Fase II — Um mundo ao redor do ship: um gênero que se consolida (2018)
Se 2017 demonstrou que o ship podia adquirir uma biografia independente da série que o originara, 2018 revela o passo seguinte: ao redor desse casal começa a formar-se uma estrutura econômica, promocional e afetiva cada vez mais complexa.
A série continua sendo o ponto de partida, mas já não constitui sozinha o produto. Há a novel que fornece personagens e leitores prévios; a produtora que transforma aquele material em audiovisual; a agência e os managers que administram a carreira dos atores; plataformas como a LINE TV ampliando a circulação; OSTs, publicidade, fanmeetings, eventos internacionais, redes sociais, produtos licenciados e um fandom capaz de acompanhar praticamente tudo em tempo real.
O público já não espera simplesmente pelo próximo episódio. Acompanha workshops, anúncios de elenco, fotografias promocionais, bastidores, entrevistas, apresentações, compromissos publicitários e futuros projetos dos intérpretes. As empresas, por sua vez, começam a compreender que um ator popular dentro do BL pode vender muito mais do que uma série.
Essa é a chave desta fase. Em 2017, o casal se consolidara como unidade. Em 2018, um mundo começa a organizar-se ao redor dele.
Uma vez estabelecidos o colégio e, principalmente, a universidade como espaços privilegiados das primeiras histórias, algumas produções ensaiam uma saída desses ambientes. What the Duck: The Series (2018) é um exemplo dessa expansão.
Produzida pela Jinloe Media Work, empresa que posteriormente ficaria associada a projetos frequentemente inclinados à experimentação e à provocação, a série transfere parte da ação para o universo da aviação e do trabalho aeroportuário. Entram em cena preocupações ligadas à profissão, ao início da vida adulta e à tentativa de equilibrar responsabilidades pessoais e relacionamentos.
A narrativa acompanha jovens ligados a esse ambiente, entre eles Pop, interpretado por Puwanai Sangwan, conhecido naquele período como Oreo, que precisa reorganizar seus planos profissionais e afetivos. Ao seu redor surgem relações masculinas de naturezas diferentes, algumas mais próximas do romance convencional, outras atravessadas por desejo, conflito e instabilidade.
Os personagens já não estão confinados às salas de aula ou ao curso de engenharia. Trabalho, ambição profissional e vida adulta ganham espaço, ainda que a narrativa preserve diversos códigos afetivos que o público BL já reconhecia.
A série também participa da crescente erotização do gênero, especialmente por meio dos personagens interpretados por Mew Suppasit e Art Pakpoom. O corpo masculino começa a ocupar posição mais evidente tanto na narrativa quanto na construção promocional das duplas, movimento que havia adquirido força com MaxTul e que se tornaria cada vez mais frequente.
A trajetória pública de Mew e Art também expôs um dos riscos inerentes à crescente sobreposição entre fanservice, vida particular e expectativa do fandom. A dupla mantinha uma base de fãs expressiva e prolongava sua presença para além da série por meio de conteúdos conjuntos, entre eles o canal MyTravel, dedicado a viagens, passeios e momentos da rotina profissional de ambos. Quando conflitos pessoais e profissionais entre os atores vieram a público, a ruptura foi acompanhada quase como se pertencesse à narrativa que os havia unido.
A relevância desse episódio já se mostra clara: quanto mais um ship depende da impressão de intimidade entre os intérpretes, mais difícil se torna para parte do público distinguir aquilo que pertence ao trabalho daquilo que pertence à vida particular.
O percurso de Mew Suppasit dentro dessa produção também merece atenção porque, pouco depois, ele reapareceria numa das obras centrais de 2019, TharnType: The Series, agora inserido em outra dupla e numa máquina promocional muito mais intensa.
Em What the Duck, Mew e Art já demonstravam outra recorrência do período: personagens secundários podiam rapidamente disputar espaço com os protagonistas. O mesmo mecanismo apareceria de maneira ainda mais clara em Kiss Me Again (2018).
A série reúne diferentes histórias românticas derivadas de um mesmo universo literário. Dentro delas estão Pete e Kao, interpretados por Tay Tawan e New Thitipoom, este último já conhecido de produções anteriores como Water Boyy: The Series. Marcada por provocações, ciúmes e atração crescente, a relação entre Pete e Kao rapidamente adquiriu peso próprio.
