quarta-feira, 23 de setembro de 2026

História Crítica dos BLs Tailandeses IX: ERA IV — Quando a fórmula transbordou: o BL depois de seus próprios limites (2022–2023)


 "- Eu não quero me casar com uma boneca!
- Você me acha tão fofo quanto uma boneca?
- Você é a boneca Anabelle!"

(Cutie Pie)

Fase I: O gênero veste outras formas: crime, fantasia, política, melodrama e desejo (2022)

Se 2021 terminou com o BL examinando a própria imagem, 2022 começa com uma descoberta talvez ainda mais importante: já não existe motivo para que o romance entre dois homens determine, sozinho, o tipo de história que pode ser contada.

Durante os primeiros anos, chamar determinada produção de BL permitia antecipar boa parte de seu repertório. Era razoável esperar juventude, escola ou universidade, amizade, descoberta amorosa, alguns casais paralelos e conflitos construídos ao redor da aceitação do desejo. Mesmo quando uma obra se afastava desse modelo, ainda parecia fazê-lo em relação a ele. Em 2022 essa dependência começa a desaparecer.

O BL pode ser thriller., pode ser fantasia médica, pode assumir a estrutura de um lakorn familiar, pode aproximar-se do teatro intimista, pode construir um universo criminal violento, falar sobre instituições autoritárias, transformar um ursinho de pelúcia em protagonista de um melodrama sobre morte, família e memória e, bem, pode continuar acontecendo num colégio.

Quando um gênero finalmente consegue abandonar uma forma, pode voltar a ela sem parecer aprisionado. A mudança, portanto, não está no desaparecimento da velha linguagem. Está na multiplicação das linguagens disponíveis.

E poucas produções anunciam essa mudança de escala de maneira tão ruidosa quanto KinnPorsche: The Series.

A história acompanha Porsche, interpretado por Apo Nattawin, que acaba incorporado ao sistema de segurança de uma poderosa família mafiosa e torna-se guarda-costas de Kinn, vivido por Mile Phakphum. Ao redor deles existe uma estrutura de poder composta por famílias rivais, violência, negócios, lealdades instáveis e personagens que pouco lembram os estudantes de engenharia que haviam dominado grande parte da década anterior.

O romance já não cria o mundo, mas precisa sobreviver dentro dele. A violência em KinnPorsche não existe apenas como obstáculo externo colocado entre dois amantes. Faz parte da estrutura social em que ambos vivem. Kinn possui poder antes de conhecer Porsche; Porsche entra numa organização cujas relações hierárquicas não desaparecerão porque os dois se apaixonaram. O BL veste o thriller criminal.

E o faz com dinheiro, ambição visual e confiança muito maiores do que seriam imagináveis poucos anos antes.

A própria história de produção da série é marcada por mudanças empresariais e reformulação antes de chegar à versão produzida pela Be On Cloud, empresa criada pelo próprio Mile para produções com um investimento mais alto, que fujam a experiência mais comum da indústria. O que importa desde já é o resultado industrial: KinnPorsche chega carregando a sensação de que um BL pode ser vendido como grande evento audiovisual.

Cenografia, locações, ação, figurinos, fotografia, música e cenas de intimidade passam por um tratamento que pretende competir pela atenção do espectador não apenas com outras produções Y, mas com séries de ação e dramas adultos de orçamento consideravelmente maior. A erotização também muda de lugar, algumas cenas de MileApo precisam ser gravadas com a presença apenas do diretor do operador de câmera em cena.

O corpo masculino, que já havia adquirido enorme importância promocional em MaxTul, MewGulf, Why R U? e outras produções, torna-se aqui parte explícita da estética da série. Desejo, violência e poder aparecem frequentemente misturados, às vezes de forma sedutora, às vezes de maneira deliberadamente desconfortável.

KinnPorsche não é o único casal capaz de mobilizar público. Vegas e Pete, interpretados por Bible Wichapas e Build Jakapan, criam outra relação intensa e muito mais problemática, enquanto Kim e Porchay, vividos por Jeff Satur e Barcode Tinnasit, oferecem um registro diferente.

Mais uma vez o elenco funciona como conjunto de portas de entrada. Mas a Be On Cloud amplia esse mecanismo: o sucesso pode ser transferido para apresentações musicais, grandes eventos, performances coletivas e uma turnê construída ao redor do elenco. A lógica do ship permanece, mas passa a coexistir com algo próximo de uma companhia de entretenimento.

O ator já não vende somente o casal, vende a experiência de pertencer àquele universo.

Jeff Satur ocupa posição especialmente interessante dentro dessa engrenagem. Sua trajetória, que vínhamos acompanhando desde Ingredients, encontra aqui uma plataforma de alcance muito maior. Música e atuação deixam definitivamente de parecer caminhos paralelos. A série amplia a exposição do artista, enquanto a identidade musical de Jeff acrescenta valor próprio à produção. A faixa Why Don't You Stay se torna um dos maiores sucessos de sua carreira e, em termos musicais, poderia muito bem justificar uma carreira sozinha;

KinnPorsche demonstra, portanto, mais que a entrada do BL no gênero criminal, demonstra uma mudança de escala. No mesmo momento, porém, outra empresa cresce utilizando estratégia quase oposta.

Cutie Pie parece muito mais próxima da tradição romântica do BL, mas sua importância industrial é enorme.

Produzida pela Mandee Work e profundamente integrada ao ecossistema Domundi, a série apresenta Zee Pruk como Lian e NuNew Chawarin como Kuea, unidos desde muito jovens por um compromisso familiar que deveria conduzi-los ao casamento.

A premissa poderia sustentar apenas uma comédia romântica baseada em noivado arranjado, diferença de personalidade e segredos. O que torna Cutie Pie especialmente interessante é a maneira como a própria identidade de Kuea se divide.

Diante de Lian e da família, ele preserva uma imagem educada, delicada, previsível e cuidadosamente construída. Fora desse espaço, existe outra versão. Kuea gosta de motos, música, performance e assume uma identidade artística que contrasta com aquilo que as pessoas esperam dele.

A série transforma, portanto, construção de imagem em parte da própria narrativa. Isso conversa de maneira quase perfeita com a estrutura da Domundi. Os artistas também estão sendo construídos diante do público.

NuNew não surge apenas como ator que eventualmente canta uma música promocional. Sua voz torna-se parte fundamental da experiência de Cutie Pie e da própria Domundi. Canções, apresentações, eventos e vídeos ajudam a formar uma imagem pública na qual atuação e música são indissociáveis.

Zee, que havia atravessado Why R U? e sobrevivido à ruptura provocada pela pandemia, encontra com NuNew uma combinação de alcance muito maior. A dupla não nasce apenas dentro da série, mas é trabalhada simultaneamente pela ficção, pela música, pelos eventos e pela presença digital. Aquilo que observamos na Domundi durante 2020 revela agora seu potencial completo.

Zee precisa se adaptar e aprender a cantar e dançar para acompanhar o parceiro formado na escola do Pop. A Domundi investe pesado nessa formação da imagem: enquanto NuNew assume roupas coloridas, acinturadas, muitas vezes femininas, Zee é o retrato da seriedade sensual que acompanha sua metade. Todo ship dessa era apresenta esse equilíbrio.

A empresa possui artistas conhecidos antes, durante e depois dos personagens. Pode utilizar o grupo para apresentar rostos novos, transformar uma música em extensão do casal, movimentar diferentes membros por conteúdos digitais e manter o fandom próximo mesmo nos intervalos entre produções.

Cutie Pie torna-se um ponto de inflexão justamente porque consegue reunir essas capacidades numa obra de grande repercussão. A história pode terminar, mas ZeeNuNew continua, e continua com muita força. A música continua, domina paradas. Os eventos continuam, e os ingressos esgotam rápido.

A imagem dos artistas continua sendo cultivada. O produto já não possui fronteiras fáceis. O sucesso da dupla ajudará a transformar a Domundi/Mandee numa das forças empresariais decisivas das fases posteriores da indústria. 

