. O amor não quer possuir; quer produzir sentido. 

Na literatura, Proust mostra muito bem que “o desejo floresce na ausência”, a distância não empobrece o amor; ela o organiza, o torna possível, quase respirável num mundo intoxicado. Eu fecho os olhos e eles aparecem, estendendo a mão. Me vejo sorrindo e comendo com eles, me sinto participante inclusive de suas tristezas, medos e inseguranças. 

Há algo de profundamente humano, e nada acidental, nesse gesto de elevar certas figuras à condição de musas, fadas ou deuses menores. O desejo não nasce do encontro pleno, mas da falta, e é justamente por isso que ele se organiza em imagens: ama-se no outro aquilo que se pressente como possível em si, mas ainda não alcançado. O ídolo, nesse sentido, não é apenas um corpo belo ou uma presença encantadora, mas um espelho idealizado, um lugar simbólico onde o eu deposita aquilo que perdeu, aquilo que nunca teve ou aquilo que teme jamais possuir. Como no amor platônico, o belo não se oferece para ser possuído, mas para fecundar, não o corpo, mas o pensamento, a imaginação, a escrita. E assim, entre a carência psíquica e a promessa de forma, constrói-se o mito: uma narrativa onde o desejo encontra linguagem e a ausência se torna suportável. Não se trata de engano, mas de mediação; não de alienação pura, mas de sobrevivência estética. O espetáculo, então, não é apenas aquilo que se vê, mas a relação silenciosa que se estabelece entre quem contempla e aquilo que é contemplado, um pacto íntimo onde o olhar encontra sentido, ainda que saiba, no fundo, que esse sentido é frágil, provisório e, justamente por isso, necessário.

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