Tay e New já haviam aparecido brevemente como os mesmos personagens em Kiss: The Series. Mesmo com espaço reduzido, a dupla despertou interesse suficiente para que Kiss Me Again ampliasse consideravelmente seu desenvolvimento. O fenômeno revela algo importante: o público começa a conseguir recortar simbolicamente um casal de dentro da obra que o contém.
Compilações e versões concentradas especificamente no arco de Pete e Kao facilitariam posteriormente o consumo de sua história quase como uma narrativa independente. A indústria percebe a demanda e responde a ela. TayNew se consolida como uma dupla recorrente da GMMTV, preparando o caminho para Dark Blue Kiss e para uma permanência promocional muito maior do que aquela primeira aparição poderia sugerir.
Enquanto a indústria cresce, ela também testa, acerta, economiza e erra. Nem todas as produções recebem o mesmo investimento, e ’Cause You’re My Boy / My Tee (2018) é particularmente útil para observar essa desigualdade.
A série possui um acabamento mais irregular do que várias produções posteriores da GMMTV. Sua linguagem visual, seu ritmo e mesmo algumas escolhas narrativas revelam uma indústria ainda amadurecendo tecnicamente. Retrospectivamente, essa irregularidade torna-se parte de seu valor documental.
A história acompanha Mork e Tee, interpretados por Drake Sattabut e Frank Thanatsaran, jovens vindos de realidades familiares e econômicas diferentes e ligados por uma relação anterior marcada por conflitos. A convivência e as circunstâncias familiares fazem com que se aproximem novamente, enquanto outros personagens ao redor constroem vínculos próprios.
Existe ali uma dimensão social particularmente interessante. Barbearia, família, dinheiro, vizinhança e cotidiano aparecem de maneira mais concreta do que em muitos BLs universitários daquele período. A intimidade não nasce apenas de clubes, dormitórios ou corredores de faculdade. Nasce também dentro de casas apertadas, preocupações econômicas e responsabilidades familiares.
O elenco se revelaria historicamente precioso. Drake e Frank formariam outra dupla reconhecida dentro da companhia, enquanto Gord e Morn, interpretados por Neo Trai e Phuwin Tangsakyuen, seguiriam trajetórias bastante diferentes até se tornarem nomes recorrentes em fases posteriores da indústria.
Mais uma vez, uma série funcionava como lugar de formação de repertório.
Essa capacidade de lançar ou consolidar nomes se tornaria uma das forças mais importantes do período. E nenhuma produção de 2018 demonstra tão bem a união entre atores, fandom, literatura, música, produtoras e universo compartilhado quanto Love by Chance.
Produzida pelo Studio Wabi Sabi e dirigida por New Siwaj Sawatmaneekul, a série adapta uma obra de MAME, autora que se tornaria uma das figuras mais influentes da literatura Y e de sua adaptação televisiva.
A produção atravessou dificuldades antes da estreia, incluindo questões relacionadas à distribuição e à utilização de músicas, circunstâncias que contribuíram para adiar o lançamento enquanto o público já acompanhava informações, fotografias e rumores sobre o projeto. O próprio atraso é significativo: antes mesmo do primeiro episódio, a série já possuía espectadores esperando por ela.
O Studio Wabi Sabi merece começar a ser observado aqui como agente histórico próprio. Fundado por New Siwaj, o estúdio se tornaria profundamente associado ao desenvolvimento do BL tailandês, sobretudo a histórias juvenis, adaptações de novels e melodramas interessados em memória, descoberta e vínculos afetivos intensos. New também continuaria circulando para além da própria empresa, dirigindo e colaborando em projetos de outras produtoras, inclusive da GMMTV. Sua carreira permite acompanhar uma característica importante dessa indústria: diretores, roteiristas e técnicos transitam entre empresas com muito mais liberdade do que a permanência dos ships às vezes faz imaginar.
Em Love by Chance, acompanhamos Ae e Pete, interpretados por Perth Tanapon e Saint Suppapong, estudantes pertencentes a mundos sociais bastante distintos. Ae chega à universidade como bolsista esportivo ligado ao curso de engenharia; Pete estuda num programa internacional e vem de uma realidade economicamente mais privilegiada.