Ao lado dessa sofisticação promocional, 2022 presencia outro aprofundamento da erotização.

Love in the Air, produzida dentro do ecossistema de MAME e da Me Mind Y, divide sua narrativa em dois grandes movimentos.

Primeiro acompanhamos Rain e Payu, interpretados por Noeul Nuttarat e Boss Chaikamon. Depois, Prapai e Sky, vividos por Fort Thitipong e Peat Wasuthorn.

A estrutura quase separa a temporada em dois romances completos, permitindo que dois ships sejam apresentados de maneira suficientemente intensa para formar comunidades próprias sem abandonar a sensação de um universo compartilhado.

MAME aprofunda aqui características que já podíamos reconhecer em TharnType: o desejo é corporal, e as cenas de intimidade possuem função promocional evidente. A química entre os atores integra a própria promessa comercial da produção.

Mas erotização maior continua não sendo sinônimo automático de amadurecimento crítico. As relações da série também permitem discutir insistência, limites, trauma, vulnerabilidade e a maneira como determinadas fantasias românticas transformam comportamentos invasivos em instrumentos de conquista.

O núcleo de Sky é particularmente importante porque associa sexualidade a uma experiência traumática anterior, obrigando a história a lidar com consequências emocionais mais pesadas do que aquelas presentes no primeiro arco. Prapai, por sua vez, simboliza a segurança e a busca pela cura desse trauma.

Assim, Love in the Air concentra novamente uma das contradições persistentes da obra de MAME e de boa parte do BL daquele período: enorme capacidade de construir desejo e extraordinária habilidade para mobilizar fandom coexistem com formas narrativas que merecem exame crítico em relação a consentimento e poder. Industrialmente, contudo, o resultado é inequívoco.

BossNoeul e FortPeat entram rapidamente no repertório reconhecível de ships da Me Mind Y. O universo volta a produzir casais que ultrapassam a obra. 

Outro nome empresarial começa a adquirir forma própria em 2022 com Secret Crush on You.

A série possui uma genealogia particularmente interessante porque Saint Suppapong, que alguns anos antes havia se tornado um dos rostos centrais de Love by Chance, agora aparece atrás das câmeras como produtor e cofundador da Idol Factory, e a mudança de posição é significativa.

Um ator formado dentro da primeira grande expansão comercial do BL começa a participar da construção da geração seguinte. Saint já conhecia por experiência direta a força dos ships, o fanservice, as disputas de gerenciamento e a relação intensa entre atores e fandom. A Idol Factory surge, portanto, num momento em que alguns dos próprios artistas revelados pelo crescimento do gênero começam a adquirir capacidade para interferir na maneira como novas obras e novos atores serão produzidos.

No centro de Secret Crush on You estão Toh, interpretado por Seng Wichai, e Nuea, vivido por Billy Patchanon. Toh nutre uma paixão quase obsessiva por Nuea e coleciona fotografias, objetos e pequenos vestígios ligados ao rapaz que admira. A premissa poderia facilmente transformar o personagem apenas em figura cômica ou reduzir sua paixão a uma sucessão de constrangimentos. A série escolhe algo mais interessante.

Toh não corresponde ao modelo de protagonista masculino que havia dominado grande parte do BL anterior. Ele é expressivo, desajeitado, afetado em seus gestos, emocionalmente excessivo e visivelmente distante da masculinidade contida que muitas produções haviam associado aos protagonistas desejáveis.

E Toh não está sozinho. Seu grupo de amigos constitui uma das particularidades mais importantes da série.

Jao, seu melhor amigo, também apresenta uma masculinidade deliberadamente afeminada. A narrativa não tenta corrigir seus gestos para torná-lo mais aceitável como objeto de desejo. Pelo contrário, ele recebe seu próprio arco romântico e torna-se alvo do interesse de Sky, um dos rapazes que inicialmente parecem pertencer ao modelo masculino muito mais convencional valorizado pelo gênero.

Esse movimento merece atenção: durante anos, o BL tailandês construiu romances entre homens sem necessariamente oferecer muito espaço central a homens afeminados. A homossexualidade podia ser representada, desde que seus protagonistas permanecessem frequentemente próximos de padrões masculinos relativamente tradicionais.

Secret Crush on You abre espaço para outra imagem. Toh pode ser desejado sem precisar abandonar aquilo que o torna reconhecivelmente diferente. Jao também.

O afeminamento deixa de funcionar apenas como código cômico aplicado a personagens laterais e entra diretamente no campo do romance. A composição do grupo amplia ainda mais esse deslocamento.

Som, interpretada por Freen Sarocha, participa abertamente da lógica de shipping. Ela observa casais, torce, interfere e incorpora dentro da própria história uma figura que o público conhece muito bem: a fã que enxerga química, imagina relações e acompanha com entusiasmo o nascimento de um casal.

O fandom entra novamente na ficção.

Mas há ainda Daisy. Daisy é uma mulher trans inserida no grupo não como comentário pedagógico colocado à margem da história, mas como amiga, participante ativa da vida coletiva e pessoa com desejos próprios.

Sua trajetória romântica é particularmente relevante porque o homem por quem se interessa corresponde justamente ao tipo físico que, em outra série, poderia ter sido utilizado como ameaça ao casal principal ou como rival masculino convencional.

Aqui acontece outra coisa: Daisy também pode ser desejada. A série não organiza seu arco apenas ao redor da experiência de rejeição, humilhação ou sofrimento por ser uma mulher trans. Ela recebe a possibilidade do romance. Isso parece pequeno quando formulado em poucas linhas, mas dentro da tradição que estamos acompanhando, não é.

Secret Crush on You reúne num mesmo círculo social um protagonista afeminado, seu melhor amigo igualmente distante de uma masculinidade rígida, uma mulher deliberadamente interessada na cultura dos ships e uma mulher trans cuja feminilidade não a condena automaticamente à posição de amiga engraçada ou personagem destinada à solidão.

O grupo possui uma espécie de exuberância queer que contrasta com boa parte do BL anterior.

Eles riem alto.
Exageram.
Desejam.
Torcem uns pelos outros.
Fazem papel de ridículos.
E continuam sendo tratados como pessoas capazes de receber amor.

Essa escolha não elimina os excessos cômicos da série. Muitas vezes ela trabalha justamente com constrangimento, exagero e uma linguagem quase camp. O valor histórico está no fato de que o exagero não exige que os personagens sejam corrigidos antes de merecer afeto.

A obra também lança ou consolida nomes importantes.

Billy Patchanon e Seng Wichai formam um ship de grande visibilidade e reaparecerão juntos ainda naquele ano em War of Y, numa escolha quase metalinguística: atores apresentados ao público como dupla passam a interpretar uma história sobre a própria fabricação e manutenção de um ship.

Seng seguiria depois outros caminhos.

Billy encontraria nova fase de grande projeção ao lado de Babe Tanatat em The Sign, já dentro de uma Idol Factory mais estruturada e disposta a investir em ação, fantasia e mitologia.

Sua trajetória mostra novamente que o fim de uma combinação não significa necessariamente o fim de um ator dentro da indústria.

A Idol Factory também encontrará em Freen Sarocha um de seus nomes mais importantes, e sua presença em Secret Crush on You ganha ainda mais interesse retrospectivo diante do espaço que ela ocupará posteriormente em outro segmento decisivo da expansão tailandesa: as produções GL.

A empresa nasce, portanto, já cercada por possibilidades que ultrapassam o casal central. Isso talvez seja o aspecto industrial mais duradouro de Secret Crush on You: Saint não produz apenas uma série., ele ajuda a colocar diante do público um conjunto de artistas que poderá ser reorganizado em novas combinações, gêneros e mercados.

A obra possui seus excessos, sua comédia por vezes deliberadamente embaraçosa e uma intensidade que certamente não agradou a todos. Mas existe algo profundamente coerente na maneira como ela transforma aquilo que outras produções tentavam esconder em matéria de afeto.

O protagonista é estranho.
É afeminado.
É obsessivo.
É emocionalmente excessivo.
E continua sendo protagonista.

