quarta-feira, 23 de setembro de 2026

História Crítica dos BLs Tailandeses III: ERA I — A descoberta da forma: da exceção ao gênero (2014–2016)


"Eu estava perdida na imensidão do vazio, 
incapaz de ver sequer as estrelas.
Até o dia em que você segurou minha mão, 
abrindo a porta para um novo mundo,
para uma terra distante que eu nunca tinha visto antes." 
(Shake, Boy Sompob)

Fase I: Os meninos de shorts azuis (2014–2015)

Love Sick: The Series (2014) é um daqueles títulos que, com o passar dos anos, adquirem algo próximo da condição de lenda. Sua lembrança como um dos grandes marcos do BL tailandês não se deve apenas ao romance entre dois rapazes, mas à maneira como reuniu, numa mesma obra, elementos que posteriormente se tornariam recorrentes a ponto de parecerem naturais ao gênero. Ainda em 2026, o ambiente colegial conserva enorme força e apelo, tanto afetivo quanto comercial: a intimidade construída pela convivência, a amizade que lentamente se transforma em romance, o conflito entre um desejo recém-descoberto e relacionamentos heterossexuais anteriores, o grande elenco juvenil, os casais secundários, a adaptação de material literário, a música como elemento de identificação emocional e a ligação intensa entre atores e personagens.

Vários desses componentes já existiam isoladamente em produções anteriores. O que torna Love Sick historicamente particular é a maneira como começam a convergir e a formar uma linguagem reconhecível. Nos anos seguintes, essa combinação seria repetida, refinada, ampliada e, por vezes, levada à exaustão, até constituir algo próximo de um repertório básico da primeira geração do BL tailandês.

Baseada no romance Love Sick: The Chaotic Lives of Blue Shorts Guys, publicado por INDRYTIMES, a série acompanha Noh e Phun, interpretados respectivamente por Captain Chonlathorn Kongyingyong e White Nawat Phumphothingam, estudantes de uma escola masculina e pertencentes a círculos sociais diferentes. Uma necessidade bastante prática leva Phun a propor que os dois finjam manter um relacionamento. Como costuma acontecer com namoros de mentira desde que a ficção descobriu esse artifício e se recusou sensatamente a abandoná-lo, a representação começa aos poucos a adquirir consequências verdadeiras.

A situação força Noh e Phun a uma convivência cada vez mais próxima, cercada por amigos, namoradas, colegas e um número de personagens suficientemente grande para transformar qualquer tentativa de discrição em desastre. Entre conversas interrompidas, ciúmes, aproximações e constrangimentos, ambos procuram compreender aquilo que começa a surgir entre eles antes mesmo de possuírem palavras suficientemente claras para defini-lo.

É nesse ponto que Love Sick representa uma mudança importante em relação a muitas produções anteriores. O personagem homossexual deixa de ocupar apenas um núcleo dentro de uma narrativa juvenil mais ampla; agora, a própria promessa da série repousa sobre o desejo do espectador de acompanhar o desenvolvimento de uma relação entre dois rapazes. O romance masculino já não precisa justificar sua presença por uma função social, por uma tragédia ou pela necessidade de explicar uma identidade. Pode sustentar a expectativa semanal de uma série.

E compreender o sentimento é apenas metade do problema. Depois é preciso descobrir o que fazer com ele, como vivê-lo diante dos outros e o que acontece quando duas pessoas que mal conseguem compreender a si mesmas passam a depender emocionalmente uma da outra. Essa matéria, apenas esboçada na primeira temporada, ganharia espaço muito maior na seguinte.

Vista hoje, Love Sick parece em diversos momentos artesanal quando comparada ao grau de profissionalização que o BL alcançaria poucos anos depois. A câmera, a montagem, o ritmo e até a atuação revelam uma produção ainda procurando sua própria linguagem. Em outros momentos, porém, a série surpreende pela maturidade com que permite que determinadas emoções simplesmente permaneçam em cena. Essa irregularidade faz parte de seu encanto histórico. A obra ainda não sabe quais de seus elementos se transformarão em convenção; justamente por isso, é quase possível assistir ao gênero descobrindo a si mesmo.

