quarta-feira, 23 de setembro de 2026

História Crítica dos BLs Tailandeses VIII: ERA III - Quando o mundo abriu a porta: da expansão global à autoconsciência (2020–2021)

"Se você quiser uma revanche,
 é só bater na minha porta. 
Mas, se sentir a minha falta, não bata.
 Apenas entre." 
(Bad Buddy)

 Fase II: O espelho voltado para dentro, o BL começa a pensar sobre si mesmo (2021)

Se 2020 foi o ano em que todas as telas pareceram subitamente próximas, 2021 começa com um problema diferente: o BL tailandês já sabe que possui público. Sabe que esse público ultrapassa as fronteiras nacionais, acompanha atores pelas redes sociais, aprende músicas em outra língua, organiza traduções, transforma cenas em imagens repetidas milhares de vezes e pode manter uma série circulando muito depois do encerramento de sua transmissão original.

A questão deixa de ser simplesmente alcançar espectadores, mas indústria começa a perguntar o que fazer diante deles.

Algumas produções passam a olhar para os próprios mecanismos que haviam construído o BL: fanservice, escolha de elenco, adaptação de novels, ships, promoção, sexualidade dos atores, expectativas do fandom e rigidez das convenções narrativas. Outras procuram novos espaços geográficos, profissionais e sociais. Algumas abandonam quase inteiramente a universidade; outras permanecem nela, mas tratam seus velhos códigos com uma ironia que só é possível quando o espectador já conhece a fórmula.

O BL começa a olhar para o espelho.

E descobre que já possui uma imagem suficientemente definida para reconhecer aquilo que deseja conservar, aquilo que gostaria de modificar e aquilo de que já consegue rir.

Uma das manifestações mais explícitas desse movimento aparece em Lovely Writer (2021).

A premissa parece construída a partir dos próprios bastidores da indústria. Gene é um escritor cujo romance BL se torna sucesso e recebe uma adaptação televisiva. Ao aproximar-se da produção, conhece Nubsib, ator escolhido para protagonizar a série, e passa a ter contato cada vez mais íntimo com um universo de casting, promoção, fanservice, managers e expectativas comerciais.

A ficção BL passa literalmente a representar a fabricação de outra ficção BL. Durante anos, observamos o público tentando descobrir o que acontecia por trás das câmeras. Em Lovely Writer, os bastidores entram na própria narrativa.

A série pode então brincar com perguntas que anteriormente permaneciam externas à obra: quanto do comportamento público dos atores é espontâneo? Quanto é incentivado pela equipe? O que acontece quando a vida afetiva de um intérprete entra em conflito com a imagem comercial do ship? Até onde o fandom acredita ter direitos sobre pessoas que conhece fundamentalmente através de personagens e performances promocionais?

Kao Noppakao, que havia interpretado Korn em Until We Meet Again, reaparece agora como Nubsib, enquanto Up Poompat assume Gene. A própria escolha de um ator já reconhecido pelo público BL reforça o jogo de espelhos entre ficção e indústria. Lovely Writer ainda é uma história romântica, mas sua importância está na consciência com que observa a máquina responsável por produzi-la. O fanservice deixa de ser apenas ferramenta publicitária e torna-se o assunto.

O mesmo processo aparece de maneira ainda mais incômoda em Call It What You Want (2021), dirigida por Aam Anusorn Soisa-ngim.

Aqui a indústria BL é apresentada de forma muito menos confortável. Relações entre atores, produtores e equipes de gerenciamento são atravessadas por controle, expectativas comerciais e assimetrias de poder, incluindo abusos explícitos.  A obra interessa justamente porque vem de um realizador que já circulava por esse ambiente e transforma frustrações associadas à produção BL em matéria dramática.

Se Lovely Writer utiliza romance e sátira para examinar a fabricação de um ship, Call It What You Want aproxima-se do lado mais áspero do mesmo sistema. Juntas, as duas produções demonstram uma transformação decisiva. O BL já possui história, e histórias, suficiente para produzir ficções sobre os problemas de sua própria indústria.

Essa autorreflexão não implica que a velha gramática desapareça. Fish Upon the Sky (2021), por exemplo, continua profundamente ligada ao ambiente universitário e a uma estrutura romântica imediatamente reconhecível.