Num gênero que havia passado anos vendendo relações entre homens enquanto frequentemente preservava modelos bastante estreitos de masculinidade, essa pequena mudança possui peso maior do que inicialmente parece.

Enquanto parte da indústria aperfeiçoa a venda do desejo, outra produção decide transformar a própria fabricação desse desejo em espetáculo.

War of Y leva a metalinguagem de Lovely Writer e Call It What You Want para um registro ainda mais agressivo.

A série se organiza em quatro histórias sucessivas, quase como quatro estudos de caso sobre diferentes etapas da fabricação de um fenômeno Y. Em vez de acompanhar somente atores que já alcançaram o sucesso, observa o nascimento de um ship, as disputas em torno de sua administração, os mecanismos de seleção de novos artistas e, finalmente, aquilo que pode acontecer quando a imagem cuidadosamente construída para o público começa a entrar em conflito com a vida privada.

O primeiro arco, “New Ship”, acompanha uma dupla que tenta transformar química de tela em capital profissional. Billy Patchanon e Seng Wichai, que já possuíam uma história conjunta importante em Secret Crush on You, ocupam o centro justamente num enredo sobre atores ligados por um novo ship e submetidos à pressão para transformar aquela combinação em produto. Isso acrescenta uma camada quase desconfortavelmente metalinguística à história: o espectador não vê apenas personagens tentando sobreviver à indústria, mas intérpretes que o próprio fandom já conhecia como dupla participando de uma ficção sobre os mecanismos que produzem duplas.

Billy se tornaria particularmente importante para as fases posteriores. Depois do encerramento de sua parceria profissional com Seng, encontraria outra combinação de grande repercussão ao lado de Babe Tanatat em The Sign. Sua trajetória oferece, portanto, um exemplo quase perfeito daquilo que a própria série dramatiza: o ship pode parecer definitivo enquanto funciona e, ainda assim, não precisa determinar toda a carreira de um ator.

O segundo arco, “War of Managers”, protagonizado por Gung Kunpong e Korn Kornnarat (ambos já conhecidos de Y-Destiny) desloca o foco dos intérpretes para as pessoas que administram suas carreiras. O conflito passa a envolver managers, interesses econômicos, controle de agenda, imagem pública e acesso aos artistas. Aqui a série explicita algo que nossa história vinha encontrando desde PerthSaint e outros casos anteriores: uma dupla pode possuir enorme química e fandom e, mesmo assim, continuar dependente de contratos, equipes de gerenciamento e disputas que acontecem completamente fora das câmeras.

O ator deixa de ser apresentado como agente inteiramente autônomo. Sua carreira é negociada.

Quem pode aparecer com quem? Quem recebe determinado trabalho? Qual manager possui acesso ao ship? Até onde uma equipe pode interferir numa amizade, num relacionamento ou numa parceria profissional porque aquela proximidade possui valor econômico?

Aquilo que antes o fandom frequentemente conhecia apenas por rumores de bastidores torna-se aqui estrutura narrativa.

O terceiro arco, “Y-Idol”, volta ainda mais atrás na cadeia produtiva e acompanha Peak e Kla, Milk Natchanon e Markpoom Phatsanan, num programa competitivo destinado à formação de novos astros BL. A própria ideia é reveladora. Já não estamos simplesmente diante de atores que por acaso encontram química depois de escalados numa série. A indústria pode procurar deliberadamente novos rostos, colocá-los em competição, testar popularidade, aparência, habilidade e compatibilidade e observar diante do público quais combinações possuem maior potencial.

O ship torna-se, em certo sentido, selecionável.

A lógica aproxima o BL do sistema idol que já vínhamos acompanhando através da música e da formação de artistas multimídia. Talento dramático continua importante, mas passa a coexistir com carisma, presença digital, capacidade de cantar, dançar, participar de eventos e, sobretudo, produzir uma imagem que possa ser continuada para além da obra.

Esse arco é especialmente interessante depois de Y-Destiny e 7 Project. Nas antologias de 2021, víamos produtoras usando pequenas histórias como laboratórios de elenco. War of Y transforma essa lógica em assunto explícito: a própria seleção de atores já pode ser espetáculo.

Por fim, “Wife” observa uma etapa posterior, quando o ship já possui história suficiente para que sua manutenção produza novas tensões. O arco conta com First Piyangkul e Toru Takizawa, dupla que já havia chamado atenção em Y-Destiny, onde interpretaram Puth e Kaeng. A escolha deles novamente reforça o jogo entre ficção e realidade industrial: atores reconhecidos como uma dupla pelo fandom passam a protagonizar uma narrativa sobre os custos de preservar uma imagem conjunta.

Aqui o problema já não é conquistar público, mas sobreviver àquilo que o público espera enquanto equilibra relacionamentos privados, ciúme, fidelidade à parceria profissional e necessidade de continuar vendendo determinada intimidade entram em choque. O ship, depois de tornar-se bem econômico, pode transformar-se também numa espécie de contrato afetivo imaginário entre artistas e espectadores.

A presença de First e Toru é particularmente útil para nossa genealogia porque os dois atravessam projetos diferentes sem alcançar o mesmo grau de centralidade de pares como OffGun, EarthMix ou ZeeNuNew. Eles representam outra camada importante da indústria: duplas conhecidas, com fandom e circulação, que permanecem relevantes sem necessariamente se converterem em eixo dominante do mercado.

Os quatro segmentos formam, assim, uma espécie de percurso industrial. Primeiro surge o novo ship. Depois aparecem aqueles que disputam sua administração. Em seguida vemos a própria indústria tentando fabricar novos ídolos. Por fim, encontramos os efeitos produzidos quando uma dupla já possui uma imagem suficientemente forte para que sua vida privada possa ameaçá-la.

O que importa não é tratar War of Y como documentário disfarçado. A ficção exagera, organiza e dramatiza, e qualquer tentativa de ler personagens como cópias transparentes de pessoas reais reduziria bastante o interesse da obra.

Seu valor histórico está em outra coisa: em 2022, determinadas ansiedades sobre a indústria já são suficientemente conhecidas pelo público para que uma série inteira possa utilizá-las como matéria narrativa.

O espectador entende imediatamente o manager controlador. Entende o casal que precisa preservar aparências. Entende o risco de um relacionamento privado ferir determinada fantasia comercial. Entende concursos construídos para fabricar novos rostos. Entende guerras de fandom, disputas entre agências e a fabricação cuidadosamente administrada de proximidade.

Aquilo que alguns anos antes pertencia sobretudo a rumores, entrevistas e bastidores agora constitui vocabulário compartilhado.

O BL olha para a própria máquina e descobre que ela também produz personagens, vítimas, vencedores e drama. Ao mesmo tempo, outros autores começam a tratar o fantástico com uma segurança muito maior.

Triage, adaptação de uma obra de Sammon, leva o médico Tin a viver repetidamente um mesmo período de tempo enquanto tenta impedir a morte de Tol. Cada fracasso reinicia o ciclo. A estrutura de time loop transforma o romance em problema narrativo de causalidade.

Tin não precisa apenas apaixonar-se.

Precisa descobrir quais acontecimentos levam Tol à morte, quais decisões podem ser alteradas e qual é sua própria responsabilidade dentro daquele sistema.

A profissão médica possui função concreta. O tempo possui regra, o mistério possui uma progressão, e o romance cresce dentro desse mecanismo.

Sammon aprofunda, assim, aquilo que Manner of Death já havia demonstrado: uma novel Y pode possuir uma identidade genérica forte o bastante para que a relação amorosa conviva com uma trama cuja lógica funcionaria mesmo fora do romance.

Há ainda uma genealogia deliciosa: Tae Darvid e Tee Thanapon, que anos antes haviam interpretado Forth e Beam na primeira versão de 2 Moons, retornam agora como protagonistas. Em 2017, pertenciam a um casal secundário com espaço reduzido dentro de uma série universitária. Cinco anos depois, sustentam um thriller médico sobre morte, repetição temporal e responsabilidade. A própria carreira dos atores demonstra o quanto o gênero mudou.

