é guardar o repouso verdadeiro.”
(Tao Te Ching)
Me lembro da primeira vez em que assisti O Tigre e o Dragão (2000) de Ang Lee, e fiquei absolutamente fascinado com aquelas lutas acrobáticas, com a leveza e, ao mesmo tempo, letalidade das técnicas. Era uma criança deslumbrada com esses poderes, encantado com essa combinação de força e graciosidade. Hoje, mais velho, continuo tendo esse como um de meus filmes favoritos, ainda me deslumbro com as cenas e sonho com um mundo onde lutar daquele jeito fosse possível, mas agora também consigo identificar alguns detalhes que só ficam claro quando o se conhece algo do ponto de vista literário e filosófico da coisa.
Uma das minhas incompreensões da época era sobre a lendária espada "Destino Verde", pois eu pensava que ela concedia poderes ao seu usuário. E mesmo revendo percebo que pode parecer isso... Mas não. Ao menos não no sentido "mágico" que temos na literatura fantástica do ocidente.
A obra é ambientada num universo Wuxia, um gênero tradicional da cultura chinesa que mistura artes marciais, ética, poesia e fantasia, centrado em heróis errantes que lutam por justiça, honra e retidão, muitas vezes à margem das autoridades. Alguns dos elementos essenciais desse estilo incluem uma sociedade paralela de mestres marciais, seitas e clãs. Um estrito código de honra de lealdade, sacrifício e o valor da palavra. As cenas de ação são de estilizadas, com movimentos quase sobrenaturais como voar, correr sobre a água, se apoiar em finos galhos. Armas simbólicas, espadas que refletem o caráter do portador, e é sobre isso que vou tratar logo mais e, a relação entre destino e tragédia: o herói quase nunca vence sem perder algo.
Nesse, armas lendárias carregam prestígio, história, simbolismo e uma qualidade técnica tão perfeita que o portador se torna mais eficiente, mas normalmente elas não aumentam poder vital, não adicionam habilidades e não transformam um guerreiro comum em um mestre. O “poder” da espada vem da sua fabricação lendária, equilíbrio perfeito, leveza, resistência absurda e da aura espiritual que ela representa. Nesse filme em particular é dito que a "Destino" possui mais de 400 anos e foi forjada com uma técnica perdida, tornando-a única no mundo.
Ela potencializa quem já é bom, ,as quem não tem cultivo marcial não vira um super-guerreiro só por segurá-la. Por isso Jen, que já tinha grande habilidade oculta, “brilha” com a espada, ela já era boa, a espada só revela isso.
Gosto muito da contraposição das lutas entre Jen e Shu Lien e a de Jen contra Li Mu Bai. Em primeiro lugar, Jen e Shu Lien se enfrentam num embate tão violento como poucas vezes é visto entre duas mulheres. Essa é uma das partes mais ricas do filme e tem vários motivos escondidos ali:
Jen é um prodígio, literalmente um talento sobrenatural dentro da lógica daquele universo. Ela treinou secretamente com a Raposa de Jade (que era limitada, mas tinha técnicas poderosas. sendo uma criminosa reconhecida), leu os textos marciais proibidos que sua mestra não conseguia entender, absorve estilos rapidamente, tem impulsividade, flexibilidade e força técnica muito acima da média para sua idade. Jen é o tipo de figura “do destino” que aparece na ficção wuxia: um talento brilhante, porém rebelde, o que se revela quando ela nega ser treinada por um mestre de verdade.
Shu Lien, interpretada pela incrível Michelle Yeoh, é mais experiente, mas luta “contida”, embora visualmente bem mais violenta que Li Mu Bai. Ela é uma guerreira mais velha, disciplinada, estratégica e tem senso moral muito forte. Ela não quer machucar Jen, e sso tira vantagem dela. Em muitas cenas, Shu Lien segura golpes, não contra-ataca com tudo, e tenta desarmar, não ferir.
Com a Destino Verde, Jen tem mais alcance, velocidade (pela leveza da arma), mais precisão e consegue cortar praticamente qualquer arma que Shu Lien usa. Isso é um detalhe brilhante do filme: ela precisa compensar a vantagem absurda da espada e mesmo assim, ela só equilibra a luta, não domina. Para muito além da beleza violenta de duas guerreiras formidáveis num embate de tirar o fôlego, a cena é, na verdade, uma representação da tradição contra a juventude em busca da própria identidade. O equilíbrio da luta é simbólico: é o choque entre dois “mundos”, não só duas guerreiras.
