domingo, 11 de janeiro de 2026

Humildade e poder: virtude e corrupção em The Twelve Kingdoms - Parte II

Talvez o conceito mais mal interpretado do taoismo seja wu wei, muitas vezes traduzido como “não agir”. Mas ele significa melhor: agir sem forçar, sem impor uma vontade rígida sobre o fluxo do real. Não é passividade. É ação em consonância. 

Podemos pensar em: água contornando uma pedra, uma árvore crescendo sem “planejar” sua forma,  um rio que não discute com a gravidade. O praticante do Dao não busca controlar o mundo, mas escutá-lo. Ele aprende a reconhecer: quando avançar, quando recuar, quando esperar, quando ceder. Yoko, tanto a pobre em busca de si quanto a rainha, precisa aprender a lutar e a observar, a falar com firmeza e a ter a delicadeza de entender seu povo. Por isso o caminho é circular: cada perda ensina um novo modo de agir; cada transformação redefine o que antes parecia estável. Não há estágio final de “agora eu sei”. Há apenas afinamento contínuo da percepção.

Uma vez que se vê diante da descoberta que ela, na verdade, pertence aquele mundo, e não ao nosso, e que por um fenômeno mágico foi parar no Japão, ela percebe que precisa se encaixar aqui. Mais ainda, ela descobre ser a verdadeira rainha de Kei, o reino hostil onde fora caçada como um animal e é governado por uma falsa rainha, que roubou o trono após a morte da antiga monarca, ajudada pelo rei de outro país que não queria ver a prosperidade dos demais. A trama política reflete uma vez mais os valores.

Ajudada, em contrapartida, por um rei beberrão, porém justo, ela toma o trono que lhe é seu por direito. Reclama a fidelidade do kirin que a escolheu como rainha e que havia sido aprisionado e então sobe ao trono, em meio aos escombros da batalha.

O trono, no entanto, não se parece nada com seu lugar no mundo. Ela continua se sentindo completamente deslocada e que está fazendo algo de muito errado. De repente, depois de humilhada, perseguida, ela se vê rodeada de servos, normas de etiqueta e decisões complexas que ela não entende. Ali continua sendo menosprezada e humilhada, seus subordinados a chama de algo parecido como "bebê", por não conhecer a vida tramas que se dava ali.

Decidindo abandonar o palácio e conhecer mais do seu reino, após a tentativa de um ataque contra sua vida entre os altos membros de sua corte, Yoko busca orientação com um simples, porém sábio, professor no interior de uma provícia. Mais do que ouvir o que seus oficiais lhe dizem, ela precisa conhecer a realidade de seu povo, que vê na sua bandeira um sinal de esperança após tanto tempo de desgraças pela rainha que abandonou seus deveres e da falsa rainha. 

A corrupção dos homens é mais do que meramente econômica, como apresentada aqui, na verdade, embroa comum, o dinheiro tem menos a ver com isso do que a consolidação do poder e da dominação sobre os menores, bem como manter seu estado de imortal. O mal não nasce da escassez, mas da recusa em reconhecer o outro como igual. A corrupção é ontológica antes de ser material: é a ruptura do vínculo humano. O desejo de dominar ou de se vingar. Também Yuka se une ao rei que trama contra Yoko e tenta matá-la, exigindo o título de heroína e querendo ser recompensada, só para descobrir que continuará sendo tratada como estrangeira e presságio de desgraças, ganhando uma terra árida no fim do mundo e permanecendo vigiada o tempo todo. Asano, por sua vez, acaba enlouquecendo, se une aos mesmos artistas que Yoko, mas tempos depois e, quando cruza novamente com a amiga, vemos o quanto ela se distanciou de vez do nosso mundo. 

A maldade dos homens é mais uma vez mostrada em sua forma mais crua. O governador que seus oficiais apontavam como sendo o mais justo, se revela o mais cruel ao assassinar vilas inteiras ao invés de buscar soluções para a fome. Os monstros continuam atacando mesmo depois da bênção da coroação e, num momento de brutal arrogância, esse homem atropela um pequeno garoto quase cego com sua carruagem luxuosa. Por outro lado, o governador que buscava meios de convencer o palácio a depor o déspota, fora condenado a prisão por ela mesma, convencida por seus oficiais.

Unindo-se a uma revolta, disfarçada como guerreira misteriosa, depois de espionar tanto a corte do governador quanto os rebeldes, ela usa seus poderes para restaurar a ordem, e ali conhece algo ainda mais importante: o valor de rodear-se de boas pessoas. É quando ela conhece duas outras personagens que muda sua perspectiva de mundo. Ambas possuem a mesma idade, pelo menos físicamente. 