Os dois se conhecem depois de um pequeno acidente. Pete encontra em Ae uma presença inesperadamente protetora, enquanto Ae começa a experimentar sentimentos que não sabe imediatamente como nomear. Pete já compreende sua atração por homens, mas carrega inseguranças produzidas por experiências anteriores. Essa diferença permite à série construir o romance a partir de duas formas distintas de descoberta: um personagem precisa recuperar confiança, o outro precisa compreender o próprio desejo.
Ao redor deles, outras relações crescem. Tin e Can, interpretados por Mean Phiravich e Plan Rathavit, combinam antagonismo, diferença social e atração, conquistando rapidamente um fandom próprio. Outros pares ampliam ainda mais o universo, transformando a série numa pequena constelação de relações capazes de mobilizar públicos diferentes.
Love by Chance é uma das obras indispensáveis para compreender a passagem de práticas ainda dispersas para um ecossistema BL reconhecível.
AePete funciona como centro emocional, mas a produção não depende exclusivamente deles. O mecanismo de múltiplos ships que 2 Moons já havia explorado torna-se aqui ainda mais eficiente. O espectador pode chegar por Ae e Pete, permanecer por Tin e Can, interessar-se pelos atores, procurar a novel, acompanhar o diretor, reconhecer a música e descobrir que outros personagens pertencem a um universo ficcional muito maior.
A série também contém contradições que não podem ser ignoradas.
Ae e Pete apresentam, em muitos momentos, uma relação construída em torno de proteção, confiança e descoberta gradual. Outros núcleos lidam com desejo e consentimento de maneiras muito diferentes, incluindo situações que seriam questionadas com intensidade crescente nos anos seguintes.
A expansão industrial, portanto, não corresponde a uma linha contínua de amadurecimento ético.
A indústria aprende rapidamente a representar e comercializar o desejo. A reflexão sobre os limites dessa representação se desenvolve de maneira muito mais irregular.
PerthSaint adquire enorme força promocional. MeanPlan também. Personagens inicialmente secundários mostram capacidade para gerar continuações, eventos e novas oportunidades profissionais.
A produção demonstra que o espectador pode entrar por um casal e permanecer por todo um universo.
E é justamente nesse ponto que MAME adquire importância histórica.
A autora como arquiteta de mundos
Até aqui, nossa narrativa havia acompanhado principalmente séries, produtoras, diretores, atores e fandoms. Em 2018, torna-se necessário acrescentar outra figura ao sistema: o autor da novel como proprietário e arquiteto de universos.
MAME não fornece apenas uma história a ser adaptada. Seus romances estabelecem relações entre personagens, famílias, amigos e círculos sociais que permitem que uma obra reconheça a existência de outra. Personagens podem atravessar histórias diferentes; figuras secundárias podem posteriormente receber narrativas próprias; espectadores que entram por uma adaptação descobrem todo um conjunto de novels já conectado. A literatura deixa de ser apenas fonte e transforma-se em franquia.
Esse modelo permitiria a adaptação posterior de outras obras relacionadas ao mesmo universo e contribuiria para consolidar uma das formas mais eficientes de expansão da indústria: o fandom deixa de acompanhar apenas uma série e passa a reconhecer um mundo.
Uma memória feita de música
Love by Chance também permite retomar outro eixo que atravessa essa história desde Love Sick: a música.
Boy Sompob volta a ocupar posição importante na identidade sonora da produção. A utilização de uma música já fortemente associada a Love Sick dentro de momentos da nova série produz um efeito que vai além da trilha sonora. Para espectadores que haviam acompanhado aquela primeira geração, a canção carregava consigo uma memória anterior. A música começava a criar pontes entre épocas.
Boy Sompob, cantor, compositor e produtor, já não funcionava apenas como intérprete de uma faixa popular. Sua voz começava a ligar obras diferentes dentro da memória do público, adquirindo uma identidade quase inseparável daquela primeira geração do BL.
Esse fenômeno prepara outra transformação.
