Esses elementos ainda não formavam um sistema. Encontravam-se espalhados por produções de natureza bastante diferente, algumas voltadas ao circuito comercial, outras ligadas ao cinema independente, outras ainda produzidas dentro de tradições que dificilmente seriam chamadas de BL pelos critérios atuais. Sua importância está justamente aí: antes de existir uma linguagem industrial relativamente estável, existiam experiências que tornavam determinadas imagens possíveis.
O cinema tailandês já vinha abordando gênero e sexualidade por caminhos diversos. Beautiful Boxer (2003), inspirado na trajetória da lutadora trans Parinya Charoenphol, colocou identidade de gênero, corpo e reconhecimento no centro de uma produção que alcançou projeção internacional. Tropical Malady (2004), de Apichatpong Weerasethakul, levou o desejo entre homens para um território muito diferente, contemplativo, sensorial e quase mítico, distante das convenções que mais tarde caracterizariam o BL. Bangkok Love Story (2007), por sua vez, aproximou romance homoafetivo e melodrama urbano, carregando consigo aquela relação entre amor e fatalidade que durante muito tempo acompanhou personagens queer no cinema.
Essas obras pertenciam a tradições distintas e seria anacrônico reuni-las retrospectivamente sob uma única categoria. O que revelam, quando observadas em conjunto, é a existência de um repertório anterior. A presença de personagens LGBTQ+ não começou com o BL; tampouco a representação do desejo entre homens. O que mudaria nos anos seguintes seria a maneira como esse desejo seria organizado, serializado, dirigido a um público específico e, finalmente, transformado em indústria.
Outra corrente chegava do Japão.
O yaoi e o Boys’ Love japoneses possuíam uma história muito mais longa, desenvolvida sobretudo nos mangás e romances voltados inicialmente a um público feminino. Ao circularem internacionalmente, essas narrativas carregavam consigo códigos reconhecíveis: a centralidade absoluta da relação entre dois personagens masculinos, tipos românticos relativamente estáveis, determinadas hierarquias dentro do casal, idealizações do amor e uma relação particularmente intensa entre personagens, leitores e fantasia.
Na Tailândia, esses códigos não foram simplesmente copiados. Foram sendo absorvidos, modificados e misturados a elementos locais. Uniformes escolares, universidades, relações entre veteranos e calouros, expectativas familiares, música pop, televisão juvenil e formas tailandesas de sociabilidade passaram a ocupar estruturas narrativas que já possuíam parentesco com o yaoi, mas começavam a adquirir feições próprias.
Paralelamente crescia a literatura Y.
Muito antes de várias dessas histórias chegarem à televisão, circulavam como romances, muitas vezes publicados originalmente na internet e assinados por pseudônimos. Fóruns, páginas pessoais e plataformas de ficção permitiam que autores escrevessem para comunidades que já conheciam os códigos do gênero e, mais importante, respondiam a eles imediatamente. O leitor comentava, recomendava, acompanhava capítulos, elegia personagens favoritos e ajudava a dar visibilidade a determinadas histórias.
Essa literatura acabaria fornecendo uma parte considerável da matéria-prima do BL televisivo tailandês. A relação seria tão estreita que, durante muitos anos, compreender determinada série exigiria saber que antes dela havia existido uma novel, um público e, às vezes, um universo de personagens que já possuíam admiradores antes mesmo de qualquer ator ser escolhido para interpretá-los.
A futura indústria audiovisual encontraria aí algo extremamente valioso: histórias já testadas diante de um público, também encontraria comunidades.
O desenvolvimento das redes sociais, dos fóruns e das comunidades online modificou profundamente a circulação dessas obras. Os fãs deixaram de depender exclusivamente das estruturas tradicionais de distribuição. Fotografias, trechos de programas, entrevistas, traduções, legendas produzidas por voluntários e informações sobre atores podiam atravessar fronteiras numa velocidade até então incomum. Aos poucos, formava-se um público cuja existência não obedecia exatamente às fronteiras do mercado televisivo tailandês.
