sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Notas de um afeto silencioso

Há algo de paradoxal e, por isso mesmo, profundamente humano, no fato de que, quando o sujeito já não investe mais em si mesmo, nem em seu próprio futuro, ele ainda seja capaz de comover-se com a felicidade alheia. É como se o eu, esvaziado de projetos, sobrevivesse apenas como superfície de ressonância, reflexos do outro e fragmentos de memória batendo na janela. Fernando Pessoa escreveu, pelo semi-heterônimo Bernardo Soares, que “viver é ser outro”; talvez reste a mim apenas isso: viver como eco da vida que acontece nos outros. Não me alegro por mim, mas me permito alegrar-me neles. Freud via na identificação uma forma primária de vínculo: eu sofro com a luta que não é minha, choro pela vitória que não me pertence. Já Camus, em O Mito de Sísifo, descreve o absurdo como a fratura entre o desejo de sentido e o silêncio do mundo; mas aqui ocorre algo inverso: mesmo quando o sentido pessoal se cala, a emoção ainda responde ao sentido que os outros constroem. É uma ética involuntária da empatia: não creio mais no meu amanhã, mas reconheço, com uma ternura quase dolorida, a legitimidade do amanhã do outro.

Talvez eu exista apenas nesse movimento de passagem: um corpo que não se deseja, mas que ainda sabe acolher a luz que vem de fora. Como se eu fosse uma casa sem morador, mas com janelas abertas. Não espero mais por mim, e, ainda assim, espero por eles. Sou espectador de um milagre mínimo: o fato de que, mesmo quando a vontade se extingue em mim, ela continua acesa no outro. E isso me basta para não desaparecer por completo.

E então houve aquela noite: Khemjira recebendo doze prêmios como quem recolhe constelações com as mãos. Cada um deles era uma estrela brilhante. Sorrisos que não cabiam no rosto, olhos vívidos como se o palco fosse uma galáxia breve, bem ali. Quando se reuniam, era como olhar para a beleza da nebulosa de Andrômeda, e calar-se diante daquela grandeza. Jimmy Karn, afastado pela própria dor, voltando aos poucos, e eu acompanhando cada passo como quem teme que uma chama se apague com um sopro. Sea Tawinan no palco, dizendo que aceitou porque Jimmy Jittaraphol acreditou por ele antes que ele próprio pudesse. Dois nomes, duas vozes, um laço que parecia maior do que o auditório inteiro. 

Chorei com eles, como se cada episódio, cada aparição, cada hesitação fosse uma estrela que finalmente encontrasse órbita. Não era apenas um prêmio ou um retorno: era a confirmação de que algumas histórias escolhem continuar, apesar de tudo. E eu, que já não acredito na continuidade da minha, assisto à deles como quem observa um céu noturno: não posso tocar nenhuma estrela, mas sei que sua existência ilumina a noite escura, e pode guiar aqueles que andam nas trevas. Cada vitória alheia é um ponto de luz que me permite respirar. Eu me torno constelação do que não sou. Vivo por reflexo, por cintilação emprestada.

Mas o que é isso, afinal? Idolatria? Projeção? Ou uma forma deslocada de sobrevivência psíquica? A psicologia chamaria de transferência de afeto: quando o sujeito, incapaz de investir libido em si mesmo, a deposita em figuras externas. A literatura romântica conheceu bem esse movimento: o herói que ama o ideal porque já não suporta a própria contingência. Novalis dizia que “o mundo deve ser romantizado” para que reencontre sentido; e talvez eu romantize vidas alheias porque a minha me parece, por ora, irredutível ao encanto. Não se trata de fetiche da fama, mas de uma ética íntima da contemplação: sofro na solidão do meu peito, num lugar onde ninguém mais se interessa, onde tudo pareceria “não fazer meu estilo”. E, ainda assim, escolho permanecer fiel a esse gosto, como quem protege uma chama mínima num quarto escuro. A idealização, aqui, não é fuga: é uma tentativa de salvar algo da experiência quando o próprio eu se torna terreno inóspito.

Talvez por isso eu insista: volto sempre aos mesmos rostos, às mesmas histórias, às mesmas imagens, como quem retorna a uma fonte no deserto. Não para escapar do mundo, mas para reaprender a habitá-lo. Se me torno excessivo, se me repito, é porque a repetição é a única forma que encontrei de manter algo vivo. 

Amar à distância, 

idealizar sem posse, 

contemplar sem exigir: 

eis minha forma de permanência.

Hoje chorei de novo por algo que, de fora, talvez soe pequeno: os novos rosto da Domundi escolhendo seus parceiros. Copper querendo Pung desde o início; Pung sentindo-se pequeno demais para alguém tão experiente. Copper chorando, e eu com ele. Depois, Fifa: delicado, quase etéreo, aceito como quem encontra um destino alternativo que também pode ser belo. North e Pupha escolhendo Otto, e Otto escolhendo North: combinações que parecem coreografadas por alguma bailarina invisível. Patji e Ryujin, que o tempo já havia unido antes mesmo da escolha formal. Ali, entre nomes e gestos, eu vi algo maior do que casting: vi afinidades se reconhecendo, como se o acaso fosse apenas a máscara de uma ordem mais suave. Era como se cada escolha dissesse: “não estou só”. Como se o mundo, por um instante, aceitasse ser tecido por encontros e não por ruídos. Eu via ali não apenas pares, mas pequenas promessas de sentido: corpos que se reconhecem como quem reconhece uma casa depois de longa travessia. E eu, de fora, recolhia essas cenas como quem guarda relíquias, não porque sejam raras, mas porque são frágeis. Cada dupla, um pequeno universo que nasce. E eu, que já não espero o nascimento de nada em mim, terra que ressecou e morreu, torno-me testemunha de mundos alheios. Meu afeto não cria, mas acompanha. Não inaugura, mas sustenta. Talvez seja essa minha forma de amor: existir como margem, como céu ao redor do que outros constroem.

E também me alegrei, de um modo quase infantil, ao descobrir que ainda existia, nos arquivos da empresa, a caneca de ThamePo que havia se quebrado. Como se um objeto pudesse ser resgatado do esquecimento e, com ele, uma parte da memória. Infelizmente não há ninguém para assistir comigo, e ver sozinho já não seria mais do a dor da constatação do silêncio como símbolo da solidão. Tenho me deixado encantar pela beleza do Phuwin e do Santa em Me and Thee, pela arquitetura sensível de Melody of Secrets, sobre a qual escrevi dias atrás como quem desenha um mapa de emoções. São ilhas de luz: pequenos refúgios onde o mundo parece mais habitável, onde o cotidiano se deixa tocar por algo que não é só forma, mas promessa. Nessas horas, tudo em mim se aquieta, e eu acredito, por um instante, que o real pode ser mais do que peso: pode ser também claridade. 

É pouco, eu sei. Uma caneca que retorna, um rosto belo na tela, uma narrativa bem construída. Mas talvez a vida seja feita exatamente disso: de fragmentos que não salvam o mundo, mas o tornam respirável. Não é esperança no sentido grandioso, é delicadeza. Uma metafísica mínima: se ainda posso me comover, então algo em mim ainda vive, mesmo que não saiba mais para onde ir.

Agora preciso me levantar, tomar um banho, e cantar numa vida que é minha. Mas que eu queria que não fosse.

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