quarta-feira, 23 de setembro de 2026

História Crítica dos BLs Tailandeses VI: ERA II — Quando o casal ganhou vida própria: do gênero ao sistema (2017–2019)


 "Eu vi a todos os filmes de amor, 
e encontrei você em cada um deles!" 
(Theory of Love)

Fase III: Nas bordas da primeira fórmula: o gênero começa a exceder a si mesmo (2019)

Em 2019, o BL tailandês chega a um ponto particularmente fértil: sua linguagem já está dominada, ou, pelo menos, a sua primeira linguagem.

Universidade, engenharia, casais múltiplos, slow burn, fanservice, ships recorrentes, novels adaptadas, fanmeetings, OSTs, plataformas digitais e fandom internacional deixaram de ser novidade. O sistema funciona.

E justamente por funcionar tão bem começa a revelar seus limites.

Algumas obras respondem ampliando o repertório narrativo; outras tensionam temas que a indústria vinha evitando; algumas radicalizam suas fórmulas até tornarem evidentes suas contradições. O resultado é um ano em que o BL não abandona sua primeira forma, mas começa a escapar dela pelas bordas.

A chave desta fase poderia ser formulada assim: 2019 é o momento em que o BL deixa de perguntar apenas como contar um romance entre dois homens e começa a perguntar que outros tipos de história podem existir ao redor desse romance. 

Great Men Academy (2019) é importante justamente porque atrapalha nossas categorias. Love, uma jovem apaixonada por um aluno da Great Men Academy, recebe a oportunidade de transformar-se fisicamente em um rapaz e ingressar na escola masculina frequentada por ele. A experiência coloca em crise aquilo que parecia ser uma história simples de paixão, porque desejo, corpo, identidade e reconhecimento deixam de coincidir de maneira previsível. 

A narrativa utiliza muitos elementos reconhecíveis no ecossistema BL: escola masculina, atores jovens, desejo entre corpos masculinos, fandom e estética juvenil. Contudo, sua relação com gênero e identidade torna qualquer classificação rápida insuficiente.

Ela demonstra que, ao redor da expansão do BL, outras produções estavam explorando temas semelhantes por caminhos diferentes. Isso será importante para evitar que nossa história trate a indústria BL como se tivesse monopolizado toda representação de desejo entre homens na televisão tailandesa. 

Para isso, também é importante notar a presença da Nadao Bangkok, nome que vai se tornar alternativa à GMM TV. No elenco ligado ao seu universo temos nomes como James Teeradon, Jaylerr Krissanapoom, Ice Paris e o retorno de Captain Chonlathorn (de Love sick - The Series). Boa parte do elenco também tem forte ligação com a música, já evoluindo aquilo que foi apresentado antes: os artistas com habilidades em várias áreas.

A indústria percebe a necessidade de uma expansão, e então surge He’s Coming to Me (2019). 

A obra apresenta Singto Prachaya como Mes e Ohm Pawat como Thun. Mes morreu jovem e permanece como espírito ligado ao local onde suas cinzas foram depositadas. Anos depois, conhece Thun, um rapaz capaz de enxergá-lo. A amizade entre os dois gradualmente se transforma em amor enquanto tentam descobrir as circunstâncias da morte de Mes.

Aqui o sobrenatural não serve apenas como decoração. Mes está morto. Esse fato define a relação. O desejo entre os dois nasce dentro de uma impossibilidade literal, e é justamente isso que permite à série trabalhar perda, memória, solidão e aceitação de maneira diferente do BL universitário convencional.

Sob a direção de Aof Noppharnach, esse nome começará a tornar-se uma figura particularmente importante nesse movimento de expansão. Seus projetos posteriores continuarão interessados em personagens LGBTQ+, família, comunidade e espaços sociais que ultrapassam o simples mecanismo de formação do casal.

Há ainda uma dimensão industrial bastante relevante: Singto participa de uma obra BL com outro parceiro quando KristSingto já era um dos ships mais consolidados da GMMTV. Isso testa diretamente a autonomia do ator e pergunta se o público aceitaria vê-lo formando outro casal?