Essa capacidade de circulação seria decisiva alguns anos depois. Antes que produtoras aprendessem plenamente a vender BL para espectadores estrangeiros, os próprios espectadores já haviam começado a encontrá-lo.
Muito embora todas essas expressões já existissem, foi The Love of Siam (2007), dirigido por Chookiat Sakveerakul, que produziu um dos momentos mais singulares dessa pré-história.
O filme chegou aos cinemas apresentado como um drama adolescente e familiar de forte carga emocional. A descrição era verdadeira, embora convenientemente incompleta. O material promocional mostrava dois rapazes e duas garotas, sugerindo ao público uma configuração relativamente familiar. Quando o longa estreou, porém, a história protagonizada por Mario Maurer e Witwisit “Pchy” Hiranyawongkul revelou uma dimensão que parte considerável dos espectadores não esperava encontrar.
No decorrer de suas quase três horas, a amizade entre Tong e Mew adquire outra natureza. O afeto cresce lentamente até se tornar impossível de reduzir à amizade, e um beijo relativamente inocente, justamente por sua simplicidade, adquiriu enorme força. A surpresa não estava apenas no gesto, mas no lugar que ele ocupava: dois rapazes se beijavam dentro de um grande drama familiar exibido comercialmente para um público amplo.
A história ganhava ainda mais peso pela presença dos veteranos Sinjai Plengpanich e Songsit Rungnopakunsi, nomes que continuariam aparecendo na televisão e no cinema tailandeses ao longo de todo o período abordado neste estudo. O drama familiar não funcionava como pano de fundo decorativo. A família de Tong já havia sido profundamente ferida pelo desaparecimento de uma filha; a mãe tentava manter unida uma casa marcada pela perda, enquanto o pai se refugiava no álcool. Nesse ambiente, a descoberta da relação entre Tong e Mew é recebida como a possibilidade de uma nova ruptura.
O romance nunca ocupa sozinho o centro do filme, mas altera praticamente tudo ao seu redor.
A doçura da descoberta entre os dois, acompanhada por uma trilha sonora que se tornaria inseparável da memória da obra, convive com a percepção de que o amor possui consequências que os personagens ainda não sabem administrar. O desfecho conserva algo da melancolia tão comum às narrativas queer daquele período, mas há nele uma diferença importante. A relação não é apresentada como monstruosa, ridícula ou moralmente condenável. O sofrimento nasce das pessoas, das circunstâncias e dos limites daquele mundo.
Parte do público chegou às salas sem saber que encontraria uma relação amorosa entre dois rapazes. De repente, uma história dessa natureza estava sendo exibida comercialmente pelo país, protagonizada por jovens atores e cercada por uma campanha que não havia feito daquela relação seu principal argumento de venda. A reação foi intensa. Houve surpresa, críticas e desconforto, mas também uma recepção muito calorosa pela delicadeza com que a história tratava seus personagens.
A carreira de Mario Maurer cresceu extraordinariamente nos anos seguintes. Ele se tornaria uma das figuras mais reconhecidas da indústria tailandesa, trabalhando em produções de enorme sucesso e conquistando seguidores muito além da Tailândia. Seria exagero atribuir essa trajetória ao romance apresentado em The Love of Siam, mas existe uma observação histórica importante no simples fato de que aquela participação não inviabilizou sua carreira. Um ator jovem pôde interpretar um personagem envolvido romanticamente com outro rapaz e, depois disso, tornar-se uma das grandes estrelas de sua geração.
Quase duas décadas depois, a permanência cultural da obra continuaria perceptível. Em 2025, o anúncio de uma adaptação comemorativa para o teatro, tendo Gemini Norawit e Fourth Nattawat, dois nomes fortemente associados à geração contemporânea do BL tailandês, como protagonistas, produziu uma espécie de encontro entre épocas. Uma história que antecedera a formação da indústria passava a ser revisitada por atores formados justamente dentro do universo que surgiria depois dela.
Entre esses dois momentos, outra produção ajudaria a preparar o terreno televisivo.
Hormones: The Series (2013), produzida no ambiente de GTH e Nadao Bangkok e associada criativamente a Songyos Sugmakanan, não era uma série BL. Sua importância reside justamente em não precisar sê-lo.
