segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A jornada do herói e a memória do sagrado I

“Não se começa do zero; começa-se da queda.” (Hans Urs von Balthasar)

A jornada do herói é o percurso clássico de uma narrativa épica, envolvendo a queda ou guerra e com a queda resultando no encontro com o mestre num ponto de purificação e crescimento, e enfim o retorno do personagem, com a experiência suficiente para resolver o problema. Trata-se de um formato bastante explorado nas artes em geral, seja em mitos e lendas, bem como na literatura e no cinema, onde os personagens possuem seu papel definido pelo lugar que ocupam na história, contribuindo para o crescimento ou derrota. 

Northrop Frye observa que os grandes mitos narrativos não são invenções arbitrárias, mas estruturas recorrentes que emergem da própria experiência humana do tempo, da perda e da esperança. Em “Anatomia da Crítica”, ele descreve o romance, a epopeia e o mito como formas que gravitam em torno de um mesmo núcleo: a passagem do caos à ordem, da fragmentação à reintegração. A jornada do herói, nesse sentido, não é apenas uma técnica narrativa, mas a forma simbólica pela qual o homem tenta dar inteligibilidade ao sofrimento. O herói cai porque o mundo cai; aprende porque o mundo exige aprendizado.

Desde o primeiro filme, lançado em 1977, Star Wars retratou bem essa jornada do herói. Não só em cada um da trilogia original, mas, lendo-a como um todo também se apresenta desse modo. O jovem Luke Skywalker é o arquétipo do herói, o homem ainda inocente, sem conhecimento do tamanho da guerra em que se envolveu, necessitando da orientação de Obi-Wan e Yoda, tornando-se então, de mero aprendiz e piloto prodígio, em mestre Jedi, não só capaz de vencer a batalha, mas de até mesmo conseguir a redenção de sua contraparte, Darth Vader, e encarar de frente o inimigo final, o próprio Imperador Palpatine.

A trilogia lançada posteriormente, chamada de prequel, também faz essa mesma apresentação, podendo ser lida também em cada filme ou num todo, resultando aqui numa espécie de divisão: enquanto Anakin, em sua queda, busca orientação no mestre corrompido, Obi-wan se percebe também ele em queda, tornando-se mais uma vez aprendiz no exílio e redimindo-se em seu encontro com Luke. A queda, como fragilidade do herói, é explorada com essa capacidade de ir tanto para um lado quanto para o outro, ressaltando e questionando também o papel do mestre. 

Mestre Yoda percebe não só sua queda, mas de toda a Ordem Jedi, pois se tornaram cegos pela República que juraram proteger, mas que minou suas forças. Muitos anos mais tarde ele se apresenta como um mestre louco, meio decrépito, rindo de qualquer coisa. É só depois que entendemos que ele ri pois vê agora o próprio Império e os Sith cometendo o mesmo erro, e se mostra como um mestre de grande poder.

Depois de muitos anos, um anova trilogia foi lançada, e parecia que teríamos uma nova apresentação da saga do herói. Rey parecia seguir os passos de Luke, pobre num lugar longe das grandes incursões da Primeira Ordem, e que se envolve na Rebelião simplesmente por ajudar um droide. Rey, de lugar nenhum, parece que vai enfrentar sua jornada.

No entanto, e aqui é o ponto em que eu queria chegar, no segundo filme dessa nova trilogia, Os últimos Jedi, vemos a escolha criativa de acabar com a forma da jornada. Com a destruição de tudo quanto representava o caminho do mestre, vemos uma guerra que avança cada vez mais violentamente sobre os rebeldes, enquanto Rey busca seu caminho e, Luke, questiona a queda da ordem baseado na própria queda. Mais uma vez, como com Obi-Wan, vemos o mestre também passando por sua jornada, obrigatoriamente mais elevada que do aprendiz. Luke então, ao invés do papel daquele que perpetua no aprendiz o conhecimento, se torna aquele cuja morte, encerra um conhecimento incompleto, que deve ser descoberto pelo instinto de Rey, caminhando assim para um fim em que ela se tornaria mestra aprendendo sozinha, ou com a própria experiência, e traçando um novo caminho, maior e melhor que o anterior.