Phuwin Tangsakyuen interpreta Pi, estudante inseguro que tenta transformar sua aparência para conquistar outra pessoa, enquanto Mork, vivido por Pond Naravit, insiste em aproximar-se dele.

Universidade, beleza, ciúme, rivalidade e descoberta amorosa continuam presentes. A diferença está no grau de consciência. A série exagera situações, brinca com comportamento de fandom e utiliza a comédia para explorar códigos que o espectador já reconhece quase antes dos personagens. 

A primeira linguagem não morreu. Não parece que vá morrer. Agora pode ser manipulada com maior liberdade. Equilibra comédia, romance e drama numa única sequência.

Essa consciência também aparece em outra direção quando a GMMTV lança A Tale of Thousand Stars.

Dirigida por Aof Noppharnach Chaiwimol, a série retira seus protagonistas dos espaços que haviam dominado o BL durante quase uma década.

Tian, interpretado por Mix Sahaphap, passa por um transplante cardíaco e descobre que recebeu o coração de uma jovem professora voluntária que morreu. Movido pelo desejo de compreender aquela vida anterior, viaja para uma comunidade rural e assume parte do trabalho que ela realizava. Ali conhece Phupha, guarda florestal interpretado por Earth Pirapat.

O deslocamento espacial produz consequências narrativas profundas, inclusive práticas. A universidade deixa de organizar a convivência. Em seu lugar aparecem comunidade, montanha, trabalho, desigualdade material, responsabilidades coletivas e uma relação muito mais concreta com o território. A aldeia em que a série foi filmada é real e fica num local de difícil acesso. A equipe, inclusive os atores principais, precisava subir boa parte do caminho a pé carregando os equipamentos. Khaothung, por exemplo, que gravava Tonhon Chonlatee na mesma época, subia e descia a montanha várias vezes durante o período das gravações. 

O romance não acontece numa bolha. Os personagens precisam existir diante de outras pessoas.

Tian chega carregando privilégios urbanos e encontra uma comunidade para a qual suas decisões possuem consequências muito diferentes daquelas que conhecia. Phupha, por sua vez, não é estudante tentando compreender uma paixão. É um adulto com trabalho, responsabilidade e posição dentro daquele lugar.

A Tale of Thousand Stars ajuda, assim, a retirar o BL de Bangkok e dos campus das universidades sem abandonar a estrutura romântica que sustenta seu público.

A relação entre Earth e Mix também é industrialmente significativa. Earth já havia atravessado outras combinações, entre elas aquela formada com New em Water Boyy. Com Mix encontra uma parceria que se mostrará muito mais duradoura.

Isso confirma algo que vínhamos observando desde 2017: um par fixo raramente é inevitável desde o primeiro momento. Ela resulta de encontros entre elenco, química, recepção pública, estratégia empresarial e disponibilidade dos próprios atores.

EarthMix nasce dentro de uma obra que já representa outra fase da GMMTV. A companhia não precisa mais depender exclusivamente da engenharia para formar um casal. Pode levá-lo para uma montanha.

Enquanto A Tale of Thousand Stars amplia o espaço social do BL, I Promised You the Moon (2021) continua aquilo que I Told Sunset About You havia iniciado no ano anterior.

Teh e Oh-aew deixam Phuket e entram numa fase diferente da vida, agora marcada por universidade, ambições profissionais, novos círculos de amizade e pela dificuldade de manter um relacionamento quando os dois começam a imaginar futuros distintos.

A continuação é importante porque recusa uma das soluções mais confortáveis do romance. O amor não resolve automaticamente o amadurecimento: Teh e Oh-aew mudam. Descobrem novos desejos profissionais, conhecem outras pessoas e experimentam insegurança, ciúme, atração e traição.

A passagem para Bangkok é também passagem para outro ritmo de vida.