Algo semelhante acontece com Dear Doctor, I’m Coming for Soul.

Aqui encontramos novamente Nut Nutchapon e Karn Kasidej, dupla que já havia atravessado nosso estudo em Grey Rainbow, em 2016. Agora Nut interpreta um médico, enquanto Karn aparece ligado ao universo daqueles que recolhem as almas dos mortos.

A relação entre medicina e morte não funciona apenas como fantasia romântica. O médico luta profissionalmente para prolongar vidas; a figura que o acompanha existe para reconhecer o momento em que elas terminam.

O amor nasce entre duas funções aparentemente incompatíveis. Essa oposição dá à série uma estrutura poética bastante clara: um salva, o outro leva. E ambos precisam conviver com o limite que nenhum deles controla completamente. A reaparição dos atores torna o caso ainda mais valioso historicamente.

Em Grey Rainbow, estavam ligados a uma obra próxima do melodrama LGBTQ+ de uma fase ainda inicial da indústria. Em 2022, retornam num mercado capaz de transformar sua familiaridade anterior em capital afetivo e inseri-los num híbrido de romance, medicina e fantasia. A memória dos atores atravessa as mudanças do gênero.

Mas talvez nenhuma produção daquele ano se afaste tanto da estrutura industrial mais convencional do BL quanto 180 Degree Longitude Passes Through Us.

A série reduz radicalmente o mundo.

Wang, interpretado por Pond Ponlawit, viaja com a mãe, Sasiwimol, vivida pela atriz veterana Mam Kathaleeya, e acaba na casa isolada de Inthawut, personagem de Nike Nitidon. In havia pertencido ao passado da família e mantinha relação profunda com Siam, pai já falecido de Wang.

A partir daí, quase tudo se concentra em três pessoas, numa casa, e um passado que ninguém conseguiu enterrar.

E conversas que progressivamente revelam desejo, ressentimento, medo, culpa e escolhas que continuam determinando a vida décadas depois de terem sido feitas. Há diálogos que parecem monólogos, alguns episódios comportam algo como apenas 3 cenas.

A estrutura se aproxima muito mais do teatro intimista do que do BL seriado convencional. Há poucos lugares para onde fugir, e por isso os personagens precisam permanecer diante uns dos outros. O silêncio ganha peso. A distância física dentro da casa ganha significado.

A maneira como um personagem entra ou abandona determinado espaço substitui, em muitos momentos, aquilo que outras produções explicariam com grandes acontecimentos externos.

As atuações precisam sustentar essa redução. E sustentam.

Pond Ponlawit constrói Wang com uma combinação de insolência juvenil, desejo de confronto e vulnerabilidade. Nike Nitidon faz de In um homem cuja contenção não significa ausência de desejo, mas uma vida inteira organizada para não precisar enfrentá-lo. Mam Kathaleeya impede que Sasiwimol se torne simplesmente obstáculo entre os dois: sua relação com o passado, com o marido morto e com o próprio filho possui contradições suficientes para que o triângulo emocional jamais se reduza a vilania.

A série é também uma das produções mais filosoficamente férteis deste período: Wang exige respostas. In construiu uma existência baseada em adiamentos, em uma poética ironia ele é um arquiteto que constrói casas e pontes. Sasiwimol organiza a própria memória de maneira que consiga continuar vivendo.

Nesse sentido, o conflito aproxima-se bastante de um problema existencialista: não basta perguntar o que uma pessoa sente; é preciso perguntar o que ela faz com aquilo que sente.

Sartre chamaria atenção para as formas pelas quais uma pessoa tenta esconder de si mesma a própria liberdade, refugiando-se em papéis, deveres e circunstâncias como se eles fossem capazes de decidir por ela. In frequentemente se aproxima dessa posição. Sua renúncia pode ser defendida como prudência, moralidade ou cuidado, mas a narrativa insiste na pergunta mais incômoda: quanto dessa renúncia também é escolha?

Kierkegaard oferece outra chave: desespero não aparece necessariamente como explosão emocional. Pode existir como incapacidade de assumir plenamente aquilo que se é, como ruptura entre a existência vivida e a existência que o indivíduo reconhece como sua.

Wang representa quase uma provocação contra esse desespero. Ele quer que as pessoas escolham. Quer que digam. Quer que assumam. Sua juventude lhe dá uma crueldade particular diante de adultos que aprenderam a sobreviver por meio de silêncio e concessão. O conflito entre gerações torna-se, assim, conflito entre diferentes maneiras de compreender a autenticidade.

Ser fiel ao próprio desejo é coragem? Egoísmo? Responsabilidade? Ou violência contra aqueles que serão afetados por essa escolha?

A série nunca oferece resposta confortável.

O romance deixa de ser recompensa e torna-se problema existencial.

O título, associado a uma linha geográfica extrema de separação e encontro, reforça essa arquitetura. Os personagens parecem constantemente colocados em lados diferentes de uma fronteira que eles próprios construíram.

Poucas produções de 2022 demonstram de maneira tão clara que o BL já podia comportar silêncio, ambiguidade e reflexão existencial sem precisar retornar, a cada poucos minutos, aos mecanismos comerciais que historicamente haviam sustentado o gênero.

No extremo oposto em termos de escala narrativa aparece The Miracle of Teddy Bear.

A premissa poderia soar quase infantil: Tofu, um ursinho de pelúcia amado por Nut, ganha forma humana.

Job Thuchapon Koowongbundit assume o difícil papel de Tofu, enquanto Inn Sarin Ronnakiat interpreta Nut. A escolha de Inn é particularmente significativa porque ele chega à série trazendo consigo uma trajetória construída sobretudo no universo dos lakorns e da televisão generalista tailandesa. Sua presença ajuda a demonstrar que a aproximação entre BL e melodrama tradicional já não acontece apenas no nível da estrutura narrativa. Ela aparece também no trânsito dos próprios intérpretes entre mercados que alguns anos antes pareciam muito mais separados.

O elenco ao redor dos protagonistas reforça ainda mais essa sensação de continuidade histórica.

Um dos nomes mais reconhecíveis é Apasiri Nitibhon, intérprete da mãe de Nut, atriz veterana que o público BL já podia reconhecer como a mãe de Pete em Love by Chance. A passagem de uma obra para a outra é quase simbólica. Em 2018, ela integrava uma série decisiva para a consolidação do ecossistema BL; quatro anos depois, aparece numa produção exibida dentro de uma estrutura televisiva muito mais próxima do lakorn tradicional, agora com espaço dramático consideravelmente maior para desenvolver a história da própria geração.

Tee Thanapon Jarujitranon constitui outra ponte especialmente interessante. Já havia aparecido como Beam na primeira adaptação de 2 Moons e, no mesmo período de 2022, assumiria um dos papéis centrais de Triage. Sua presença em The Miracle of Teddy Bear permite enxergar, num único ator, o percurso que estamos acompanhando ao longo desta Era: do BL universitário de múltiplos ships para produções capazes de circular entre fantasia, medicina, melodrama e televisão aberta.

O elenco, portanto, já não parece formado por atores entrando num nicho separado do restante da televisão tailandesa. Veteranos de lakorns, rostos conhecidos de diferentes gerações do BL e intérpretes com carreiras construídas em outros formatos dividem o mesmo espaço.

A partir da fantasia aparentemente ingênua do ursinho que se torna humano, desenvolve-se um melodrama familiar de enorme carga emocional envolvendo memória, violência doméstica, relações familiares, identidades ocultadas, doença, perdas anteriores e a pergunta dolorosa sobre aquilo que estamos dispostos a sacrificar por alguém que amamos.

A fantasia abre a porta e o melodrama entra inteiro. Lágrimas em quase todos os episódios.

E Tofu entra com ele carregando uma função que, aos poucos, parece ultrapassar o simples desejo de viver como homem. Sua existência interfere em uma família que havia desaprendido formas elementares de afeto.

