quarta-feira, 23 de setembro de 2026

História Crítica dos BLs Tailandeses IV: ERA II — Quando o casal ganhou vida própria: do gênero ao sistema (2017–2019)


 "Você não precisa vencer o concurso 
e se tornar a Lua da universidade. 
Porque você já é a única lua no meu coração." 
(Phana, 2Moons)

 Fase I: Depois dos personagens (2017)

A partir de 2017, as produções BL começam a se multiplicar e ensaiam uma saída mais perceptível da bolha que até então as sustentava. Os atores ocupam com frequência crescente um espaço para além das séries: comerciais, eventos sociais, campanhas publicitárias, lançamentos de produtos e grandes grupos de embaixadores passam a incorporar rostos vindos daquele universo. As marcas começavam a perceber uma característica especialmente valiosa desses artistas: a capacidade de mobilizar comunidades extremamente ativas na internet e transformar atenção em visibilidade quase imediata.

O movimento também acontecia no sentido inverso. Artistas que já possuíam alguma experiência ou reconhecimento em outros setores do entretenimento começavam a participar de produções BL, aumentando a circulação entre um nicho ainda jovem e o restante da indústria tailandesa.

A relação dos fãs com os atores também mudava. Assistir à série já representava apenas uma parte da experiência. O público acompanhava anúncios de projetos, escolha do elenco, workshops, fotografias promocionais, bastidores, estreia, transmissão semanal e, depois do encerramento, turnês, encontros com fãs, campanhas publicitárias e novos trabalhos. A obra ganhava uma espécie de vida anterior e posterior à própria exibição e o casal começava a escapar dos limites da história.

Uma das produções que melhor permitem observar esse processo é 2 Moons: The Series (2017), adaptação da popular novel de Chiffon_Cake.

Protagonizada por God Itthipat como Phana e Bas Suradet como Wayo, a série utiliza uma estrutura particularmente fértil para aquilo que a indústria começava a desenvolver: múltiplos casais inseridos no cotidiano universitário e ligados, direta ou indiretamente, à competição de “Moon” e “Star” das faculdades. O evento guarda alguma semelhança com concursos universitários de representação, nos quais jovens escolhidos por seus cursos participam de desfiles, apresentações artísticas, entrevistas e outras atividades até que sejam selecionados os representantes da universidade.

Wayo ingressa na mesma instituição frequentada por Phana, por quem alimenta sentimentos desde os tempos de escola. Ao ser escolhido para representar sua faculdade na competição, acaba finalmente se aproximando do rapaz que durante tanto tempo observou à distância. Ao redor deles, outros vínculos começam a se formar, ampliando a história para muito além do casal central.

2Moons leva adiante algo que Make It Right já havia sugerido: uma produção não precisava comercialmente depender de um único casal. A própria estrutura podia funcionar como um sistema de ships.

Mais pares significavam mais atores capazes de despertar identificação, mais grupos internos de fãs, mais possibilidades de eventos, fotografias, publicidade e material promocional. O espectador podia chegar pela história de Phana e Wayo e permanecer por Ming e Kit, ou interessar-se especialmente por Forth e Beam. O elenco, dessa maneira, deixava de operar apenas como conjunto dramático e começava a oferecer várias portas de entrada para o fandom.

Copter Panuwat e Kimmon Warodom, intérpretes de Kit e Ming, continuariam trabalhando como dupla por um período considerável. Tae Darvid e Tee Thanapon, cujos personagens Forth e Beam receberam espaço menor naquela primeira adaptação, também procurariam outras maneiras de permanecer próximos ao público. Bas, Kimmon, Copter, Tae e Tee formariam posteriormente o grupo musical SBFIVE, enquanto God, ligado a outra estrutura de agenciamento, seguiria outro caminho.

Esse desdobramento é importante porque revela uma nova possibilidade profissional. A série podia terminar, o personagem podia desaparecer e mesmo assim o ator permanecer inserido num circuito construído a partir daquele público. O elenco passa a sobreviver à obra.

