Um planeta desconhecido e belo, assim descreve Luna, no início de cada episódio de Planet Survival, uma daquelas obras que, facilmente, posso dizer que ajudou a moldar o início da construção da minha personalidade. Essa descrição era seguida de uma das melhores músicas de abertura de todos os tempos, “Bokura no Message”, da dupla Kiroro que, até hoje, estão na minha playlist de favoritos.
Há algo de inaugural nessa fórmula: tentar nomear o mundo antes de habitá-lo. Como nas cosmogonias antigas, primeiro vem a palavra, e só depois a ordem. “No princípio era o verbo”, escreveria São João; em Hesíodo, o Caos antecede os deuses; no Enuma Elish, o mundo nasce da separação das águas. A série já se anuncia como mito de origem.
A primeira impressão, ao contrário do que se esperaria de um adolescente, foi a de uma estranha tranquilidade. Eu vi alguns episódios esparsos no antigo canal Animax, mas só consegui acompanhar tudo muito depois. Mas, já naquela época, percebi que havia algo de mais profundo ali, que valia a pena ser visto com calma.
Talvez porque certas obras não falem ao impulso, mas àquilo que amadurece em silêncio. Walter Benjamin dizia que “a experiência que se transmite de boca em boca é a fonte de toda narrativa”; aqui, o tempo é parte da compreensão.
Em linhas gerais a história não guarda grandes segredos e nem reviravoltas alarmantes, e talvez por isso não seja tão famosa, afinal os fãs de anime geralmente esperam cenas de luta de tirar o fôlego, sistemas de poder e o resto das qualidades dos animes shonen, como Naruto e One Piece, ao passo que os de estilo shoujo trazem aquele brilho e personagens de personalidade afetadas ou contagiantes, como Sakura Card Captor e Sailor Moon.
Mas há obras que recusam o espetáculo para apostar no fundamento: não a batalha, mas o que torna qualquer batalha possível: a vida comum, a organização mínima, o acordo silencioso entre pessoas que precisam umas das outras.
Luna é filha de um explorador espacial, numa sociedade em que, exauridos os recursos naturais, os humanos buscaram viver em colônias espaciais. Ela se muda para uma nova escola onde faz algumas amizades e, claro, algumas inimizades. Durante uma excursão interplanetária, uma tempestade gravitacional atinge o ônibus espacial e eles acabam se desprendendo numa cápsula de emergência, caindo então no tal planeta desconhecido, muito semelhante ao planeta Terra, e tão perigoso quanto o mesmo em sua forma natural.
O motivo é antigo: o exílio. Como os sobreviventes do dilúvio em Gilgamesh, como Enéias após a queda de Troia, como os hebreus no deserto, a humanidade recomeça sempre a partir de uma perda. “A história da civilização”, escreve Mircea Eliade, “é a história de sucessivas rupturas com um mundo antigo e da busca por um novo centro”.
Esse grupo de jovens precisa então sobreviver ali, superando as dificuldades e contradições entre as personalidades de cada e aproveitando seus pontos fortes, afinal as chances de serem encontrados não são exatamente muito promissoras. É o ponto zero da política: não o poder, mas a necessidade. Thomas Hobbes diria que, fora da sociedade, a vida é “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”; mas Planet Survival mostra que a saída do estado de natureza não começa com o medo, e sim com o cuidado. Luna se depara com isso quando acaba ficando isolada do grupo, percebendo a falta que cada um faz e o quão dificíl é a vida solitária.
Sem querer ser demasiado descritivo, o que observamos no decorrer é uma epopeia do início da civilização, assim como uma grande demonstração do Dilema do Ouriço. A forma como todos precisam se compreender e aceitar e, principalmente, se apoiar, é o eixo central da obra. Freud, ao comentar Schopenhauer, descreve o dilema: aproximar-se dói, afastar-se mata de frio. A série encena exatamente essa tensão: a civilização nasce quando aprendemos a suportar o desconforto do outro para não morrer de solidão.
