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terça-feira, 7 de abril de 2026

Sozinho com todo mundo

a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homem bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.

(Charles Bukowski)

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Coração e Mente

 "Inexplicavelmente estamos sós
sós para sempre
e era pra ser
desse jeito,
não era pra ser
jamais de outro jeito -
e quando a luta com a morte
começar
a última coisa que quero ver
são
rostos de pessoas rodeando
sobre mim -
melhor apenas meus velho amigos,
as minhas próprias muralhas,
que apenas eles estejam lá.

eu fui só mas raramente
solitário.
saciei minha sede
na fonte
que há em mim mesmo
e este foi um bom vinho,
o melhor que já provei,
e essa noite
sentado
olhando pra escuridão
agora finalmente compreendo
a escuridão e a
luz e tudo que há
entre elas.

chega uma paz no coração
e na mente
quando aceitamos o que
há:
ao nascer
nessa
vida estranha
nós temos que aceitar
o desperdício de aposta que são nossos
dias
e obter alguma satisfação no
prazer de 
deixar isso tudo
para trás.

não chore por mim.

não sofra por mim.

leia
o que escrevi
depois
esqueça
tudo.

beba da fonte
que há em você
e comece
de novo."

Charles Bukowski 

segunda-feira, 30 de março de 2026

O que dizer


Não sei direito o que dizer,

mas há qualquer coisa aqui
batendo no peito,
querendo sair.

Talvez lágrimas.
Talvez palavras feias
que eu nunca digo.
Raiva dos outros, não.
Disso eu entendo pouco.

Passei tempo demais
aprendendo a me culpar,
a deixar que façam comigo
o que bem quiserem.

E quando alguém como eu
resolve bater o pé,
todo mundo se assusta
e diz que o errado sou eu.

Mas dessa vez não.
Dessa vez eu não me sinto culpado.
E quero que aquela idiota se dane.

Agora, como falar
daquilo que me salvou nos últimos dias?

Love Upon a Time estreou,
e eu chorei vendo JJ
na coletiva de lançamento,
sem conseguir falar direito,
engasgado nas lágrimas.

Net de um lado,
Kim do outro,
com a cabeça apoiada em seu ombro,
como se dissesse, 
com e sem palavras:
“você chegou até aqui”.
"Nós chegamos".

Eles chegaram.

Depois de tantos meses,
de tanta gente cruel,
de tanta palavra dita de graça,
como se fosse culpa dele
o fim de uma parceria
que nem era sua para salvar.

Mas agora nada disso importa.
Ele chegou lá.

E foi bonito ver.
Bonito demais.

No episódio, ele estava caótico,
engraçado, perdido,
parecendo ter saído direto do CAPS
para cair nos braços do Net,
o cavalheiro da pele de mel.

Queria essa sorte.

E ainda teve TeeTee e Por,
Duang With You,
os dois sempre ali,
fofos num nível
que parece até exagero,
mas não é.

Porque às vezes a única palavra
que serve mesmo é essa:
fofos.

E Thomas e Kong...
não há muito o que explicar.
Eles têm uma beleza estranha,
surreal,
como se fossem especiais
simplesmente por existirem.

É bom quando alguma coisa
faz o coração se abrir de novo,
mesmo que só por algumas horas.

Esses meninos me fazem sorrir,
chorar,
e esquecer o resto.

Até mesmo aquela idiota.

É.
Isso é bom.

sábado, 21 de março de 2026

Nada mais importa

Eu nem sei o nome dele
e nem em que turma ele está.

Mas é um rosto familiar

Toda vez que a gente se cruza,
nossos olhares se encontram.

É só isso. 

x

Os sinais daquele passado
um pouco turvo, é verdade,
mas que nunca chegou a se concretizar
se desfizeram de uma vez por todas.
A pelúcia jogada fora,
aquele que não sabia como falar,
saber como agir,
e suas mãos ágeis e passos firmes,
disseram mais que suas palavras.

E então não havia nada que o outro,
confuso e inseguro, depois de tanto tentar,
pudesse fazer, para conter as lágrimas
que caiam.

As ações do outro foram mais que claras,
seu esforço fora recompensado.
Ele tinha sido escolhido. 