Organizada como um drama coral sobre adolescentes, Hormones tratava sexo, desejo, gravidez, conflitos familiares, drogas, violência, amizade e identidade com uma franqueza que se afastava de representações mais higienizadas da juventude. Entre seus muitos personagens, a relação entre Phu e Thee introduzia o desejo entre rapazes como parte daquele mesmo universo de descobertas, contradições e impulsos que envolvia todos os demais.
Isso representava uma mudança significativa de perspectiva. Personagens atraídos por pessoas do mesmo sexo não precisavam existir exclusivamente dentro de uma narrativa cuja razão de ser fosse explicar sua diferença. Podiam ocupar a mesma escola, cometer os mesmos erros, confundir sentimentos, magoar outras pessoas e participar do caos adolescente compartilhado pelo restante do elenco.
Também havia uma transformação industrial. Hormones ajudou a demonstrar a força de séries juvenis produzidas com uma linguagem mais contemporânea, acompanhadas intensamente nas redes e sustentadas por elencos jovens que podiam adquirir grande visibilidade. Muitos elementos que se tornariam familiares nos BLs seguintes já estavam ali em outra configuração: escola, atores adolescentes, música, fandom, intimidade entre personagem e espectador e circulação digital.
O terreno estava mudando.
Sete anos depois de The Love of Siam, mais precisamente no início de 2014, dois longas já apresentavam uma atmosfera que posteriormente seria reconhecida como familiar ao BL tailandês.
Love’s Coming (2014) aposta numa história leve e despretensiosa. Protagonizado por Pak Papungkorn Sakunsong e Mild Suttinut, acompanha um estudante que se apaixona pelo vizinho e acaba se tornando seu professor particular. A aproximação se constrói lentamente, por meio da gentileza, da curiosidade e da convivência, enquanto os amigos ao redor tentam compreender o que está acontecendo, ou simplesmente transformam tudo em mais uma confusão juvenil.
Entre eles aparece também Chanon “Nonkul” Santinatornkul, que anos depois se tornaria um dos nomes mais reconhecidos do drama tailandês.
A importância de Love’s Coming talvez esteja justamente na ausência de grandiosidade. A obra não parece interessada em anunciar uma ruptura histórica. É uma comédia romântica colegial, pequena, simpática e relativamente tranquila. Dois rapazes podem simplesmente aproximar-se porque gostam da companhia um do outro. O drama existe, como exige o gênero, mas a relação já pode ser experimentada dentro de uma linguagem muito próxima da comédia romântica juvenil convencional.
Essa aparente banalidade possui valor histórico: quando uma relação entre rapazes pode ser banal, pode também começar a tornar-se gênero. Nem tudo precisa ser revolucionário e, aqui, a comédia romântica funciona na sua proposta: é apenas um romance.
A história ainda ganharia continuações, sinal de que aqueles personagens e aquela forma de romance encontraram público suficiente para sobreviver ao primeiro filme.
No mesmo período, My Bromance (2014) escolheu o caminho oposto e mergulhou abertamente no melodrama.
Quando o pai de Golf, interpretado por Fluke Teerapat Lohanan, se casa novamente e Bank, vivido por Fluke Pongsatorn Sripinta (ou, melhor, Fluke Natouch Siripongthon, após ter mudado de nome oficialmente), passa a morar com a nova família, uma guerra doméstica parece inevitável. Os dois jovens se rejeitam, entram em conflito e transformam a nova configuração familiar num território hostil. Aos poucos, entretanto, as brigas dão lugar a gestos de cuidado; a hostilidade se converte em cumplicidade e, finalmente, em um sentimento que nenhum dos dois consegue reduzir à relação de irmãos imposta pelo casamento de seus pais.
O namoro que assumem rapidamente encontra resistência. A família intervém, os dois são separados e a narrativa recupera aquela tradição melodramática em que o amor entre homens precisa enfrentar um mundo disposto a puni-lo. O desfecho reafirma a tragédia, ainda muito presente nesse período, embora o investimento afetivo da obra já pertença a uma sensibilidade que se aproximava do futuro BL.