Percebendo a dificuldade que se anuncia ao constatarem a baixa probabilidade do resgate, mas sem perder a esperança, a pequena civilização nasce do conhecimento do mundo, os caçadores e coletores, que exploram os primeiros espaços da grande mata logo após a praia onde atracam a cápsula. A exploração revela um lugar hostil, animais e plantas gigantes e agressivos, mas também uma variedade de frutos e pequenos animais comestíveis. Lewis Henry Morgan e, mais tarde, Marshall Sahlins descreveram esse estágio como o da “economia de subsistência”, onde a técnica é mínima e o vínculo social é máximo. Não há abundância de coisas, mas há abundância de relações, e isso é o que sustenta o grupo.
Num segundo passo, se deparam com a necessidade de construírem uma casa, no alto de uma grande árvore, protegendo-os do tempo e de animais. Essas incursões revelam as primeiras dificuldades e atritos. Não há exatamente uma disputa por liderança. Embora Menoli, a presidente da classe, arrogue para si essa função, sua disciplina acaba afastando os demais, enquanto Luna acaba exercendo de fato a liderança por meio de uma posição otimista e conciliadora. A autoridade não vem do cargo antes ocupado há tantos anos-luz dali, mas da capacidade de lidar com os problemas analisando e solucionando, usando os pontos fortes de cada um. A sociedade começa sua organização, através de algo que Max Weber chamaria de carisma: uma autoridade que não se impõe por regras nem por tradição, mas por reconhecimento. E Hannah Arendt lembraria que “poder e violência são opostos”: o poder nasce do agir em conjunto, não da imposição.
Bell é o rapaz gentil de força extraordinária que se encarrega de liderar o grupo nos trabalhos pesados, especialmente ao lado de Kaoru, prático, habilidoso e inteligente, porém solitário. A combinação funciona, pois, embora seja grande e forte, Bell é sensível o bastante para falar apenas o necessário com o outro. Kaoru mais tarde vai se mostrar traumatizado por um passado que o enche de culpa, o que o faz se afastar dos outros, enquanto Luna tenta fazer com que ele se aproxime.
Aqui a série toca no ponto que Émile Durkheim chamaria de “solidariedade orgânica”: não somos iguais, mas diferentes de um modo que nos torna interdependentes. Cada ferida individual, longe de ser um obstáculo, torna-se parte da arquitetura coletiva.
Shingo é o gênio que pulou vários anos e está na mesma turma que todos, mas carrega sozinho o peso de consertar o comunicador capaz contatar a colônia daqueles capazes de tirá-los de lá ou, mais tarde, consertar um barco/nave capaz de levá-los da ilha até o continente, peso demais para alguém tão jovem. É bonito acompanhar o crescimento de cada um: frente a uma natureza inóspita ou frente ao contato com os outros.
Há aqui um eco do mito de Prometeu: a técnica como dádiva e fardo. Como lembra Heidegger, a técnica não é apenas um instrumento, mas uma forma de revelar o mundo e, ao mesmo tempo, de nos sobrecarregar com responsabilidade.
O cuidado, frequentemente invisível nas narrativas heroicas, aparece aqui como força civilizatória. Carol Gilligan chamaria isso de “ética do cuidado”: não o gesto grandioso, mas a atenção cotidiana que mantém o mundo de pé. As meninas não poupam também seus esforços, fazendo de tudo para tornar a vida ali mais fácil. Organizam mantimentos, realizam também atividades que necessitam de força física, e ainda mediam conflitos. Sharla se sente inútil ao grupo, por ser frágil e tímida, mas sempre se preocupa com os outros. A própria Menoli aprende a ser mais gentil e Luna, ao ficar sozinha, percebe o quanto depende dos outros ao seu redor.
Por isso digo tratar-se de uma epopeia da civilização. Ninguém vive sozinho, e todos têm suas qualidades, forças e fraquezas. Todos precisam, em algum momento, do outro. Sem isso, todos teriam morrido logo nos primeiros dias. Todos têm seus medos, seus segredos obscuros, e precisam do outro para superar isso e ver seu verdadeiro valor. É na dificuldade que se revela a coragem necessária para lidar com a adversidade. Uma vez mais recorro ao sentido aristotélico da coragem, o caminho do meio, nem covardia e nem irresponsabilidade.
Há ainda uma camada mais antiga, quase arquetípica, nesse recomeço. Em Rousseau, sobretudo no "Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens", a sociedade nasce não da glória, mas da precariedade: homens isolados, lançados à própria sorte, descobrem que só sobrevivem quando aprendem a coexistir. Não é o contrato como pacto jurídico, mas como gesto vital: associar-se para não desaparecer. Em Planet Survival, essa associação não é teórica; é corporal, diária, feita de fome, medo, cansaço e cuidado. A civilização surge não como triunfo, mas como resposta à fragilidade.