A primeira delas, a princesa Shokei, foi deposta depois da morte de seu pai, um rei arrogante que governava com imensa crueldade, sendo conhecido pelas constantes execuções públicas de seu povo. Shokei foi a única de sua família poupada, e foi enviada para o exílio, no interior. Sendo confrontada com a realidade de uma vida pobre, depois de anos numa vida luxuosa sem nunca sair do palácio, ela acredita ser injustiçada, pois só conhecia a versão de seu pai. Chega a culpar Yoko por ter subido ao trono em outro reino tendo a mesma idade que ela, agora condenada. Suas mãos, antes macias, agora estão cheias de calos pelo trabalho pesado num orfanato. Veste trapos ao invés das roupas elegantes do palácio e é a única que sabe cantar a bela música que só era entoada para ela. Quando os habitantes descobrem sua verdadeira identidade, ela quase é morta publicamente, aos gritos dos ambitantes revoltados. Ela começa a mudar seu pensamento quando descobre quanto sofrimento seu pai causou: as pessoas que queriam matá-la ali querem vingança por todos que perderam. Fugindo para o reino de Kei, onde reina Yoko, ela acaba se juntando a revolução e conhecendo Suzu.

Suzu é, assim como a nova rainha de Kei, considerada uma estrangeira por ter ido para naquele mundo após um evento mágico. Ela nasceu no Japão mas na época dos samurais. Encontrando a imensa dificuldade de se comunicar com aquele povo (dificuldade que Yoko não tem pois, desde o encontro com seu kirin ela entende todas as línguas magicamente), ela luta bastante para sobreviver, até ser finalmente contratada por uma mulher cruel, mas que lhe dá o título de imortal, fazendo com que ela consiga compreender a língua. Ali ela é humilhada constantemente, recebe ordens impossíveis de serem cumpridas e é punida por qualquer coisa. Depois de servir a essa mestra por noventa longos anos, ela foge e pede auxílio em outro reino que, por sua vez, a envia para Kei, onde acaba também se juntando a rebelião, depois que seu parceiro de viagem, um pequeno garoto, é morto pelo cruel governante que os rebeldes querem depor.

Como acompanhamos a vida dessas três moças, e seus confrontos com a maldade, bem como a bondade, das pessoas, vemos agora todas lutando pela liberdade. Seja uma princesa deposta, uma mera serviçal ou uma rainha, lutar pela justiça ainda é o correto a se fazer, e assim, derrotados os governantes cruéis, a rainha Yoko Nakajima se impõe como líder de seu exército, capaz de colocar medo no exército inimigo, mostrando que ela agora entende que tipo de reino ela quer construir e como ela quer governar. Não por glória, mas por responsabilidade. Sua autoridade nasce não da força, mas da consciência do peso que o poder carrega.

Yuka, ao retornar ao Japão, crê ter encontrado seu lugar, onde não busca a grandiosidade de ser uma heroína. Mas acaba se deparando com um jovem que, excluído de todos, pinta um quadro com a visão daqueles doze reinos. Ela entende que sua jornada não acabou, embora agora não tenha aquela posição arrogante de antes. Esse menino revela-se o kirin do reino de Tai. Também levado para o Japão ao nascer, ele é reencontrado aos dez anos, quando volta até a montanha do monte Ro até que aprenda os costumes do lugar e escolha um rei. Uma vez mais somos postos diante da seguinte questão moral: o que se faz diante da adversidade é o que define quem você é. Yuka nem pertencia aquele lugar mas se torna arrogante. Taiki, é tratado como uma criatura sagrada, mas não acredita ser merecedor desse tratamento. Depois de um tempo, ele finalmente escolhe um rei para Tai e acaba questionando se de fato viu nele a aura que revelaria a Vontade do Céu. Tanto kirin quanto o rei acabam desaparecendo, e Taiki volta para sua família no Japão. O que segue não foi adaptado para o anime mas o desaparecimento do rei e seu kirin finalizam a obra com uma inédita colcaboração entre todos os doze reinos.

Twelve Kingdoms pode ser visto como uma obra que apresenta não um ponto de chegada, mas uma circulação incessante entre perda e aprendizado, queda e transformação, e isso é profundamente taoísta porque: recusa a lógica do “final feliz” ou da “síntese definitiva”, reconhece a instabilidade como constitutiva da vida e vê o sofrimento não como falha do caminho, mas como parte do próprio movimento do Dao.