Algo semelhante acontece fora da tela.

A química pública entre White e Captain e a recepção que os dois encontraram entre os fãs já apresentam características embrionárias do que mais tarde se tornaria uma das práticas centrais da indústria. Os atores passam a aparecer juntos em eventos, campanhas e apresentações, às vezes utilizando elementos associados aos personagens, retomando diálogos ou participando de interações cuja graça dependia justamente da memória do relacionamento de Noh e Phun.

Ainda seria exagerado atribuir a eles a invenção do ship ou do fanservice. Essas práticas possuem genealogias mais amplas e anteriores. O que Love Sick oferece é um registro muito claro de um momento em que a relação entre os personagens começa a prolongar-se para a imagem pública dos intérpretes. O público não queria apenas rever Noh e Phun; queria também continuar vendo White e Captain juntos.

Essa passagem parece pequena, mas terá consequências enormes. Em poucos anos, a dupla de atores deixaria de ser apenas resultado do elenco de uma série para tornar-se, em certos casos, uma unidade promocional capaz de sobreviver aos próprios personagens.

A história do BL tailandês também pode ser contada pelas vozes que continuam reaparecendo ao longo dos anos. “Shake” (สั่น), tema intimamente associado a Love Sick, ganhou diferentes versões e se tornou uma das canções mais lembradas daquela primeira geração. Seu intérprete, Boy Sompob, acabaria ocupando uma posição singular na memória musical do gênero.

Nas temporadas seguintes da indústria, sua voz reaparece em numerosas produções e passa a ser reconhecida por fãs antes mesmo que os créditos confirmem o nome. Concertos e apresentações dedicados às trilhas dos BLs reuniriam posteriormente cantores e atores que, anos depois de encerradas suas séries, voltariam aos palcos para cantar as músicas ligadas àquelas histórias. A trilha sonora deixa, assim, de funcionar apenas como acompanhamento: torna-se também arquivo afetivo. Uma música é capaz de devolver ao público não apenas uma cena, mas uma época inteira.

Love Sick: The Series – Season 2 (2015) amplia consideravelmente o universo estabelecido pela primeira temporada. O crescimento é visível já na duração: de doze episódios, a série passa para trinta e seis, criando espaço para que histórias antes periféricas se desenvolvam e para que novos personagens estabeleçam relações próprias.

O universo se torna mais movimentado e, em alguns momentos, deliberadamente caótico. Personagens secundários recebem interesses amorosos, antigas relações ganham novas complicações e começam a aparecer configurações que se tornarão cada vez mais familiares nos anos seguintes: triângulos amorosos, ciúmes, relações entre veteranos e calouros, diferentes maneiras de descobrir ou rejeitar a própria sexualidade e, sobretudo, a tentativa de transformar uma relação afetiva em lugar de segurança num mundo em que quase todos ainda estão aprendendo como se relacionar.

A multiplicação das histórias também produz uma mudança estrutural. O espectador já não acompanha apenas Noh e Phun. Pode escolher outros personagens, outros conflitos e outros pares aos quais se apegar. A série começa a oferecer aquilo que posteriormente seria uma das características industriais mais eficientes do BL: um universo suficientemente amplo para permitir que diferentes parcelas do público encontrem dentro da mesma produção o relacionamento que mais lhes interessa. Infelizmente nem todos tiveram uma finalização que agradasse a maior parte do público, mas anos mais tarde isso seria um ponto importante: frequentemente o casal secundário não só é de grande importância para a trama como funciona como um termômetro da audiência, e não raramente um casal secundário ganha sua própria série se bem recebido.

Fora da ficção ocorre uma transformação talvez ainda mais importante.