Esse mesmo gesto atravessa os mitos mais antigos. No Enuma Elish, poema babilônico da criação, o mundo só passa a existir depois da guerra entre Marduk e Tiamat. O jovem deus derrota a deusa do caos primordial e, com o corpo dilacerado dela, molda o céu e a terra: “Ele partiu Tiamat ao meio, como se abre um peixe seco”, diz o texto, e daquilo que era destruição nasce a ordem. A criação não brota da harmonia, mas da catástrofe. Primeiro o abismo; depois, o mundo. Primeiro a queda, depois a nova vida.
O planeta Sobrevivência repete essa lógica arcaica: não é um Éden dado, mas um espaço conquistado a partir do perigo. A casa na árvore ergue-se como um pequeno cosmo contra a selva hostil; o fogo domesticado é, como em Prometeu, uma violência convertida em abrigo. Cada ferramenta, cada regra, cada laço entre eles é um fragmento de Tiamat transformado em mundo habitável.
Se Rousseau explica o nascimento da sociedade a partir da necessidade, Mircea Eliade ajuda a compreender sua dimensão simbólica: fundar uma morada é “fundar o mundo”, repetir em miniatura o gesto cosmogônico (O Sagrado e o Profano). Ao erguerem a casa, ao delimitarem um espaço de proteção no alto da árvore, os jovens não apenas se defendem, eles sacralizam um território, instauram um centro. Claude Lévi-Strauss, por sua vez, mostraria que toda cultura nasce da organização do caos: classificar, nomear, distribuir funções, criar narrativas é transformar o indizível em estrutura (O Pensamento Selvagem). A pequena comunidade, assim, não é só um grupo que sobrevive: é um mundo que começa a fazer sentido. Exatamente como eles vão fazendo, pouco a pouco.
Aristóteles escreve na Ética a Nicômaco que a virtude é sempre um justo meio, mas não um meio morno: é uma escolha difícil, feita diante do risco real. A coragem desses jovens não é épica; é cotidiana. E talvez por isso seja mais próxima de nós.
É diante desse cenário, enquanto jovens constroem uma casa na árvore e aprendem a fazer fogo, machucando as mãos, que vamos nos aprofundando na mentalidade humana. As personalidades ali representadas são facilmente observáveis em nosso cotidiano, e a série funciona como um respiro: acompanhar o crescimento deles é como acender uma fagulha para nosso próprio crescimento. Claude Lévi-Strauss lembraria que os mitos não nos dizem o que fazer, mas nos ajudam a pensar o que somos. A casa na árvore, o fogo, o alimento dividido: imagens arcaicas que reaparecem para nos lembrar de algo que a modernidade frequentemente esquece.
O pequeno Shingo é provocado pelo arrogante Howard por sentir medo e falta dos pais, mas os dois conseguem gritar isso de frente para o oceano, numa ação de amizade e catarse, que faz com que todos, menos Kaoru que acompanha orgulhoso mas em silêncio, assumam seus medos também. E esse é apenas um dos muitos exemplos. Na tragédia grega, a catarse era purificação pela palavra e pelo reconhecimento da dor. Aqui, não há coro, mas há comunidade. Nomear o medo diante do outro já é um gesto, além de corajoso, civilizatório.
Os perigos que eles enfrentam, como mercenários que caíram ali também e querem peças de sua nave e uma inteligência artificial que, perdendo a confiança nos humanos, decide extinguir a existência desses jovens também, embora presentes e ameaçadoras, servem apenas como plano de fundo para esse desenvolvimento pessoal e do grupo. Como nas antigas narrativas mesopotâmicas, onde os deuses testam os homens, ou nos mitos egípcios, em que o caos (Isfet) ameaça a ordem (Ma’at), os inimigos aqui não são o centro da história. O centro é a frágil, insistente e bela tentativa humana de permanecer humano. É assim que os mitos continuam vivos. Mesmo quando o perigo é maior que todos, é somente na união de cada ponto forte que eles podem sobreviver.
E esse é exatamente o nome que dão ao planeta: Sobrevivência.

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