Nut carrega feridas antigas. Sua mãe vive aprisionada por memórias, violência e sofrimento. O passado permanece dentro da casa como se também fosse um personagem.

Tofu chega a esse espaço com uma inocência quase impossível para os humanos que o habitam. Ele observa relações que os outros já aprenderam a considerar normais, pergunta sobre dores que todos preferiam manter caladas e oferece afeto sem possuir ainda todas as defesas que a experiência costuma ensinar. Nesse sentido, há algo de O Pequeno Príncipe na estrutura emocional da série.

Não porque Tofu reproduza literalmente o personagem de Saint-Exupéry, nem porque precisemos supor uma influência direta, mas porque ambos pertencem a uma tradição de figuras aparentemente inocentes cuja passagem pelo mundo revela aos adultos aquilo que eles deixaram de enxergar.

O Pequeno Príncipe visita mundos, encontra pessoas aprisionadas em seus próprios hábitos e aprende sobre vínculo, perda e responsabilidade. Sua passagem transforma a maneira como aqueles encontros podem ser compreendidos, mas sua história também carrega desde o início a consciência de que ele não permanecerá para sempre.

Tofu possui algo dessa condição de visitante: ele entra numa família como quem entra num planeta estranho. Precisa aprender suas regras, descobre suas feridas e cria vínculos. E, justamente porque não pertence inteiramente àquela forma de existência, consegue perceber aquilo que os outros já naturalizaram.

Sua missão acaba assumindo uma dimensão que ultrapassa o romance com Nut: Tofu precisa ajudar aquela família a recordar como amar. Isso não acontece por meio de grandes discursos morais.

Acontece através de presença, cuidado, perguntas, pequenas insistências e de uma disponibilidade afetiva que contrasta violentamente com os silêncios acumulados ao redor dele. Aos poucos, sua existência reorganiza relações que começaram muito antes de sua chegada.

Essa leitura torna o desfecho ainda mais doloroso. Tofu não foi trazido ao mundo para conquistar uma permanência simples. Sua passagem possui finalidade: ele chega. Transforma, ensina. E precisa partir.

A estrutura aproxima a série de uma forma quase fabulística de melodrama: o elemento fantástico existe para permitir que personagens profundamente feridos encontrem, durante um breve intervalo, alguém capaz de tocar aquilo que a vida ordinária já não conseguia alcançar.

Por isso a tristeza da obra não contradiz sua ternura. Nasce dela.

O formato televisivo também importa profundamente.

The Miracle of Teddy Bear foi apresentado como marco por ocupar, numa grande emissora aberta tailandesa, uma faixa de exibição tradicionalmente associada aos lakorns, alcançando um público potencial muito diferente daquele de uma série concebida exclusivamente para plataformas digitais ou para um nicho Y. A formulação precisa de “primeiro BL” nesse espaço deverá ser confirmada documentalmente na versão definitiva, mas o significado histórico permanece: uma história centrada num romance entre homens passa a ocupar uma estrutura de programação destinada ao grande público e a utilizar deliberadamente ferramentas narrativas familiares ao melodrama televisivo tailandês.

Isso modifica duração, ritmo e ambição.

Os episódios possuem espaço para desenvolver famílias inteiras. Personagens mais velhos deixam de existir apenas como pais que aprovam ou desaprovam o casal. Eles possuem juventude anterior à história. Amores. Violências. Frustrações. Escolhas cujas consequências chegam à geração seguinte.

O passado deixa de funcionar como simples explicação para o protagonista e ganha peso dramático próprio. Nesse sentido, a presença de atores veteranos é mais que luxo de casting. Ela sustenta a impressão de que aquelas pessoas possuíam vida antes de Nut e Tofu entrarem no centro da narrativa.

A relação dos dois jamais pode ser separada da família que os cerca. E a série se recusa a proteger o espectador das consequências dessa escolha.

Seu forte apelo emocional nasce justamente da disposição para levar a premissa fantástica até o limite. O ursinho transformado em homem não existe apenas para produzir encantamento ou oferecer uma variação excêntrica do romance BL.

Sua existência tem prazo. E é justamente a consciência desse limite que transforma o amor em problema.

Tofu precisa descobrir o que significa amar alguém sabendo que amar talvez não lhe dê o direito de permanecer. Nut precisa descobrir que receber amor não significa necessariamente conseguir conservar para sempre aquele que o ofereceu. A família precisa aprender que a passagem de alguém pode ser breve e ainda assim reorganizar uma vida inteira.

Como acontece com o Pequeno Príncipe, a partida não anula aquilo que foi construído durante o encontro. A ausência passa a carregar a presença. E talvez seja essa a dimensão mais dolorosa de The Miracle of Teddy Bear: Tofu chega como milagre, mas sua verdadeira função não é abolir a perda, mas ensinar pessoas feridas a continuar amando apesar dela.

O BL entra na televisão aberta usando uma das linguagens mais profundamente enraizadas na televisão tailandesa: o lakorn, e To Sir, With Love aprofunda ainda mais esse encontro.

Produzida para a televisão generalista, a série mergulha num universo familiar sino-tailandês marcado por herança, poder econômico, segredo, obrigação filial e expectativas relacionadas à continuidade da família.

Tian, interpretado por Film Thanapat, ocupa posição central dentro dessa estrutura e precisa esconder sua atração por homens num ambiente em que sua sexualidade ameaça não apenas relações pessoais, mas a própria lógica de sucessão familiar. Sua aproximação com Jiu, vivido por Jam Rachata, acontece dentro de uma trama melodramática muito maior que qualquer mecanismo convencional de formação de ship.

Aqui o romance masculino entra diretamente na tradição do grande melodrama televisivo: segredos familiares, disputas de herança, mães dispostas a atos extremos. Lealdades. Veneno. Sacrifício. Desejo. Tudo aquilo que o lakorn sabe fazer é mobilizado ao redor de um protagonista gay.

Isso torna To Sir, With Love especialmente importante para nossa periodização. Não estamos diante simplesmente de um BL tentando imitar um lakorn, mas de uma zona em que as categorias começam a misturar-se.

O público BL pode adotar a série. O público tradicional do lakorn pode encontrá-la na programação. Os atores podem adquirir fandom de ship.

A própria pergunta “isto é BL?” começa novamente a mostrar menos sobre a obra do que sobre os limites de nossas classificações. Enquanto a televisão aberta incorpora novas formas de romance masculino, a GMMTV utiliza 2022 para explorar vários caminhos simultaneamente.

The Eclipse é um dos mais interessantes.

Akk, interpretado por First Kanaphan, ocupa posição de disciplina e responsabilidade dentro da rígida Suppalo School. Ayan, vivido por Khaotung Thanawat, chega à instituição carregando perguntas, suspeitas e uma disposição quase provocadora para desafiar aquilo que os demais aprenderam a obedecer.

A escola é cercada por regras, e existe uma suposta maldição. Existem estudantes que protestam. Existem autoridades preocupadas com ordem, reputação e controle.

Pouco a pouco, o sobrenatural aparente revela um problema muito mais humano: instituições podem produzir medo suficiente para que os indivíduos passem a vigiar a si próprios.

O romance entre Akk e Ayan nasce justamente nesse conflito. Ayan representa aquilo que Akk tenta conter: questionamento, desejo e desobediência. A possibilidade de imaginar-se fora da função que lhe foi atribuída.

Por isso a série possui dimensão política mesmo sem depender de uma referência direta a um acontecimento específico da realidade tailandesa. O problema é estrutural, mas quem define a ordem e quem se beneficia dela? Por que alguém obedece mesmo quando sofre? O que acontece quando uma instituição transforma jovens em agentes da própria repressão? O desejo queer participa desse conflito porque desafia outra forma de enquadramento.

Akk precisa confrontar não apenas aquilo que sente por Ayan, mas o sistema inteiro de expectativas através do qual aprendeu a compreender a si mesmo.