E, quando isso acontece, 
nada mais importa.

x

Ele se gabava, dos muitos presentes
comprados pra ela.

Talvez seja um pouco de inveja, 
é verdade.

Saber que ninguém faria isso por mim, 
mas faria por uma vagabunda qualquer.

É assim que as coisas são.

Pensava nisso enquanto ouvia 
a Sinfonia da Ressurreição de Mahler
pela milionésima vez,

talvez na esperança de que algo
ressuscite dentro de mim tsmbém

mas não, isso não é possível.

x

A visão daqueles velhos,
quase abandonados, 
numa casa de misericórdia,
sobrevivendo de doações

me parte o coração

talvez a única parte em mim que ainda vive
e acho que isso significa alguma coisa.

Depois de uma vida inteira,
setenta ou oitenta anos,
são cuidados por desconhecidos.

Talvez morram sendo lembrados,
apenas por aqueles mesmos desconhecidos,
e talvez sejam esquecidos,
assim que o caixão, 
também uma doação,
se fechar.

Não os estou canonizando.
Muitos dizem que eles estão pagando hoje,
por algum passado de horror.
Mas não me foi dado nenhum direito de julgar,
pelo menos não um passado que desconheço.

Só posso julgar a dor de um olhar 
suplicante, 
hoje, a me encarar.

x

Espero que Deus o proteja,
meu pequeno.

Mesmo que eu muitas vezes 
esteja impaciente demais,
doente demais,

eu tenho medo, 
que tal criatura, 
tão pequena e frágil,
que chora ao ouvir o menor dos barulhos.
possa trilhar o caminho,
daquele demônio que lhe deu à luz.

Espero que Deus o proteja.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Espelho

Fitei-me ao vidro opaco esta tarde  sombria
e, nos detalhes vis da orgânica figura,
vi erguer-se ante mim, com hórrida feitura, 
um ser que me encheu de pânico e agonia.

A coma em desalinho, informe e primitiva,
lembrava algum animal da noite primigênia;
náufrago de si mesmo, a mórbida carcaça
parecia expelida à areia mais tardia.

Como um corpo que o mar, cansado de guardá-lo,
repele à solidão das praias esquecidas:
barba rude, olhar morto, a epiderme ferida,
secura mineral no rosto devastado.

Mas não recordo a origem desse exílio lento.
Talvez tenha ficado, inerte e abandonado,
num torpor secular de músculo cansado,
dormindo sob o tédio espectral do Sono.

Não sei quem é o espectro que me encara agora:
ele responde a mim, repete meus sinais.
Mas falta-lhe no olhar qualquer centelha humana,
somente um frio vácuo de matéria morta.

E temo que essas mãos, de garras invisíveis, 
rasguem de súbito o limite do espelho
e arrastem meu espírito ao mesmo torvo brejo
onde ele existe, igual, sem nome e sem memória.

Seríamos então, na treva desse limbo,
as duas formas tristes de um só organismo:
o homem que perdeu, nos pântanos de si,
a própria humanidade.

E agora treme ao ver
a besta fera que o contempla.

domingo, 1 de março de 2026

Ao que desonra a Beleza

Ao meu próprio reflexo

Embora, esteticamente, seja algo ao qual me recuse
ainda que, por breves momentos, em cada manhã
enquanto escovo os dentes, eu precise encarar
a brutal verdade que ali se reflete.

Por acaso é ali que alguém se reconhece?
Não sei quem vejo, na foto passada, 
ou no espelho presente. 
Algum dia achei que seria assim?

E então viro o rosto,
pra que aquele monstro 
não encare demais, e não estenda as garras
me rasgando a garganta.

Os cabelos cheios de óleo
macilentos na fraca tentativa
de algum movimento
ao vento

O rosto ichado, pela depressão
descuidado e maltratado.
Os lábios um dia avermelhados,
se arroxeiam e quebram ressacados.

As tatuagens se rasgaram,
no torso que se desfez em gordura.
A barriga parece que a qualquer instanre,
será aberta por algum criatura.

Que, com ânsia. devorará o meu cadáver
para assim caminhar sem rumo,
mas com um objetivo certo:
destruir qualquer beleza do mundo.

