domingo, 11 de janeiro de 2026

Humildade e poder: virtude e corrupção em The Twelve Kingdoms - Parte I

Twelve Kingdoms: Distância do vento, o céu ao amanhecer

A busca de uma identidade, de um sentimento de pertença, aquilo que muitas vezes chamam de "busca do eu" é, talvez, uma das questões fundamentais da humanidade. E vem sendo repetida incansavelmente desde os primórdios de nosso pensamento, pois, sendo uma busca pessoal, precisa ser constantemente revivida, reencontrada, por cada indivíduo. O que gera uma espécie de sentimento geral de desgosto e diversas formas quase psicóticas de busca por essa identidade.

Na tradição oriental, essa busca raramente se apresenta como afirmação do “eu”, mas como sua depuração: não descobrir quem se é para se impor ao mundo, mas esvaziar-se do que se acredita ser para finalmente tornar-se aquilo que se é. Não um eu como posse, mas como travessia.

Me recordo quando assistia Twelve Kingdoms, anime baseado na série de livros Juni Kokuki, nas manhãs antes de ir para a escola, ainda na cama, meio sem entender o clima, ao mesmo tempo épico e nostálgico da obra. Eles tinham criaturas mágicas, reinos com diferentes características, belas roupas e paisagens, mas estavam sempre discutindo política, discutindo os motivos de alguém ter esse ou aquele destino, inconformados com sua insignificância ou com vontade de fugir de sua grandeza. Personagens com diversas visões de um mesmo mundo se confrontavam e, o resultado, é que muitas vezes a maldade e a crueldade pareciam dominar a justiça. Como se o próprio mundo narrativo recusasse o conforto da fantasia pura: ali, o maravilhoso não serve para anestesiar, mas para expor com mais nitidez as fraturas morais da vida humana. O fantástico não eleva: desnuda.

Yoko Nakajima é a heroína da jornada pelo auto descobrimento. Até o encerramento de cada episódio é a repetição de cenas de uma roda, uma carroça, viajando por diversas paisagens. Desse modo, a jovem Yoko viaja por dois mundos, percorre vários reinos, até conseguir descobrir quem ela é, apenas para entender que sua jornada também não acabaria assim. Esse movimento contínuo, a roda que nunca se fixa, ecoa a concepção taoísta do caminho (Dao): não um ponto de chegada, mas uma circulação incessante entre perda e aprendizado, queda e transformação.

Sendo uma obra oriental eu preferi uma análise a luz de uma doutrina oriental, muito embora também fosse possível fazê-la do ponto de vista platônico ou aristotélico, por exemplo. 

No taoismo, o Dao (Tao) não é um objetivo, um ideal moral ou um estado final de iluminação. Ele é, antes de tudo, o próprio modo como a realidade acontece. Laozi abre o Dao De Jing dizendo: “O Dao que pode ser dito não é o Dao eterno.” Ou seja: o Caminho não é um mapa, é o próprio terreno em movimento. Aqui aludido pelo encerramento, a cena da roda em constante movimento, a jornada. 

Em grande parte da filosofia ocidental, estamos acostumados a pensar em termos de teleologia: tudo caminha para um fim, uma realização, uma forma perfeita. No taoismo, isso soa quase como um erro de categoria. O Dao é fluxo, não forma; processo, não produto; devir, não essência fixa.

Nada “chega” ao Dao. Tudo já está nele, simplesmente ao existir e mudar. Por isso, caminhar no Dao não é conquistar algo novo, mas deixar de resistir ao movimento natural das coisas. Um ponto central do taoismo é que o vazio é funcional. Laozi usa imagens simples: o vaso é útil por causa do espaço vazio dentro dele; a casa é habitável por causa dos vãos e portas. Daí nasce uma ideia profunda: perder não é apenas negativo, é condição para que algo novo exista. A "casca" de Yoko cai quando ela chega no mundo dos Doze Reinos, e não é reconhecida nem por seus colegas de escola. Ela perde algo para que algo novo surja: passa pela dor e a incompreensão para ressurgir como a Rainha de Kei.