Se a primeira temporada revelou a existência de um público, a segunda demonstrou sua permanência. O interesse não desapareceu junto com a novidade inicial. Ao contrário, expandiu-se para além dos episódios e passou a acompanhar atores, músicas, apresentações e eventos.

White e Captain consolidaram-se como dupla reconhecível, e encontros com fãs passaram a oferecer aquilo que progressivamente se tornaria parte essencial da experiência BL. O público queria ouvir histórias de bastidores, assistir aos atores cantando, vê-los brincando entre si e participar por algumas horas daquela zona indefinida em que os personagens já haviam terminado, mas alguma coisa de sua intimidade parecia continuar no palco.

O elenco secundário de Love Sick se tornaria, com o passar dos anos, uma espécie de mapa antecipado da própria indústria. Alguns atores permaneceriam diretamente ligados ao BL, outros migrariam para lakorns, música, cinema, moda ou televisão convencional; alguns formariam novos casais, outros voltariam anos depois em papéis completamente diferentes. Vista retrospectivamente, a série parece menos um conjunto de rostos juvenis e mais uma fotografia de uma geração antes que ela soubesse no que iria se tornar.

Captain e White ficaram, por muito tempo, no radar das produções. Ainda que White tenha se envolvido mais diretamente, Captain estava sempre por perto, inclusive musicalmente. Vários outros nomes se tornaram nossos conhecidos Ngern Anupart vai retornar anos depois, ao lado de Oat Tharathon, finalmente como um casal. August Vachiravit se torna nome mais ligado ao lakorn e então, anos depois, também retorna ao BL com força. Sing Harit é presença constante nos BLs, assim como Mild de Love's Coming. Outros como Min Thitipat, Gunsmile Chanagun, Toptap Jirakit, Bank Theewara e Gameplay Garnpaphon são exemplos de nomes que migrariam para produções diversas. Alguns se tornariam músicos, outros apresentadores, modelos ou protagonistas de lakorns. Alguns desapareceriam discretamente. Outros voltariam anos depois, já adultos, para encontrar uma indústria que eles mesmos haviam ajudado a inaugurar.

Os fanmeetings não nasceram com Love Sick, naturalmente, mas dentro da história do BL tailandês eles começam a adquirir uma função que merece atenção. A série terminava; a experiência do público, não. O vínculo podia prolongar-se em shows, eventos, fotografias, campanhas e aparições públicas, permitindo que a relação construída pela ficção adquirisse uma segunda existência, agora compartilhada entre atores e fandom.

A circulação da obra para além da Tailândia reforçou ainda mais esse processo. Comunidades estrangeiras encontraram a série por meios que nem sempre dependiam de distribuição oficial, e traduções, legendas e compartilhamentos realizados por fãs ajudaram a construir uma audiência que começava a perceber aquelas produções como parte de um universo próprio. O mercado internacional ainda estava longe da organização que alcançaria posteriormente, mas o caminho já começava a ser percorrido pelos próprios espectadores.

Por isso, Love Sick é muito mais do que uma ponte silenciosa entre 2014 e a expansão que viria depois. Durante duas temporadas, a série demonstrou que o interesse pelo romance entre rapazes podia sustentar não apenas uma narrativa, mas uma comunidade duradoura de espectadores; que personagens podiam gerar apego a seus intérpretes; que músicas podiam preservar a memória de uma história; e que a relação entre obra e público podia continuar muito depois do encerramento de um episódio.

Sem essa continuidade, 2016 talvez parecesse uma explosão repentina. Com ela, percebe-se que algo vinha sendo preparado durante dois anos.

A indústria ainda não possuía inteiramente a forma que assumiria depois, mas o público já estava ali.

E, mais de uma década depois, a vida caótica dos meninos de shorts azuis ainda ocupa um lugar reconhecível na memória do fandom BL.