A produção também teria uma sobrevida curiosa. O esforço de Fluke Teerapat para manter aquele universo vivo o levaria posteriormente a participar de sua continuidade como diretor e roteirista. A história seria revisitada anos depois, mostrando novamente uma característica que se tornaria frequente: certas obras aparentemente pequenas recusam-se a desaparecer porque seus atores, criadores ou fãs continuam carregando-as consigo.
Enquanto filmes como Love’s Coming e My Bromance experimentavam diferentes possibilidades para o romance entre rapazes, a literatura Y continuava crescendo quase silenciosamente ao lado da televisão.
Esse processo é fundamental para compreender aquilo que viria em seguida.
Grande parte das histórias que definiria os primeiros anos do BL tailandês não nasceu numa sala de roteiristas. Nasceu em romances publicados sob pseudônimos, muitas vezes diante de leitores que acompanhavam os capítulos à medida que eram escritos. A distância entre autor e público era pequena; comentários, recomendações e discussões faziam parte da própria experiência de leitura.
O pseudônimo, nesse universo, não era apenas uma máscara. Em muitos casos tornava-se uma identidade reconhecível dentro da comunidade. Autores construíam públicos próprios, universos narrativos e personagens que podiam circular durante anos antes de chegar às telas. Quando uma produtora adquiria os direitos de determinada obra, portanto, não comprava apenas uma história. Herdava expectativas, interpretações, preferências por determinados personagens e uma comunidade que já possuía alguma relação emocional com aquele material.
A adaptação audiovisual começava antes da câmera.
Ao mesmo tempo, elementos herdados do yaoi japonês eram progressivamente reconfigurados pela experiência tailandesa. Certos modelos de casal, idealizações românticas e assimetrias de personalidade permaneciam reconhecíveis, mas passavam a conviver com particularidades locais: escolas exclusivamente masculinas, universidades, clubes, famílias, hierarquias entre veteranos e calouros, códigos de amizade masculina e uma cultura juvenil profundamente ligada à música e às redes sociais.
A Tailândia começava a fazer uma coisa que se repetiria ao longo de toda essa história: receber uma forma estrangeira e transformá-la até que sua versão local adquirisse vida própria.
As comunidades online aceleraram esse processo.
Fãs compartilhavam fotografias, cenas, traduções, entrevistas e informações sobre atores. Formavam grupos, discutiam personagens, acompanhavam eventos e divulgavam produções que muitas vezes possuíam pouca ou nenhuma distribuição internacional oficial. A legendagem feita por fãs desempenhou um papel especialmente importante na travessia das fronteiras linguísticas. Antes de plataformas globais oferecerem legendas simultâneas em diversos idiomas, alguém precisava assistir, traduzir, sincronizar e publicar.
Essa circulação informal ajudou a construir um público internacional antes que boa parte da indústria soubesse exatamente o que fazer com ele.
No interior da Tailândia, o crescimento das redes sociais produzia outro fenômeno. O interesse por uma obra podia continuar depois do episódio ou do filme. Atores eram acompanhados fora dos personagens, fotografias de eventos circulavam, amizades entre integrantes do elenco eram interpretadas e determinados pares começavam a adquirir uma vida promocional própria. Ainda faltava algum tempo para que esse sistema fosse plenamente organizado, mas seus fundamentos já estavam presentes.
No início de 2014, portanto, os componentes necessários encontravam-se espalhados pelo cenário cultural tailandês.
Havia uma tradição anterior de representação queer. Havia o legado e a influência do yaoi. Havia literatura Y produzindo histórias e públicos. Havia televisão juvenil capaz de tratar sexualidade de maneira mais aberta. Havia atores jovens preparados para se tornarem rostos reconhecíveis. Havia redes sociais capazes de prolongar uma narrativa para além da tela. Havia fãs dispostos a traduzir, divulgar e acompanhar obras mesmo quando a distribuição oficial não chegava até eles.
Faltava ainda uma produção capaz de reunir muitas dessas forças num mesmo lugar e provar que aquela combinação poderia sustentar uma série inteira.
Em 2014, ela apareceu.
Chamava-se Love Sick: The Series.

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