terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Domingos errados


É mais um domingo infeliz: nublado, abafado, um peso sem nome.
O verão me cansa, e acordar parece sempre um erro repetido.

Mas penso em mundos onde a manhã talvez venha como um gesto leve,
onde o tempo não machuca ao passar, apenas convida a ficar.

Não quis ficar desperto hoje, como em todos os outros dias.
Remédios não compram descanso, e o corpo esqueceu como dormir.

Ainda assim, há uma hora que me chama para mais tarde:
algo para assistir, como se a noite pudesse ser abrigo.

O que um homem precisa fazer para conseguir paz?
Nem o silêncio responde, apenas o cansaço que insiste.

Vejo então os meninos da Domundi, sua busca inocente por um parceiro,
e por um instante o mundo parece outro, mais claro, mais possível.

Não somos separados apenas por fronteiras no mapa.
Eles pertencem a outro universo, e eu permaneço neste.

Imagino esse lugar onde os encontros ainda são promessas,
onde trabalhar junto ainda soa como gesto de cuidado.

Aprendi: chega um dia em que simplesmente não se importa mais.
Não há estrondo, nem clímax, só a lenta desistência.

Como folhas mudando de cor, quase sem ruído, quase sem dor,
o coração aprende a soltar sem alarde, sem drama.

Talvez seja isso: depois de tanto ferir-se, já não há força para segurar.
O apego se dissolve, não por escolha, mas por exaustão.

E, ainda assim, pergunto: como seria viver naquele outro mundo?
É preciso nascer lá, ou basta sonhar com ele em silêncio?

Será que lá também existem domingos infelizes, abafados, longos?
Ou apenas aqui o tempo pesa como um corpo sobre outro?

Não são vidas perfeitas, eu sei, mas talvez, num dia assim,
ter pessoas bonitas ao lado faça do mundo um pouco menos duro.

Mas se estivesse lá, nenhum deles olharia para mim. 
Seria tão invisível quanto sou aqui.

Ter sorrisos que encantam, pequenas conquistas que nos faça rir.
Conversar com amigos comendo Shabu e cantando Proxie.

Os metais de Mahler gritam com força. Os arcos dos violinos em fúria.
É o prelúdio da Ressurreição, a terra se estremece de medo.

E eu, com a mente coberta por um véu, só consigo imaginar,
se há, para um homem como eu, beleza em algum possível céu.

Como deve ser, ser a causa do sorriso de alguém?
Sentir-se tão bem a ponto de ficarem em silêncio juntos?

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