sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A Instrumentalidade Humana I - A Representação de Dilemas Morais e Existenciais

"Existe um vazio bem no âmago de nossas almas. Uma imperfeição fundamental que tem assombrado todos os seres desde o primeiro pensamento. Em um nível primitivo, o homem sempre esteve ciente da escuridão que mora no núcleo de sua mente. Temos procurado escapar desse vazio e do temor que ele provoca, e o homem procura preencher esse vazio." (Neon Genesis Evangelion) 

Há obras que narram acontecimentos e há obras que, quase sem pedir licença, transformam acontecimentos em perguntas. Neon Genesis Evangelion pertence a essa segunda espécie. Sob a aparência de batalhas colossais, catástrofes e máquinas concebidas para enfrentar monstros, há algo muito menor, muito mais frágil e, por isso mesmo, muito mais perigoso: seres humanos tentando compreender por que sofrem, por que desejam, por que ferem aqueles de quem precisam e por que, mesmo cercados de outros, continuam incapazes de abolir a distância que existe entre uma consciência e outra. Seus gigantes apenas ampliam aquilo que já estava escondido no interior de seus personagens. O fim do mundo começa sempre em escala íntima.

É nesse espaço que se constrói a representação dos dilemas morais e existenciais. A série transforma o medo da solidão em fronteira, o desejo de reconhecimento em conflito, a culpa em catástrofe, a dificuldade de comunicação em arquitetura do próprio mundo e a vontade de escapar do sofrimento numa tentação de dissolver aquilo que torna o sofrimento possível: o indivíduo. O vazio que abre esta reflexão não será, portanto, apenas uma ausência a ser preenchida, mas uma espécie de tema recorrente, quase musical, que reaparecerá sob formas diferentes ao longo da obra. Às vezes como desejo, às vezes como desespero, às vezes como amor, às vezes como medo, às vezes como a promessa terrível de que toda dor poderia finalmente cessar se também cessasse aquele que a sente.

As fronteiras que tornam possível dizer “eu” são as mesmas que impedem esse eu de alcançar plenamente o outro; abolir essas fronteiras eliminaria parte do sofrimento, mas eliminaria também a própria possibilidade do encontro.

Talvez uma das experiências mais elementares da consciência seja precisamente esta: a descoberta de que alguma coisa nos falta. Não necessariamente algo que possamos nomear, possuir ou mesmo reconhecer com clareza, mas uma ausência que se manifesta pela inquietação com que nos dirigimos ao mundo. Desejamos, escolhemos, acumulamos projetos, procuramos reconhecimento e estabelecemos vínculos como se, em algum ponto além de nós mesmos, estivesse aquilo que poderia finalmente restituir uma unidade perdida. A consciência não encontra em si repouso suficiente; projeta-se continuamente para fora, em direção ao que ainda não possui, ao que ainda não é, ao que imagina poder completá-la.

É justamente essa desproporção entre aquilo que julgamos importante e aquilo que efetivamente domina nossa vida interior que torna o problema mais incômodo. Podemos reconhecer racionalmente o valor do trabalho, do estudo, da realização intelectual ou de qualquer projeto cuidadosamente escolhido e, ainda assim, descobrir que nossa atenção permanece aprisionada a uma ausência aparentemente menor: uma palavra que não veio, uma resposta recusada, um afeto não correspondido, a impossibilidade de alcançar alguém cuja existência adquiriu para nós uma importância desmedida. Há nisso algo bastante humilhante para a imagem que fazemos de nossa própria autonomia. O pensamento estabelece hierarquias mas o desejo frequentemente as ignora.

O vazio de que fala Neon Genesis Evangelion não se reduz, a uma simples carência psicológica que pudesse ser satisfeita pela aquisição do objeto adequado. Sua força está justamente no contrário. Aquilo que procuramos no exterior parece mudar de forma sem que desapareça a estrutura da procura. Um desejo sucede a outro; uma conquista encerra determinada falta apenas para que outra se torne perceptível; e, entre todas essas tentativas, a presença do outro ocupa uma posição singular. Não desejamos apenas coisas. Desejamos ser vistos, compreendidos, acolhidos; desejamos que uma consciência diferente da nossa confirme, de algum modo, que nossa própria existência não permanece encerrada em si mesma.

É nesse ponto que a falta começa a revelar uma dimensão mais profunda. Aproximar-se de outro indivíduo significa necessariamente aproximar-se de algo que não podemos possuir integralmente. Podemos ouvir suas palavras, interpretar seus gestos, reconhecer suas manifestações de afeto ou de recusa, mas não penetramos em sua consciência do mesmo modo como experimentamos a nossa. Entre um eu e outro permanece uma distância que nenhuma intimidade elimina completamente. O desejo de união nasce, assim, no interior da própria separação: procuramos alcançar o outro justamente porque ele não coincide conosco.

Mas essa distância não constitui apenas uma privação. É também aquilo que torna possível a existência do outro enquanto outro. Se toda fronteira desaparecesse, talvez desaparecessem com ela a rejeição, a incompreensão e a solidão; desapareceria, porém, também a possibilidade mesma do encontro. Desde seus primeiros movimentos, Evangelion instala seus personagens dentro desse paradoxo: o indivíduo sofre porque está separado e, ao mesmo tempo, somente pode amar, desejar e reconhecer porque existe essa separação. Aquilo que protege o eu de sua dissolução é também aquilo que o condena a permanecer, em alguma medida, inacessível aos demais.

Por isso o impulso de preencher o vazio contém desde o início uma ambiguidade. Procuramos o outro para escapar da solidão, mas exigimos muitas vezes dessa aproximação aquilo que ela não pode oferecer: a abolição completa da distância entre duas consciências. Quando essa promessa impossível fracassa, não experimentamos somente a perda de uma relação ou a frustração de determinado desejo. Deparamo-nos novamente com aquilo de que tentávamos escapar desde o princípio: a percepção de que continuamos sendo um eu separado, entregue à necessidade de interpretar o mundo e aqueles que nele encontramos sem jamais possuir a garantia de tê-los compreendido por inteiro.

É curioso perceber que algumas coisas, mesmo quando trabalhadas até a exaustão, recusam-se a se esgotar. Sempre resta um ponto ainda não observado, uma pergunta mal formulada, uma fresta pela qual o problema inteiro pode reaparecer sob outra forma. Talvez não seja exagerado dizer que existe alguma coisa essencialmente inquieta na consciência humana: não nos basta que algo seja; queremos saber o que é, por que é, de onde veio e, quando o descobrimos, imediatamente perguntamos o que existe depois.

Não pretendo fazer aqui uma antropologia improvisada segundo a qual a curiosidade seria uma espécie de medalha evolutiva concedida exclusivamente à nossa espécie. Além de os animais certamente demonstrarem comportamentos exploratórios, tenho conhecimento insuficiente do assunto e intimidade ainda menor com o reino animal para arbitrar a disputa. O que me interessa é algo mais modesto e, ao mesmo tempo, mais incômodo: a consciência humana parece incapaz de permanecer inteiramente satisfeita com aquilo que lhe é dado.

Desde a mais tenra infância estamos descobrindo e nos questionando sobre o mundo à nossa volta. Um bebê leva os objetos à boca e aprende diferenças que ainda não sabe nomear; um cientista contempla equações e pergunta pela estrutura do universo; um filósofo, tendo recebido respostas suficientes para viver tranquilamente, comete a imprudência profissional de perguntar se alguma delas realmente responde à questão: Kant é um ótimo exemplo de homem que inventou muitos problemas que nunca existiram senão em sua cabeça e passou boa parte da vida tentando resolvê-los. Mudam os objetos, muda o método, muda o vocabulário. Permanece a inquietação.

A modernidade não inventou esse impulso, mas talvez tenha feito dele um programa. Conhecer, explorar, produzir, conquistar, corrigir, acelerar. Há sempre alguma coisa adiante que ainda não dominamos e que, convenientemente, promete tornar nossa vida melhor quando finalmente a alcançarmos.

Essa inquietação pode ser uma dádiva. Também pode ser uma maldição.

A antiga imagem cristã da Queda permite aproximarmo-nos desse paradoxo, embora seja preciso não violentá-la para que diga aquilo que queremos. Seria teologicamente pobre reduzir o Pecado Original à mera “curiosidade”. No relato do Gênesis, conhecimento, desejo, desobediência, liberdade e limite aparecem de maneira muito mais complexa. Ainda assim, permanece sugestiva a associação entre a consciência que deseja ultrapassar a condição recebida e a perda de uma unidade primeira.