Os homens se torcem de horror,
num mundo cultuado pela beleza exterior,
eu também desaponto no interior
deprimido demais para o amor.

Aos príncipes eu dedico
as versadas rimas medievais,
belas, ricas e idílicas
correspondentes aos heróis que cantais.

Ao meu reflexo dedico apenas o horror,
e as mentiras que para escondê-lo.
meu peito se compraz
em terror em encará-lo eu mesmo.

Sem sonhos realizados, 
e nem por realizar.
Em terra estranha hoje moro,
sem paz, sem lar, sem onde morar.

Mas ainda há alguma música,
não é um verso completamente branco, 
mas certos acordes, 
numa dodecafonia de monstro.

Heike Monogatari - Poema de abertura

Poema que dá início ao romance épico japonês Heike Monogatari ("Conto de Heike")

Em Guiôn,o som dos sinos ressoa
 que nada permanece para sempre.
Na cor das folhas das árvores gêmeas,
a verdade: o que nasce, perece.
A arrogância não dura muito tempo,
é  sonho breve na noite vernal;
até os bravos um dia enfim tombam,
se tornam nada mais que poeira ao vento.

Tradução: Rafael Brunhara


Notas:

No original, Gion Shouja, é o templo situado em Gion, na Índia.

No original, as árvores gêmeas com folhas de Shala (sharashouju). Árvores com dois troncos crescendo em quatro direções. Diz a lenda que Buda morreu sob essas árvores, após ter alcançado o Nirvana. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ao que honra a Beleza

Inspirado em Inn Jakkrasin Atsavatanachai,
ator e modelo tailandês. De excepcional beleza.

A primeira visão que tive
não foi da carne somente:
era estátua que respira,
era chama permanente.
Rosto não feito de névoa,
mas de herói antigo e ardente.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Branco e rosado na aurora,
como mármore que sente,
corre sangue sob a pedra
com fulgor adolescente.
Na fronte pousa a vitória
como ouro resplandecente.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Seus cabelos, copa erguida
contra o vento e contra o tempo;
suas faces, bálsamo e mirra
num jardim em movimento.
Nos lábios traz uma rosa
em sinal de juramento.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Os ombros são duas colunas
onde a guerra fez morada;
mas jamais manchou a pele
que parece ser talhada
na oficina dos deuses
com a luz da madrugada.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

O arco firme dos seus flancos
guarda a força e a clemência;
nos braços mora o triunfo
sem perder a inocência.
É aço puro e primavera
na mesma transparência.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

O peito sorri, e cega.
O riso é lâmina e flor.
O olhar desce em chama lenta
no arco vivo do ardor.
No giro oclto dos flancos
há um fruto por romper.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Nunca houve lâmina ou lança
que o fizesse menos claro;
se combate, é como Aquiles,
se ama, é templo raro.
Príncipe entre os semelhantes,
nobre mesmo em desamparo.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Mas seu feito mais temido
não foi campo ensanguentado,
nem muralha derrubada,
nem estandarte fincado:
foi abrir-me o peito obscuro
e ensinar-me a ser amado.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

E se um dia a corte cesse
e as trombetas se calarem,
ainda assim seu nome ecoa
onde meus pulsos falarem;
pois meu herói reina inteiro
onde meus olhos pousarem.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Nesse ponto

Sobre a vida humilhante
de meus pais
I

Me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

Meu pai desde cedo, no interior do Goiás,
precisou lutar pra comer,
e ajudar a sustentar os muitos irmãos.

Comia farinha com rapadura 
em todas as refeições,
durante muitos dias, 
ate que algum vizinho desse a eles um punhado de arroz,
um pedaço de carne seca ou feijão,
em troca de umas cuias de farinha 
ou uns pedaços de rapadura.

Acostumou-se com a vida dura.
Na cidade grande continuou a luta.
Aprender a ler o básico para trabalhar num escritório,
onde se aposentou pouco mais de trinta anos depois.

Não consegue ficar parado. 
Todo dinheiro que aparece ele se lembra 
daquela época em que comia farinha com rapadura.
Afundado em dívidas, 
passou a catar latinhas pra vender.

Quanta humilhação!