Durante os anos seguintes, os próprios protagonistas passarão a interpretar cada vez mais as músicas associadas às suas séries. OST e identidade do ship começam a se aproximar até que cantar, atuar, participar de eventos e representar marcas passem a compor partes diferentes de uma mesma carreira. Três movimentos começam, portanto, a coexistir.
Cantores fortemente associados ao gênero, como Boy Sompob, constroem uma memória sonora transversal às séries. As músicas passam a ser reutilizadas em fanmeetings e apresentações, funcionando como extensão promocional das obras. Paralelamente, ganha força o modelo no qual o próprio ator interpreta a canção de sua produção.
Anos depois, artistas como Bright Vachirawit, Jeff Satur, Gemini Norawit e Fourth Nattawat representarão estágios diferentes dessa convergência entre ator, cantor, performer e embaixador de marcas. Em 2018, seus fundamentos já estavam sendo construídos.
A popularidade de Perth e Saint revela ainda outra camada do ecossistema: agências, managers e equipes de gerenciamento passam a interferir diretamente na vida comercial do ship.
As tensões que posteriormente afetariam a promoção conjunta dos dois, contribuindo para que Saint não retornasse à continuação da mesma maneira que parte do elenco original, precisam ser reconstruídas cuidadosamente a partir de fontes. Seu significado estrutural, entretanto, é evidente. O casal já não pertence apenas a dois atores e ao público.
Existem contratos, empresários, produtoras, canais, compromissos comerciais e interesses que podem convergir ou entrar em conflito. Administrar um ship passa a ser quase tão importante quanto criá-lo.
Essa força do casal como propriedade cultural encontra uma de suas expressões mais curiosas em Our Skyy (2018).
Produzida pela GMMTV como antologia, a série escolhe um caminho simples e, ao mesmo tempo, extraordinariamente revelador. Em vez de criar novos personagens, retorna a casais já conhecidos e oferece a cada um uma pequena continuação ou história especial.
Voltam Pick e Rome, In e Sun, Mork e Tee, Pete e Kao, Arthit e Kongpob. Com eles retornam OffGun, PluemChimon, DrakeFrank, TayNew e KristSingto.
A pergunta industrial parece quase explícita: qual é a verdadeira unidade do produto?A série original? Os personagens? Ou o casal que o público deseja rever?
Our Skyy responde com pouca cerimônia: o casal já basta.
Uma temporada inteira de SOTUS deixa de ser necessária para devolver Arthit e Kongpob ao público. Toda a estrutura de Puppy Honey pode ficar de fora para que Pick e Rome reapareçam. O contexto original pode ser reduzido porque o fandom carrega consigo a memória necessária.
A dupla permanece. Isso representa algo próximo de uma canonização industrial dos ships.
A GMMTV começa a administrar não apenas títulos, mas um verdadeiro portfólio de pares reconhecíveis. KristSingto, OffGun, TayNew, DrakeFrank e outras combinações passam a funcionar como linhas paralelas dentro da empresa, cada uma acompanhada por públicos que podem cruzar-se, competir, coexistir e transferir interesse entre diferentes produções.
Há ainda uma antecipação curiosa do que se tornará central muito mais tarde. Our Skyy já comercializa nostalgia poucos anos depois das obras originais. O BL começa a perceber que possui passado.
É ainda uma memória curta, quase recente demais para receber esse nome. Mesmo assim, já pode ser transformada em produto.
Enquanto Our Skyy explora a permanência afetiva dos casais, Together With Me: The Next Chapter (2018) enfrenta um problema narrativo diferente: depois que duas pessoas finalmente ficam juntas, de onde vem a história?
A TV Thunder escolhe uma resposta muito mais áspera do que aquela adotada por SOTUS S.
Max Nattapol e Tul Pakorn retornam como Korn e Knock, agora vivendo uma relação estabelecida e submetidos a pressões familiares, profissionais e afetivas próprias da vida adulta. Trabalho, compromisso, expectativas e infidelidade substituem boa parte da tensão provocada anteriormente pela descoberta amorosa.
A temporada experimenta algo ainda relativamente raro naquele momento: o BL depois do “felizes para sempre”. E encontra imediatamente um problema que perseguiria inúmeras continuações.