A história posterior de 2Moons tornaria essa questão ainda mais evidente. A propriedade seria adaptada novamente com outros intérpretes, fazendo com que os mesmos personagens passassem por diferentes rostos e diferentes gerações de fandom. Antes mesmo da continuação, porém, mudanças no projeto original e controvérsias envolvendo escalação e direção já haviam colocado em evidência uma tensão que acompanharia o BL por muitos anos. Entre os debates da época apareciam inclusive questões relacionadas à presença de atores assumidamente gays dentro de uma indústria construída justamente em torno de romances entre homens, contradição que merece ser retomada com documentação própria quando analisarmos os bastidores da produção.

O ponto estrutural permanece particularmente revelador: quem possui o casal? A produtora que detém a obra?Os personagens escritos na novel? Os atores escolhidos para interpretá-los? Ou o público que passou meses associando determinados rostos àqueles nomes?

A substituição de um elenco inteiro demonstra que essas coisas não são equivalentes.

Depois de 2 Moons, Bas já não era apenas Wayo. Para o público, ele também era Bas Suradet, artista cuja presença podia despertar interesse independentemente do personagem que o havia tornado conhecido. Outros integrantes do elenco passariam por fenômeno semelhante, ainda que em escalas diferentes. A identidade comercial do ator começava a desprender-se da identidade ficcional. Em alguns casos, entretanto, os intérpretes não apenas sobreviviam aos personagens. Levavam consiga própria relação construída pela obra. É nesse ponto que aparece o fenômeno MaxTul.

Together With Me (2017) retorna aos personagens apresentados em Bad Romance no ano anterior e reconstrói o início do relacionamento entre Korn e Knock, com adaptações de continuidade necessárias para que a nova produção pudesse colocá-los no centro da narrativa.

Max Nattapol e Tul Pakorn reassumem os papéis dos dois amigos de infância. Depois de uma noite marcada pelo álcool, Korn e Knock têm uma relação sexual que altera de maneira profunda a amizade entre eles. Korn já compreende melhor aquilo que sente, enquanto Knock precisa lidar tanto com o ocorrido quanto com o relacionamento que mantém com uma mulher.

A série apresenta algumas rupturas importantes em relação às obras que dominaram os primeiros anos do gênero: em primeiro lugar, Korn e Knock já possuem história.

O público que vinha de Bad Romance não precisava ser apresentado inteiramente a eles. Suas personalidades, conflitos e parte de sua dinâmica já eram conhecidas. Havia uma intimidade anterior entre personagem e espectador, quase a sensação de retornar a uma casa conhecida, agora observada por outro ângulo. A dimensão sexual também aparece muito cedo.

Max e Tul eram ligeiramente mais velhos que muitos dos protagonistas adolescentes apresentados até então, e Together With Me se permitia explorar o corpo e o desejo de maneira mais direta. Essa característica continuaria fora da tela. As aparições públicas de MaxTul frequentemente envolviam música, dança, contato físico, humor e uma imagem mais adulta da intimidade, contribuindo para consolidar uma modalidade de promoção mais corporal e sexualizada do casal.

A diferença em relação ao modelo juvenil de WhiteCaptain ou mesmo ao romantismo mais contido de KristSingto era perceptível. MaxTul representava outra possibilidade.

Essa identidade também encontrou público fora da Tailândia. A dupla participou de eventos internacionais em diferentes países, inclusive no Brasil, e ajudou a demonstrar que a circulação internacional de um ship podia ultrapassar o simples acesso online à série. Os próprios atores podiam viajar para encontrar as comunidades que haviam se formado ao redor deles.

O dado historicamente mais importante, entretanto, está na própria existência de Together With Me. Korn e Knock haviam se mostrado mais valiosos do que a função secundária que desempenhavam em Bad Romance. O interesse produzido por eles justificava reorganizar o produto ao seu redor.

O personagem dava lugar ao casal, que começava a se tornar propriedade comercial com possibilidades próprias de expansão. A crescente força desses pares trazia consigo outra preocupação: quanto tempo um ship conseguiria permanecer relevante?

A maioria das séries possuía um ciclo comercial relativamente previsível. Havia o anúncio, a divulgação, a transmissão, as reprises e a disponibilidade posterior em alguma plataforma. Eventos e campanhas podiam prolongar o interesse, mas nenhum sucesso garantia automaticamente que o público continuaria acompanhando os atores um ou dois anos depois. A indústria precisava descobrir se os casais também envelheciam.