Começava às seis da manhã.
Depois às cinco,
às quatro.
Tinha insônia, ele dizia.
E pode ser verdade, 

alguns depressivos perdem o sono 
a essa hora da manhã.
por causa de algo no cérebro
que não conseguem poduzir.

Mas todos sempre souberam,
que era medo da fome.
Mas não só da fome dele,
também da nossa.

E nunca deixou faltar o prato de cada dia. 
Nem um só dia.
Nem um único maldito dia.

E então, para matar a fome,
ele vem se humilhando 
e se matando.

Depois dos quatro, ou cinco, filhos,
hoje ele luta pelo neto.
A paciência diminuiu, 
assim como a força. 
Mas ele ainda brinca com o bebê
todos os dias,
e o coloca pra dormir, três vezes,
todos os dias,
e levanta às seis,
ou às cinco,
ou às quatro,
se humilhando,
quando as coisas parecem apertar.

Cada vez mais afundado em dívidas, 
ele se desespera quando o leite acaba,
ou quando a carne acaba,
e fica nervoso, 
e chora escondido, 
e levanta às seis,
ou às cinco,
ou às quatro,
para catar lixo,
se humilhando,
quando as coisas começam a apertar.

Mas todos sempre soubemos
que é medo da fome.
Mas não só da fome dele,
também da nossa.

E nunca deixou faltar o prato de cada dia. 
Nem um só dia.
Nem um único maldito dia.

E então, para matar a fome,
ele vem se matando.

II

Me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

Minha mãe também teve infância difícil,
desde cedo ajudou a família numerosa,
que nunca incluiu apenas primos e tios, 
mas todos que moravam ali perto
também se ajudavam nas dificuldades.

No interior de Minas Gerais o chão seco custa dar vida
e essa vida custa a vida de quem cultiva.
Povo de cerviz dura e divertimentos longos, 
nas noites claras, pra compensar do dia a fadiga.

Desde nova também trabalhou em casa de família. 
Conheceu boas pessoas, generosas
e teve patroas que a humilharam 
e destruiram seu orgulho

Hoje, com a pele marcada pelo tempo,
sem saber se ainda se reconhece,
na foto passada ou no espelho de agora,
tenta manter a família de pé

O marido distante que já não reconhece,
o filho deprimido que já não reage, 
e a filha que a cada dia se mostra menos humana,
e um lindo bebê, que necessidade de uma mãe humana.

Mas aquela mulher, aquela que veio de fora,
que deve ter rompido com as garras 
o ventre da mãe doadora,

Que martelo a forjou?
De que cadeia escapou?
Que demônio com fúria a plasmou?

Como pôde, daquele ventre podre,
nascer criatura tão doce?

O demiurgo que a formou,
foi o mesmo que o criou?

E então a minha mãe luta,
e para continuar, 
vem se matando.

Já não esconde a depressão,
que nem aceita que tem.
Tenta ajudar a todos a todo momento,
mas ninguém a ajuda.

O filho deprimido e inútil.
A filha, só inútil,

E a criança a chorar de dor, 
por nascer em meio a nós. 

Me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Valentine's Day


No Brasil o Dia dos Namorados é em junho, 
ou julho, não lembro
é apenas de comercial o cunho

no entanto
é Valentine's Day
pra todo o resto do mundo

os namorados se dão presentes
alianças de metal
brilhantes e grossas, finalmente

tão grandes buquês de flores
rosas e vermelhas que do ambiente
são praticamente malfeitores

posam em ensaios
maquiados e enfeitados
de mil corações, ébrios

mesmo os que estão solteiros
posam sem camisa
os famosos biscoiteiros

claro que eu também pensei
em passar blush no rosto
mas ao pensar, cansei

e então apenas continuei rolando
fingindo que não me importava
quando continuava pensando

mas no espelho ou na foto refletida
ao conceber minha figura
de nenhuma beleza seria revestida

imagem grotesca
audácia achar que poderia ser algo 
menos do que um demônio dantesco

se, por ventura, algum artista 
pintasse no alto de uma igreja
uma cena bíblica em afresco

seria eu a criatura
que terminaria em triste ária
de mezzo soprano coloratura

acabando por ser espetáculo
daqueles que nem sequer acreditam
existir um homem, ou ser, tão ridículo
 
