quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Nenhuma promessa

Realmente ontem foi dia de completa escuridão. Nos poucos momentos em que estive acordado, obviamente contra minha vontade, eu só sentia o peso de um animal raivoso no meu peito. Me imaginei jogando coisas no chão, em completo descontrole. Algo daquela potencialidade esquizofrênica habita meus pensamentos profundos.

Sabia que ia acordar hoje melhor, mas não quero ter que ficar perto das pessoas, pelo contrário, queria poder até mesmo cancelar os compromissos dos próprios dias e desaparecer. Não que eu esteja "aparecendo" muito. O único lugar que tenho ido é a igreja e, bem, basta olhar como se celebra por aqui para entender porque não tenho muita vontade de ir lá. Na verdade, não tenho vontade de nada. Queria só voltar pra cama e ficar lá, até enfim…  

Há lágrimas entaladas na minha gargante, e nada faz com que elas desapareçam. Penso que não vou segurar por muito mais tempo. Sinto que vou chorar numa cena, com uma música, enfim. 

Foi mais um dia em que me escondi, suportando o calor que já se anuncia com o início do verão nesse domingo. Eu odeio o verão, com todas aquelas pessoas suadas o tempo todo, e odeio porque tudo me deixa suado, o mínimo esforço já é demais. 

O mínimo esforço já demais. Vou precisar me esforçar pra conseguir ir à Missa amanhã, e mais ainda pra cantar, e ainda mais pra ver mais pessoas no ensaio da tarde. E ainda tem as missas de Natal, mais e mais pessoas. Eu não queria ver ninguém. 

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Queria ter ficado mais tempo e assistido. Mas meu corpo absorveu o energético como se não fosse nada e eu fui dormir. Ele também rejeitava a ideia de passar mais tempo acordado. Caminhei como um zumbi e, embora estivesse fresco à noite, quando acordei estava banhado em suor. 

Droga.

O corpo sempre vence. Ele não debate, não faz concessões, não respeita entusiasmo. Só executa a sentença. Quanto mais você tenta enganá-lo, mais ele se vinga depois.

Hoje tentei dormir, à base de remédios, e fiquei com muito sono, é verdade, mas o barulho não deixou. Portas batendo, gritos e choro de criança. Um inferno do outro lado da porta, e eu pingando suor no meu maldito quarto que pega sol durante toda a manhã.

O inferno não precisa de fogo. Ele funciona muito bem com paredes finas e gente convencida de que o mundo é uma extensão da própria sala. Não existe direito ao silêncio, só a obrigação de aguentar. Dormir virou um luxo. Descansar, um privilégio indevido.

É Réveillon, e meus únicos planos são assistir, à meia-noite fumar um cigarro, talvez fazer pipoca. Já vejo todos animados, com conjuntinhos de peças brancas e, ao festejar, um sentimento que eu desprezo: esperança! Todos idiotas cheios de esperança. Estou com uma bermuda e faz calor demais pra usar camisa.

A esperança é o último delírio coletivo antes da realidade cobrar de novo. Vestem branco como se isso lavasse alguma coisa além da própria consciência. Prometem mudança porque é mais fácil prometer do que admitir que não vão a lugar nenhum.

À meia-noite vão gritar, se abraçar, fingir que algo recomeça, amanhã acordam iguais, só um pouco mais velhos e com menos paciência. Eu realmente não queria ter chegado ao fim desse ano, e nem começar outro "ciclo" maldito. 

Eu fico com o cigarro. Ele não promete nada.

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