A estética cuidadosamente construída na primeira parte permanece, mas agora precisa acompanhar personagens que já não podem refugiar-se na nostalgia da adolescência. Em Phuket estávamos em meio ao calor da praia, a paleta quente nos remetia ao conforto que os personagens buscavam e contrastava com seus sentimentos. Aqui, estamos numa selva de pedra, cinza, de novo em contraste com os sentimentos intensos da temporada;

Billkin e PP continuam integrando atuação e música de maneira profundamente articulada, consolidando um modelo no qual a identidade dos artistas não se divide facilmente entre cantor e ator. Ao fim da série ambos conseguem montar um concerto digital inteiro com as faixas da obra e suas próprias faixas solo, mostrando o amadurecimento dos artistas. 

I Promised You the Moon funciona, portanto, como continuidade estética e também como experiência de amadurecimento. Enquanto várias produções procuram superar a juventude, outras exploram justamente a capacidade das franquias de continuar crescendo ao redor de personagens conhecidos.

Don’t Say No (2021) nasce a partir de Leo e Fiat, apresentados anteriormente no universo de TharnType.

O procedimento já nos é familiar. Um casal secundário conquista interesse. O fandom continua acompanhando. A indústria entrega uma obra própria. A diferença é que, em 2021, essa operação já não parece extraordinária. É uma estratégia plenamente incorporada ao mercado.

A série também participa da erotização crescente do BL e da transformação da Me Mind Y numa produtora capaz de expandir continuamente universos derivados das novels de MAME. O mecanismo inaugurado anos antes chega aqui quase ao estado de rotina industrial.

Essa diversificação também aparece em Y-Destiny (2021), cuja estrutura parece especialmente adequada a uma indústria que já havia aprendido a observar a reação do público aos casais.

A série organiza suas histórias ao redor dos sete dias da semana, entregando diferentes núcleos, atores e tonalidades a pequenos arcos relativamente autônomos. O formato reduz o risco: cada combinação recebe algumas horas para construir química, identidade e fandom sem precisar sustentar imediatamente uma temporada inteira.

Alguns intérpretes chegam carregando histórias anteriores. Max Kornthas e Nat Natasitt já haviam circulado pelo ecossistema Domundi e aparecido em Why R U?. Sua presença em outro projeto ajuda a consolidar uma familiaridade que posteriormente será muito mais explorada pela Mandee Work. Pouco tempo depois, MaxNat ganharia espaço crescente em Cutie Pie e acabaria recebendo protagonismo próprio em Naughty Babe.

O percurso é particularmente interessante porque mostra como uma combinação pode atravessar diferentes níveis de importância.

Primeiro, o espectador reconhece os rostos e, depois, reconhece a dupla. Mais tarde, a dupla torna-se suficiente para sustentar uma produção própria. Esse movimento, que já se anunciava antes, será cada vez mais frequente.

Outros nomes carregavam genealogias diferentes. Yoon Phusanu já havia participado da experiência deliberadamente absurda de YYY e continuaria circulando intensamente pelo BL, alcançando posteriormente protagonismo em Unforgotten Night. Talay Sanguandikun também vinha de YYY e de outras experiências daquela geração, demonstrando como determinados intérpretes se transformavam em rostos recorrentes mesmo antes de encontrar uma parceria comercial absolutamente estável.

Perth Nakhun já era conhecido por My Engineer, cuja recepção internacional havia dado grande visibilidade ao núcleo RamKing. Sua carreira posterior ilustraria outro modelo: em vez de permanecer preso exclusivamente a um ship, continuaria atravessando produções e gêneros diferentes, aparecendo inclusive em projetos de escala muito maior como KinnPorsche.

Há ainda atores cuja passagem pela antologia não produziria uma trajetória tão central. E isso também interessa. Um laboratório só funciona porque nem todo experimento precisa originar uma franquia. Algumas combinações conquistam fandom duradouro. Outras funcionam apenas dentro daqueles episódios. Certos atores encontram posteriormente um novo parceiro, e outros migram para papéis secundários, deixam o BL, concentram-se em música, modelagem ou simplesmente permanecem em posições menores dentro da indústria.

Y-Destiny permite observar esse processo quase em miniatura: a indústria reúne corpos, personalidades e níveis diferentes de experiência, coloca-os diante do público e descobre o que sobrevive depois que os episódios acabam. A antologia, portanto, não oferece apenas sete histórias, oferece várias hipóteses de futuro.