A luta é coreografada para mostrar contraste, não superioridade. Ang Lee queria mostrar o estilo duro, firme e elegante de Shu Lien, a expressão da experiência, com o estilo mais fluido, imprevisível e selvagem de Jen. Então, por construção cinematográfica, nenhuma deveria “ganhar” de cara.
Depois desse embate violento, Jen se confronta com Li Mu Bai, o verdadeiro dono da espada, mas que tomou certo horror pela mesma graças a quantidade de sangue que derramou com ela. Se recuando numa comunidade de monges lutadores, ele aceita empunhar a Destino mais uma vez apenas para honrar a morte de seu mestre pela Raposa de Jade. Importante notar que esse desejo de vingança não é motivado por ódio, mas pelo código de honra que esses guerreiros seguem. Ele mesmo rejeita a ideia de vingar-se quando percebe uma centelha de ódio em si, e então busca reequilibrar seus sentidos.
Não sei se é possível chamar o embate de Jen e Li Mu Bai de luta. Além de dominar o tempo todo, ele não ataca, mas mostra que o espírito tranquilo é sempre superior ao que se deixa levar pelos sentimentos. Seus movimentos são leves, fluidos, a cena é silenciosa, de uma beleza e graciosidade ímpar, e isso irrita Jen ao se ver subjugada por um inimigo que se recusa a atacá-la. Isso vai contra tudo que ela aprendeu: embora tenha lido os pergaminhos, adquiriu a habilidade da batalha, mas não os valores de um guerreiro.
O final é daqueles que bate devagar, feito um sino distante. Ele parece estranho à primeira vista, mas dentro da tradição wuxia e da filosofia chinesa, ele é profundamente simbólico. Após a morte de Li Mu Bai, tendo vingado seu mestre, Jen aceita ir para a comunidade que ela mesma rejeitara e jurara destruir, e que era símbolo dessa força repleta de honra. Mas, ao chegar lá, no topo de uma montante, ela salta.
O salto de Jen não é suicídio, é libertação, expiação e mito. Muita gente no Ocidente lê aquela cena como apenas trágica, mas no contexto cultural dela, o sentido é outro.
A lenda mencionada no filme diz: “Quem se joga da Montanha de Wudan com um desejo sincero pode voar.” Essa lenda carrega três camadas, a primeira dela é a da libertação do peso das escolhas. Jen passou o filme inteiro dividida entre a liberdade e o dever, a paixão e a honra, a impulsividade e a responsabilidade, o mundo aristocrático da família e o mundo das artes marciais. O salto representa o abandono de tudo que a aprisiona, tanto social quanto emocionalmente. É o gesto final de alguém que não encontra caminho possível dentro dos limites que tem.
A segunda camada é a da expiação: Jen carrega culpa por enganar Shu Lien, causar sofrimento a Li Mu Bai que se ofereceu para treiná-la e ensiná-la seguir por um caminho de virtude, corromper seu próprio talento com imaturidade e provocar consequências que ela não imaginou. O salto é uma forma de restituir o equilíbrio, não como punição, mas como um gesto de sinceridade absoluta. No wuxia, quando a alma está em desarmonia, o corpo não encontra paz. O gesto extremo é uma forma de restaurar o fluxo natural.
Por fim, temos o retorno ao Tao. O wuxia bebe da filosofia taoísta, em que retornar ao “vazio”, dissolver-se na natureza e abandonar as amarras do mundo são formas nobres de transcendência. O salto de Jen ecoa isso: ela não foge, finalmente se encontra. Li Mu Bai representa a moderação, a sabedoria, o “caminho correto”. Seu amor por Shu Lien sempre foi contido porque ele se sentia “preso” pelo passado. Quando ele morre dizendo “eu te amo”, ele finalmente rompe essa prisão. Em paralelo, Jen rompe a dela. É a rima espiritual do filme.
O filme deixa o salto da personagem ambíguo. A câmera acompanha Jen até metade do ar… e então ela simplesmente desaparece da vista.
Não vemos o impacto.
Não ouvimos nada.
Não há reação.
o que importa não é o que aconteceu fisicamente, mas espiritualmente.
Para uns, ela morreu.
Para outros, ela foi “salva” pela lenda.
Para outros, ela alcançou transcendência.
E todos estão corretos, porque o wuxia opera mais no nível poético do que literal.
Por fim, embora aqui eu possa incorrer no risco de soar pedante, a mensagem final, por assim dizer, é a de que ninguém vence as próprias correntes sem saltar. Shu Lien vive presa à honra. Li Mu Bai vive preso ao passado. Jen vive presa ao desejo de ser livre. O tempo todo somos confrontados com prisões invisíveis. O salto final, poético e brutal ao mesmo tempo, afirma:
a virtude custa caro, e exige coragem absoluta.

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