bom, o que sobra então é a desistência
uma vida que eu já não vejo seguir
quem sabe numa outra por clemência 

depois, é claro, da prepotência
o perdão adquirido
do universo a anuência

perdoem-me a redundância
mas nesse mundo apenas poucos
tem da beleza a benevolência

continuam os outros posando
sorrindo, blush e batom nos lábios
a todos apaixonando

malditos
e belíssimos
buquês

só pra não dizer 
que de novo
não falei das flores

porque piores que
meus retratos 
 e meus amores

são justamente meus versos
sobre meus retratos
e meus amores.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

desejo num bar qualquer


Sinto que me apaixonei,
droga!
De todas as coisas ruins que poderiam acontecer,
a autossabotagem que chamamos de paixão 
é a pior.
Porque é uma desgraça que provocamos em nós mesmos,
e eu tenho agravantes.

Me apaixonei pelas costas largas,
depois que ele tirou a camiseta
que já era transparente,
sem necessidade,
e olhou com aquela expressão sacana
de quem sabe que todo mundo ali
até os caras que fingem não gostar,
matariam pra foder com ele.

Deve ser sensacional!

Me apaixonei por esse sorriso idiota,
pelo rebolado.
Anos atrás ele seria chamado de bichinha.
Hoje é só mais um gostoso dançando,
e cantando palavras provocadoras
de um jeito aleatório.

Droga, droga!

Como eu fui deixar isso acontecer? 
Só devia me sentar aqui e aproveitar pra fumar um
enquanto tomo cerveja nesse calor dos infernos.
Tinha que prestar atenção nele?

Tomo mais um gole grande e peço outra, 
mas sei que não vai dar pra afogar isso.

Mas afinal o que é isso?

Talvez só um tesão romantizado.

É, é isso. 

Porque não existe essa palhaçada de amor.

Talvez seja também um pouco de inveja
pelo corpo perfeito e o sorriso e toda essa coisa da atração
que faz estranhos sonhares estar no meio dos seus braços

Mas pra um homem como eu
em que essa realidade é impossível
só posso pedir mais uma cerveja
tomar com alguns comprimidos pra dormir

e esperar que o sono supere o desejo. 

coração e mente

coração e mente

inexplicavelmente estamos sós
sós para sempre
e era pra ser
desse jeito,
não era pra ser
jamais de outro jeito -
e quando a luta com a morte
começar
a última coisa que quero ver
são
rostos de pessoas rodeando
sobre mim -
melhor apenas meus velho amigos,
as minhas próprias muralhas,
que apenas eles estejam lá.

eu fui só mas raramente
solitário.
saciei minha sede
na fonte
que há em mim mesmo
e este foi um bom vinho,
o melhor que já provei,
e essa noite
sentado
olhando pra escuridão
agora finalmente compreendo
a escuridão e a
luz e tudo que há
entre elas.

chega uma paz no coração
e na mente
quando aceitamos o que
há:
ao nascer
nessa
vida estranha
nós temos que aceitar
o desperdício de aposta que são nossos
dias
e obter alguma satisfação no
prazer de 
deixar isso tudo
para trás.

não chore por mim.

não sofra por mim.

leia
o que escrevi
depois
esqueça
tudo.

beba da fonte
que há em você
e comece
de novo.

(Charles Bukowski) 

"As relações humanas nunca funcionavam mesmo. Só as primeiras duas semanas tinham alguns tchans; a partir daí, os parceiros perdiam o interesse. Caíam as máscaras e as verdadeiras pessoas começavam a aflorar: maníacas, imbecis, dementes, vingativas, sádicas, assassinas. A sociedade moderna tinha criado seres à sua imagem e semelhança e eles se festejavam mutuamente num duelo com a morte, dentro de uma cloaca. Eu já tinha notado que a duração máxima de uma história entre duas pessoas era de dois anos e meio. O rei Mongut do Sião tinha nove mil esposas e concubinas; o rei Salomão, do Velho Testamento, tinha 700 esposas; Augusto, o Forte, da Saxônia, tinha 365 mulheres, uma pra cada dia do ano. Segurança em números."