Também por isso a tradição cristã pôde produzir em sua liturgia a expressão paradoxal felix culpa: não porque o mal se transforme retrospectivamente em bem, muito menos porque a desobediência seja celebrada como uma espécie de empreendedorismo espiritual, mas porque a própria história da queda passa a ser contemplada à luz da possibilidade de redenção. A ruptura não constitui o bem; entretanto, é no mundo já rompido que se tornam possíveis certas formas de retorno, criação e reconciliação.

A humanidade caída, separada daquela unidade primeira, não permaneceu imóvel. Fez medicina para aliviar a dor, técnica para prolongar suas forças, arquitetura para proteger o corpo, música e pintura para exteriorizar aquilo que o corpo sozinho não consegue dizer. Criamos instrumentos para alcançar lugares aos quais nossos braços não chegam e linguagens para tentar alcançar consciências nas quais jamais poderemos entrar diretamente. Talvez nossas maiores criações sejam, entre outras coisas, monumentos erigidos diante de nossa própria insuficiência.

É justamente aqui que a curiosidade volta a encontrar aquele vazio do qual partimos.

Se existe em nós essa “imperfeição fundamental”, essa ausência que a consciência sente sem necessariamente saber definir, é natural que passemos a procurar alguma coisa capaz de preenchê-la. Podemos chamá-la de felicidade, realização, conhecimento, reconhecimento, transcendência, amor. Em determinado momento da vida, podemos até dar-lhe um rosto.

E então aparece a alma gêmea.

Confesso que a expressão sempre me provocou certa resistência. Parte da culpa pertence certamente ao exército de frases açucaradas que transformou um antigo problema filosófico em decoração de casamento e postagem acompanhada de pôr do sol. Se alguém procura garantias de que existe uma pessoa perfeita aguardando pacientemente em algum lugar do mundo para encaixar-se sem atrito em sua personalidade, a indústria cultural produziu material suficiente para várias vidas. Nicholas Sparks provavelmente consegue atender a emergência.

O problema que me interessa é outro.

Quando penso aqui em “alma gêmea”, não estou pensando apenas no parceiro amoroso ideal. Estou pensando em algo mais profundo: na esperança de que exista alguma coisa capaz de conferir unidade e sentido à nossa existência. O amor romântico é apenas uma das formas mais poderosas sob as quais essa esperança se apresenta.

A imagem clássica encontra uma de suas formulações mais belas no discurso de Aristófanes em O Banquete, de Platão. Convém fazer a distinção porque Platão teve a péssima sorte de escrever personagens tão memoráveis que, dois milênios depois, ainda lhe atribuímos indiscriminadamente tudo aquilo que eles dizem. Aristófanes narra que os seres humanos possuíam originalmente corpos duplos e extraordinária força. Tornaram-se arrogantes a ponto de desafiar os deuses e, como punição, Zeus decidiu dividi-los. Desde então, cada parte procura aquela da qual foi separada, desejando restaurar uma unidade anterior à cisão.

O fascínio do mito não depende de acreditarmos literalmente na existência pretérita de criaturas redondas correndo com oito membros pela Terra. Sua força está na estrutura que oferece para compreender o desejo: desejamos porque fomos separados.

A falta seria, assim, memória de uma completude.

Sofremos porque aquilo que somos não coincide mais com aquilo que um dia fomos. Procuramos porque existe outra coisa capaz, pelo menos em princípio, de restaurar nossa unidade. O amor seria então o movimento pelo qual o fragmento reconhece ou procura sua totalidade perdida.

Essa interpretação oferece imediatamente uma resposta possível ao vazio de que fala Neon Genesis Evangelion. Talvez exista em nós uma imperfeição fundamental porque somos seres separados. Talvez a consciência individual seja, ela mesma, o vestígio de uma ruptura.

E aqui aparece uma proximidade perturbadora entre o mito de Aristófanes e o Projeto de Instrumentalidade Humana. A solução de Aristófanes é particular: duas partes procuram recompor certa unidade perdida. A solução da Instrumentalidade é universal: já que as fronteiras entre os indivíduos produzem solidão, incompreensão e sofrimento, eliminam-se as próprias fronteiras. Uma alma gêmea resolveria a separação de dois.  A Instrumentalidade pretende resolver a separação de todos.

Há alguma coisa quase obscenamente eficiente nessa solução. Se o outro me causa sofrimento porque permanece inacessível, basta abolir a diferença entre mim e ele. Não haverá rejeição se já não houver alguém suficientemente separado para rejeitar. Não haverá incompreensão quando nenhuma interioridade permanecer verdadeiramente exterior às demais. A humanidade finalmente terá resolvido o problema das relações humanas eliminando as relações humanas. É o tipo de solução que somente uma organização burocrática ou uma metafísica desesperada poderia considerar impecável.

Mas o problema começa justamente aí. Se a separação é apenas uma doença, eliminá-la significa cura. Mas e se a separação for também condição para que exista um “eu”?

Schopenhauer nos oferece uma primeira maneira de aprofundar a questão. Para ele, aquilo que conhecemos como indivíduos pertence ao mundo enquanto representação, submetido ao principium individuationis: eu apareço como este ser, separado daquele outro, ocupando determinado espaço e determinado momento. Entretanto, por baixo dessa multiplicidade encontra-se a vontade, incessante e jamais definitivamente satisfeita. Desejar significa sentir falta; satisfazer o desejo oferece apenas alívio temporário, porque a vontade logo encontra novo objeto.

Isso nos obriga a reconsiderar a alma gêmea. Talvez o problema não seja simplesmente termos encontrado ainda a pessoa errada. Talvez nenhuma pessoa possa realizar aquilo que esperamos quando transformamos o outro em resposta absoluta para nossa própria falta. O objeto muda mas estrutura permanece.

Hoje desejamos uma pessoa. Amanhã desejamos reconhecimento. Depois segurança, conhecimento, dinheiro, influência, uma carreira, uma casa, uma explicação última do universo ou simplesmente que determinada criatura responda uma mensagem dentro de um prazo minimamente civilizado. Cada objeto promete por alguns instantes encerrar a busca. Quase nenhum consegue. A vontade tem uma extraordinária capacidade de sobreviver às próprias conquistas.

Por isso a “alma gêmea”, compreendida como sentido da vida, torna-se muito mais interessante do que a figura romântica da pessoa perfeita. Ela passa a representar o objeto imaginado como capaz de interromper definitivamente nossa inquietação.

Esse mecanismo aparece repetidamente em Evangelion: Shinji pode imaginar que pilotar o Eva resolverá alguma coisa. Pode imaginar que a aprovação do pai resolverá alguma coisa. Pode imaginar que ser necessário aos outros resolverá alguma coisa. Pode imaginar que o afeto de outra pessoa resolverá alguma coisa. O conteúdo se modifica, mas retorna sempre a mesma esperança: se eu alcançar aquilo, talvez finalmente deixe de sentir isto. E, no entanto, o vazio reaparece.

Kierkegaard oferece uma resposta diferente e talvez ainda mais incômoda. Em O Desespero Humano: Doença até a Morte, o desespero não deriva simplesmente da ausência de determinado objeto exterior. O problema encontra-se na relação que o eu estabelece consigo mesmo. O homem pode desesperar-se por não querer ser aquilo que é; pode também desesperar-se querendo desesperadamente tornar-se uma versão de si criada por sua própria vontade. Em ambos os casos, não basta acrescentar um objeto exterior à equação e esperar que tudo se resolva.

Isso não significa que a solução seja retirar-se heroicamente do mundo e descobrir que “tudo estava dentro de nós”. Essa frase serve admiravelmente para estampas e muito mal para Kierkegaard. O eu não é uma substância isolada e autossuficiente. É relação.

Relaciona-se consigo, relaciona-se com os outros e, na arquitetura religiosa kierkegaardiana, somente pode tornar-se plenamente si mesmo quando essa relação se estabelece corretamente diante daquilo que a funda. É precisamente aqui que a procura da alma gêmea revela sua ambiguidade, pois eu posso procurar alguém com quem dividir a existência sem deixar de ser quem sou, mas também posso procurar alguém que me dispense do trabalho penoso de ser precisamente quem sou.