First e Khaotung também encontram aqui uma parceria que rapidamente ultrapassaria a série. Ambos já possuíam trajetórias anteriores, mas The Eclipse transforma FirstKhao em unidade reconhecível e abre caminho para projetos posteriores muito diferentes.

Novamente, o ship deixa de pertencer ao personagem, mas agora pode carregar consigo uma identidade dramática mais densa.

Nem toda nova dupla, contudo, precisava nascer cercada pela sensação de fenômeno, e é o caso de Enchanté (2022), que apresenta Force Jiratchapong como Akk e Book Kasidet como Theo, amigos de infância que se reencontram depois de anos separados. Theo retorna à Tailândia após viver na França e, já na universidade, encontra num livro da biblioteca uma mensagem assinada simplesmente por “Enchanté”. A partir daí, vários rapazes passam a reivindicar aquela identidade, enquanto Akk permanece ao lado dele tentando descobrir quem realmente escreveu as mensagens.

A premissa combina romance universitário, mistério leve e uma espécie de conto sentimental sobre reencontro, familiaridade e aquilo que procuramos longe quando talvez já estivesse perto.

Seu tom é deliberadamente suave.

E talvez parte de sua recepção relativamente modesta possa ser compreendida justamente pelo momento em que chegou.

A GMMTV vinha do enorme impacto de Bad Buddy, série que havia mobilizado o público com química muito intensa entre os protagonistas, conflito familiar, maior densidade emocional e uma consciência bastante sofisticada das convenções do gênero. Enchanté oferece outra experiência: menor, mais tranquila, menos explosiva e interessada numa espécie de romantismo quase confortável.

Uma parcela do público parece ter chegado esperando que a produção seguinte repetisse a intensidade do fenômeno anterior. Ela não tentou fazer isso.

Esse desencontro de expectativas é historicamente mais interessante do que simplesmente classificar a série como sucesso ou fracasso. Uma indústria que já possui público consolidado começa também a descobrir que o próprio público cria expectativas a partir das obras anteriores. Depois de um fenômeno, até a suavidade pode ser interpretada como insuficiência.

A construção do mistério também divide espaço com aquilo que progressivamente se torna mais interessante que a própria identidade de Enchanté: a relação entre Theo e Akk.

Force e Book ainda estão em estágio inicial como dupla. Há uma hesitação e uma irregularidade próprias de atores que ainda não acumularam a familiaridade em cena que trabalhos posteriores lhes darão. Ao mesmo tempo, existe material suficiente para que parte do público se interesse mais pelos intérpretes do que pelos personagens que os apresentaram.

O resultado é uma inversão curiosa. Enchanté não se torna uma das grandes obras lembradas de sua geração. ForceBook, porém, permanece.

A GMMTV continua investindo na dupla, permitindo que os dois adquiram experiência, construam confiança e encontrem personagens mais adequados às suas qualidades. Em 2023, A Boss and a Babe oferece a eles uma comédia romântica mais confortável e expansiva; poucos meses depois, Only Friends exige um registro muito mais adulto, sexual e moralmente instável.

É nessa comparação que Enchanté ganha valor histórico. A primeira obra não precisa conter a forma definitiva de um ship. Às vezes ela apenas apresenta os atores, e a dupla pode amadurecer depois dos personagens que a originaram.

Esse fenômeno será cada vez mais importante numa indústria em que as empresas já não avaliam necessariamente o futuro de uma parceria apenas pela recepção de sua primeira série. Química pode ser cultivada. Atuação pode amadurecer. O público pode construir afeto pelos intérpretes mesmo quando a obra inicial não produz o mesmo entusiasmo.

ForceBook demonstra, assim, uma possibilidade diferente daquela dos ships que explodem imediatamente.

Entre produções interessadas em reinventar o gênero por meio de crime, fantasia ou grandes dispositivos narrativos, La Cuisine (2022) segue um caminho muito menor. E justamente por isso merece permanecer em nossa história.

Mick Monthon e Pop Pattarapol ocupam o centro como Ram e Lukchup, numa narrativa em que comida, convivência e gestos cotidianos assumem peso consideravelmente maior do que grandes acontecimentos externos.

A culinária fornece o ponto de aproximação, mas a série não depende apenas do velho recurso de transformar comida em metáfora amorosa. Parte significativa de seu encanto está em cenas nas quais quase nada extraordinário acontece.

As pessoas comem.
Conversam.
Esperam.
Cozinham.
Visitam-se.
Dividem pequenos espaços e pequenas preocupações.
Existe uma espécie de conforto na banalidade.

Depois de anos em que tantas histórias precisavam de ciúme, rivalidade, conflitos familiares ou acontecimentos suficientemente grandes para sustentar o casal, La Cuisine recorda uma possibilidade muito simples: intimidade também pode nascer da repetição.

Gostamos de alguém porque começamos a reconhecê-lo dentro do cotidiano. Sabemos aquilo de que gosta. Percebemos quando está cansado. Guardamos uma comida. Esperamos sua chegada. O vínculo cresce porque determinadas presenças começam a parecer parte natural do dia.

Essa qualidade dá à obra um ritmo que talvez pareça modesto diante das produções mais ambiciosas de 2022, mas a modéstia aqui possui função própria. Nem toda expansão do BL precisa ocorrer em direção ao espetáculo.

Às vezes amadurecer também significa descobrir que o cotidiano basta.

Mick e Pop merecem ainda ser registrados porque seus nomes continuarão aparecendo. A importância de La Cuisine não está em transformá-los imediatamente numa das grandes duplas da geração, mas em colocá-los em circulação dentro de um mercado no qual atores podem atravessar pequenas obras antes de reencontrar espaço em projetos posteriores.

É mais uma dessas séries que funciona simultaneamente como narrativa e como primeira camada de uma genealogia. Quando esses rostos reaparecerem, não terão surgido do nada. Nós os encontramos aqui, dividindo uma refeição amorosa.

Outra dupla encontra seu início em Star in My Mind. Joong Archen retorna depois da experiência de 2 Moons 2 e encontra Dunk Natachai numa história universitária relativamente convencional sobre Daonuea e Khabkluen.

Comparada a várias obras discutidas nesta fase, a série parece quase modesta. Joong e Dunk ainda estão num estágio inicial de construção como dupla, e suas interpretações possuem uma juventude e uma irregularidade que trabalhos posteriores permitirão comparar com clareza. O interesse não está em ridicularizar essa imaturidade, mas em poder observá-la.

Ships de longa duração criam uma oportunidade rara: acompanhar atores aprendendo a trabalhar juntos diante do público. Postura. Tempo de comédia. Intimidade em cena. Controle corporal. Capacidade de sustentar silêncios. Tudo isso pode amadurecer.

Joong já possuía experiência anterior, enquanto Dunk ainda estava estabelecendo sua presença como protagonista. A química que inicialmente depende muito da aparência e da familiaridade crescente entre os dois ganhará material mais exigente em produções posteriores.

Para nosso estudo, portanto, Star in My Mind funciona quase como primeiro capítulo de uma biografia artística. O espectador de 2022 ainda não conhece completamente aquilo que JoongDunk se tornará. Nós, observando retrospectivamente, podemos acompanhar a construção.

A produção é pareada com Sky in Your Heart, que desloca a narrativa para uma comunidade distante da cidade e acompanha a aproximação entre Kuafah e Prince.

A estrutura inevitavelmente recorda o caminho aberto por A Tale of Thousand Stars: homem urbano, deslocamento para região rural, contato com comunidade local e romance ligado à experiência daquele espaço. O que antes representava grande ruptura já pode ser reutilizado como modelo. Esse detalhe pode significar que até as inovações viram convenção.

O ciclo não para.

Entre as produções menores de 2022, Restart(ed) merece ao menos algum espaço documental.

A série permanece bastante próxima do universo juvenil e das estruturas românticas familiares ao BL daquele período, sem promover uma ruptura formal comparável às obras centrais do ano. Seu interesse para esta história está menos na transformação do gênero e mais nos nomes que coloca em circulação.

