O espírito parte em busca de inspiração, algo como uma centelha ou fagulha dourada capaz de romper o grosso véu de nuvens que deixa o corpo e a mente embotados.
É um gesto antigo, quase arcaico: a alma tateando no escuro à procura de algo que ainda pulse. Como escreveu Rilke, “viver as perguntas” talvez seja isso, aceitar a espera pela luz sem exigir que ela se revele de imediato.
Existem algumas obras que combinam com esse humor justamente por combinarem com essa atmosfera, outras, no entanto, se destacam justamente pelo contraste que oferecem. Elas não dissipam a névoa, mas a atravessam com delicadeza, como quem acende uma vela num quarto fechado.
Ainda me lembro de quando assisti o lançamento de Only Boo (2024) em tardes de domingo que se tornaram meu momento de respiração em dias complicados, assim como seria com Your Sky em 2025. Foram pequenas suspensões do tempo, instantes em que a vida parecia permitir descanso sem culpa. Uma pausa, momentos em que podia esquecer as cobranças e pesos e então me contentar com a luz delicada que me beijava as faces durante aqueles cinquenta minutos de cada episódio.
Essa luz não ilumina tudo: ela consola. Como diria Tagore, “a fé é o pássaro que sente a luz quando a aurora ainda está escura”. Rever essas obras não é diferente, mas agora posso fazer isso sem intervalos e, penso que o momento seja propício. Há algo de profundamente humano em retornar ao que nos protegeu quando ainda não sabíamos nomear o cansaço. Eu demorei a fazer isso, e pago um preço caro.
Keen Suvijak surgiu em Only Boo como um rosto novo para mim, embora já seja quase um veterano na indústria. Não só apresentando uma atuação bastante madura como também uma trilha sonora completa quase toda cantada por ele, com uma baita habilidade vocal só vista em cantores mais velhos e experientes. Há na sua voz uma espécie de tempo lento, uma recusa à pressa do mundo.
Percebi ali que não seria uma série comum. Algumas obras não se anunciam pelo impacto, mas pela permanência, ficam em nós como um eco baixo, difícil de ignorar. Essa ficou no meu coração. Muito embora eu esteja cinza, mais pelo pessimismo de um coração que já não sabe ser capaz de amar do que pelos cigarros que venho fumando, ela permanece como uma pequena fogueira na praia inexplorada onde posso, depois de um naufrágio, aquecer as mãos.
Como já tratei em outros momentos, e pretendo fazê-lo mais vezes, gosto de diferentes narrativas, e essa tem um arco de desenvolvimento que me agrada bastante. Algumas obras são fortes pelo seu peso dramático desde o começo, como é o caso de 180 Degree Longitude Passes Through Us, outras equilibram em cada episódio um tema dramático numa moldura cômica, não pesando nem para um lado outro, tornando agradável também, e sempre me vem à mente Fish Upon The Sky quando me refiro a esse equilíbrio.
Talvez porque, como sugere Paul Ricoeur, narrar é sempre um modo de organizar a experiência, não para explicá-la, mas para torná-la habitável. Como tornar uma atmosfera tóxica respirável, exatamente o que vivia na época. Only Boo, por sua vez, permanece quase sempre na área daquela descoberta, é sensível, inocente, brilhante.
Há nela algo do que Manoel de Barros chamaria de “desimportância essencial”: aquilo que parece pequeno, mas sustenta o mundo.
Possui sim seu arco dramático desenvolvido em dados momentos, como no segundo episódio quando somos apresentados ao mote emocional de Kang (Sea Dechchart), que abandona os estudos após a morte do pai e apenas desenha como hobby, não mais pensando nisso como um sonho a ser realizado como profissional. O desenho deixa de ser promessa e vira refúgio, um gesto íntimo contra o excesso da realidade que, ao que parece, nem ele nota ser assim.
Enquanto isso, Moo (meu amado Keen), é o completo oposto, pois tudo que lhe importa é o sonho, mesmo que tenha que sobreviver a uma cidade distante de tudo para isso. Essa contraposição de vontades, Kang com o peso de ajudar a mãe e assumir o máximo de responsabilidades após a morte do pai o faz um adulto prematuro. Seu corpo ainda é jovem, mas seus gestos já carregam cansaço.
Esse estranhamento que causa num Moo que sabe o que quer, mesmo parecendo apenas teimoso, mas que de fato se esforça para conseguir dar passos rumo ao sonho, os fazem ser a fagulha que acende uma chama dentro de ambos.
Clarice Lispector escreveu que “é preciso coragem para suportar a própria delicadeza”. Talvez seja isso que Moo ensine a Kang sem saber. O sonho de Moo precisa passar por mais uma provação, para isso ele busca em Kang a inspiração de um ídolo por sua gentileza. Não o ídolo distante, mas aquele que permanece ali, num altar que podemos tocar, ainda que às vezes seja preciso tirar a poeira acumulada com o tempo.
A centelha de calor que ele precisava num lugar desconhecido, Kang, conformado e de postura firme em sua responsabilidade, encontra num garoto sorridente e decidido uma vontade que ele mesmo perdera. O menino faz de tudo para realizar seus sonhos, e não larga de seu pé, pois precisa de apoio. Kang assume a responsabilidade de cuidar dele e descobre, lentamente, que está sendo cuidado também.
Ter um sonho é ter um caminho, algo que faça valer a caminhada. Kang perdera isso na morte do pai, nunca sequer abrira o iPad que ganhara. Quando o sonho se fecha, a rotina se torna cinza. Levanta cedo e dorme tarde, assume o peso de um homem. E já nem sorri. Por isso se surpreende quando Moo lhe diz que ele fica fofo ao sorrir: há verdades que só a inocência pode dizer sem violência.
Pouco a pouco Kang se abre, sorri, faz piadas, aceita carinho e, finalmente, o amor. Moo é elétrico, mas possui uma percepção delicada. Ele vê onde dói, mas não acusa, insiste. sorri com carinho e estende a mão. É realmente uma coragem louvável.
Tudo isso tem, como plano de fundo, uma musicalidade jovial, fresca, ao mesmo tempo, cativante e madura. Talvez porque a música, como diria Winnicott, funcione aqui como espaço transicional: um lugar entre o mundo duro e o mundo possível.
O recente debut de Keen no grupo Clo'ver mostra sua habilidade, enquanto Head2Head amplia ainda mais o território emocional de SeaKeen. Há um cuidado raro em permitir que os atores amadureçam junto com as histórias.
O resultado é que encontro um momento de pausa, posso fechar as cortinas e fazer um chá quentinho, sentar e simplesmente sorrir enquanto Moo invade a rádio da escola para cantar a música que fez para se declarar pro moço que vende Kai Palo e arroz com curry na cantina.
E penso, quase sem perceber, que talvez seja isso que a arte faz quando cumpre sua tarefa mais humilde e mais alta: não me salva, mas me sustenta.
É, me parece que vai ser uma doce noite de verão.
“Talvez todos os dragões de nossas vidas sejam princesas que esperam apenas nos ver agir, uma única vez, com beleza e coragem.” (Rainer Maria Rilke)

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