O Studio Wabi Sabi utiliza uma lógica semelhante em 7 Project, mas com uma diferença importante. Aqui o experimento acontece dentro de um ecossistema empresarial muito mais reconhecível.

Depois de Love by Chance, Until We Meet Again e outras produções, o estúdio já acumulava um repertório próprio de atores. 7 Project permite reorganizar esse acervo, misturando artistas consolidados, nomes intermediários e intérpretes ainda em processo de apresentação ao público.

A obra não é exclusivamente BL, detalhe que aumenta seu valor histórico. Diferentes formas de romance e diferentes combinações podem coexistir sob a mesma marca do estúdio. Isso dá ao projeto um caráter próximo de vitrine: mais do que vender uma única narrativa, o Studio Wabi Sabi apresenta aquilo que possui em seu catálogo humano.

Alguns rostos já carregavam enorme memória.

Boun Noppanut e Prem Warut vinham do fenômeno WinTeam em Until We Meet Again. Mesmo sem terem sido o casal central daquela produção, já possuíam fandom suficiente para que qualquer reaparição conjunta fosse recebida como continuação de uma história promocional muito maior.

Pouco depois, essa permanência desembocaria em Between Us, série própria construída ao redor dos personagens que anteriormente haviam ocupado posição secundária. O percurso BounPrem resume quase toda a lógica que estamos acompanhando desde 2017: casal secundário, resposta do fandom, continuidade promocional, novos projetos e protagonismo.

Earth Katsamonnat também carregava a memória de Until We Meet Again, onde havia interpretado Intouch. Sua trajetória, entretanto, ganha em 7 Project outra importância porque ali se aproxima de uma nova geração através de Santa Pongsapak. Santa ainda estava no início de sua projeção, enquanto Earth já possuía reconhecimento dentro do fandom BL. A combinação dos dois acabaria sendo desenvolvida posteriormente em My Only 12%, de 2022.

Esse percurso mostra outra utilidade do laboratório: um ator mais experiente pode funcionar como ponto de estabilidade para apresentar ao público um nome ainda em formação. O fandom reconhece um dos lados da dupla e, por meio dele, aprende o outro. SantaEarth representa, portanto, não apenas mais um ship, mas um mecanismo geracional de renovação do elenco.

Outros nomes do projeto carregavam histórias ainda anteriores. Plan Rathavit já havia conquistado enorme familiaridade como Can em Love by Chance e assumido posição central em A Chance to Love. Yacht Patsit também pertencia ao círculo de atores que circulara pelas produções do Studio Wabi Sabi e por séries ligadas à primeira expansão daquele ecossistema. Samantha Melanie Coates, frequentemente chamada de Sammy, havia se tornado um rosto particularmente reconhecível em papéis secundários, sobretudo depois de produções como Until We Meet Again.

A presença desses atores é historicamente importante mesmo quando não estão destinados a liderar a próxima grande franquia. Uma indústria não é formada apenas por protagonistas, ela precisa de intérpretes que retornam, mudam de função, sustentam núcleos secundários, atravessam diferentes elencos e ajudam a criar no espectador a sensação de que aquele universo possui continuidade.

O reconhecimento do rosto torna-se patrimônio industrial.

Também aparecem trajetórias mais irregulares. Art Pakpoom, por exemplo, vinha de What the Duck e da intensa experiência promocional de MewArt. Sua permanência em novos projetos demonstra que a dissolução de um ship não precisa significar desaparecimento automático do intérprete, embora a reconstrução de uma carreira depois de uma dupla muito marcada possa ser lenta e desigual.

Esse tipo de caso é especialmente útil porque impede nossa história de acompanhar apenas os ships que deram certo. Alguns atores deixam uma combinação de enorme visibilidade e precisam reaprender a existir diante do fandom como indivíduos. Outros jamais recuperam o mesmo grau de atenção. Outros encontram uma segunda carreira anos depois. É justamente essa diversidade de destinos que torna projetos como 7 Project documentalmente tão valiosos.

Se Y-Destiny funciona como uma espécie de laboratório aberto, reunindo combinações que podem ou não adquirir continuidade, 7 Project revela uma empresa aprendendo a administrar seu próprio elenco como patrimônio.