A resposta ajuda a demonstrar que o ship, por mais forte que seja, ainda não precisa aprisionar completamente a carreira individual. Ohm, por sua vez, reaparece em outra combinação depois de Make It Right, confirmando a fluidez que sua carreira terá durante vários anos.

Nesse ínterim aparece uma pequena obra com grande valor documental: ReminderS (2019), minissérie que reúne atores ligados a ships já conhecidos, incluindo PerthSaint, MeanPlan e outros nomes populares da geração.

A obra acompanha casais e personagens em pequenas situações cotidianas, funcionando menos como narrativa autônoma e mais como reencontro entre atores, personagens e fandom. ReminderS é valiosa porque demonstra que o público já reconhece atores de BL como um repertório coletivo.

Não precisamos mais apresentar cada intérprete desde o início, o espectador conhece o rosto, lembra do ship anterior e carrega consigo parte da história. Esse tipo de produção só funciona quando existe memória compartilhada. Em apenas cinco anos, portanto, o BL já começa a produzir uma espécie de star system próprio. 

Com um universo já estabelecido, nomes consolidados, a indústria resolve alavancar a qualidade de suas obras para outro patamar, e é onde encontramos Theory of Love (2019), que traz Off Jumpol como Khai e Gun Atthaphan como Third sob a direção de Nuttapong Mongkolsawas. Third estuda cinema e é apaixonado há anos por Khai, seu melhor amigo, que mantém sucessivos relacionamentos com mulheres e demonstra pouca consciência do sofrimento que provoca. Quando Third começa a se afastar, a dinâmica entre os dois muda e Khai é obrigado a confrontar aquilo que sempre tomou como garantido.

Estamos diante de uma etapa fundamental da biografia de OffGun. Pick e Rome haviam demonstrado o potencial da dupla. Theory of Love permite que Off e Gun assumam personagens completamente diferentes e testa se aquilo que o público acompanha pertence apenas a Pick/Rome ou aos próprios atores.

A resposta é decisiva: o ship sobrevive à troca de personagens. Aqui a ideia de “biografia do casal” que identificamos em 2017 amadurece significativamente. A obra explora muito mais da capacidade de atuação dos dois: as cenas são mais dramáticas, trazem peso maior, envolvem situações limítrofes e flerta com problemas psicológicos reais, como a dependência emocional.

O cinema aqui não funciona apenas como curso universitário, os personagens pensam suas emoções através de filmes. Referências cinematográficas, gêneros, cenas clássicas e linguagem visual passam a participar da própria construção afetiva. Isso dá a Theory of Love uma consciência formal pouco comum entre os primeiros BLs. Third não sofre simplesmente por amor, ele possui um repertório cultural através do qual interpreta o sofrimento. 

Na tentativa de não ficar para trás na corrida que já movimenta valores consideráveis, a produtora Motive Village aposta em  2 Moons 2 (2019). A série reconta parte da história inicial de Phana e Wayo antes de avançar para material que amplia os arcos dos demais casais, especialmente Ming/Kit e Forth/Beam. Benjamin Brasier e Earth Teerapat assumem Phana e Wayo. Joong Archen e Nine Kornchid interpretam Ming e Kit e, por fim, Pavel Naret e Dome Woranart são Forth e Beam.

Poucas obras são tão úteis para compreender a diferença entre personagem, ator e ship. Os atores mudam, os personagens permanecem. 

O público precisa decidir quanto de seu afeto pertence à ficção e quanto estava ligado aos intérpretes anteriores. O novo elenco consegue conquistar seu próprio fandom, demonstrando que uma propriedade pode sobreviver a uma troca radical, mas também revela o preço dessa substituição. Pavel realiza lives onde se aproxima do público, especialmente o brasileiro, por quem desenvolve um carinho particular. Earth aposta na música, não profissional, mas como hobby, Joong é modelo com carisma e beleza.

A propriedade intelectual praticamente se vira contra a memória afetiva e 2 Moons 2 é quase um estudo de caso perfeito. Para a produtora, Phana e Wayo continuam existindo porque pertencem à obra. Para uma parte do fandom, os personagens haviam adquirido rostos específicos. As duas coisas entram em conflito.