(Charles Bukowski)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Pessoas e sonhos

Fico sentado, só consigo observar
pessoas empolgadas com as possibilidades do futuro, 
por mais distantes que possam parecer
ou talvez só pareçam pra mim

ou as pessoas comemorando com seus amigos
e eu mais uma vez deixado de fora
mesmo os vendo com frequência

vejo pessoas com sonhos
e algum tipo de crença e esperança
por mais distantes que possam parecer
ou talvez só pareçam pra mim

já não sei o que é um sonho
acho que é algo idiota em que as pessoas se apegam
pra não enxergar a verdade
que vivem uma vida miserável

ou talvez o miserável seja eu

por não enxergar mais nada
por não querer nada
por não sonhar nada

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Sobre laços

A chuva aliviou um pouco o calor
embora ainda esteja abafado
algo desse tempo mexe mais
do que simplesmente o corpo,

não é apenas desconforto,
mas é uma inquietação 
que do coração, anseia 
pela companhia em silêncio.

Enfim, na ausência de quem
do tempo caro possa comigo gozar
fico apenas no meu silêncio
e alguma história de amor a acompanhar.

Aquela história, 
do jovem querendo se provar
do outro que de tudo tentou
para os amigos salvar

mas que falhou,
e agora é por eles evitado,
e desconfia daquele outro
que só buscava fazer seu trabalho.

Em provocação se conhecem,
Acusações, solavancos e dedos em riste.
Palavras ácidas, que escondiam 
lágrimas doloridas

que não eram enxergadas
por ninguém mais
já que tudo que importava
era o valor gerado

não o sentimento guardado,
pelos amigos conquistados,
pelos sorrisos juntos dados
e os laços criados.

Mas aquele jovem 
quase sem esperança
foi o único a ver 
o que se escondia

por trás daquela criança
que chorando pelos amigos
que não conseguiu proteger
chorava escondido

atrás de fingida arrogância.

Desfazendo então
as barreiras levantadas,
e libertadas as lágrimas
outrora por gananciosos

e ambiciosos 
ele entendeu o que queria:
reaver o que de mais precioso
lhe havia

aquilo que 
por tanto 
lutara, 
suportara

os companheiros
amigos
irmãos
confidentes

que juntos
perdiam o sono 
longe da cama e 
da casa

que juntos
se aninhavam 
aos abraços
durante trovoadas

que sorriam juntos
a cada nova música
a cada nova coreografia
a cada aproximação

e além disso,
caída a imagem criada
outra verdade foi revelada
também o coração conseguira liberdade

encontrando no novo parceiro
mais do que um peito amigo
mas olhos que viam bem mais
do que todos os outros viam

e então, pouco a pouco
alguns minutos por dia
foram se tornando horas
e depois noites inteiras

conversando, sorrindo
amando, mesmo que
a inexperiência de um
e a dor do outro

dificultasse chamar isso
pelo nome que lhe era devido
mesmo que a insegurança
talvez fosse um empecilho

felizmente temporário
felizmente superável

ao amor.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Ao adormecer

Ia me afundando mais e mais
pensava que eram os sentimentos 
que ia criando raízes
e se aprofundando no peito

Mas a verdade, compreendida 
tempos depois de sentida,
é que o que se aprofundava
era o coração em tristeza.

Ecoava uma canção solitária,
uma voz rouca e cansada,
sem nada no peito a palpitar
olhando pelos vidros embaçados.

Deitei e o calor daquela noite,
num insuportável verão, 
só me fazia desejar voltar para o sofá
e sentir a brisa entrar pela grande porta

mas não tinha vontade porque
sabia que chegando lá
o vazio da sala seria ainda pior
que o vazio dessa cama.

Virei pro lado, 
e ao invés de uma prece
falei um palavrão baixinho
e não sei quando dormi.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Domingos errados


É mais um domingo infeliz: nublado, abafado, um peso sem nome.
O verão me cansa, e acordar parece sempre um erro repetido.

Mas penso em mundos onde a manhã talvez venha como um gesto leve,
onde o tempo não machuca ao passar, apenas convida a ficar.

Não quis ficar desperto hoje, como em todos os outros dias.
Remédios não compram descanso, e o corpo esqueceu como dormir.

Ainda assim, há uma hora que me chama para mais tarde:
algo para assistir, como se a noite pudesse ser abrigo.