Em 2017, a GMMTV oferece um dos primeiros grandes testes dessa longevidade com SOTUS S. Agora já não acompanhávamos apenas a formação de Arthit e Kongpob. A pergunta mudava: o que acontece depois?

Esse problema acompanharia o BL durante muitos anos. Uma estrutura construída em torno da expectativa de “quando eles finalmente ficarão juntos?” perde parte de seu motor quando a resposta já foi dada. Manter um casal exige encontrar conflitos que não desfaçam artificialmente tudo aquilo que a primeira história construiu.

SOTUS S surge enquanto KristSingto ainda desfrutava de enorme popularidade, justamente por isso funcionando como prova de que o interesse do público poderia sobreviver à conclusão da primeira narrativa. A temporada desloca parte da tensão para a vida profissional, o amadurecimento e a manutenção cotidiana do relacionamento.

Arthit, anteriormente investido da autoridade de veterano dentro da universidade, encontra-se agora na posição incômoda de iniciante dentro de uma empresa. Kongpob ainda transita pelo ambiente universitário, mas existe outra inversão importante: a companhia na qual Arthit trabalha pertence à família de Kongpob. As hierarquias mudam. E com elas aparecem conflitos que a primeira temporada não precisava enfrentar.

Contar ou não aos colegas de trabalho sobre a relação? Quanto da vida privada deve entrar no ambiente profissional? Como administrar um relacionamento quando os dois passam a viver rotinas diferentes? O que acontece quando um casal formado dentro da relativa proteção de um grupo universitário precisa existir num espaço em que os colegas não compartilham aquela história? A série descobre que permanecer junto pode exigir tanto esforço narrativo quanto apaixonar-se.

Enquanto SOTUS S busca novas fórmulas para preservar um casal já estabelecido, Make It Right 2 (2017) trabalha sobretudo pela continuidade. Sua importância histórica está menos na reinvenção da estrutura e mais na confirmação de que uma franquia BL conseguia retornar com o mesmo universo, os mesmos personagens e boa parte dos mesmos pares.

A recepção de Frame e Book, interpretados por Ohm Pawat e Toey Sittiwat, havia sido particularmente forte na primeira temporada. A continuação amplia sua presença e, fora da tela, OhmToey passa a aparecer com maior frequência em trabalhos e eventos conjuntos.

A própria indústria já começava a perceber características capazes de sustentar um ship: química reconhecida pelo fandom, disponibilidade para aparições conjuntas, continuidade promocional e uma narrativa pública suficientemente atraente para que os espectadores desejassem acompanhar os atores além da ficção.

Essa proximidade trazia, entretanto, um problema que se tornaria cada vez mais difícil de ignorar: até que ponto o fandom considerava a vida particular do ator compatível com a fantasia que ajudava a sustentar?

Discussões relacionadas à vida amorosa de Toey acabaram produzindo forte reação em parcelas do fandom, incluindo ataques direcionados a pessoas ligadas ao ator. A continuidade promocional de OhmToey seria afetada, e Toey posteriormente se afastaria do circuito BL, mantendo apenas contatos mais ocasionais com esse universo.

O episódio merece documentação cuidadosa antes de qualquer reconstrução definitiva dos acontecimentos, mas o fenômeno que revela é inequívoco e reaparecerá muitas vezes neste estudo: quanto mais o ship depende da sobreposição entre personagem e intérprete, maior se torna a tensão entre a fantasia comercial e a autonomia pessoal dos atores.

A pergunta retorna sob outra forma. Quem possui o casal?

Essa força do ship aparece também em My Dear Loser: Edge of 17 (2017), produção da GMMTV pertencente à antologia My Dear Loser. Seu eixo principal não é BL, mas a série apresenta In e Sun, interpretados por Pluem Purim e Chimon Wachirawit, como casal secundário. A relação entre os dois reúne amizade, conflitos, ciúmes e uma aproximação gradual que passa a ultrapassar aquilo que inicialmente conseguem reconhecer entre si.

O arco se aproxima de uma estrutura que o BL exploraria inúmeras vezes: o enemies to lovers, em que hostilidade, competição ou conflito inicial funcionam como ponto de partida para uma aproximação afetiva. A importância de In e Sun está justamente em demonstrar que a consolidação do BL como produto autônomo não eliminou o casal masculino secundário das séries juvenis mais amplas. Os dois modelos continuavam coexistindo.