A série demonstra que o BL já possui propriedade intelectual suficientemente valiosa para justificar recasting, mas também que ships não são peças completamente substituíveis.

Infelizmente essa versão também encontra tensões nos bastidores. Uma parte do elenco, exceto Earth, forma um grupo musical, quase aos moldes do que aconteceu com o primeiro elenco, mas sem o sucesso musical imediato daquele. O grupo se separa, a continuação, se ocorrer, deve acontecer com outro elenco, e cada um precisa reencontrar seu lugar na indústria. Alguns desses nomes vão reaparecer com mais frequência. Joong se torna importante nome na GMM TV com um ship fixo. Pavel também se consolida com outro parceiro e obras de sucesso. Nine escolhe o caminho da música na China. Earth busca se estabilizar em alguma agência, seja como modelo ou ator. 

Dificuldades geram amadurecimento na carreira de alguns, mas também pode atrasar o sucesso. Por outro lado, a estabilidade pode permitir uma maturação maior. É o que acontece com TayNew em Dark Blue Kiss (2019). Sob a direção de Aof Noppharnach Chaiwimol, Tay Tawan  retorna como Pete e New Thitipoom como Kao, aprofundando o desenvolvimento dos personagens anteriormente apresentados em Kiss e Kiss Me Again.

Pete e Kao já estão juntos, mas precisam lidar com ciúme, família, trabalho e a dificuldade de tornar pública uma relação que não possui o mesmo significado para ambos. Kao começa a dar aulas particulares a Non, circunstância que alimenta inseguranças de Pete, enquanto problemas familiares e profissionais tornam o relacionamento cada vez mais difícil de esconder.

Dark Blue Kiss é a culminação perfeita daquilo que começara com um casal secundário. PeteKao atravessa diferentes produções até finalmente receber o centro narrativo. A trajetória inteira constitui quase um resumo da Era II: personagens secundários conquistam um fandom, ganham espaço e se tornam produto próprio.

A série também amplia o repertório temático. Kao precisa trabalhar. Há pressão familiar. Há diferença entre assumir-se no espaço privado e no público. O conflito não depende apenas da pergunta “eles se amam?”. O amor existe. O problema agora é como esse amor pode existir socialmente. Esse deslocamento aproxima o BL de temas que dramas LGBTQ+ já trabalhavam há muito tempo, mas que a primeira fórmula frequentemente contornava.

Concentrando boa parte das contradições da indústria naquela época, surge o fenômenos TharnType: The Series (2019), mais uma obra baseada no universo compartilhado de MAME, que agora possui sua própria produtora, a Me Mind Y.

Trazendo Mew Suppasit como Tharn e Gulf Kanawut como Type, este entra na universidade carregando forte aversão a homens gays, relacionada a um trauma sofrido na infância. Quando descobre que seu colega de quarto, Tharn, é gay, tenta expulsá-lo. O conflito entre os dois evolui para atração sexual e posteriormente para uma relação afetiva.

Como dito, TharnType é indispensável porque concentra várias das grandes contradições do BL daquele momento. Existe enorme química entre os protagonistas. Existe erotização mais intensa. Existe um fandom extremamente ativo. Existe ligação com um universo literário já conhecido.

E existem problemas sérios relacionados a consentimento, trauma e à maneira como a narrativa utiliza sexualidade para transformar hostilidade em desejo. Tudo isso convive dentro do mesmo fenômeno.

Se Love by Chance já havia revelado o poder de um universo compartilhado, TharnType confirma que MAME consegue transferir audiência entre diferentes obras. Personagens reconhecem outros personagens. Histórias se conectam. O fã passa de uma série para outra. A autora torna-se uma marca.

A promoção de Mew e Gulf alcança escala enorme e intensifica ainda mais a sobreposição entre ator e ship, comparada apenas a MaxTul. Aqui o fanservice já não parece atividade complementar, mas parte constitutiva da experiência de consumo. Eventos, entrevistas, campanhas e aparições conjuntas transformam MewGulf num produto cultural paralelo à própria série.