No primeiro caso, desejo um encontro. No segundo, desejo dissolução. A diferença é enorme, embora o vocabulário romântico frequentemente consiga esconder ambas debaixo da mesma palavra: amor.

A psicanálise torna essa situação ainda menos confortável. O sujeito não é perfeitamente transparente sequer para si mesmo. Aquilo que desejo não coincide necessariamente com aquilo que digo desejar; as imagens pelas quais reconheço a mim mesmo já foram construídas mediante relações, identificações, perdas e desejos cuja origem não domino inteiramente. Em Freud, a consciência deixa de ocupar o confortável trono de soberana da vida psíquica. Em Lacan, essa descentralização torna-se ainda mais radical: o sujeito constitui-se numa ordem simbólica que o precede e procura objetos que nunca encerram definitivamente a estrutura de seu desejo.

Portanto, procurar “dentro” tampouco significa encontrar uma pequena caixa contendo nosso eu verdadeiro, cuidadosamente preservado das interferências do mundo. A interioridade também possui ruínas.

Há vozes que não reconhecemos como nossas, imagens tomadas dos outros, desejos que mal conseguimos formular e contradições que resistem às melhores intenções de coerência. É justamente por isso que a insistência na experiência individual pode tornar-se filosoficamente importante, e mais interessante que os devaneios que tive sobre esse assunto dez anos atrás.

Olavo de Carvalho, por caminhos bastante diferentes dos autores anteriores, insistiu reiteradamente na necessidade de reconduzir o conhecimento à consciência concreta que efetivamente vive, percebe, recorda e responde por seus próprios atos intelectuais. Uma ideia pode circular coletivamente, ser repetida por milhares de pessoas, adquirir autoridade social e ainda assim não ter sido verdadeiramente incorporada pela consciência daquele que a repete.

Esse ponto adquire hoje uma ironia especial. Nunca se ouviu tanto a ordem: “seja você mesmo”. E nunca essa ordem foi repetida de maneira tão padronizada. Olavo não concordou nem uma vez sequer com o adágio de que o jovem é transgressor de regras. 

"Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma á uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentirem-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas." (Olavo de Carvalho)

Todos devem descobrir sua individualidade utilizando aproximadamente o mesmo vocabulário, os mesmos gestos públicos e, não raro, as mesmas plataformas que oferecem modelos prontos de singularidade. A sociedade conseguiu o prodígio de transformar a autenticidade em comportamento de massa.

A questão deixa então de ser simplesmente se devo buscar minha identidade dentro ou fora de mim. Preciso perguntar primeiro: quais das coisas que reconheço como minhas foram efetivamente experimentadas e assumidas por mim, e quais apenas aprendi a repetir como descrição de mim mesmo?

Essa pergunta toca diretamente Evangelion.

Há o Shinji que Shinji imagina ser.

Há o Shinji que Gendo vê.

Há aquele percebido por Misato.

Há o que existe para Asuka.

Há aquele produzido pela expectativa de ser piloto.

Nenhuma dessas imagens pode simplesmente ser descartada, porque o eu constitui-se também em relação. Mas nenhuma delas, isoladamente, pode esgotá-lo. O drama consiste precisamente em precisar do outro para tornar-se si mesmo sem permitir que o outro determine inteiramente aquilo que se é.

Talvez seja por isso que a procura de uma “alma gêmea”, tomada agora em sentido mais amplo, seja tão persistente. Procuramos alguém, alguma ideia, alguma atividade ou alguma finalidade capaz de dizer finalmente: “é para isto que você existe”.

E quando essa resposta não aparece no campo afetivo, mudamos frequentemente o território da busca.

Passamos à técnica.

Inventamos meios de transporte porque desejamos percorrer distâncias com maior rapidez e segurança. Depois descobrimos que a própria velocidade cria novos perigos e inventamos sistemas destinados a controlar aquilo que inventamos. Criamos armas para aumentar nossa capacidade de defesa e logo precisamos criar instituições e leis para nos defender da capacidade de defesa que acabamos de criar. Produzimos tecnologias para vencer o isolamento e terminamos discutindo o isolamento produzido por tecnologias de comunicação.

Não digo isso para adotar aquele romantismo preguiçoso segundo o qual tudo era melhor quando morríamos aos quarenta anos de uma infecção perfeitamente curável por uma cartela de comprimidos, água filtrada e uma cama limpa. O progresso técnico aliviou sofrimentos reais e ampliou extraordinariamente as possibilidades humanas. A questão é outra: nenhuma realização exterior consegue, por si só, responder à pergunta acerca do sentido para o qual deveria servir.

A técnica responde admiravelmente ao “como”. Seu silêncio começa quando perguntamos “para quê?”.

Até a filosofia participa dessa ironia. Quanto mais conhece, mais claramente descobre a extensão do que ainda não conhece. Cada resposta séria parece produzir perguntas mais precisas. A inteligência amplia o mundo e, ao ampliá-lo, também amplia aquilo que percebe não dominar.

Talvez, então, nossa incessante expansão exterior seja em parte uma fuga.

Não encontramos facilmente aquilo que buscamos dentro de nós e corremos para procurá-lo no mundo.

Construímos.

Viajamos.

Amamos.

Estudamos.

Acumulamos.

Dominamos.

Criamos.

E todas essas coisas podem ser boas, belas e necessárias. O problema começa quando esperamos que alguma delas assuma a tarefa impossível de justificar por completo nossa própria existência.

Por isso minha antiga conclusão de que deveríamos simplesmente “voltar a buscar dentro” me parece hoje insuficiente. Não creio que a resposta esteja simplesmente dentro. Muito menos simplesmente fora. E as soluções que buscamos tendem a ser simples demais, mas diria que toda pergunta complexa tem duas respostas: "sim" e "não".

Talvez a questão seja aprender a reconhecer que nenhum objeto exterior pode substituir o trabalho interior pelo qual o indivíduo compreende aquilo que deseja, ao mesmo tempo em que nenhuma interioridade humana se constitui inteiramente sem relação com aquilo que lhe é exterior.

Precisamos do outro, mas o outro não pode ser nossa prótese metafísica. Precisamos de sentido, mas não sabemos se ele pode ser possuído como se possui um objeto. Precisamos descobrir quem somos, mas qualquer resposta construída sem relação com o mundo corre o risco de produzir apenas outra fantasia privada.

Volto então à imagem da alma gêmea, agora já bastante distante de seu pobre destino romântico: talvez não exista uma pessoa específica capaz de preencher perfeitamente o vazio. Talvez sequer seja desejável que exista.

Se alguém pudesse encaixar-se em mim de maneira tão absoluta que eliminasse toda diferença, essa pessoa ainda seria verdadeiramente outra? Ou teria se tornado apenas extensão da minha própria necessidade?

O amor começa talvez justamente quando renunciamos à esperança de que o outro venha abolir nossa incompletude e, apesar disso, escolhemos aproximar-nos. Nesse sentido, a Instrumentalidade representa a tentação extrema, o Príncipe Desconhecido que olha para a Princesa condenando um homem à morte e canta "ó divina beleza, ó maravilha!"

Ela promete aquilo que toda busca pela completude secretamente desejou: ausência de separação, ausência de incompreensão, ausência da distância dolorosa entre consciência e consciência, mas cobra em troca justamente aquilo que tornava possível desejar, amar e encontrar.

O vazio desapareceria. Talvez porque também desaparecesse aquele que o sentia. E eis a pergunta que começa a surgir por baixo de todas as outras: se a imperfeição fundamental pertence à própria condição de sermos indivíduos, queremos realmente preenchê-la ou precisamos aprender a viver sem destruí-la?

Talvez nossa condenação não seja vagar eternamente procurando a metade perdida.

Talvez seja coisa muito mais difícil.

Talvez precisemos aprender a permanecer incompletos sem transformar a incompletude em desespero; procurar o outro sem exigir sua absorção; desejar sem imaginar que algum objeto encerrará definitivamente o desejo; constituir uma vida sem esperar que o mundo nos entregue pronta a razão pela qual ela merece ser vivida.

Pouco romântico, admito. Já fui bem mais cor-de-rosa, e bem mais pessimista também. 