Transformação, aqui, não é “melhorar” segundo um ideal externo, mas voltar a uma simplicidade mais verdadeira. O sábio não acumula virtudes: ele se descarrega de excessos. Sua primeira ordem oficial é a pperfeira representação desse desprezo pelos excessos. Isso se conecta diretamente com sua imagem de “queda e aprendizado”: a queda não é falha moral, é mecânica do próprio viver. Tudo o que cresce, decai; tudo o que se enche, transborda; tudo o que se afirma demais, quebra. O Dao não evita essas dinâmicas, ele é essas dinâmicas.

Excluída num Japão que preza pela excelência, ela se vê buscando agradar seus pais e professores. Mesmo sendo uma aluna dedicada, todos cobram dela que se encaixe perfeitamente no seu mundo, mas a cor de seus cabelos a impede. Seus pais consideram vulgar, mesmo sabendo que ela sempre foi assim, e todos os outros acham que ela pintou para chamar atenção. Parece um detalhe bobo, e de fato o é, mas essa implicância com algo tão mínimo e que a incomoda tanto, vai servir como balizador de suas prioridades num futuro incerto. É nesse detalhe mínimo que se revela a violência simbólica da ordem: o mundo não exige apenas virtude, exige aparência de virtude; não apenas caráter, mas conformidade. A injustiça começa onde a forma passa a valer mais do que o ser.

Quando se depara com a realidade hostil de um mundo onde animais falam e voam, mas que também a perseguem e causam destruição e medo por onde quer que passem, ela se vê compelida a voltar ao Japão, onde tudo o que faziam era reclamar de seu cabelo. Agora ela é perseguida por feras, desde que encontrou um homem alto de cabelos loiros que lhe jurou ser, para sempre, seu servo leal, e que a levou para lá, desaparecendo logo depois. O que muda não é a essência do medo, mas sua forma: antes, o julgamento silencioso; agora, a ameaça aberta. Em ambos os mundos, Yoko aprende que a hostilidade não depende do cenário, mas da estrutura do poder.

A princípio ela acha que tudo é um grande engano, que ela não deveria ter sido levada até lá. Com mais dois amigos, a postura dela se contrasta. Sua amiga Yuka deseja uma aventura épica nesse mundo, e vai para lá de boa vontade, enquanto a outra se nega, e se revolta toda vez que percebe que Yoko é quem se destaca ali. Outro que vai para lá com ambas é Asano, amigo de Yoko, por quem ela tem alguns sentimentos, e algo amante de Yuka. Desde cedo a obra sugere que não há resposta única ao chamado do destino: alguns o romantizam, outros o rejeitam, outros se perdem nele. A diferença não está no chamado, mas no modo como cada um suporta o peso de ser escolhido.

Conforme a situação vai se tornando mais e mais complexa e ela entende que não conseguirá voltar tão fácil assim, ela passa a entender melhor o coração das pessoas por onde passa. Enfrenta a traição disfarçada de doçura. Encontra amizade onde achou que havia perdido seus valores. E é aqui que as coisas começam a se encaixar: não importa a situação, se está no controle ou não, e não importa sua posição, ela percebe que deve buscar sempre a igualdade, pois os cargos não interferem na dignidade intrínseca a todos. Essa percepção aproxima Yoko tanto da ética confucionista da retidão (yi) quanto da concepção aristotélica de virtude como hábito do justo meio: não a negação do mundo, mas a forma correta de habitar nele.

Mas como fazer isso num mundo onde alguns são imortais e vivem em castelos acima das nuvens enquanto o povo luta por comida? E então descobrimos a relação complexa entre as vidas daquele mundo. Governados por reis escolhidos por criaturas fantásticas chamadas de Kirins, nascidos de uma única árvore na montanha do centro mundo, os homens vivem um reflexo da vida de seus governantes. Quando liderados com justiça, o reino prospera. Seus cidadãos têm paz. Quando o rei se corrompe, a terra se torna seca, vem a fome, as guerras e até os animais se tornam monstros destruidores que caçam e se alimentam das crianças. Aqui ressoa uma antiga cosmologia chinesa: a harmonia entre Céu, Terra e Homem. O governante não é apenas administrador, mas eixo moral do mundo. Quando sua conduta se desvia, não é só a política que adoece, é a própria realidade que se desorganiza. Como a vida dos reis é prolongada indefinidamente pela magia que cerca sua coroação, não é raro que as pessoas esqueçam dessas verdades, até que enfrentam as desgraças e culpam o rei.