E, já que TharnType apresenta contradições, outra obra chega com um tom crítico fora da curva estabelecida até aqui: The Effect (2019) se apresente como contraponto crítico ao apresentar um drama psicológico com violência sexual e suas consequências sociais.

Nela, a aproximação entre dois estudantes, inicialmente percebida através de códigos familiares ao BL universitário, toma um rumo brutal depois de uma situação de violência sexual. A narrativa então se concentra nas consequências psicológicas e sociais do trauma.

The Effect  desmonta convenções que outras séries tratavam de maneira romântica ou ambígua. Em vários BLs daquele período, coerção, insistência e invasão de limites podiam aparecer como parte da conquista amorosa. Aqui a obra pergunta o que acontece quando esses mesmos gestos deixam de ser protegidos pela fantasia romântica.

É desconfortável.

E precisa ser.

A obra cria um contraste fortíssimo com TharnType, lançada no mesmo ano.

Não para decidir que uma é “correta” e outra “errada”, mas para demonstrar que 2019 já contém leituras radicalmente diferentes do mesmo problema.

E já que tocamos em temas sensíveis, uma obra se mostra decisiva ao trabalhar um tema quase tabu: o suicídio e suas consequências. Until We Meet Again (2019), baseada na novel The Red Thread, de LazySheep, foi adaptada pelo Studio Wabi Sabi com direção New Siwaj. 

Ela apresenta Fluke Natouch (de My Bromance) como Pharm e Ohm Thitiwat como Dean, além Earth Katsamonnat como Intouch e Kao Noppakao como Korn. Dean e Pharm sentem desde o primeiro encontro uma familiaridade inexplicável. Aos poucos descobrem que suas vidas estão ligadas ao romance de Korn e Intouch, jovens que, décadas antes, foram impedidos pelas famílias de permanecer juntos e morreram tragicamente.

O passado retorna através de memórias, sonhos, sensações e vínculos familiares, fazendo com que a história contemporânea se torne também uma tentativa de resolver aquilo que a geração anterior não conseguiu.

Until We Meet Again amplia drasticamente aquilo que o BL pode fazer com o tempo. Aqui existem dois romances, duas gerações e uma ferida que atravessa famílias inteiras. A história amorosa deixa de ser apenas presente. Ela possui memória, não apenas para os dois, mas para ambas as famílias. 

O sofrimento de Korn e Intouch não termina com suas mortes. Permanece nas famílias, nos objetos, nos silêncios e nos próprios corpos de Dean e Pharm. Isso dá à série uma dimensão melodramática muito mais ampla do que a maioria das obras anteriores. O romance atual existe quase como resposta a uma tragédia herdada.

Nesse ponto, a trajetória de Fluke Natouch adquire um valor historiográfico excepcional. Anos antes, ele já havia protagonizado My Bromance, ainda naquele período em que o romance entre homens e a tragédia pareciam caminhar perigosamente próximos. Agora retornava ao centro de uma produção muito mais estruturada, cercado por uma novel conhecida, distribuição digital, fandom internacional, múltiplos ships, eventos e uma identidade musical fortemente associada à obra. O mesmo ator atravessava duas épocas do BL tailandês.

Mas havia outra particularidade que torna sua presença em Until We Meet Again ainda mais importante: Fluke era um ator abertamente gay ocupando o papel de protagonista numa indústria que, apesar de ter construído seu sucesso comercial justamente sobre romances entre homens, ainda reservava relativamente pouco espaço de grande projeção para intérpretes que falavam publicamente sobre a própria homossexualidade.

Earth Katsamonnat, intérprete de Intouch, também falava abertamente sobre sua sexualidade. A presença dos dois dentro de uma das produções mais populares daquele momento não deve ser reduzida a curiosidade biográfica. Ela expõe uma das contradições mais persistentes da história do BL tailandês.
Durante anos, a indústria demonstrou enorme desenvoltura para comercializar o desejo homoafetivo enquanto preservava, ao redor de muitos de seus atores, uma cuidadosa zona de indefinição. O fanservice dependia frequentemente dessa ambiguidade: os intérpretes podiam reproduzir intimidade, ciúme, flerte e declarações cuidadosamente calculadas, desde que a vida concreta permanecesse suficientemente distante para que diferentes fantasias continuassem possíveis.