Mas a essa altura já estamos muito distantes do castelo, do cavalo branco e do pobre príncipe que, sem saber, havia recebido a obrigação ontológica de resolver a existência de outra pessoa.

Continua

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Para um velho amigo

Para Hyago Moreira Rocha
velho amigo que há muito não vejo

Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.

De repente, a conversa
se estendia noite afora;
não sabíamos que a hora
também passava por nós.
E a noite ficava imensa,
e o dia, sem diferença,
cabia inteiro na voz.

Falávamos das histórias
que nos faziam chorar,
dos pais, dos seus desacertos,
dos sonhos por realizar;
e, entre problemas e planos,
entre os risos e os enganos,
havia um mundo a inventar.

Tu me mostraste outras vidas,
outras formas de olhar,
tantas músicas tão belas,
tantos mundos para amar.
E aquilo que eu não via,
pela tua companhia,
comecei então a enxergar.

Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.

A idade já não contava,
nem parecia existir.
Às vezes eu até pensava
que inventara a ti.
Pois como pode uma amizade
nascer de tanta distância
e, ainda assim, permanecer
quando tudo chega ao fim?

Mas houve um encontro apenas.
Um só. E basta lembrar:
teu abraço junto ao meu,
forte, como a prometer
que nenhum dos dois soltava,
que aquela tarde ficava,
que não haveria adeus.

Eras amigo, antes de tudo,
e em confiança me abriste
lugares que eram tão teus,
feridas que escondias
e que eu, no teu lugar,
talvez não ousasse entregar
a ninguém neste mundo.

Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.

Confesso: em algum momento,
amizade já não bastava.
Havia alguma coisa a mais
que meu silêncio guardava.
Mas não houve tempo algum
para saber o que seria.
A vida, às vezes, interrompe
justamente o que nascia.

Depois, teu pai te levou.
Tua mãe ficou para trás,
doente, perdida em si mesma,
e nós, cada vez mais sós.
Pouco a pouco, as nossas vozes
foram ficando mais distantes;
tu começaste a trabalhar,
e os dias, sempre tão grandes,
começaram a nos separar.

E há nisso uma ironia:
não sei sequer recordar
como começamos a falar,
nem quando nasceu amizade.
E tampouco sei precisar
o dia em que, sem saber,
pela última vez falamos.

Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.

Por isso, tantos anos depois,
quando a noite desce fria,
ou quando desponta o dia,
ainda penso em perguntar:

Será que pensas em mim?
Será que perguntas por mim?
Será que, em alguma noite,
também te pões a lembrar?

Pergunto se houve tragédia,
se houve somente distância,
se a vida, com sua constância,
nos separou sem querer.

E então escuto, ao longe,
aquela música outra vez,
e a pergunta permanece
como quem não sabe morrer:

Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?

E se a voz da noite responde,
se atravessa o escuro enfim,
talvez diga que estás longe,
talvez diga que estás aqui.

Talvez sejamos dois nomes
perdidos na mesma estrada,
duas vozes que se procuram
sem nunca dizer mais nada.

E quando a noite perguntar
onde estou eu, onde estás tu,
talvez a resposta seja
somente o silêncio azul:

estamos cá dentro de nós, sós.
Onde estarás?

Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Alcançar

Minhas mãos nunca alcançaram você

Sempre caminhei atrás, 
achando que poderia te alcançar.
Por vezes,
quando a caminhada ficava pesada, 
e quando o fôlego começava a falar,
eu estendia a mão

mas não conseguia te alcançar.

Algumas vezes você me olhava,
virando a cabeça por sobre o ombro,
e me sorria, e aquele sorriso,
iluminava tudo ao redor, 
e eu sentia o rosto corar,
o coração titubear,
um assombro.

Mas isso não significa que eu podia te alcançar.

Você é o tipo de pessoa que,
se pudesse voar, 
jamais voaria.

E eu sou o tipo de serpente que, 
ao ver a águia voando no alto céu,
só pode sonhar em voar também, 
enquanto rastejo, 
respirando a poeira deste chão.

E então, 
mesmo quando em devaneio, 
em ilusão, 
eu acreditava que,
para te alcançar, 
bastava estender a mão,
eu percebia

que na verdade você se desfazia,
como fumaça,
por entre meus dedos.

Isso porque eu nunca vou poder te alcançar.

Na verdade,
depois de tanto tempo, 
eu finalmente entendi que,
não adianta o quanto eu a mão esticar,

ninguém,
eu nunca vou poder alcançar.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Até que as montanhas deixem de existir

À direita, a montanha desaparecia na névoa. À esquerda, o vale se abria por entre as árvores.

Ele caminhava.

E, pela primeira vez em muito tempo, não precisava dizer nada.

Caminhando lentamente aquele jovem buscava ficar longe, de todo aquele barulho, de todas aquelas conversas e apontamentos. Aprendera a sorrir o tempo todo, mas os prêmios que isso lhe rendeu apenas servem para enfeitar as prateleiras. Não é como se ele não gostasse do que fazia, mas o preço que precisava ser pago para fazer o que gosta é que é alto demais. 

Buscava ali algum descanso. Não como naqueles casos em que, farto de tudo, buscou se refugir escondendo do mundo. Não. Seu irmão passara os últimos anos ali, estudando as técnicas de cultivo de chá e, por isso, indicou que ele ficasse alguns dias. Ele só queria descansar.

Nos primeiros dias, caminhava sem pressa. Às vezes passava longos minutos sem ouvir uma voz, e o silêncio daquele lugar não parecia vazio, como os silêncios que conhecera na cidade, sempre interrompidos por alguma máquina, alguma notificação na rede social onde todos só queriam destilar ódio ou alguma pessoa chamando seu nome. 

Ali havia o vento nas folhas, 
o canto distante de um pássaro que ele não sabia o nome, 
o rangido da madeira sob seus pés. 

Eram sons pequenos, mas ocupavam o mundo inteiro. Caminhava, respirava, e continuava caminhando. Talvez fosse isso que procurava, embora ainda não soubesse dar nome: um lugar onde não precisasse preencher cada instante com alguma coisa.

A viagem era longa, aquele lugar era o mais distante que ele já havia ficado de uma cidade. A estrada era sinuosa mas, a cada curva, se abria uma nova e deslumbrante paisagem. A estrada subia devagar, parecia que nunca teria fim. 

Sem dizer nada ele se confortava. No silêncio.

O verde imenso que recobria a cadeia de montanhas, a névoa que dividia espaço com a floresta e o sol brilhante no céu azul em cores tão belas que um artista de décadas de treino dificilmente conseguiria reproduzir. Nem a câmera que ele apontou, aqui e ali, podia captar aquela beleza construída por dez mil anos de história, seguindo a antiquíssima regra do mundo. 

Havia alguma coisa naquela paisagem que o fazia perceber a própria pequenez. As montanhas não tinham pressa. As árvores haviam crescido ali muito antes que alguém pensasse em construir uma estrada, e continuariam crescendo depois que aquela estrada estivesse esquecida. A névoa chegava pela manhã e desaparecia quando queria; o sol atravessava as copas em manchas móveis; as folhas novas surgiam sem pedir licença às antigas. Ele estava acostumado a medir a vida por compromissos, temporadas, gravações, prêmios e datas marcadas em agendas. Ali, entretanto, o tempo parecia obedecer a outras regras. Uma flor abria quando chegava sua hora. O chá era colhido quando estava pronto. A montanha simplesmente permanecia.

Subiu um pequeno morro até a cada do homem que iria hospedá-lo. Era um sobrado e, pela altura, daria pra ver boa parte da região dali. O dono da casa era um jovem, de corpo forte, mas muito gentil. O estranhamento entre um homem acostumado a ter pessoas fazendo tudo por ele, e outro acostumado a fazer tudo sozinho, no entanto, não foi empecilho para a aproximação,

Logo os dois passaram a caminhar juntos, desde cedo, colhendo flores de chá ou cortando bambus. A comida era sempre feita com as coisas que a pequena aldeia produzia. E era sempre farta, de variedades e sorrisos. Não falavam o tempo todo. Às vezes um caminhava alguns passos à frente e o outro ficava para trás, ocupado com alguma planta, e depois se encontravam novamente sem que nenhum dos dois precisasse chamar. Quando chovia, um segurava o cesto enquanto o outro protegia as folhas. Quando voltavam cansados e, logo, havia uma xícara fumegando esperando por eles sobre a mesa. Aos poucos, aquelas pequenas coisas começaram a adquirir uma importância que ele não saberia explicar. Não houve um momento preciso em que percebeu que estava apaixonado. Talvez tivesse acontecido numa manhã qualquer, enquanto alguém cortava bambu no quintal e o cheiro do chá recém-preparado atravessava a casa.

