Fiz uma descoberta de grande valor ao me deparar com o Concerto para Violino em Dm do Jean Sibelius. Percebi de primeira, afinal não estava ouvindo atenciosamente, mas ele me chamou a atenção, que essa peça não pede licença, ela simplesmente acontece. A versão que se apareceu a mim foi do Inmo Yang, jovem, porém virtuoso violinista e é uma execução tensa, profundamente, mas sem perder o lirismo. Fiquei encantado.
Claro que, parando o que estava fazendo, eu fui ouvir mais atenciosamente e, depois, pesquisar mais sobre o que estava acontecendo ali no palco. Descobri que Sibelius escreveu o concerto em 1903–1904, numa fase difícil: problemas financeiros, alcoolismo, crises de autoconfiança e a sensação de estar artisticamente isolado. Ele próprio sonhara em ser violinista virtuose, mas abandonara a carreira por não atingir o nível técnico que desejava. Esse concerto é, em certo sentido, o seu “violino impossível”: a obra que ele compôs para realizar, na música, aquilo que não conseguiu viver no palco.
Por isso, diferente de muitos concertos românticos que colocam o solista como herói triunfante, aqui o violino é uma voz solitária em meio a uma paisagem vasta e indiferente. Não consegui enxergar um diálogo entre solo e orquestra, mas um que conta, ou vive alucinadamente sua história, e outra que surge como um plano de fundo, mas sem completar ou compreender.
Há uma atmosfera profundamente nórdica nesse concerto: a orquestra cria espaços abertos, frios, quase vazios, enquanto o violino surge como uma consciência isolada, que canta, luta, tropeça, insiste.
Diferente do romantismo exuberante de Tchaikovsky ou Brahms, aqui o clima não é caloroso: é contido, austero, quase existencial. Mas, assim como na "Patética" Tchaikovsky, o solo se apresenta como o indivíduo que conta sua história, enquanto luta contra o mundo e seu destino, a orquestra distante e, não raras vezes, impiedosa.
É a solidão que fala no primeiro movimento, Allegro moderato. A orquestra estabelece um fundo quase imóvel, frio, como uma longa planície que se estende a perder de vista. E então o violino entra sozinho, em pianíssimo, sem preparação heroica. É uma das entradas mais intimistas de que me recordo.
A primeira frase do violino não é um gesto triunfal, é uma confissão, uma pessoa que se apresenta, após uma longa viagem, como quem se prepara para contar sua história. Com Inmo Yang, ela vem com uma clareza quase frágil, mas sem sentimentalismo. A cadência longa e exigente no meio do movimento é tecnicamente brutal, mas musicalmente não é vaidade; parece um monólogo interior, uma mente girando sobre si mesma. Foi essa parte que me chamou atenção: eu simplesmente parei no meio da sala e fiquei hipnotizado por aquele rapaz atacar um violino com extrema destreza. Visão assustadora, o arco era apenas um borrão marrom e branco num instrumento que, não sei como, por pouco não se esfarelava ante aquela violência, e ainda assim era de um lirismo tocante. Uma consciência lutando contra o mundo. Por fim, há o retorno do tema inicial, agora mais tenso: a música se torna ainda mais e mais densa.
O Adagio di molto, segundo movimento, é a exposição de uma alma. Este é o coração emocional da obra. Um dos movimentos lentos mais intensos já escritos para violino. O tema do solista surge amplo, quase vocal. Mas não é consolo fácil: há algo de lamento contido, nobre.
Inmo Yang sustenta as frases longas com uma respiração muito orgânica, um cantabile sem excessos. A orquestra apresenta uma espécie de harmonia escura: elas não “abraçam” o solista; acompanham como um fundo grave, quase trágico, ameaçador. Há ainda pequenos picos de intensidade que parecem momentos de dor que emergem e logo são contidos, como se a música tivesse aprendido a não gritar.
A luta final do Allegro, ma non tanto, é descrita por Sibelius como uma “dança de ursos polares”, imagem estranha a nós ocidentais, mas não para alguém que ajudou a formar a identidade cultural do povo finlandês. O que ele quis dizer é que se trata de algo primitivo, pesado, rítmico. Não é um final glorioso no estilo romântico; é quase uma corrida em terreno acidentado.
O ritmo obstinado da orquestra não é festivo, é insistente, quase brutal, novamente ameaçador, como se perseguisse o homem que luta. Os saltos e passagens virtuosísticas do violino não soam como exibição, a tensão é grande demais para isso. Nessa interpretação Inmo Yang, há uma clareza feroz, não é “olhem para mim”, é “eu sobrevivo”.
O final é poderoso, sim, mas não triunfal no sentido fácil. É mais um gesto de afirmação do que de vitória.
Como disse, arrebatador.

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