O caminhar, nesse sentido, não é heróico, nem épico. É humilde. É um modo de estar no mundo que aceita que: nem toda queda será compreendida, nem toda perda será compensada. As crianças que morreram nos ataques dos monstros não vão voltar. As vidas perdidas pelo rei tirano ou a rainha louca também não. Mas toda transformação carrega um tipo de verdade que só existe porque algo foi deixado para trás. Foi esse sofrimento parte dos motivos que fizeram Keiki ir em busca de Yoko como a verdadeira rainha, capaz de trazer paz ao povo.

Em sua jornada ela percebeu que o poder pode corromper aqueles que não buscam a virtude da justiça, sejam eles pobres ou ricos. Mas há algo em comum em ambos: os injustos são cruéis e querem sempre humilhar os mais fracos. Por isso ela entende que as demonstrações de servidão, a humilhação, devem ser os primeiros gestos a serem modificados, na busca de um reino mais justo. Não se reforma apenas a economia, nem apenas as leis: reforma-se o gesto, o modo de olhar, a postura diante do outro. O político, aqui, nasce do ético. Seus oficiais contestam: estão presos aos sinais das normas palacianas e já não enxergam o povo, pois o povo se curva diante dos governantes, assim como os governantes se curvam diante da rainha. 

O gesto de respeito deve ser reservado para as situações onde se respeita de fato: Yoko reverencia Shouryu, o rei que a ajuda, bem como seu professor, por sua fibra moral. De joelhos com a cabeça virada para baixo, ninguém consegue ver o que se está refletido nos olhos do outro, e assim ela faz seu primeiro discurso oficial, com voz firme: 

"Primeiro, me perdoem pela longa ausência, eu tinha coisas para fazer. Gostaria de agradecer aos oficiais por assumirem a responsabilidade de governarem para mim. Eu não vou falar sobre os oficiais que foram presos: cabe ao Oficial do Outono julgar a gravidade dos crimes que eles cometeram. No entanto, tem que se lembrar que a decisão de prendê-los foi minha. 

Outro dia, eu aceitei o pedido de renúncia de três generais do Exército Real. Eu vou deixar que Seishin, ex-general do estado de Baku assuma o posto de General Esquerdo do Exército Real. Kantai, vai designar os generais da Direita e do Meio, espero que tragam ordem ao Exército Real. Kokan, você será o novo Shosai, ficará encarregado do Palácio. Também estou nomeando Saiho o Primeiro Ministro do estado de Baku. Como líder do estado de Wa e Shohaku aqui no Palácio. Estou anulando as sentenças de deportação, eles vão voltar para o mesmo posto que tinham, e eu também vou reposicionar alguns oficiais.

Se acreditarem que estão fazendo a coisa certa, não tem com o que se preocupar. Agora, levantem-se. Prete atenção, eu não gosto das pessoas me reverenciando ou que haja classes diferentes entre as pessoas. Isso me dificulta a conhecer. Eu não gosto de pessoas de joelho me reverenciando. 

De agora em diante, em qualquer ritual oficial, com exceção de visitantes de outros reinos, estou banindo que se ajoelhem para me reverenciar. Vão apenas me reverenciar de pé. É uma decisão final.

Não me interessa aquelas pessoas, que precisam que outros o reverenciem para assegurar sua posição. Ajoelhar é uma coisa que traz muitos danos. Prestem atenção: quando queremos agradecer, ou quando admiramos alguém de verdade, nós reverenciamos naturalmente. Nós temos que tratar as pessoas com respeito, independente de qualquer coisa. As pessoas podem se ajoelhar, reverenciar ou não, depende das boas maneiras. Eu quero que todas as pessoas do meu reino sejam reis. Eu não quero que haja nenhuma discriminação e diferença entre meu povo. Prestem atenção no que aconteceu com Shoko e Gahou, é isso que acontece quando usamos nossa posição para forçar as pessoas a nos reverenciarem para explorá-las. Vejam o que acontece também com as pessoas que aceitam isso. 

Ninguém é escravo de ninguém. Não nascemos para sermos escravos. Quando alguém desrespeitar vocês, não se entreguem! Quando acontecer um desastre natural, não se entreguem! Corrijam as injustiças, não se entreguem aos monstros, não se entreguem! Eu quero que o meu povo em Kei sejam os mestres de si mesmos. 

Os oficiais perguntaram para onde eu estava levando meu reino: não se ajoelhem mais, essa é minha primeira ordem oficial!"

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