É interessante essa relação entre o rei e seu kirin. Sendo criaturas de extrema pureza, possuem um aguçado senso de justiça e bondade, não suportando conflitos, inclusive ficando fracos quando expostos ao sangue e à dor. E se povo sofre com a fome por causa de um rei corrupto, os kirins sentem na carne a dor de terem escolhido alguém que se corrompera. O Kirin não é apenas símbolo de eleição divina, mas consciência encarnada: não governa, mas sofre as consequências morais da escolha. A autoridade, aqui, não é blindada pela sacralidade, ela é responsabilizada por ela.

Quando a destruição vem sobre o povo, a ganância desperta o que há de pior. Quando desfrutam de paz e tranquilidade, sentimentos bons surgem. É por isso que os jovens levados para aquele reino são tratados como presságios de desgraças num lugar corrompido, ao passo que em outra cidade, próspera, são acolhidos por uma instituição organizada para aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade. No reino corrompido, são vendidos como escravos. No próspero, ela é acolhida por alguém metade animal que a trata com respeito.

Todos esses acontecimentos, acredita-se, são regidos pela Vontade do Céu, algo como a Providência Divina, muito embora não se faça referência a uma religião teísta, sendo essa Vontade a concretização de desígnios superiores. É essa Vontade quem mostra aos kirins quem deve ser escolhido como rei. Não um Deus pessoal, mas um princípio de ordem que, como no pensamento clássico chinês, não garante legitimidade eterna, mas a retira quando a justiça se perde.

Mas eu havia dito que a dignidade é independente da situação certo? Ela descobre isso quando conhece a malícia no coração daqueles que vivem a paz e a bondade daqueles mais simples. Essa aparente contradição revela, na verdade, o real sentido da virtude. Virtude, aqui, não é privilégio de classe nem atributo da nobreza: é escolha cotidiana. Como em Platão, o poder não corrompe por si, apenas revela aquilo que já estava oculto no caráter. São os artistas mambembes aqueles que acolhem quando ela se vê perdida e em desespero. Esses mesmos artistas tem um papel simbólico de grande importância: por viajarem de cidade em cidade representando histórias que viram e ouviram, são eles que, em sua vida simples, possuem algo como o conhecimento daquela história que os reis ignoram por sua longevidade e arrogância e que os pobres desconhecem por sua pequenez.

Também Yoko é confrontada constantemente pelo espírito de sua espada. Por ser um poderoso artefato mágico, ela mostra visões do coração de Yoko, especialmente os medos que ela precisa encarar. Em dado momento ela entende que a espada é um reflexo de si mesma, uma visão de sua alma. No taoismo, o “eu” não é uma substância sólida. Ele é: relação, movimento, interdependência com o mundo. Quando você tenta se fixar numa identidade rígida (“eu sou isso, devo ser aquilo”), você se separa do Dao. Quando aceita a mutabilidade, inclusive a dor de não ser mais quem era,você volta a fluir. A criatura que a perturba com imagens na espada a confronta com imagens de si.  Por isso, o caminho é feito de: desapego de imagens antigas de si, aceitação de transformações que não foram escolhidas, confiança de que o sentido não vem de controlar, mas de acompanhar.

A espada não é instrumento de dominação, mas de revelação: não corta corpos, corta ilusões. Obriga a protagonista a ver o que prefere ignorar em si mesma. Na busca por manter os seus valores, ela percorre o caminho da virtude no sentido aristotélico, algo confucionista ou budista: quando, no início, ela se vê frente ao monstro que destruira sua escola, ainda no Japão, ela reluta, se acovarda, e só vai conseguir empunhar sua espada com alguma vontade depois. No entanto, a certa altura ela quase como se alucina e vê inimigos em todo lugar, como quando tenta roubar e, se necessário, matar Rakushin, o meio animal que a ajuda. Ela então entende que algumas vezes vezes precisa lutar, não podendo fugir, mas que nem todos são inimigos. A coragem que ela buscava em si e que sua espada a indicava era a desse equilíbrio.

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