Esse tipo de produção possui valor justamente porque mostra a profundidade adquirida pelo mercado: nem todo ator começa numa grande série. Nem todo ship nasce cercado por uma campanha capaz de torná-lo imediatamente conhecido fora da Tailândia.

Há artistas que atravessam pequenas produções, papéis secundários, mudanças de agência e novas combinações antes de encontrar o projeto que finalmente reorganiza sua carreira.

Entre os nomes que vale registrar estão Ome Sutthipong e Pie Saranvut, inseridos ainda numa camada da indústria em que reconhecimento e estabilidade permaneciam distantes das grandes duplas administradas pelas empresas dominantes.

Pie Saranvut é particularmente útil para nossa genealogia porque continuará circulando pelo ambiente BL e poderá ser reencontrado em projetos posteriores, permitindo acompanhar precisamente esse percurso intermediário: atores que não surgem como fenômenos, mas acumulam presença até encontrar novas oportunidades.

Ome também merece permanecer registrado pelo mesmo motivo. Quando futuros projetos recuperam um rosto que apareceu numa produção pequena, nossa história não precisa apresentá-lo como se tivesse surgido subitamente. Já o conhecemos.

Obras como Restart(ed) funcionam como camadas arqueológicas. Podem não alterar o curso do rio, mas registram quem já estava dentro dele antes que a corrente ganhasse força em outro lugar.

A GMMTV experimenta outra forma de deslocamento em Cupid’s Last Wish, novamente com Earth Sahaphap e Mix Sahaphap.

Depois da recepção de A Tale of Thousand Stars, seria fácil simplesmente repetir a mesma dinâmica. A produção prefere inserir fantasia, troca corporal, viagem e conflito familiar.

A alma de Win passa a ocupar temporariamente o corpo de sua irmã depois de um acidente, e a tentativa de reverter a situação o obriga a viajar ao lado de Korn, personagem de Mix, por quem carrega sentimentos atravessados por amizade, ressentimento e mal-entendidos.

A troca corporal cria questões curiosas sobre identidade, aparência e desejo. EarthMix permanece.

Os corpos percebidos em determinados momentos da narrativa mudam. Mix sente cólicas e vontade de comer, e fica sensível e chora. Isso testa novamente a relação entre ship e personagem. Quanto do romance depende da imagem física da dupla que o público aprendeu a reconhecer?

A série não leva essa pergunta até todas as consequências que poderia explorar, mas sua própria existência demonstra a liberdade adquirida por um casal já consolidado.

Eles podem sair da montanha. Podem trocar de gênero narrativo. Podem brincar com corpo e fantasia. O público acompanha EarthMix.

Esse mesmo princípio de confiança no ship aparece de outra forma em Love Mechanics. A história de Vee e Mark, interpretados por Yin Anan e War Wanarat, havia surgido originalmente como parte curta de En of Love, em 2020. O público pediu e a dupla permaneceu.

E, em 2022, aquilo que funcionara quase como experimento recebe uma produção longa, tecnicamente mais ambiciosa e dramaticamente mais cuidadosa.

Poucas trajetórias ilustram tão bem aquilo que chamamos anteriormente de laboratório. O formato pequeno testou a hipótese, o fandom validou e a indústria investiu. A nova versão oferece a Yin e War espaço para desenvolver personagens que anteriormente precisavam atravessar rapidamente paixão, conflito, infidelidade e sofrimento.

A diferença de tempo muda também a atuação. Silêncios podem durar. Erros deixam consequências. As hesitações de Vee e a vulnerabilidade de Mark recebem espaço para acumulação. O próprio ship amadurece junto da história.

Love Mechanics demonstra que um remake ou expansão não precisa existir porque a primeira versão fracassou. Pode existir justamente porque uma versão limitada revelou potencial demais para o espaço que recebeu.

Outro casal secundário completa movimento semelhante em Between Us.

Boun Noppanut e Prem Warut haviam conquistado fandom como Win e Team em Until We Meet Again. A demanda por mais história atravessou anos, mudanças na indústria e dificuldades de produção até finalmente resultar numa série dedicada ao casal. O que antes ocorria como trama lateral passa ao centro. E a mudança de perspectiva reorganiza até a obra original.

Momentos anteriormente observados a partir de Dean e Pharm recebem novas significações quando acompanhados por Win e Team.

A memória do fandom funciona como parte da narrativa, o espectador já conhece aquele universo e agora pode habitá-lo por outro corredor.

Between Us é, portanto, mais uma confirmação de que o público possui capacidade concreta de prolongar a vida de um casal secundário muito além da duração inicialmente prevista.

Em outro lugar da GMM TV, Vice Versa transforma uma premissa de universos paralelos numa experiência visual curiosamente delicada.

Talay, interpretado por Sea Tawinan, trabalha justamente com cor no universo audiovisual. Depois de um acontecimento inesperado, desperta numa realidade paralela ocupando a vida de outra pessoa. Ali encontra Puen, vivido por Jimmy Jitaraphol, que enfrenta situação semelhante.

A premissa já permitiria discutir identidade, corpo e a possibilidade de apaixonar-se por alguém cuja aparência não corresponde àquela conhecida em outra realidade. Mas há outra camada particularmente interessante: a cor organiza a série.

Os episódios utilizam títulos e paletas cromáticas que acompanham diferentes estados emocionais, fases da relação e atmosferas narrativas. Tons, figurinos, objetos e espaços participam de uma gramática visual que pode passar despercebida justamente porque opera com suavidade.

Isso possui uma ironia bonita. Talay trabalha com cor. A própria série pensa através dela.

O espectador pode acompanhar a história sem nunca conscientemente decifrar o sistema cromático, mas o corpo percebe aquilo que talvez a razão não nomeie. Um ambiente quente, uma roupa, uma mudança de saturação ou a repetição de determinada família tonal ajuda a produzir sensação antes que o roteiro precise explicá-la.

Vice Versa demonstra uma espécie de amadurecimento visual diferente daquele de I Told Sunset About You. Não precisa exibir a estética como grande gesto autoral. Pode incorporá-la à lógica cotidiana da produção.

Jimmy também atravessa uma genealogia recente, vindo de Bad Buddy, enquanto Sea ainda estabelece sua identidade como protagonista. A dupla nasce dentro de uma obra cuja própria premissa discute substituição de corpos e permanência de identidade, tema quase perfeito para uma indústria obcecada por saber o que exatamente o público reconhece quando reconhece um casal.

A dimensão criminal retorna no final do ano com Never Let Me Go, estrelada por Pond Naravit e Phuwin Tangsakyuen, que haviam formado um casal em Fish Upon the Sky, reaparecem agora dentro de uma narrativa muito mais sombria, mostrando sua consolidação como ship.

Nuengdiao, herdeiro de uma família poderosa, vive cercado por ameaças. Palm entra em sua vida ligado à função de proteção, criando uma relação atravessada por diferença de classe, dever e desejo.

Sob direção de Jojo Tichakorn, a série utiliza elementos de melodrama familiar, thriller, crime e romance.

Mais uma vez, a evolução da dupla interessa tanto quanto a história. PondPhuwin deixa a comédia universitária e precisa sustentar violência, medo, ressentimento, desigualdade e uma intimidade construída sob ameaça. O ship torna-se instrumento de mobilidade genérica.

O público que os conheceu numa forma acompanha os mesmos atores até outra. É exatamente aquilo que começávamos a vislumbrar com OffGun e MaxTul, agora transformado em prática cada vez mais normal. Mas a expansão de 2022 não depende apenas de grandes empresas ou de produções visualmente sofisticadas.

I Will Knock You segue por um caminho quase obstinadamente particular. A relação entre Thi e Noey utiliza diferença de personalidade, humor, gangues juvenis, referências culturais locais, música e uma estética que parece dialogar deliberadamente com outras décadas da cultura popular tailandesa.

Noey constrói para si uma imagem de jovem gângster quase fora de época. Gestos, roupas, músicas e comportamentos parecem ter sido recolhidos de outra memória cultural. A série encontra charme justamente naquilo que outras produções tentariam polir.