Há, nesse gesto de ruptura, uma sensibilidade que dialoga claramente com certos pressupostos da espiritualidade contemporânea associada à chamada Nova Era. A recusa da tradição, a desconfiança do mestre, a valorização da intuição individual como fonte primária de verdade e a ideia de que o passado deve ser superado, ou mesmo destruído, para que o novo emerja, são marcas recorrentes desse imaginário. Não se trata aqui de um erro estético ou moral, mas de uma visão de mundo específica, herdeira de correntes como o gnosticismo moderno, o romantismo tardio e certas leituras psicologizadas do budismo e do taoismo, nas quais a iluminação ocorre de modo espontâneo, interior e desvinculado de uma transmissão histórica.

Essa perspectiva não é estranha ao cinema contemporâneo, nem mesmo ao próprio Star Wars, que desde sempre dialogou com espiritualidades panteístas, energias impessoais e uma ética da harmonia cósmica. A Força, enquanto princípio difuso e imanente, aproxima-se justamente mais de uma sensibilidade panteísta ou panenteísta do que de uma teologia pessoal. O problema não está nessa influência em si, mas no ponto em que ela rompe com a dimensão pedagógica do mito. Quando o caminho deixa de ser aprendido e passa a ser apenas “sentido”, a jornada perde sua densidade formativa e se aproxima mais de uma epifania subjetiva do que de uma transformação moral duradoura.

Assim, a tentativa de libertar a narrativa das amarras da tradição não produz uma ampliação do sentido, mas um esvaziamento simbólico. O herói não cresce contra o passado, mas a partir dele; não se emancipa destruindo os mestres, mas discernindo quais ensinamentos devem ser preservados, corrigidos ou aprofundados. A Nova Era oferece consolo e liberdade interior, mas raramente oferece uma ética do sacrifício e da responsabilidade, elementos sem os quais a jornada do herói se torna apenas uma experiência estética.

O resultado foi desastroso, embora visualmente deslumbrante, o filme recebeu críticas pesadas dos fás por desfazerem-se de elementos tão caros aqueles que acompanharam por anos as diversas mídias da franquia. 

No último filme, a jornada preciso ser retomada. É revelado que a General Leia foi aprendiz de seu irmão Luke e, portanto, pode treinar Rey. Um treino tradicional, em que cada lição, que foi passada por inúmeras gerações até ali, seria um legado útil no futuro. A queda, não só da personagem ao questionar sua ligação com o Lado Escuro da Força, mas também de toda a Aliança Rebelde, foram retomados num reagrupamento, onde cada coisa se encaixa novamente no devido lugar. Os ensinamentos não são mais destruídos, mas continuados, aperfeiçoados, não por uma intuição vinda do nada, mas baseados na experiência, assim como foram compilados. 

Desse modo, assim como Anakin se defronta com o Lado Escuro e acaba se corrompendo, como Luke também é confrontado e escolhe lutar redenção de seu pai e pela derrota do Imperador, Rey e Ben ficam abalados pelas promessas da corrupção, mas os mestres de todos os tempos fazem com que ela recobre a consciência. Se, no episódio VIII o passado devia ser destruído, no episódio IX vemos que é o passado que salva a galáxia. São as vozes dos antigos mestres, o Anakin redimido, o Luke e a Leia, e até outros distantes como Ahsoka, que guiam a protagonista na sua escolha final. Os antigos amigos são aqueles que conseguem reunir uma tropa capaz de vencer, enquanto no filme anterior o número só diminui.

Otto Maria Carpeaux, ao ler a história da literatura como uma sucessão de tentativas de sentido diante do absurdo histórico, percebe algo semelhante: os grandes personagens não são os que vencem sem tropeços, mas aqueles cuja derrota revela algo essencial sobre a condição humana. De Édipo a Fausto, de Dom Quixote a Raskólnikov, o que está em jogo não é o sucesso, mas a travessia. O herói carrega o mundo sobre si porque o mundo, sozinho, é insuportável. Por isso, quando a narrativa abdica dessa estrutura, não é apenas um modelo que se perde, mas uma forma de reconhecimento existencial.

Esse é um daqueles exemplos em que a obra guia o criador, mais do que o criador escreve a obra. A jornada do herói se torna a única saída, a tentativa de destruição do conceito se mostra ineficaz por um motivo, na verdade, bem simples: a jornada do herói é uma paráfrase engrandecida da própria vida. A busca por uma vida virtuosa passa pela queda, pelo mestre e pelo retorno. Isso não apenas no sentido da ética aristotélica quanto da própria ascese cristã, ou simplesmente da própria conversão cristã, que vai da queda do pecado e da morte para a salvação por meio da mestra Igreja. 

Continua

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