Sua presença tornava impossível sustentar completamente a separação entre a homossexualidade como produto ficcional e a homossexualidade como experiência concreta de pessoas que trabalhavam naquela mesma indústria. Eles não representavam simplesmente personagens gays. Eram artistas publicamente assumidos encontrando espaço dentro de um mercado que ainda demoraria anos para oferecer oportunidades semelhantes com alguma regularidade.

Isso não significa que Until We Meet Again marque uma transformação definitiva. Muito pelo contrário. A raridade de casos semelhantes nos anos posteriores torna esse momento ainda mais revelador. Atores abertamente LGBTQ+ continuariam aparecendo, alguns conquistariam grande popularidade, mas sua presença entre os protagonistas de maior projeção permaneceria pontual durante boa parte do período abordado neste estudo. A exceção, justamente por continuar sendo exceção, merece ser registrada.

No caso de Fluke, essa visibilidade coexistiu ainda com uma das parcerias profissionais mais duradouras daquela geração. Ohm Thitiwat, intérprete de Dean, permaneceria ao seu lado durante anos em séries, campanhas publicitárias, videoclipes, apresentações musicais, fanmeetings e eventos de grande porte. OhmFluke tornou-se um ship reconhecível sem que a sexualidade publicamente conhecida de Fluke precisasse ser escondida para sustentar a dupla.

A parceria oferecia ao fandom proximidade, carinho e continuidade profissional, mas não dependia necessariamente da mesma fantasia de indefinição que cercava outras duplas. Ohm e Fluke podiam demonstrar afeto, respeito e intimidade construída por anos de trabalho sem exigir que o público acreditasse numa relação amorosa entre os intérpretes.

Quando Ohm posteriormente tornou público um relacionamento com uma mulher, essa realidade não anulou automaticamente a parceria. Em entrevistas, os próprios atores chegaram a tratar da situação com naturalidade, inclusive mencionando que ela conhecia e havia assistido aos trabalhos realizados pela dupla.

Há algo importante nessa aparente simplicidade, pois existência de uma relação profissional duradoura entre um ator heterossexual e um ator abertamente gay demonstrava que o ship não precisava depender da negação da vida concreta de nenhum dos dois para sobreviver. O afeto promocional podia existir sem transformar orientação sexual em obstáculo, segredo ou ameaça permanente ao produto.

Também seria ingênuo transformar esse caso numa história de perfeita tolerância. A indústria continuaria produzindo contradições, e outros atores LGBTQ+ encontrariam obstáculos bastante diferentes. O que OhmFluke oferece é uma possibilidade histórica: a demonstração de que outra relação entre fandom, fanservice e vida privada podia existir.

Por isso, a presença de Fluke e Earth em Until We Meet Again ultrapassa a representatividade dos personagens que interpretam. Ela insere, dentro de uma das grandes produções de 2019, pessoas LGBTQ+ que já não precisavam permanecer completamente escondidas atrás das histórias que a indústria vendia.

Num gênero construído sobre homens que amam homens, isso deveria parecer banal. Durante muito tempo, não foi.

Há ainda outro fenômeno familiar. Boun Noppanut e Prem Warut, intérpretes de Win e Team, os melhores amigos de Dean e Pharm, conquistam grande atenção como casal secundário. Outra vez, o fandom seleciona um par e começa a pedir mais. Anos depois eles receberão Between Us, mesmo sendo de agências diferentes. Depois ambos se mudam para a mesma empresa, atravessando várias fases da nossa história. 

Boy Sompob volta ainda a integrar fortemente a memória sonora da produção que, depois regravada pelo elenco, vai dar o tom das produções musicais das próximas séries: apelo emocional fazendo o fandom se apegar a tudo que os atores produzem.

No entanto, nem tudo vai bem, e What the Duck: Final Call (2019) se torna exemplo de uma franquia tentando preservar relações e conflitos apresentados anteriormente e mostra que nem todo produto consegue manter intacta a força de sua primeira formação.