O Studio Wabi Sabi pode recuperar um ator conhecido, colocá-lo diante de outro parceiro, apresentar um estreante ao lado de um veterano, reunir ships que já possuem fandom e observar quais relações merecem desenvolvimento posterior.

A obra deixa de ser o único lugar em que uma dupla nasce: uma dupla pode ser preparada. Testada. Reapresentada. Transferida. E somente depois receber uma série construída inteiramente ao seu redor.

Essa transformação ajuda a explicar uma característica decisiva do BL posterior: cada nova produção passa a funcionar simultaneamente como história e como casting para histórias que ainda não existem. O espectador assiste ao presente. A produtora, inevitavelmente, já observa o futuro.

O BL pode existir como grande produção serializada, minissérie, antologia ou sequência de episódios dedicados a personagens distintos. A forma industrial também começa começa a diversificar-se.

É nesse ambiente de experiências e autoconsciência que aparece uma obra aparentemente muito mais convencional: Bad Buddy. E quase tudo o que construímos até aqui ajuda a explicar por que seu impacto foi tão grande.

A série, dirigida por Aof Noppharnach e baseada na novel Behind the Scenes, apresenta Ohm Pawat como Pat e Nanon Korapat como Pran.

As famílias dos dois rapazes mantêm uma rivalidade antiga. Desde crianças, Pat e Pran são educados para competir. A disputa continua na universidade, onde seus respectivos cursos também vivem em conflito.

A premissa parece composta inteiramente por elementos familiares: universidade, rivalidade entre faculdades, dois rapazes obrigados a esconder proximidade, música, competição, o clássico Enemies to lovers. Famílias que se opõem. Quase tudo já havia aparecido antes. E justamente por isso Bad Buddy é tão importante. A série não precisa destruir a primeira fórmula. Ela sabe exatamente como utilizá-la.

Pat e Pran pertencem a um BL que já conhece sua própria história. A narrativa pode brincar com expectativas porque presume que o público também as conhece. O espectador já viu rivais transformarem-se em amantes. Já viu cursos universitários disputando território. Já viu um personagem mais expansivo perseguir outro mais reservado. Já aprendeu a esperar determinados papéis dentro de um casal. 

Mas Bad Buddy utiliza esse repertório e começa, aos poucos, a deslocá-lo. Pat e Pran recusam uma hierarquia amorosa rígida. Os dois competem, provocam. desejam e podem demonstrar vulnerabilidade.

A relação não precisa organizar um deles como figura permanentemente dominante e o outro como parceiro permanentemente passivo. Esse equilíbrio parece simples quando observado retrospectivamente.

Dentro da história do BL que estamos acompanhando, representa mudança considerável.

Durante muito tempo, convenções herdadas de determinadas tradições yaoi ajudaram a organizar casais segundo papéis relativamente reconhecíveis. Mesmo quando as séries tailandesas já flexibilizavam esses modelos, parte do fandom continuava procurando equivalências entre seme e uke, ativo e passivo, perseguidor e perseguido.

Bad Buddy trata essa expectativa com humor e uma dose crescente de irrelevância. Pat e Pran simplesmente existem como casal. A relação importa mais do que a necessidade de encaixá-los numa hierarquia.

A escolha dos atores acrescenta outra camada ao fenômeno. Ohm Pawat possui uma história longa dentro do próprio BL. Apareceu em Make It Right, passou por outras combinações e protagonizou He’s Coming to Me

Nanon Korapat já possuía carreira consolidada dentro da GMMTV e era bastante reconhecido por trabalhos juvenis fora da estrutura tradicional do BL. Sua atuação era forte e imersiva, mas Ohm não ficava para trás: ele havia sido premiado não apenas por popularidades, mas também por cenas em que exigiam muito do ator.

A parceria reúne, portanto, duas trajetórias diferentes. Ohm representa quase uma continuidade histórica do gênero. Nanon aproxima desse universo um ator já fortemente reconhecido por outro percurso.

A química entre os dois permite que a relação de Pat e Pran pareça física, competitiva, engraçada e vulnerável sem depender exclusivamente dos códigos promocionais que haviam sustentado ships anteriores.

A recepção transforma OhmNanon num fenômeno muito maior que a simples expectativa inicial pela série. E aqui encontramos outra mudança.