Ele aprendeu alguns dos segredos dos chás, e não vivia mais sem beber, e apreciar cada nota, cada detalhe do sabor, enquanto conversava com todos. 

No começo, não sabia distinguir quase nada. Bebia e apenas dizia que era bom. Depois começou a perceber que um tinha uma nota mais doce, outro uma amargura breve que desaparecia logo, outro deixava na boca um perfume que lembrava flores que ainda não sabia nomear. Aprendeu que o chá também tinha seu tempo. Não se podia apressar seu sabor, assim como não se podia pedir à montanha que chegasse mais depressa ao verão. Algumas coisas precisavam apenas permanecer na água quente até que estivessem prontas para entregar aquilo que guardavam.

O resto do país se perguntava o que fazia nas férias o ator querido dos holofotes, mas ele nem ligava, aquilo não eram férias: ele descobrira um novo lar.

O rapaz que acolheu, por quem logo se apaixonou, fez com ele cada canto daquela casa uma lembrança especial. Havia a varanda onde o vento fazia tocar o pequeno sino, a mesa onde tomavam chá ao fim da tarde, a porta que rangia quando alguém entrava depressa, a janela de onde se podia ver a montanha quando a névoa permitia. Havia até o caminho entre a casa e os campos, que ele aprendeu a reconhecer não pela distância, mas pelas pequenas coisas que apareciam nele: uma pedra clara junto à trilha, uma árvore inclinada sobre o caminho, uma parte do terreno onde as flores cresciam mais baixas. Depois de algum tempo, já não precisava pensar para saber onde estava. O corpo sabia antes dele. Bastava virar uma esquina e alguma lembrança vinha ao encontro. Cada passo da casa até os campos e dos campos até a parte da aldeia onde preparavam as folhas de chá era, agora, familiar.

Não chorou quando precisou voltar, porque ele sabia que não era uma despedida. Com efeito, sempre que surgia uma brecha na agenda, é lá que ele ia. Acampava no topo das montanhas, ia conhecendo mais à fundo a mata fechada, e amava.

Amava o aroma do chá tanto quanto o perfume do seu amor. Amava o céu azul e o som do vento agitando a copa das árvores. Amava quando seu irmão o visitava, e logo saía correndo, para reencontrar os amigos da aldeia. 

O irmão também aprendera aqueles caminhos. Bem antes dele. Havia uma trilha que preferia, porque de determinado ponto era possível ver o vale inteiro; outra levava até uma árvore antiga onde costumavam descansar depois de subir a montanha. Às vezes discutiam sobre qual chá era melhor, e ele fingia não concordar apenas para prolongar a conversa. O irmão ria. Depois o vento passava pelas folhas, falava de uma flor mágica que ele iria reencontrar um dia, e por alguns instantes ninguém dizia nada. Anos mais tarde, quando voltasse àquele mesmo lugar sozinho, seria justamente aquele silêncio que lembraria primeiro.

Um dia, seu irmão foi para longe mais uma vez, e não mais voltou. Se perdeu em meio à luz de uma área distante na floresta. A floresta havia chamado seu Pequeno Príncipe. E então ele chorou. A montanha continuava permanecendo.

Naquele dia, a floresta estava especialmente clara. A luz atravessava as árvores em longas faixas e desaparecia sobre o chão coberto de folhas. Por algum tempo ninguém soube dizer exatamente onde ele havia estado pela última vez. Havia apenas caminhos que continuavam adiante, todos parecendo levar a algum lugar. As flores continuavam abertas. O vento continuava passando entre os galhos. O pequeno sino da varanda continuou tocando naquela tarde, embora ninguém tivesse ido até a casa. Foi então que ele percebeu uma das crueldades da natureza: ela não sabe quando alguém morreu. As árvores continuam crescendo.

Mas não deixou de até lá, sempre que podia. Voltava e encontrava tudo quase igual. A mesma estrada longa e sinuosa, as mesmas árvores, os mesmos campos onde o chá crescia em linhas que acompanhavam as curvas do terreno. Apenas ele havia mudado.  Sabia que ali, seu irmão estaria com ele, na brisa que parecia soar como seu sorriso ao agitar o pequeno sino dos ventos na varanda. E tinha seu amado. 

Havia dias em que caminhava até a árvore onde o irmão costumava descansar e permanecia ali sem fazer nada. Não rezava, não falava, não procurava respostas. Apenas ficava. Talvez porque naquele lugar ainda fosse possível imaginar que, se esperasse tempo suficiente, ouviria outra vez aquele riso vindo de algum ponto da floresta.

Aprendera a apreciar o silêncio que ele buscara há tanto. Ficavam dias sem trocar mais do que umas poucas palavras, mas não era desconfortável, apenas não era necessário.

A separação com seu amor também não o distanciou daquelas montanhas. Enquanto o homem forte estudava e se preparava para caçar, ele continuou andando por aqueles lugares, pois cada pequena trilha, cada árvore ao redor do chalé, cada som, cada aroma, tudo lembrava seu amor. 

A espera demorou mais que o previsto. O exército roubara do seu homem mais do que prometera. E ele continuava esperando. Paciente. O homem que amava também passou a existir naqueles lugares mesmo quando não estava neles. 

Uma determinada árvore lembrava seus braços. 

Uma trilha lembrava a maneira como caminhava. 

O orvalho da manhã era como o outro saía do banho, sem roupa e com várias gotas pelo corpo perfeito, só para provocá-lo. 

O cheiro das folhas molhadas trazia de volta uma tarde de chuva em que haviam ficado abrigados sob o beiral da casa. 

Até o chá, que antes era apenas chá, começou a possuir nomes que não estavam escritos em nenhuma embalagem: este era o que ele gostava; aquele era o que bebiam quando fazia frio; outro era o que haviam descoberto juntos. A memória tinha transformado a montanha numa casa ainda maior.

Dois anos se tornaram três. 

Depois quatro. 

Depois cinco. 

Os números avançavam enquanto a montanha permanecia. A cada estação, alguma coisa mudava: as flores desapareciam, o verde escurecia, a névoa chegava mais cedo, o frio demorava mais a partir. Mas a montanha continuava ali, enorme e silenciosa, como se cinco anos fossem apenas um intervalo breve entre duas manhãs. Ele começou a pensar que talvez fosse isso que significava esperar. Não permanecer imóvel, mas continuar vivendo enquanto o tempo fazia seu trabalho. As folhas cresciam. Eram colhidas. Voltavam a crescer. O chá era preparado. Bebido. A água esfriava. Outra água era colocada no fogo.

Quantos milênios se passaram até que aquelas montanhas se formassem? E ele sabia que, sem esse tempo, elas jamais seriam como era. Naquela tarde, como em tantas outras, preparou o chá sem pensar muito no que fazia. 

A água ferveu, 

a fumaça subiu lentamente 

e durante algum tempo ficou suspensa diante dele, 

misturando-se à luz amarela do meio da tarde. 

Ele segurou a xícara com as duas mãos. 

Já conhecia aquele sabor havia anos. Sabia quando estava pronto apenas pelo aroma. Bebeu um pouco e olhou para as montanhas. Não esperava nenhuma novidade. Depois de tantos anos, aprendera que esperar também era isso: tomar o mesmo chá, olhar a mesma paisagem e ainda assim acreditar que alguma coisa poderia acontecer. Por um momento, o mundo inteiro pareceu suspenso: o vento, a fumaça do chá, as folhas, até o pequeno ruído dos pássaros. Ele não se levantou. Não conseguiu. Apenas olhou. E então ele avistou, ao longe, a figura daquele homem. E não acreditou no que viu. Será que sua cabeça lhe pregava uma peça? Será que a floresta se compadecera dele e então o chamava, como chamou seu irmão?

O homem parou por um instante, como se também precisasse ter certeza de que aquele que estava diante dele era real. Depois correu. Não havia mais montanha, nem estrada, nem anos, nem espera. Havia apenas aqueles poucos metros entre os dois. Ele correu como quem atravessava não uma clareira, mas cinco anos inteiros. E quando finalmente o alcançou, o abraço. A força de um urso pressionando-o contra peitos de aço. Quase o fez perder o equilíbrio.