Uma produção podia ser integralmente construída ao redor de um casal BL, mas também podia inserir um núcleo dessa natureza dentro de uma narrativa coral e descobrir, durante a exibição, que aquele par despertava interesse semelhante ou até superior ao de histórias inicialmente concebidas como centrais.

Pluem e Chimon também ilustram uma característica que a GMMTV transformaria em uma de suas maiores forças: a circulação interna dos atores. Eles podiam atuar em diferentes gêneros, integrar outros elencos, experimentar novas parcerias e permanecer familiares ao público mesmo quando determinado ship não recebia uma série própria. Chimon, por exemplo, somente anos mais tarde protagonizaria um BL em outra combinação de elenco. A empresa começava a construir algo maior do que uma sucessão de séries, construía um repertório de rostos.

O crescimento econômico do gênero também permitia que produções menores encontrassem espaço. A análise do lançamento de I Am Your King (2017) é particularmente útil por esse motivo.

A minissérie acompanha um grupo de rapazes envolvido num jogo em que um dos participantes assume a posição de “rei” e distribui ordens e desafios aos demais. A brincadeira cria situações de proximidade, constrangimento e tensão que obrigam os personagens a confrontar sentimentos normalmente mantidos em silêncio. Seu peso artístico ou industrial é muito menor que o de SOTUS ou Together With Me, mas isso não diminui sua utilidade histórica.

Em 2014, uma série centrada num romance entre rapazes ainda podia parecer acontecimento excepcional. Apenas três anos depois, pequenas produções já podiam recorrer diretamente aos códigos do BL sem gastar grande parte da narrativa justificando sua existência. Esse crescimento lateral importa.

Um gênero começa efetivamente a formar mercado quando consegue sustentar também obras modestas, experiências medianas, produções esquecidas e projetos que nunca alcançarão o estatuto de fenômeno. A história de uma indústria feita apenas de seus sucessos seria tão falsa quanto uma história da literatura composta apenas de obras-primas.

Outro tema começa a exigir atenção nesse momento: a presença de atores assumidamente gays numa indústria especializada em narrar relações entre homens. A aparente obviedade esconde uma contradição.

O fanservice permanecia uma performance profissional e, para todos os efeitos, muitos atores eram promovidos dentro de um espaço de ambiguidade cuidadosamente preservado. Ao mesmo tempo, a expansão das redes sociais fazia com que relacionamentos, opiniões e aspectos da vida privada dos intérpretes se tornassem cada vez mais acessíveis ao público.

O caso de Newyear Kitiwhut se tornaria particularmente significativo. Já conhecido nas redes sociais por conteúdos produzidos ao lado do então companheiro, seu nome esteve envolvido nas controvérsias de escalação de 2 Moons. Declarações públicas associadas ao processo de produção alimentaram acusações de discriminação contra atores assumidamente gays, um episódio que deverá ser reconstruído a partir das fontes originais quando chegarmos à versão definitiva deste estudo.

Independentemente dos detalhes particulares do caso, a contradição que ele revela permaneceria por muitos anos: uma indústria capaz de comercializar intensamente a fantasia de relacionamentos entre homens nem sempre demonstrava a mesma tranquilidade diante da homossexualidade pública de seus próprios intérpretes.

Essa tensão entre personagem, ator e vida particular também ajuda a compreender por que acompanhar os artistas se tornou parte tão importante da experiência dos fãs.

Senior Secret Love: Puppy Honey 2 (2017) oferece outro exemplo dessa transformação, especialmente na genealogia de OffGun.

A segunda temporada continua as histórias iniciadas anteriormente, mas Pick e Rome, interpretados por Off Jumpol e Gun Atthaphan, ganham espaço significativamente maior. Rome tenta compreender até onde pode confiar na relação, enquanto Pick permanece dividido entre o afeto, o medo da exposição e a dificuldade de reconhecer publicamente aquilo que sente.