Fase II: Quando o sentimento descobre uma linguagem (2016)

Em 2016, o BL tailandês começa a revelar algo que dois anos antes ainda aparecia de forma muito mais dispersa: uma linguagem própria, reconhecível, capaz de se repetir sem parecer mera cópia. A novidade já não estava apenas em colocar dois rapazes no centro de uma história romântica. Aos poucos, formava-se um conjunto de convenções que o público aprendia a identificar e que as produtoras começavam a explorar com maior segurança.

A escola e, sobretudo, a universidade passam a funcionar como ambientes privilegiados. Engenharia se transforma quase numa paisagem obrigatória, enquanto cursos de medicina ganhariam força nos anos seguintes. Esses espaços oferecem uma vantagem narrativa evidente: colocam jovens adultos em convivência contínua, criam hierarquias, grupos de amizade, rituais, competições e situações nas quais a intimidade pode surgir sem que a história precise inventar grandes justificativas.

A juventude dos protagonistas também favorece um tema que se tornará persistente: a descoberta. Descoberta do desejo, da própria sexualidade, do corpo, da diferença entre amizade e paixão, do medo da opinião alheia e da dificuldade de dar nome àquilo que se sente. Como muitas dessas produções nasceram de romances Y escritos por autores diferentes, a repetição das estruturas não significava necessariamente repetição de perspectiva. Cada obra podia reorganizar os mesmos elementos em torno de experiências emocionais distintas.

Também se fixa de maneira cada vez mais clara a relação entre casal principal e casais secundários. A série já não precisa depender de uma única história amorosa. Pode construir um pequeno sistema de relações paralelas, permitindo que diferentes espectadores se apeguem a diferentes pares.

Em sua maioria, essas narrativas ainda se passam em ambientes fortemente masculinos, enquanto a erotização cresce de maneira tímida, mas perceptível. Esse crescimento produz uma tensão que acompanhará a indústria por muitos anos. Grande parte do público era jovem, e o próprio mercado ainda demonstrava cautela diante da representação sexual entre homens. O resultado era uma curiosa duplicidade: por um lado, muitos espectadores valorizavam o foco afetivo e a construção lenta das relações; por outro, a quase ausência do corpo podia produzir a sensação de que uma dimensão fundamental da intimidade continuava sendo evitada.

Essa tensão entre afeto e desejo não desapareceria. Apenas mudaria de forma.

Ao mesmo tempo, o fanservice ganha importância crescente. A dupla formada na ficção começa a ser promovida fora dela, e o fandom passa a desempenhar papel decisivo na consolidação desse modelo. O romance deixa de terminar inteiramente quando os créditos sobem. Ele pode reaparecer em eventos, entrevistas, campanhas publicitárias, apresentações musicais e fotografias cuidadosamente produzidas para alimentar a continuidade emocional entre atores e espectadores.

Quatro produções ajudam a compreender 2016 por caminhos muito diferentes: Make It Right: The Series, SOTUS: The Series, Grey Rainbow e Bad Romance: The Series.

Cada uma revela uma possibilidade.

Make It Right: The Series (2016), produzida pela Copy A Bangkok e dirigida por New Siwaj Sawatmaneekul, é uma das obras que melhor traduzem a instabilidade emocional daquela primeira geração do BL.

New Siwaj se tornaria um nome recorrente na história do gênero, especialmente associado a produções juvenis e a obras que tratam a descoberta afetiva com forte inclinação melodramática. Em Make It Right, porém, essa assinatura ainda aparece envolvida por uma energia quase caótica.

Protagonizada por Peak Peemapol e Boom Krittapak, a série acompanha Fuse, adolescente que, após uma decepção amorosa, acaba se envolvendo com Tee, um amigo cuja presença começa a assumir um significado inesperado. A relação nasce num terreno incerto, equilibrando amizade, atração física, insegurança e sentimentos que nenhum dos dois compreende inteiramente.

O ambiente escolar reforça essa instabilidade. Tudo acontece perto demais dos outros. Amigos observam, comentam, interferem, riem e desconfiam. Há pouco espaço para silêncio e quase nenhum espaço para privacidade.