Era real. Ali, no topo daquela montanha, com o sol e as árvores como testemunha, o seu amor permaneceria vivo, pelos próximos dez mil anos, ou até que as montanhas deixem de existir. 

Ficaram ali por algum tempo, sem dizer nada. Não havia necessidade. O sol descia lentamente sobre as árvores, e a luz atravessava a névoa em longas faixas douradas. O chá já havia esfriado sobre a mesa. Ao longe, o vento passava pelas copas e fazia a montanha parecer respirar. Ele olhou para aquele homem e depois para tudo aquilo que havia aprendido a amar: a casa, os campos, a floresta, as trilhas, o silêncio. Pensou no irmão, nos anos de espera, nas pessoas que haviam partido e nas que haviam permanecido. Talvez a montanha soubesse alguma coisa sobre isso. Talvez não. 

Ela estava ali antes deles e estaria depois. Mas naquele instante, por um breve momento, pareceu testemunhar aquele reencontro. E ele soube que, ali no topo daquela montanha, com o sol e as árvores como testemunha, o seu amor permaneceria vivo pelos próximos dez mil anos, ou até que as montanhas deixassem de existir.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O sol desfaz a névoa

Já vinha pressentindo isso há alguns dias. Dizem que, com a experiência de muito tempo, as pessoas de certos lugares conseguem sentir quando se aproxima a chuva, ou a tempestade. São pessoas do sertão árido ou marinheiros de longa data, habilidade aprendida por medo, ou necessidade, ou os dois. 

Sempre sinto uma forte dor de cabeça. É o primeiro sinal. Meu corpo costuma saber antes de mim quando alguma coisa está prestes a desabar.

Junto a ela uma sensação de crescente inquietação. Antes o corpo era tomado pelo torpor, aquele característico da anedonia que faz os dias passarem sem que se perceba. O moribundo jaz na cama, e passam as horas, os dias, e ele ainda continua lá. No meu caso é como se apenas as noites existissem. E então tudo muda quando a depressão se recolhe, cedendo lugar para outro demônio. 

A névoa matutina é violentamente dissipada pela luz do sol. Eu não gosto do sol. Sempre odiei. Me faz lembrar daqueles dias desconfortáveis de verão que não conseguimos dormir direito, e viramos de um lado pro outro, o suor por todo o corpo, e a aquela brecha atrevida fazendo uma luz incômoda tocar o corpo, mesmo quando lhe damos às costas. Há qualquer coisa de ofensivo naquela insistência luminosa de que o dia precisa começar. 

Tomado de imensa fúria na noite de hoje. Meio de semana, contemplo a imensidão da minha incompetência: praticamente um incapaz. Praticamente um incapaz. Não há nada de nobre nisso. É simplesmente humilhante.  Depois de (mais) um dia de inutilidade, uma fuga da realidade: de volta para as histórias. Há fugas que nos escondem do mundo. Estas, às vezes, me devolvem algum mundo. Elas já se tornaram meu porto seguro. Certamente alguém diria que é apenas uma fuga, e eu sei que muitas vezes de fato o é. Mas aprendo muito do mundo que não consigo viver por ter sido me tirada a vontade de sair da cama. 

Tenho consciência dos limites dos recortes apresentados. Mas também sei que até mesmo o enfoque que é dado me faz compreender: ele também tem algo a me dizer. 

Meu professor dizia que a primeira coisa a se fazer, sempre, de modo real, crescente e permanente, é enriquecer com a experiência humana. Talvez seja por isso que eu tenha aprendido a procurar vidas onde não consigo viver a minha. Ariano Suassuna, certa vez, já de idade avançada e sensibilidade ainda afiada, citou o Albert Camus, que elaborou que o único problema filosófico importante seria o do suicídio. O sujeito avalia a vida, avalia a si mesmo, e chega a conclusão de que isso é inviável, de que não vale a pena. Mas Ariano discordava do filósofo franco-argelino: para ele o suicídio era apenas parte, ou sintoma, do real problema, que seria o do sofrimento humano. Este sim é o maior problema de todos e que seu conterrâneo Leandro Gomes de Barros havia eternizado de modo mais bem elaborado que Camus.

Aprendo com as histórias muito desse sofrimento, das diversas dores advindas da partida, da morte, da separação, da incompreensão. Mas também aprendo sobre a esperança, uma que muitas vezes penso ter perdido totalmente, e que algum personagem me recorda, ao sorrir doce e ternamente, ao declarar seu amor, ao abraçar alguém, a sorrir novamente. Não ligo que digam, apesar de crer que ninguém se importa realmente, que seja uma fuga. Talvez seja fuga. Mas às vezes parece que é o único lugar para onde ainda consigo fugir. E, se ninguém se importa realmente, ao menos aqueles personagens não sabem disso. Pois cada vez que sorrio, me despertando de pesada agonia, ou que derramo lágrimas, mesmo em intensa euforia, percebo uma coisa estranha: na solitude de minha tela, encontro um mundo que não viveria nem se dez vidas eu tivesse. Na solitude da tela, ao menos, ninguém me pede para ser outra coisa.”

Mas hoje a fúria me dominou, por um bom tempo eu precisei me esforçar para me concentrar. Um aspecto do sofrimento me veio atormentar: a recordação da traição antiga e a verdade das relações presentes. Os personagens traem-se entre si... Mas não me trocam por uma vagabunda qualquer e depois me avisam isso por mensagem no dia que vão morar com ela. Por isso me refugiei naquelas cenas, de amor, de traição e partida e, aos poucos elas me acalmaram. 

Catarse. 

A ficção fez aquilo que a minha razão não conseguiu. Aqueles versos que criei em mente, em troqueu, batiam em minha cabeça como se fossem passos, e depois desapareceram, se desfizeram, perderam-se na névoa. Bom que o dia de ira findou. Pena que a poesia se perdeu. Talvez amanhã ela volte, como a depressão. E talvez a poesia precise da ira para morrer e, como a Fênix ou Benu, renascer. Embora seja belo falar da esperança, admito que ainda encontro no sofrimento humano assunto mais interessante para as letras. 

Me resta agora, depois de longa noite em companhia de tantos personagens: cabelos azuis em beijos apaixonados na bancada de uma cozinha, estudantes tímidos e fofos tomando sorvete depois de uma passada na livraria, mafiosos perigosos e jovens com responsabilidade sobre ombros vacilantes como os de uma criança de doze anos. 

A noite passou. 

A tempestade, não sei. 

Me resta agora... esperar os próximos dias, de ira ou euforia.

X

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Às cinco da manhã


Dizem que o sertanejo sabe
quando a chuva vai chegar,
que o marinheiro sente o vento
antes da tempestade começar.

Eu também aprendi um jeito
de saber que algo vem:
primeiro dói minha cabeça,
depois eu não quero ninguém.

O corpo sabe antes da alma,
e a alma demora a entender.
Talvez seja assim que a tristeza avisa
que está cansada de se esconder.

Primeiro vem o torpor,
depois vem a agitação.
Um dia eu não sinto nada,
no outro, sinto até o chão.

Passam as horas pela casa,
passam os dias também.
Eu continuo na mesma cama,
sem saber se vou além.

Meu professor dizia:
“Vá conhecer a vida.”

Eu queria.

Mas como conhecer o mundo
quando a cama parece maior que a estrada?
Como atravessar uma cidade
se levantar já parece uma jornada?

Então fui ver histórias.

Disseram que era fuga.
Talvez fosse.

Mas quem foge para algum lugar
ainda precisa saber para onde ir.
E se eu não consigo sair de casa,
talvez ainda possa assistir alguém partir.

Vi gente chegando,
vi gente indo embora,
vi quem perdeu um amor
e quem encontrou alguém na mesma hora.

Vi gente rindo na rua,
pegando um trem, atravessando o mar.
Vi gente dizendo “eu te amo”
e tendo alguém para abraçar.

E pensei:

por que a vida deles acontece
e a minha parece esperar?

Camus perguntou
se valia a pena viver.
Suassuna perguntou
por que viver dói.