O crescimento do casal dentro da própria franquia demonstra um fenômeno que se tornaria cada vez mais frequente: o público podia alterar a hierarquia comercial de uma obra. Pick e Rome haviam surgido como núcleo secundário, mas recepção de Off e Gun tornou progressivamente difícil tratá-los como simples complemento da trama principal. A continuação responde a esse interesse.

OffGun sobreviveria largamente a Puppy Honey. Essa permanência constitui seu principal valor histórico. A dupla atravessaria novas séries, personagens e estilos sem perder completamente a identidade conjunta criada naquele primeiro encontro. Mais tarde receberia projetos muito mais ambiciosos, entre eles Theory of Love e Not Me, obras que ocuparão posições importantes em outras fases desta história.

O ship, portanto, já podia possuir uma biografia. Podia nascer numa produção, amadurecer em outra e alcançar sua obra mais importante vários anos depois.

Com o crescimento do mercado, produtoras também começam a ampliar seus investimentos e experimentar ambientes diferentes para personagens que, muitas vezes, continuavam presos à juventude universitária.

Water Boyy: The Series (2017), adaptação televisiva do filme homônimo, desloca parte dessa convivência para uma equipe de natação.

Wai, interpretado por New Thitipoom, é um atleta talentoso e de temperamento difícil. Apo, vivido por Earth Pirapat, chega ao grupo e rapidamente entra em sua órbita. O atrito inicial entre os dois evolui para uma aproximação progressiva enquanto outros relacionamentos se desenvolvem ao redor da equipe. A contribuição histórica de Water Boyy está menos na originalidade de sua trama do que nas trajetórias que deixa visíveis.

New já vinha construindo sua presença dentro da GMMTV e posteriormente seria associado de maneira muito mais duradoura a Tay Tawan. Earth atravessaria outras combinações antes de formar, anos depois, uma das duplas mais reconhecíveis de outra geração do BL.

Em 2017, portanto, os pares ainda estavam longe de parecer inevitáveis. Um ator podia experimentar diferentes parceiros, séries e dinâmicas antes que determinada combinação se tornasse comercialmente estável.

Mond Tanutchai e Tytan Teepprasan, casal secundário da mesma produção, ajudam a mostrar esse caráter experimental. A parceria não seria preservada como ship duradouro. Mond permaneceria ligado à atuação e continuaria circulando pelo catálogo da empresa, enquanto Tytan concentraria sua trajetória sobretudo na música, retornando posteriormente à atuação televisiva.

As chamadas duplas fixas parecerão quase naturais quando observadas a partir de fases posteriores da indústria.

Em 2017, porém, ainda enxergamos o laboratório.

A empresa testa. O público responde. Algumas combinações desaparecem. Outras sobrevivem por uma década. Ao final daquele ano, já era possível perceber uma transformação decisiva.

Em 2016, a indústria havia aprendido que determinadas estruturas narrativas podiam ser repetidas.

Em 2017, descobria que os pares também podiam possuir continuidade.

2Moons demonstrava a possibilidade de produzir vários ships simultaneamente e transformá-los em diferentes focos de interesse. Together With Me mostrava que um casal podia escapar da obra em que surgira e justificar a criação de outra produção ao seu redor. SOTUS S colocava à prova a capacidade de um mesmo par sustentar uma continuação e conservar sua força promocional depois da conquista amorosa. Puppy Honey 2 revelava que um casal secundário podia alterar a hierarquia interna de uma franquia. Water Boyy registrava um período em que as combinações de atores ainda estavam abertamente sujeitas a tentativa e substituição. Make It Right 2 confirmava que o retorno a universos e casais já conhecidos podia se tornar parte normal do gênero. As pequenas produções, por sua vez, demonstravam que o BL já possuía público suficiente para existir em diferentes escalas.

A mudança talvez possa ser resumida de maneira ainda mais simples: o espectador começava a acompanhar carreiras de casais, e não apenas histórias de personagens. Esse deslocamento preparava a próxima etapa.

A partir de 2018, novels, produtoras, plataformas digitais, autores, atores, fanmeetings, publicidade, música e fandom internacional começariam a funcionar de maneira cada vez mais interligada. O casal permaneceria no centro, mas ao redor dele já existiria algo muito maior.

Um ecossistema.

E Love by Chance surgiria praticamente no momento exato para demonstrar a escala que esse sistema poderia alcançar.

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