O fandom internacional de 2021 já dispõe de redes suficientemente integradas para acompanhar cada episódio simultaneamente, comentar cenas, produzir traduções, editar vídeos, discutir detalhes de atuação e transformar determinados momentos em memória coletiva praticamente no instante em que são exibidos. O sucesso do ship acontece diante dos olhos do próprio público.

O beijo no terraço

Poucas cenas condensam melhor o fenômeno de Bad Buddy do que o encontro de Pat e Pran no terraço. A força daquela sequência não depende apenas do beijo: o que a torna memorável é a quantidade de história emocional acumulada antes dele. Pat verbaliza aquilo que sente. Pran responde com uma mistura de desejo e tristeza.

A cena transforma uma vitória romântica, algo que em inúmeras séries funcionaria como recompensa, numa experiência simultaneamente feliz e dolorosa, porque os dois sabem que aquilo que desejam terá consequências imediatas.

O beijo deixa de funcionar como troféu e se torna decisão: a partir daquele momento a rivalidade de suas famílias e seus amigos não iriam impedir mais seu relacionamento. Essa diferença ajuda a explicar por que a cena permaneceu tão fortemente associada à memória da série.

A família e o mundo fora do casal

A rivalidade entre as famílias também amplia o conflito. Pat e Pran não precisam apenas descobrir o próprio sentimento, precisam compreender por que herdaram um ódio que não criaram.

A questão deixa de ser somente “como ficaremos juntos?” e passa a envolver uma pergunta mais ampla: quanto da vida de uma pessoa precisa obedecer aos conflitos recebidos da geração anterior?

Essa estrutura aproxima Bad Buddy de temas presentes em dramas familiares muito além do BL. Ao mesmo tempo, a série evita transformar a homossexualidade dos personagens no problema central. O obstáculo fundamental não está no fato de Pat e Pran serem dois homens. Está na história entre suas famílias. O casal pode existir sem que a narrativa precise transformar sua orientação sexual no único eixo de sofrimento.

Pran, Pat e a música

A música também participa profundamente da relação. Pran compõe. Nanon canta músicas associadas à série. A OST deixa novamente de funcionar apenas como fundo e passa a integrar a identidade pública do ator e do personagem.

“Just Friend?” torna-se particularmente associada à obra e reforça aquela convergência que estamos acompanhando desde os primeiros anos: atuação, música e promoção começam a formar um mesmo organismo.

Mas em Bad Buddy esse processo parece menos um adereço imposto depois do sucesso. A música pertence à personalidade de Pran e à própria relação dos protagonistas.

O fenômeno

O que torna Bad Buddy tão importante para esta fase não é a invenção de um novo tipo de BL É quase o contrário. A série demonstra que a tradição já está madura o suficiente para ser reescrita conscientemente.

Ela utiliza universidade, rivalidade, música, família e enemies to lovers, mas desloca papéis de gênero, reduz a dependência de hierarquias românticas rígidas, oferece aos dois protagonistas espaço emocional semelhante e trata convenções do próprio fandom com familiaridade.

A obra conhece o idioma do BL. Por isso consegue brincar com o sotaque.

Esse equilíbrio explica parte de sua força: espectadores veteranos reconhecem as referências e percebem as mudanças, enquanto novos públicos conseguem acompanhar a história sem precisar conhecer sete anos de história industrial.

Bad Buddy torna-se, nesse sentido, uma espécie de ponto de encontro.

A primeira fórmula ainda está presente, a fase seguinte já começou. Nem todas as obras de 2021 procuram esse equilíbrio. 

The Yearbook, por exemplo, aproxima-se de uma atmosfera mais nostálgica, acompanhando amizade, separação, memória e reencontro. Sua importância é mais discreta, mas ajuda a mostrar como o gênero começa a trabalhar o tempo de maneira menos linear e a explorar recordações como mecanismo emocional.

Paint With Love desloca novamente os personagens para a vida profissional. Singto Prachaya, já carregando longa história dentro da GMM TV e dos ships de primeira geração, aparece ao lado de Tae Darvid, outro rosto que atravessara fases anteriores do BL.