O elenco secundário amplia ainda mais essa sensação. Ohm Pawat, que posteriormente se tornaria um dos nomes mais recorrentes e reconhecidos da indústria, interpreta Frame. Toey Sittiwat vive Book, representante de turma mais contido e responsável. Os dois se encontram por meio de um aplicativo de relacionamento, formando uma combinação improvável entre o estudante aparentemente despreocupado e o colega que tenta controlar tudo ao redor.

A presença de Ohm torna-se particularmente interessante quando observada retrospectivamente. Make It Right é uma das primeiras etapas de uma carreira que atravessaria diferentes gerações do BL, enquanto outros integrantes do elenco seguiriam caminhos bastante distintos. Toey, por exemplo, afastou-se posteriormente desse circuito, mostrando desde cedo que a permanência no BL nunca seria obrigatória nem uniforme.

Se Love Sick conserva certa hesitação juvenil diante do desejo, Make It Right entra no terreno físico com muito menos cerimônia. Desde o primeiro episódio, o espectador entende que os protagonistas tiveram uma relação sexual. O mesmo ocorre com personagens secundários, e a narrativa chega a mencionar marcas, dores e pequenos cuidados corporais decorrentes desses encontros.

Essa disposição para falar do sexo representa uma expansão importante, mas também expõe um problema que acompanhará o gênero durante muitos anos. O BL amadurece comercialmente antes de desenvolver, com a mesma velocidade, uma linguagem consistente para lidar com consentimento, idade, pressão emocional e relações de poder.

Convém evitar qualquer julgamento retrospectivo simplista. O interesse histórico está justamente em observar como uma indústria jovem experimenta assuntos que ainda não domina por completo.

O sexo começa a aparecer.

A capacidade de pensá-lo ainda está em formação.

Essa tensão será ampliada de maneira muito mais intensa em 2017, 2018 e 2019.

Se Make It Right explora a insegurança adolescente e o desejo físico, SOTUS: The Series (2016) encontra sua força na estrutura.

Produzida pela GMMTV em associação com Felloww e baseada no romance de BitterSweet, a série reúne Krist Perawat e Singto Prachaya nos papéis de Arthit e Kongpob. Mais do que simplesmente oferecer outro casal popular, SOTUS ajuda a consolidar um modelo narrativo tão eficiente que suas marcas permaneceriam reconhecíveis durante anos.

A história se passa num curso de engenharia, onde a hierarquia entre veteranos e calouros organiza boa parte da vida estudantil. O chamado sistema SOTUS, sigla associada a valores como seniority, order, tradition, unity e spirit, estabelece rituais de recepção que frequentemente se aproximam da humilhação e da violência.

Kongpob chega à universidade disposto a questionar esse sistema. Arthit, veterano responsável pelos calouros, representa sua autoridade.

O conflito entre os dois começa publicamente. Kongpob desafia Arthit diante dos demais estudantes e chega a declarar, provocativamente, que poderia conquistá-lo se isso fosse necessário para completar as atividades e receber a engrenagem, símbolo do curso e objeto de enorme valor afetivo naquele universo.

A engrenagem merece atenção justamente porque ultrapassará a série. Elementos semelhantes reaparecerão em inúmeras produções universitárias posteriores, até se tornarem parte de uma iconografia quase imediatamente reconhecível pelo público BL.

O sistema de trotes também produz algo narrativamente muito eficiente: força os personagens a permanecerem próximos. A hierarquia cria antagonismo. O antagonismo cria observação. A observação produz intimidade.

A relação entre Arthit e Kongpob cresce a partir dessa estrutura. Pequenos momentos de vulnerabilidade começam a corroer a hostilidade inicial. Comer juntos, cuidar de uma lesão, reconhecer o esforço do outro ou simplesmente permanecer por alguns minutos num espaço sem plateia adquirem uma importância desproporcional. A lentidão se torna parte do prazer.