Produzir conflito suficiente para justificar outra temporada pode exigir ameaçar justamente aquilo que fez o público desejar reencontrar o casal. Se a primeira história foi construída em torno da expectativa da união, a continuação precisa criar perigo sem fazer a própria união parecer inútil. Independentemente da recepção à narrativa, MaxTul já possuía força suficiente para sustentar o produto. Esse dado é, por si só, revelador.
O espectador não retornava somente para descobrir o destino de Korn e Knock, retornava para reencontrar Max e Tul. O ship já funcionava como instituição.
A expansão do mercado permitia também experiências menores. My Dream: The Series (2018) combina romance juvenil e fantasia, construindo parte de sua relação dentro de sonhos e espaços que escapam ao cotidiano. Seu peso histórico é menor, mas sua existência ajuda a mostrar uma diversificação progressiva.
O BL começava a experimentar o fantástico de maneira mais direta. Ainda estávamos longe da profusão de fantasmas, reencarnações, universos paralelos, viagens temporais e mitologias que apareceria posteriormente, mas a possibilidade já estava colocada.
A universidade não precisava ser o único mundo disponível. Algumas obras começavam a procurar outros.
No campo das experiências limítrofes encontra-se também Friend Zone (2018), dirigida por Jojo Tichakorn Phukhaotong.
Grande parte do BL produzido até aquele momento preservava, mesmo diante de conflitos, uma certa idealização da relação amorosa. O casal podia sofrer, hesitar ou cometer erros, mas geralmente permanecia envolvido por uma expectativa romântica bastante nítida. Friend Zone prefere a sujeira.
A série acompanha um grupo de amigos atravessando desejo, infidelidade, insegurança, sexo, amizade e ressentimento. Entre relações heterossexuais e queer, Earth e Sam, interpretados por Singto Prachaya e Nat Sakdatorn, vivem um relacionamento adulto que se afasta da pureza romântica de boa parte dos BLs contemporâneos. A obra é particularmente importante porque não cabe confortavelmente na categoria.
Sua sexualidade aparece inserida num universo de relações imperfeitas, no qual personagens gays e heterossexuais podem ser egoístas, cruéis, covardes ou contraditórios sem que a narrativa precise preservar sua imagem como metade de um casal comercialmente ideal.
O romance não precisa produzir ship. O sexo não precisa confirmar fantasia romântica. Os personagens podem errar sem que cada gesto precise proteger uma campanha publicitária futura.
Essa liberdade transforma Friend Zone num excelente contraponto para pensar aquilo que o BL ganha, mas também aquilo que pode perder, quando organiza sua economia afetiva em torno de pares promocionais.
Jojo Tichakorn começa aqui a adquirir particular importância dentro de nossa história. Sua obra frequentemente se interessa por sexualidade, desejo, relações imperfeitas, identidades LGBTQ+ e personagens cuja existência ultrapassa o molde romântico mais convencional. Ao longo dos anos seguintes, ele transitará entre produções mais próximas do BL e outras claramente ligadas ao drama queer, tornando-se uma figura útil para observar justamente as fronteiras que este estudo procura manter abertas.
A presença de Singto também produz outro problema fascinante. Ele já integrava um dos ships mais poderosos da GMM TV, mas aparece aqui ao lado de outro parceiro e dentro de outra tradição narrativa. Até onde um ator continua sendo percebido como indivíduo depois que o público aprende a enxergá-lo como metade de uma dupla? A pergunta se tornaria cada vez mais difícil de evitar.
As plataformas entram na história
A expansão de 2018 também exige que abandonemos uma história da televisão construída apenas ao redor de emissoras e produtoras.
A LINE TV tornou-se um agente decisivo para aquela geração do BL tailandês.
Sua presença permitia que produções destinadas a públicos relativamente específicos convivessem com modelos tradicionais de transmissão. O consumo sob demanda alterava a relação do espectador com horário, duração, reprises e disponibilidade dos episódios. Para um público jovem acostumado a acompanhar atores pelas redes sociais, a série já não precisava existir apenas no momento exato em que um canal decidia exibi-la.
A plataforma também ajudou a estreitar a relação entre televisão e internet, preparando um cenário em que distribuição digital deixaria progressivamente de ser complemento e passaria a determinar parte das próprias estratégias de produção.