Arte, trabalho, contratos e diferenças de personalidade organizam o romance. É uma obra útil justamente pela circulação dos intérpretes. Singto continua demonstrando que uma carreira pode sobreviver a um ship histórico. Tae, vindo da primeira formação de 2 Moons, reaparece em outro espaço e com outro parceiro. Os atores já possuem histórias maiores que os personagens. Tudo isso prepara uma das últimas grandes expansões do ano.

Not Me estreia no final de 2021 e atravessa os primeiros meses de 2022. Cronologicamente, portanto, funciona quase como ponte perfeita entre as duas eras.

Dirigida por Nuchy Anucha Boonyawatana, a série devolve Off e Gun ao centro, mas oferece a eles um universo radicalmente diferente daquele de Theory of Love.

Gun interpreta os gêmeos Black e White. Depois que Black é violentamente atacado, White assume sua identidade para infiltrar-se no grupo de amigos do irmão e descobrir o responsável. Nesse processo, entra em contato com jovens envolvidos em ações contra abusos de poder e desigualdades sociais, além de desenvolver uma relação com Sean, interpretado por Off.

O romance continua importante, mas já não pode explicar sozinho a série. Há conflito social, violência, arte, ativismo, desigualdade e disputa sobre formas legítimas de resistência. A cidade deixa de ser cenário romântico e passa a funcionar como espaço político.

Para nossa história dos ships, Not Me é especialmente importante pois, OffGun havia começado com Pick/Rome, atravessa outra fronteira. Depois demonstrara capacidade dramática muito maior em Theory of Love. Agora reaparece num thriller social com personagens completamente diferentes.

A dupla não sobrevive apenas à troca de papéis, sobrevive à troca de gênero narrativo. Esse é um passo enorme. Um ship consolidado pode servir de ponte para levar o fandom a uma obra que talvez não correspondesse ao repertório tradicionalmente associado ao BL.

A confiança construída ao longo dos anos torna-se capital artístico. A empresa pode pedir ao público: “Vocês vieram por OffGun. Agora acompanhem isto.” Essa possibilidade será decisiva para a Era seguinte.

Se Bad Buddy reescreve a gramática por dentro, Not Me começa a perguntar até onde essa gramática pode ser transportada. No final de 2021, portanto, o espelho já devolve várias imagens diferentes.

Lovely Writer olha para fanservice, adaptação e fabricação de ships. Call It What You Want observa relações de poder nos bastidores.

A Tale of Thousand Stars retira o romance do campus e o coloca diante de comunidade, desigualdade e território. I Promised You the Moon pergunta o que acontece quando o amor precisa sobreviver ao amadurecimento e à mudança. Fish Upon the Sky demonstra que a fórmula ainda pode divertir justamente porque o público já reconhece seus mecanismos.

Don’t Say No mostra universos derivados funcionando quase como estrutura normal da indústria. Y-Destiny e 7 Project exploram formatos de antologia e apresentação de talentos.

The Yearbook investiga memória. Paint With Love acompanha atores e personagens entrando em espaços profissionais.

Not Me desloca um ship veterano para conflito social e político.

E, no centro dessa constelação, Bad Buddy faz algo talvez mais difícil do que romper completamente com o passado.

Olha para ele, entende suas regras. Mantém aquilo que ainda possui força. Ri de parte de suas convenções ao passo que abandona outras, e reorganiza o restante. Talvez por isso a série tenha se tornado um fenômeno tão representativo daquele momento.

Ela chega quando o BL tailandês já possui história suficiente para que um espectador reconheça aquilo que está sendo transformado.

Em 2014, Love Sick parecia assistir ao gênero descobrir a si mesmo. Em 2021, Bad Buddy parece assistir ao gênero descobrir que já possui memória.

A diferença entre esses dois momentos explica praticamente toda a Era III. O BL que atravessa 2021 já não precisa provar que existe. Também não precisa provar que pode alcançar o mundo.

Agora pode discutir suas próprias regras, experimentar espaços diferentes, criticar a indústria que o produz e transportar seus casais para gêneros que poucos anos antes pareceriam incompatíveis com sua estrutura comercial.

A fórmula ainda existe, mas deixou de ser fronteira.

Em 2022, ela começará a transbordar.

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