Eu, que não sou Camus nem Suassuna,
tenho uma pergunta menor:

por que às vezes
eu quero tanto viver
justamente quando não consigo levantar?

Talvez eu tenha aprendido
a conhecer a vida pela televisão.

Não é a vida inteira, eu sei.
São pedaços.
Recortes.
Alguns minutos escolhidos
por alguém que escreveu uma história.

Mas até um pedaço de vida
pode ensinar alguma coisa.

Aprendi que as pessoas sofrem.
Que partem.
Que morrem.
Que se perdem umas das outras.

Aprendi também
que às vezes alguém volta.

E quando volta,
há uma música.

Quando alguém se apaixona,
os violinos começam a tocar.
Quando tudo parece perdido,
alguma coisa insiste em voltar.

Por que na ficção
o amor sempre encontra um jeito
de voltar para casa?

Na vida real
às vezes ele só vai embora.

Personagem nenhum me fez aquilo.

Eles traem, é verdade.
Se despedem.
Mentem.
Morrem.

Mas nenhum deles me escreveu uma mensagem
dizendo que ia morar com outra pessoa
justamente naquele dia.

A ficção, pelo menos,
tem a delicadeza de mentir direito.

Na televisão,
até a traição tem preparação.
Há uma música triste,
uma porta fechada,
alguém olhando pela janela.

Na vida,
às vezes é só uma mensagem.

E pronto.

Como se uma vida inteira
pudesse caber numa tela pequena.

Talvez por isso eu tenha voltado às histórias.

Não porque sejam verdadeiras,
mas porque por algumas horas
eu consigo acreditar
que alguma coisa ainda pode acontecer.

Falam de Deus,
da morte,
do destino,
de tudo que um homem não consegue explicar.

Eu, depois de tanto pensar nisso,
fui procurar alguém na televisão
que pudesse me ensinar a amar.

Tinha cabelo azul.
Era tímido.
E parecia feliz.

Talvez seja ridículo.

Mas ele sorriu
e eu sorri também.

E por alguns minutos
a minha vida coube
naquela pequena alegria.

Se a vida é tão bonita,
por que eu não quero sair da cama?

Se o mundo é tão grande,
por que meu quarto me basta?

Eu vejo tanta gente vivendo
e não sei por que continuo aqui,
se quando o mundo está acontecendo
tudo o que eu quero é dormir.

Talvez eu esteja cansado
de chegar sempre atrasado.

Talvez a vida esteja passando
e eu esteja olhando pela janela.

Talvez eu tenha medo
de abrir a porta
e descobrir que lá fora
ninguém estava esperando.

Eu perguntei ao dia
por que insistia em nascer,
se eu ainda não sabia
se queria amanhecer.

Mas ninguém respondeu.

O relógio respondeu primeiro.

Depois a geladeira.

Depois algum carro
passando longe na rua.

A casa inteira parecia saber
que uma manhã estava chegando.

Só eu não sabia.

O único a falar sou eu,
sentado na cama,
às cinco da manhã,
irritado com o sol
que ainda nem nasceu.

E pensei:

se amanhã eu acordar melhor,
isso quer dizer que passou?

E se amanhã eu acordar pior,
quanto tempo ainda vai durar?

Ninguém respondeu.

Talvez ninguém saiba.

Talvez seja esse o problema:

a gente passa a vida perguntando
a pessoas que também estão tentando descobrir.

Então fiquei ali.

Sem resposta.
Sem filosofia.
Sem Camus.
Sem Suassuna.

Só eu,
a cama,
a televisão apagada
e a madrugada.

E, pela primeira vez naquela noite,
não precisei responder nada.

A tristeza podia ficar.

A raiva também.

Eu perguntei ao dia
por que insistia em nascer,
se eu ainda não sabia
se queria amanhecer.

Mas ninguém respondeu.
O único a falar sou eu,
sentado na cama, 
às cinco da manhã, 
irritado com o sol 
que ainda nem nasceu.

Amanhã eu vejo.

Hoje, por enquanto,
eu só queria dormir.

E talvez,
quando amanhecer,
eu descubra outra vez
que ainda estou aqui.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A orquestra lá fora

Os últimos dias na cama estão fragmentados na minha cabeça. Uma névoa densa ao meu redor, onde eu me refugio. Porque fora dali, para além da névoa, há a civilização, com todo seu barulho. É como uma longa peça dodecafónica que ninguém, em sã consciência, se disporia a ouvir. Não. Não é como se eu estivesse no meio da civilização. Depois do meu quarto tem apenas mais algumas paredes, poucos metros entre uma fina camada de madeira e mais barulho. E nem quero saber o que tem lá fora. 

Percebi, ao sentar na frente da TV para assistir, como num clique, que eu me fascino tanto com as histórias que vejo porque, na verdade, elas mostram pessoas e suas vidas, e vidas essas que não estão confinadas dentro de um quarto de 4m². 

Essas pessoas estão vivas. 

Elas saem,
riem com os amigos, 
conhecem novas pessoas, 
se apaixonam, 
acabam ficando juntas 
e tantas outras coisas. 

Os violinos entram primeiro, quase tímidos; depois crescem, e então vêm os metais, largos, terríveis, anunciando que alguma coisa irá acontecer. A percussão marca o passo. Tudo parece perdido por alguns compassos. Mas, para eles, no fim, a melodia daquele amor retorna.

Eu saí. 
Ri, 
sorri. 

E depois voltei pra dentro da minha névoa. 

Um dia.
Dois.
Três talvez.
O tempo havia perdido a métrica.
E eu ainda estava lá.

E a névoa parecia cada vez mais pesada. 

Mesmo assim, cada vez que saí, o barulho me acertou como uma gigantesca massa sonora.

TROMBETAS.
METAIS.
PERCUSSÃO.

Tudo ao mesmo tempo, sem piedade, como se todas as trombetas do Apocalipse tivessem descido sobre a cidade e um maestro raivoso, enlouquecido em seu próprio dia de ira, regesse aquela Sinfonia Trágica.

A família estava reunida, mas eu não quis ver ninguém. Fiquei deitado, imóvel, escondido embaixo das cobertas como se elas fossem as paredes de uma fortaleza.

E então, uma vez na cama, envolto por pesadas cobertas no dia mais frio do inverno, lá vem a névoa de novo, lentamente fechando meus olhos. 

E o som vai sumindo, 

como um clarinete cada vez mais distante.

Lentamente...

Cada vez mais longe...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A Grande Montanha Nevada

I. Prelúdio: Allegro del cammino

Era uma viagem longa.
Já estávamos na estrada havia muitos meses.
A mãe ligava quase todos os dias.
Dizia sentir saudades.

A avó telefonava também.
Quase nunca para conversar.
Gostava apenas de mostrar o pôr do sol.
Como se dissesse:

"Veja. Hoje ele também aconteceu daqui."

Em cada pequena aldeia,
escondida entre longas faixas de mata fechada,
descobríamos uma maneira diferente de cultivar a terra.

Pareciam lugares onde o tempo,
em vez de passar,
aprendia apenas a respirar devagar.

Tudo permanecia.

E, no entanto,

tudo crescia

como crescem as folhas do chá.

Havia aldeias em que nem mesmo os cães latiam para os estrangeiros. 
Era como se esperassem alguém que ainda não chegara. 
Ou alguém que jamais partiria.

A próxima parada seria a Grande Montanha Nevada.

II. Scherzo da montanha

Falava dela
como quem apresenta um velho amigo.

Ou melhor,

como quem conduz alguém,
pela primeira vez,
até uma obra-prima.

Contou que o chá daquela montanha 
era mais limpo, mais encorpado
que o que bebíamos naquela hora.

O da semana anterior,
disse sorrindo,
era elegante.

Este...

marchava como um velho general.

Depois riu.

Gostava de comparar pessoas
com diferentes chás.

Seu irmão,
dizia,
possuía um aroma floral, sedutor

O aroma permanecia nas mãos,
mesmo depois da xícara vazia e, 
mesmo assim, alguns aromas só se revelam 
quando a água esfria.

Era estranho.
E bonito.

Nunca falava de si.

Há pessoas que se escondem atrás das palavras. 
Outras, das lembranças. 
Ele se escondia atrás daquilo que admirava. 
Talvez seja essa a forma mais delicada de confissão.

Falava da montanha.

Das flores.

Do vento.

Do chá.