O que um homem precisa fazer para conseguir paz?
Nem o silêncio responde, apenas o cansaço que insiste.

Vejo então os meninos da Domundi, sua busca inocente por um parceiro,
e por um instante o mundo parece outro, mais claro, mais possível.

Não somos separados apenas por fronteiras no mapa.
Eles pertencem a outro universo, e eu permaneço neste.

Imagino esse lugar onde os encontros ainda são promessas,
onde trabalhar junto ainda soa como gesto de cuidado.

Aprendi: chega um dia em que simplesmente não se importa mais.
Não há estrondo, nem clímax, só a lenta desistência.

Como folhas mudando de cor, quase sem ruído, quase sem dor,
o coração aprende a soltar sem alarde, sem drama.

Talvez seja isso: depois de tanto ferir-se, já não há força para segurar.
O apego se dissolve, não por escolha, mas por exaustão.

E, ainda assim, pergunto: como seria viver naquele outro mundo?
É preciso nascer lá, ou basta sonhar com ele em silêncio?

Será que lá também existem domingos infelizes, abafados, longos?
Ou apenas aqui o tempo pesa como um corpo sobre outro?

Não são vidas perfeitas, eu sei, mas talvez, num dia assim,
ter pessoas bonitas ao lado faça do mundo um pouco menos duro.

Mas se estivesse lá, nenhum deles olharia para mim. 
Seria tão invisível quanto sou aqui.

Ter sorrisos que encantam, pequenas conquistas que nos faça rir.
Conversar com amigos comendo Shabu e cantando Proxie.

Os metais de Mahler gritam com força. Os arcos dos violinos em fúria.
É o prelúdio da Ressurreição, a terra se estremece de medo.

E eu, com a mente coberta por um véu, só consigo imaginar,
se há, para um homem como eu, beleza em algum possível céu.

Como deve ser, ser a causa do sorriso de alguém?
Sentir-se tão bem a ponto de ficarem em silêncio juntos?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Três Vozes

Sentados num lugar desconhecido qualquer, o velho Buck fumando e bebendo uma cerveja que ele limpava da boca com a mão, os pelos do peito saindo pela camisa aberta, esse já deve ser o seu terceiro bar hoje, e ainda são dez da noite. Augusto, do lado, usa um terno como quem acaba de sair de um casamento ou uma ópera. Bebe um whisky com uma pedra de gelo, e seu olhar é distante, frio, tão cheio de desencanto quanto o nosso colega. Eu não me lembro como vim parar aqui. Tomo uma taça de vinho, ou talvez já seja a sexta. Olhamos uma foto pendurada na parede, num dos poucos pontos iluminados pela fraca luz amarela daquele lugar, um lugar para onde vão as pessoas que querem beber, não serem vistas. Mas aquela imagem nos chama a atenção.

O jovem se abaixa em pose fingida,
uma flor qualquer na mão e o sol
iluminando sua face de cristal
com um brilho nunca visto

Inclina o torso em cálculo estético,
flor cadáver entre dedos nervosos,
enquanto o sol, coveiro químico,
doura a epiderme intacta da ilusão

ele se abaixa porque sabe
que alguém está olhando,
segura uma flor que vai morrer rápido
e o sol faz o resto do trabalho

É um daqueles jovens distantes,
mas tão distantes da vida real,
que facilmente poderíamos confundir
com alguma criatura sobrenatural

Ser de distância ontológica,
incompatível com o atrito do mundo,
quase ectoplasma estético
num universo de carne cansada

esses caras não vivem aqui.
não pegam fila,
não cheiram a fracasso,
parecem ter vindo de outro turno da vida

De beleza fascinante,
de sensualidade ímpar,
um sorriso hipnotizante
dando ao mundo honra de sua vista

Estética tirânica do sorriso,
armadilha neurológica do desejo,
onde o belo humilha o feio
sem precisar dizer palavra

o sorriso dele não promete nada
e mesmo assim leva tudo.
não é gentileza,
é dano colateral

Lábios rosados em mármore claro,
num sonho meus dedos deslizam
pelas feições delicadas do seu rosto de anjo
mas eu sei que, na vida real

Labial epiderme de escultura viva,
onde o tato é delírio condenado,
pois o anjo só existe
na ausência do contato

eu imagino minhas mãos no rosto dele
sabendo desde o começo
que isso nunca sairia do campo da imaginação
e talvez seja melhor assim

Ele me afastaria como demônio.