Ela é estranha. Específica. Muito tailandesa.

E isso importa depois da explosão internacional.

Uma indústria voltada para públicos globais corre sempre o risco de aprender a produzir aquilo que parece facilmente exportável. I Will Knock You recorda que singularidade local também pode viajar. O espectador internacional não precisa reconhecer antecipadamente todas as referências para sentir que existe ali um mundo cultural mais específico do que o campus genérico de tantas outras produções. Essa tensão entre local e internacional será cada vez mais importante.

E então, no final de um ano marcado por máfia, assassinato, loops temporais, fantasmas, universos paralelos, instituições autoritárias, melodramas familiares e reflexões existenciais, a GMM TV volta ao colégio.

My School President estreia no final de 2022 e atravessa os primeiros meses de 2023. A princípio, quase parece um retorno ao começo. Tinn, interpretado por Gemini Norawit, é presidente do conselho estudantil. Gun, vivido por Fourth Nattawat, lidera a banda Chinzhilla e luta para impedir o encerramento do clube de música.

Colégio. Uniformes. Primeiro amor. Amigos. Uma banda.

Poucos anos antes, poderíamos olhar para esses elementos e enxergar apenas a permanência da fórmula.

Em 2022, eles significam outra coisa: a indústria já provou que consegue sair. Portanto, pode voltar.

A fórmula escolhida conscientemente

My School President utiliza códigos muito conhecidos, mas os reorganiza ao redor de gentileza, humor, amizade, consentimento e música.

Tinn não ocupa a posição de presidente para exercer poder sobre Gun. Grande parte de sua autoridade é utilizada quase secretamente para ajudá-lo. O desejo existe antes que Gun saiba. O romance progride através de pequenos atos de cuidado, cumplicidade e apoio.

O conflito não precisa transformar nenhum dos dois em figura cruel para gerar interesse. Há uma confiança impressionante na capacidade de gestos pequenos sustentarem episódios inteiros.

Isso também revela amadurecimento. A indústria não precisa criar sempre violência emocional para produzir tensão, pode só deixar duas pessoas gostarem uma da outra.

GeminiFourth e a nova geração

Gemini e Fourth surgem como rostos de uma geração que já encontra uma indústria completamente diferente daquela que recebeu White e Captain em 2014. Eles não precisam ensinar ao público o que é BL. Entram num sistema com: agência estruturada; plataformas; treinamento; fandom internacional; música; publicidade; eventos; merchandising; redes sociais; e uma empresa que já sabe exatamente como transformar uma dupla popular em projeto de longo prazo. A diferença é brutal, pois o que antes precisava ser inventado agora pode ser administrado.

Música como estrutura, não acessório

A música constitui talvez o aspecto industrial mais revelador da série. Gun pertence a uma banda. Tinn se relaciona emocionalmente com ele através da música.

Canções originais e releituras acompanham episódios e momentos específicos. Ford Alan apresenta uma balada romântica poderosa. O grupo reinterpreta Just Being Friendly, de Tilly Birds e MILI e refaz o vídeo original no formato BL. Os próprios atores interpretam grande parte desse repertório. A OST deixa definitivamente de ser apenas trilha sonora.

Torna-se catálogo de apresentações: pode alimentar shows, pode ser cantada em fanmeetings, pode circular separadamente da série, pode consolidar a identidade individual dos atores.

Gemini e Fourth não são apresentados apenas como dois jovens capazes de interpretar Tinn e Gun. São preparados como performers. O caminho iniciado anos antes com artistas que ocasionalmente cantavam suas OSTs chega a um ponto em que a habilidade musical pode fazer parte da própria concepção do elenco. Atuação, música, performance ao vivo, publicidade e ship formam um único circuito. Essa integração será decisiva para o modo como a GMMTV passa a trabalhar suas gerações posteriores.

Por isso My School President merece posição central nesta fase mesmo parecendo, superficialmente, a produção menos revolucionária entre nossas obras-nó.

KinnPorsche demonstra que o BL pode vestir crime.

The Eclipse mostra que pode transformar uma instituição autoritária em metáfora para desejo, medo e obediência.

Love in the Air radicaliza erotização, trauma e a máquina de ships associada aos universos de MAME.

My School President realiza movimento quase contrário.

Volta à juventude. Volta à escola. Volta ao primeiro amor. Mas encontra aquele espaço depois que o gênero já aprendeu a fazer tantas outras coisas. O retorno não representa regressão, é a escolha de uma indústria que já se conhece bem o suficiente para saber onde, quando e em quem apostar.

Essa talvez seja a verdadeira conquista de 2022.

O BL deixa de precisar fugir da própria origem para demonstrar amadurecimento.

Pode vestir máfia.
Pode vestir fantasia.
Pode vestir lakorn.
Pode vestir thriller médico.
Pode vestir drama existencial.
Pode vestir crítica institucional.
Pode vestir uma pequena comédia romântica escolar.

O casal deixa de determinar o gênero da história.

Passa a habitá-lo.

Ao observar o ano inteiro, percebemos diversas linhagens surgindo simultaneamente.

KinnPorsche amplia escala, orçamento, erotização e capacidade de transformar elenco em espetáculo coletivo.

Cutie Pie revela a força crescente da Domundi/Mandee e leva a integração entre personagem, música, artista e imagem pública a outro patamar.

Love in the Air consolida outra geração de ships dentro do universo de MAME e demonstra a permanência comercial da erotização intensa.

War of Y transforma a própria fabricação dos ships em matéria dramática.

Triage prova que um romance pode ser organizado por regras de time loop e suspense médico.

Dear Doctor, I’m Coming for Soul utiliza fantasia e morte enquanto recupera atores que carregam memória desde 2016.

180 Degree Longitude Passes Through Us reduz a narrativa quase ao teatro e transforma desejo, escolha, renúncia e memória em problema existencial.

The Miracle of Teddy Bear ocupa a linguagem e o espaço televisivo do grande melodrama familiar.

To Sir, With Love aproxima de tal maneira romance masculino e lakorn que as antigas divisões de gênero começam a perder utilidade.

The Eclipse faz da escola um espaço de disciplina, medo e resistência.

Star in My Mind permite acompanhar o nascimento ainda irregular de JoongDunk e registrar aquilo que uma parceria poderá aprender com o tempo.

Sky in Your Heart mostra que até a saída para o ambiente rural já pode ser transformada em convenção reutilizável.

Cupid’s Last Wish testa a estabilidade de EarthMix dentro de fantasia e troca corporal.

Love Mechanics comprova que uma experiência curta pode gerar fandom suficiente para justificar uma reconstrução completa.

Between Us demonstra que um casal secundário pode sobreviver anos até receber sua própria obra.

Vice Versa utiliza cor como gramática emocional dentro de uma fantasia de universos paralelos.

I Will Knock You recorda o valor da especificidade cultural em uma indústria cada vez mais internacional.

Never Let Me Go desloca PondPhuwin da comédia universitária para crime, classe e melodrama.

E My School President encerra o movimento demonstrando que a escola continua disponível, mas já não funciona como prisão imaginativa.

Em 2016, perguntávamos qual seria a fórmula do BL. Em 2022, a pergunta começa a perder sentido.

Há fórmulas.
Há linhagens.
Há empresas com identidades diferentes.
Há autores especializados.
Há diretores reconhecíveis.
Há ships capazes de atravessar gêneros.
Há atores que cantam, dançam, anunciam produtos e sustentam concertos.
Há televisão aberta e streaming.

Há séries que desejam milhões de espectadores e pequenas obras que parecem satisfeitas em cultivar uma voz singular. O BL tailandês deixa de parecer um gênero narrativo estreito.

Começa a funcionar como um regime de produção e recepção, capaz de receber crime, fantasia, melodrama, comédia, thriller, política, música ou drama existencial sem perder completamente aquilo que faz o público reconhecê-lo.

A fórmula não desapareceu.

Transbordou.

E, em 2023, já não haverá sequer uma direção dominante para onde toda essa água possa correr.

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