Só muito tempo depois compreendi
que era sempre dele
que falava.

Às vezes me pergunto 
se os homens inventaram o chá 
para beber o tempo ou se foi o tempo 
que inventou o chá para aprender 
a permanecer.

Enquanto subíamos,
voltou a mencionar uma flor.

Chamava-a de flor mágica.

Não porque tivesse qualquer poder.
Mas porque nunca conseguia lembrar seu verdadeiro nome.

Disse que a encontrara,
anos antes,
escondida nas partes mais profundas da montanha.

Enquanto falava, 
uma pétala desprendeu-se de algum lugar. 
Nenhum de nós olhou para cima.

Sorria enquanto contava.
Queria que também a víssemos.

Havia qualquer coisa naquela lembrança
que parecia lavar,
sem esforço algum,
a poeira acumulada no coração.

A certa altura 
deixei de saber se seguíamos a trilha 
ou se era a trilha que nos conduzia.
As árvores pareciam antigas demais 
para serem apenas árvores.

Havia nelas uma paciência mineral.

III. Intermezzo da flor azul

Depois falou da morte.

Não como quem teme.
Nem como quem deseja.

Falou dela
como se descrevesse uma estação do ano.

Disse que havia uma espécie de limpeza
no retorno de todas as coisas à terra.

A terra jamais desperdiça um corpo. 
O húmus conhece uma canção
que os homens ainda chamam de silêncio.

Que talvez a vida
só pudesse ser compreendida
quando deixava de pertencer inteiramente
a nós.

Continuou caminhando.

Como se ainda respondesse
a uma conversa iniciada dias antes.

Ninguém entendeu.

Talvez porque falasse conosco.
Talvez porque falasse apenas consigo.

Conhecia cada trilha.

Cada curva.

Cada pedra.

Sabia exatamente onde pisaria,
embora tudo nos parecesse igual.

Mas não era.

Ninguém se perde
dentro da própria casa.

Às vezes corria como uma criança.
Apontava um desnível da montanha.

Dizia que, por um lado,
estavam as plantações.

Do outro,
o mundo inteiro.

Existem lugares que primeiro nos recebem. 
Depois nos reconhecem.

Foi então que me perguntei,
não quando ele conheceu aquele lugar,
mas quando aquele lugar
passou a conhecê-lo.

Quando a floresta começou,
silenciosamente,
a morar dentro dele.

Sob cada folha havia um universo trabalhando.

Fungos.

Insetos.

A lenta liturgia da decomposição.

A montanha parecia compreender,
muito antes de nós,
que toda despedida
é também um alimento.

Numa noite,
recebeu uma notícia.

Correu sozinho para o meio das árvores.

Ajoelhou-se.
Nenhuma árvore tentou consolá-lo. 
Essa talvez seja a forma mais antiga da misericórdia.
A relva bebeu suas lágrimas.

Chorava porque, ao saber,
que a morte havia levado alguém.

E, levando-o,

arrancara dele
alguma coisa
que jamais voltaria.

No dia seguinte,

o sol dissolveu lentamente
o orvalho das folhas.

Seu rosto já não carregava revolta.

Nem resignação.

Havia apenas
uma paz difícil de explicar.

Como quem atravessara uma longa noite.

Houve uma noite,
e uma manhã.

IV. Adagio da névoa

E ele viu
que ainda era possível
chamar aquilo de mundo.

Voltamos a andar.
Ele parecia ter voltado a andar também.

Mais tarde,
correu por uma trilha
que só ele parecia enxergar.

Uma folha desprendeu-se.

Não sei por que
me lembrei dele.

As árvores eram altas.
Suas copas deixavam cair,
entre um ramo e outro,

fragmentos
do azul mais intenso
que já vi.

Azul como aquelas flores.

As mesmas flores
que ele queria reencontrar.

O terreno descia.
Depois subia abruptamente.

Qualquer homem
negociaria os próprios pulmões
para alcançar
o cume daquela montanha.

Uma névoa espessa começou a cobrir boa parte do lugar.
Não escondia a montanha. 
Apenas retirava dela aquilo que ainda julgávamos possuir.

Olhei para cima.

Lá estava ele.

Sorriu.

Acenou.

A luz atravessava a névoa
e fazia dele
quase uma figura de vitral.

Branco.

Azul.

Verde.

As cores deixavam de possuir fronteiras.

Misturavam-se lentamente
como tinta dissolvida na água.

Então

O farfalhar de seus pés cessou.

Foi o primeiro silêncio que fez ruído.

Depois,

o canto dos pássaros.

A névoa tornou-se ainda mais espessa.

Foi então
que ouvi os gritos
daqueles que tinham
medo de perdê-lo

V. Coda: A respiração da floresta

Dias e noites
procuraram por ele.

Perto das raízes
de uma árvore antiga,

cresciam
as flores azuis.

Pareciam iluminar,
por si mesmas,
aquele pedaço escuro da floresta.

Não cresciam ali.
Esperavam.

O vento passava entre os galhos.
Alguma folha seca estalava.

À distância,
quase parecia um chamado.

Os homens continuavam procurando,
continuavam procurando,
mesmo quando já sabiam que procuravam outra coisa.
continuavam buscando.

Dia.

Noite.

Dia.

Noite.

Encontraram apenas
algo.

Não sei dizer o quê.

Ninguém jamais conseguiu saber,
qual era seu estado.

Houve quem dissesse
que certas coisas
não pertencem às palavras.

O homem que voltou da montanha
falava pouco.
Quando alguém perguntava,
baixava os olhos.

E respondia apenas:

"Ele retornou para a montanha."

Nunca explicou.

Ninguém insistiu.

A névoa subia lentamente entre os pinheiros.

As folhas estremeciam.

A montanha parecia preparar,
em silêncio,
um chá antigo,
feito de vento,
de pedra,
de memória.

Talvez fosse esse
o sabor
de quem retorna
para casa.

Desde então,
sempre que a névoa desce cedo,

há quem pare por um instante
para escutar.

Não porque espere vê-lo voltar.

Mas porque algumas florestas
aprendem o nome daqueles

que um dia
aceitaram o seu chamado.

Durante muito tempo pensei que a montanha o tivesse levado.
Hoje imagino outra possibilidade.
Talvez montanhas não chamam ninguém.

Apenas respondem,
quando 
alguém,
desde 
muito antes,
já lhes pertence.

domingo, 2 de agosto de 2026

Retornando

Eu estava presente, estava mesmo. Não foi como antes, como tantas vezes, em que as vozes soavam distantes, como se eu não participasse. Eu participei, e fiquei bem com isso.

Sentei de frente a ele, e ele sorriu durante a conversa, durante as brincadeiras. Foi ótimo. Foi mesmo.

Mas sim, eu senti que ele não olhava pra mim do mesmo jeito. Os olhos brilhavam por causa da conversa, não por mim. 

Mas alguma coisa mudou, porque isso não doeu como sempre. Não, eu só fiquei ali, sentado, sorrindo, mas sem me machucar. Acho que comecei a aceitar que, mesmo quando pessoas caminham juntas, podem olhar para lugares diferentes. 

Observei ele subir e desaparecer na floresta, ouvia seu riso junto o farfalhar dos seus pés. Sorri ao vê-lo contente, mesmo sem saber para onde ele iria. O céu, de um azul vivo, estava brilhante por entre as copas das longas árvores, não ventava, era tudo silêncio, o único som era o da minha respiração e o daquele garoto correndo, e até esse foi sumindo.

Tentei segui-lo de algum modo, e ele sorriu e acenou de uma clareira, mas não consegui ver muito, a luz do céu azul ali brilhava com tanta intensidade que o envolvia num halo branco cristalino e ofuscante, certamente algo de divino, e me lembrei que ele disse algo sobre encontrar uma flor mágica naquelas montanhas. 

E então ele se virou mais uma vez, 

e sumiu 

por entre as luzes, árvores e folhas no chão. 

Não tornei a vê-lo e tampouco me lembro como voltei ao acampamento. Por dois dias procuramos por ele, ou melhor, os aldeões procuraram. Tudo que encontraram foi o seu tênis, branco, perto das tais flores. O homem que o achou não conseguiu descrever o que viu, 

talvez nunca consiga, 

apenas disse que aquele jovem, 

como o Pequeno Príncipe da floresta, 

havia retornado para a montanha.