O espectador passa semanas esperando pequenas concessões emocionais. Um olhar mais demorado, um gesto de cuidado, uma mudança de tom, uma aproximação quase imperceptível passam a funcionar como acontecimentos. Esse mecanismo seria reproduzido incontáveis vezes.

Quando a confissão finalmente acontece, ela não surge como surpresa, mas como resultado de uma longa acumulação. Nesse sentido, SOTUS funciona como um manual involuntário de elementos que a indústria utilizaria repetidamente: universidade, engenharia, relação entre veterano e calouro, antagonismo inicial, proximidade forçada, descoberta gradual, confissão tardia e forte dependência emocional da química entre os protagonistas.

A importância da série, porém, ultrapassa a narrativa.

Com Krist e Singto, a dupla promocional começa a adquirir uma permanência comercial especialmente visível. Eventos se multiplicam, campanhas utilizam os dois atores em conjunto e produtos associados ao casal passam a circular com intensidade crescente. O público acompanha não apenas Arthit e Kongpob, mas Krist e Singto.

O ship KristSingto torna-se, assim, um dos exemplos mais claros da transformação da dupla de atores em ativo comercial. Essa mudança também ajuda a explicar a posição que a GMMTV assumiria posteriormente. A empresa já havia experimentado personagens e casais masculinos em produções anteriores, mas SOTUS demonstra com clareza extraordinária que o BL podia ser organizado como projeto de longo prazo, envolvendo séries, atores, eventos, publicidade e fandom.

Nos anos seguintes, a empresa levaria esse modelo a uma escala difícil de comparar com qualquer outra produtora do gênero.

Ainda em 2016, Grey Rainbow segue por uma direção quase oposta.

A minissérie acompanha Nuer e Porsche, interpretados por Nutchapon Rattanamongkol e Karn Kasidej Hongladaromp, dois jovens cuja relação se desenvolve lentamente em meio a inseguranças, expectativas familiares e questões que se aproximam mais diretamente da experiência LGBTQ+ do que da fantasia romântica que começava a se tornar dominante no BL industrial.

A construção é paciente, muitas vezes silenciosa. Há momentos em que os personagens parecem comunicar mais pelo desconforto, pela hesitação e pela permanência do que por declarações abertas. O vínculo entre os dois cresce de maneira gradual, atravessado por medos muito concretos.

Grey Rainbow também se destaca pela coragem de abordar questões que a indústria demoraria anos para retomar de forma recorrente. Entre elas está o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tratado num período em que essa possibilidade ainda parecia distante dentro da própria realidade jurídica tailandesa.

A presença do tema adquire, retrospectivamente, um peso particular. Anos depois, quando casamento, reconhecimento legal e vida conjugal começarem a aparecer com muito mais frequência nos BLs, Grey Rainbow poderá ser visto como uma obra que formulou certas perguntas antes que o gênero estivesse plenamente preparado para transformá-las em convenção.

Os próprios atores percorreriam uma trajetória curiosa. Depois de um período afastados do centro da indústria BL, Nutchapon e Karn voltariam a trabalhar juntos em Dear Doctor, I’m Coming for Soul (2022), reencontrando-se já dentro de um mercado muito mais desenvolvido do que aquele de 2016.

Esse retorno possui uma beleza histórica discreta. Os mesmos rostos atravessam dois momentos diferentes da indústria. Em um deles, participam de uma produção ainda próxima do melodrama queer. No outro, retornam quando fantasia, romance e BL já convivem dentro de uma estrutura industrial consolidada. Grey Rainbow é importante justamente porque impede que a história pareça simples demais.

Em 2016, ainda havia várias respostas possíveis para uma pergunta aparentemente básica: como contar uma história de amor entre dois homens? Make It Right responde com adolescência, desejo e insegurança. SOTUS responde com estrutura universitária, lentidão e hierarquia. Grey Rainbow se aproxima do melodrama queer, da família e da vida social. A história ainda não havia escolhido uma única estrada.