Repeliria o corpo impuro,
como sistema imunológico do belo
expelindo o erro

na vida real
ele me empurraria sem pensar duas vezes
e seguiria o dia

Quase ninguém
poderia tocar aquela alma divina
e eu não sou contado entre eles

O belo não é democrático:
seleciona, exclui, apodrece o resto

ninguém toca esse tipo de cara
sem sair pior depois

Um daqueles jovens de beleza indescritível
droga!

Aberração estatística da carne,
excesso de forma num mundo falho

isso deveria ser proibido
ou ao menos distribuído melhor

Como pode existir alguém assim?
Como pode o mesmo criador a plasmar essa criatura,
ter formado um monstro como eu?

O mesmo laboratório cósmico
que erige o ídolo
fermenta o dejeto humano

o que me irrita não é ele existir.
é o mundo olhar pra mim depois
e dizer:
“foi o que deu.”

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Noite entre uma nota e outra de Chopin


Mais uma noite.
E o piano — esse eco distante de um mundo que não existe mais —
me embala em melancolia.

Mais uma noite — e eu, sentado diante do nada,
escuto Chopin como quem escuta a própria alma chorar.

A música toca, mas não me toca.
Estou só, minimamente interessado em continuar vivo.

As teclas tocam o ar,
mas é em mim que a melodia se derrama, lenta,
como luz que já não ilumina.

Essa música que cai em mim, atravessa — e fico oco.
É como se o mundo tivesse sido varrido de sentido
e restasse apenas o eco do que um dia foi humano.

Pensei em ver alguma história de amor,
qualquer coisa que me distraísse do abismo,
mas o desânimo veio primeiro,
como uma maré que engole a vontade.

Tentei erguer o braço e alcançar um livro,
mas o gesto morreu antes do movimento.
A vida ficou parada numa sonata que acabou,
entre o querer e o desistir.

Não é alegria, tampouco dor:
é o espaço entre uma nota e outra,
onde o tempo suspira cansado.

É estranho:
parece que toda a alegria do mundo foi recolhida
— e o que restou foi apenas o pó do silêncio.

E esse silêncio pesa.
Pesa tanto
que até respirar torna-se um gesto inútil.

Tudo pesa.
O ar torna-se apenas uma lembrança antiga
de quando respirar ainda era possível.

Fico imóvel,
ouvindo o som que não consola,
mas existe.
Talvez seja isso o consolo —
que algo ainda exista.

E, quando a última nota morre,
sinto que é o próprio mundo que se cala em mim.

E na pausa entre uma nota e outra,
a derradeira,
eu também me apago.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Quatro Palavras


Apenas quatro palavras bastaram
para, em estado devastado, 
o pobre que há muito havia se enamorado

À conversa de meses atrás
aquela franqueza maldita
finalmente dita

E as verdades que vieram à luz
tomando pela mão
ao pobre para as trevas conduz

"Já tivemos essa conversa"

Aquilo que, por anos,
em silêncio por um lado acordado 
mas por outro...

A brisa do inverno parece que se foi
a primavera trouxe consigo o calor
e o meu peito, que sempre foi calor

Arrefeceu, não por querer
mas porque como água fria
arremessado se frustrou

E tudo o que era doce virou silêncio,
e o que era sonho, pó.
Nem o tempo, com sua lerdeza,
soube desfazer do górdio o nó.

Veio-me à mente o riso,
aquele leve, distraído,
que um dia pensei ser abrigo.

Mas era só vento,
soprando promessas em vão,
levando contigo meu coração.

Agora falo contigo apenas no pensamento,
numa espécie de prece sem fé,
pedindo que não me lembres —
e que eu te esqueça, se puder.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

O Corvo


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivêssem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.

Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. “Amigos, sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas suas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dêssem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz êsses teus ais!”
Disse o Corvo, “nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta! –
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta! –
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida,
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.
“Que êsse grito nos aparte, ave ou diabo”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
E a minh’alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!

Edgar Allan Poe 
(Tradução de Fernando Pessoa)