Anos depois, o encerramento da LINE TV na Tailândia mostraria como uma plataforma pode desaparecer enquanto as obras que ajudou a distribuir permanecem na memória do fandom. Até esse desaparecimento fará parte da história industrial do BL.
Agências, managers e a fabricação da imagem
Nesse mesmo período, torna-se necessário acompanhar de maneira mais sistemática managers, agências e contratos. Nossa narrativa havia começado com uma relação relativamente simples: obra, ator, público.
Agora existe uma cadeia muito mais extensa: obra, autor, produtora, plataforma, agência, manager, ator, ship, patrocinador e fandom.
Cada elemento possui interesses próprios, e eles nem sempre coincidem.
O gerenciamento da imagem dos intérpretes passa a fazer parte do próprio produto. Características físicas, personalidade pública, estilo de vestir, música, atividades esportivas e até a forma como determinado ator se relaciona com cosméticos, alimentação ou moda podem ser incorporados a campanhas específicas.
Um intérprete conhecido por traços delicados e pele cuidadosamente apresentada pela produção pode tornar-se rosto de maquiagem ou produtos de beleza. Outro, associado a uma imagem atlética, pode ser direcionado a marcas esportivas. Um casal conhecido pela intimidade física pode ser vendido de maneira diferente de outro cuja promoção privilegia doçura ou humor.
A publicidade não apenas utiliza a fama do ator, ajuda a organizar sua personagem pública. Isso torna cada vez mais difícil separar completamente a ficção exibida na série da narrativa promocional construída ao redor dos intérpretes.
Quando uma obra se transforma em universo
Outra mudança de 2018 aparece na formação de universos compartilhados. MAME será central nesse processo, mas o fenômeno ultrapassa uma única autora.
Personagens, famílias, amigos e relações podem atravessar novels diferentes e, depois, adaptações diferentes. Esse sistema permite spin-offs, participações especiais, continuações e reconhecimento prévio de personagens antes mesmo que uma nova série comece.
O fandom também se torna transferível. Quem chega a determinado universo por um casal pode acompanhar outro porque já conhece os personagens, a autora ou as relações que conectam aquelas histórias.
O BL começa a adquirir algo que grandes franquias narrativas conhecem muito bem: continuidade de mundo. E isso será explorado intensamente nos anos seguintes.
Ao final de 2018, a indústria depende de uma rede incomparavelmente mais ampla do que aquela encontrada em Love Sick apenas quatro anos antes.
Love by Chance demonstra que novel, autora, produtora, múltiplos ships, música, agenciamento e fandom podem funcionar dentro de um mesmo sistema e produzir diferentes carreiras.
Kiss Me Again confirma que o público pode retirar simbolicamente um casal secundário de dentro de uma obra maior e exigir que ele continue vivendo.
Together With Me: The Next Chapter mostra que uma dupla consolidada possui força suficiente para sustentar novas temporadas mesmo depois de encerrada a tensão da conquista.
’Cause You’re My Boy funciona como viveiro de atores e registra uma GMMTV cada vez mais capaz de formar seu próprio repertório de rostos.
Friend Zone lembra que representação queer e BL continuam percorrendo caminhos paralelos, frequentemente próximos, mas jamais perfeitamente sobrepostos.
E Our Skyy talvez dê o passo industrial mais revelador de todos: a memória de um casal já possui valor suficiente para justificar um novo produto.
Em 2017, o casal aprendera a sobreviver à série. Em 2018, começamos a descobrir tudo aquilo que podia crescer ao redor dele.
Eventos, música, publicidade, novos trabalhos, universos narrativos, carreiras, plataformas, agências e conflitos empresariais passam a gravitar em torno das mesmas duplas. A série deixa de ser um objeto isolado e se transforma no centro de uma constelação.
Esse sucesso inevitavelmente produz outra pergunta: se a fórmula funciona tão bem, por quanto tempo poderá ser repetida antes de começar a revelar seus próprios limites?
É justamente esse problema que 2019 começará a enfrentar: nas bordas da primeira fórmula, o BL descobrirá que um sistema consolidado também pode se tornar estreito demais para tudo aquilo que agora deseja contar.

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