Fazendo jus ao nome da produtora, a TV Thunder lança naquele mesmo ano Bad Romance: The Series (2016), obra cuja importância histórica cresce consideravelmente quando observada a partir do que viria depois.

Entre seus personagens estão Korn e Knock, interpretados por Max Nattapol e Tul Pakorn. Eles não são, originalmente, a única razão de existência da série. São melhores amigos dos protagonistas. Esse detalhe é justamente o que torna o caso tão importante.

A recepção do casal foi forte o suficiente para transformar personagens secundários em um produto próprio. O público queria mais daqueles dois atores, mais daquela relação e mais daquele universo. A consequência seria Together With Me. A partir daí nasce aquilo que se tornaria conhecido como o fenômeno MaxTul.

A mudança é estrutural. Um casal pode ultrapassar os limites da série em que surgiu e migrar para outro produto. Personagens e intérpretes começam a adquirir valor comercial relativamente independente da obra que inicialmente os reuniu. Nesse caso, o fanservice também ganha outra dimensão.

Max e Tul continuariam aparecendo juntos muito depois do encerramento de suas primeiras produções, participando de eventos, campanhas, videoclipes e projetos promocionais. A relação pública da dupla adquire uma longevidade que ajuda a demonstrar como o BL começava a criar carreiras organizadas em torno de pares reconhecíveis. O casal deixa de ser apenas um recurso narrativo e começa a se tornar uma marca.

Outras produções de 2016 ajudam a completar esse cenário:

Senior Secret Love: Puppy Honey apresenta Pick e Rome, interpretados por Off Jumpol e Gun Atthaphan. A série não foi concebida originalmente para transformá-los no centro de sua narrativa, mas a recepção do casal modificou esse equilíbrio.

A segunda temporada concederia muito mais espaço aos dois. O público já conseguia alterar a hierarquia interna de uma franquia por meio da força de determinado par.

Off e Gun sobreviveriam amplamente à produção que os reuniu e se transformariam numa das duplas mais duradouras e comercialmente estáveis da GMMTV. Anos depois, eles protagonizariam obras muito mais ambiciosas, mantendo uma identidade conjunta capaz de atravessar diferentes fases da indústria.

Às vezes a série desaparece. O casal permanece. Em outros casos ocorre quase o contrário.

My Bromance: The Series (2016) transporta para a televisão o universo anteriormente apresentado no cinema. Com Cooper Patpasit e Guide Jirapirom, a adaptação ganha mais tempo para desenvolver a aproximação entre os personagens e utiliza uma estrutura temporal mais elaborada.

A separação já existe no presente.

A narrativa então retorna ao passado para mostrar como aquela relação se formou, enquanto o presente acompanha a tentativa de reconstruir algo que já parece perdido.

Esse tipo de organização demonstra que o BL começava a experimentar com formas narrativas um pouco mais complexas, abandonando ocasionalmente a simples progressão cronológica da descoberta amorosa.

Ao final de 2016, o cenário já é profundamente diferente daquele de 2014. Existe um público reconhecível. Existem romances Y prontos para adaptação. Existem atores promovidos como ships. Existem convenções narrativas que o espectador identifica quase imediatamente. Existem produtoras dispostas a investir, e muito. Existem ambientes recorrentes, músicas reconhecíveis, fandoms organizados, eventos, continuações e casais capazes de sobreviver às próprias séries.

A descoberta do público havia terminado. A fórmula já podia ser reconhecida. O passo seguinte seria aprender a administrá-la.

A partir de 2017, o BL tailandês deixa de depender apenas da novidade de suas histórias e começa a organizar com muito mais clareza aquilo que havia criado: atores, casais, franquias, eventos, produtos e comunidades.

O gênero estava pronto para se transformar em sistema. E, em pouco tempo, esse sistema revelaria o tamanho do mercado que havia começado a construir.

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