As produções de menor proporção continuam, e I Am Your King 2 (2019) Tal como a primeira temporada, serve principalmente como documento da capacidade de pequenas franquias sobreviverem dentro do nicho. Já não é necessário que cada projeto aspire a tornar-se fenômeno nacional. Existe público suficiente para produções menores retornarem e encontrarem sua parcela de espectadores. 

Enquanto Until We Meet Again experimenta memória e reencarnação e Theory of Love brinca com cinema, outras produções continuam utilizando estruturas muito próximas daquelas consolidadas anos antes. E Thank God It’s Friday (2019) tenta provar que uma nova fase nunca elimina imediatamente a anterior. 

Ambiente juvenil, grande elenco, relações múltiplas e códigos já estabelecidos revelam como a primeira linguagem do BL continua ativa mesmo quando as obras mais importantes do mesmo ano começam a expandi-la.

Podemos destacar quatro movimentos transversais sobre as mudanças da indústria em 2019:

O ship começa a sobreviver à troca de personagem OffGun demonstra que uma dupla pode funcionar com personagens completamente diferentes. Mew reaparece com Gulf depois de Art. Ohm Pawat continua mudando de parceiro.

O mercado começa a compreender que existem modelos diferentes:

ship fixo,
ator circulante,
casal circunstancial.

Isso vai se tornar ainda mais importante na década seguinte.

Autores se transformam em marcas MAME já consegue levar público de uma adaptação para outra. LazySheep chega à televisão com Until We Meet Again. A literatura Y precisa, portanto, ser tratada como parte ativa da indústria, não como depósito de roteiros.

Diretores começam a possuir assinatura reconhecível: Aof Noppharnach e New Siwaj já podem ser acompanhados através de obras diferentes. Jojo Tichakorn também está formando uma trajetória. Gradualmente, o público começa a aprender nomes por trás das câmeras. Isso representa amadurecimento cultural: o BL deixa de ser reconhecido apenas por seus atores.

A primeira fórmula começa a dividir-se em linhagens. Em 2019 já podemos enxergar: BL romântico universitário; melodrama; sobrenatural; metalinguagem;drama queer; sexualidade mais explícita; trauma; histórias adultas; universos literários compartilhados.

Ainda existe uma linguagem comum.

Mas ela já não consegue explicar tudo.

Se tivermos de escolher algumas obras para carregar esse ano:

He’s Coming to Me, porque demonstra que o sobrenatural pode organizar o romance;

Theory of Love, porque acrescenta consciência estética e mostra um ship sobrevivendo à troca radical de personagens;

2 Moons 2, porque transforma a disputa entre personagem, ator, produtora e fandom num problema impossível de ignorar;

Dark Blue Kiss, porque leva um casal secundário até protagonismo e desloca a questão para trabalho, classe, família e visibilidade;

TharnType, porque concentra erotização, sucesso industrial, fanservice e as contradições éticas do período;

Until We Meet Again, porque expande o BL para memória, trauma, família e temporalidade.

The Effect funcionaria como contraponto necessário.

Great Men Academy lembraria que as fronteiras continuam instáveis.

As demais produções ajudariam a preencher o cenário sem exigir o mesmo espaço. Ao final de 2019, a primeira Era industrial do BL está completa.

O gênero sabe criar casais. Sabe transformá-los em ships. Sabe construir fandom. Sabe prolongá-los por continuações. Sabe produzir universos literários. Sabe vender músicas, eventos e publicidade. Sabe recuperar personagens e criar memória.

E, mais importante, já aprendeu a escapar de algumas das próprias convenções. O problema agora deixa de ser a sobrevivência e passa a ser a escala.

Em poucos meses, uma pandemia colocará milhões de pessoas diante das telas ao mesmo tempo, justamente quando o BL tailandês já dispõe de plataformas digitais, fandoms internacionais, atores transformados em marcas e uma década de experiências acumuladas.

O que havia sido construído lentamente entre 2014 e 2019 encontrará condições extraordinárias de expansão.

Em 2020, o mundo finalmente abrirá a porta.

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