quarta-feira, 29 de junho de 2016

Apenas um cara no caminho...#3

Eu não tenho muita idade, mas já vivi por 21 anos, são duas décadas e mais um pouco. E quanta coisa podemos ver que mudou de um tempo pra cá. Imagine só nesse tempo todo. Da mesma forma como o mundo continua em constantes transformações, eu gosto de pensar que eu também me encontro numa permanente metamorfose. Não quero usar a palavra evolução, porque ela me dá a impressão de uma escala linear de superação e um fim, um objetivo final: a perfeição. E eu sei que não caminho rumo a perfeição, não no sentido humano da palavra, até porque os homens não se decidiram ainda o que é um homem perfeito. Não, eu costumo pensar apenas que estou numa constante transformação, as vezes progredindo aqui e ali, as vezes regredindo, as vezes estagnado. Mas numa constante. 

As coisas que antes me faziam o garoto mais feliz do mundo hoje já não tem qualquer significado pra mim. Outras no entanto continuam a me acompanhar, e outras eu apenas guardo no coração, pois são todas essas coisas que fizeram ser quem eu sou hoje. Imperfeito, falho, miserável, mais eu mesmo. E afinal de contas, quem sou? Sou apenas um cara no caminho... 

Meu corpo, minha aparência, minhas opiniões? Não definem quem eu sou. Nem meu nome, nem ser reconhecido pelos outros. O que define a minha existência é a minha essência. Essa essência é formada pelo conjunto de todas essas coisas, meu corpo, minhas opiniões e meu nome, e tudo isso junto, num conjunto, forma um todo, a totalidade da minha existência. E a totalidade da minha existência é ainda muito imperfeita para abarcar a totalidade de toda existência. Minha consciência me limita, minha inteligência me classifica, minhas característicam possibilitam aos outros formarem um juízo sobre mim. Mas esse juízo é muito limitado, contempla apenas uma fração da minha existência, juntando alguns fragmentos de minhas opiniões e experiências. E o juízo formado pelos outros não define quem eu sou, pois da mesma forma que a totalidade da minha existência é limitada pela minhas consciência, a minha consciência é também a responsável por limitar meu alcance a outras existências. Mas esse sistema, assim como o homem, possui falhas. Ou melhor, brechas. E por essas brechas, a minhas consciência pode lentamente deslizar para dentro de outras existências, fazendo assim que, num breve momento, eu possa tocar até certo ponto o local mais profundo do meu próximo.

Ao conjunto desses breves momentos onde temos acesso ao mais profundo do próximo, demos o nome de Amizade. Mas o que é a amizade? A amizade é a companhia, é o desnudar da alma a um completo estranho que depois de um tempo se torna nosso ente mais próximo, superando laços de sangue, e nos dando acesso indiscriminado as outras existências. A verdadeira amizade portanto é aquela onde não há segredos e nem temores, mas também não é aquela inabalável, mas sim aquela que consegue unir a foça de ambas as consciências numa coisa maior, gerando assim uma existência nova e ainda mais poderosa. 

Claro, nem tudo é perfeito e por vezes os laços formados entre as pessoas se rompem e perdemos o acesso ao seu interior, mas o fato de esse laço um dia ter existido, significa que a vida tem sido vivida. 

Não raramente a vida nos surpreende com amizades que surgem repentinamente. Não acho que deveríamos menosprezar essas amizades. Ora, um amigo de 10 anos não está imune a uma traição, assim como um amigo de pouco mais de um mês pode sim estar disposto a arriscar a vida pelo amigo. Tudo depende da força das conexões formadas. Algumas pessoas levam anos pra consegui-las, enquanto outras as constroem com facilidade. A essas almas leves, que rapidamente descobrem o véu de suas mentes e corações ao próximo é dada uma espada de dois gumes. O primeiro é o constante risco da decepção, e o segundo, o gume da consolação. Quem faz amigos com facilidade não fica sozinho, é bem querido por todos e conquista o afeto do próximo tanto na alegria quanto na aflição.

Bom mesmo é deparar-se com uma dessas almas leves. Que se entregam a beleza de uma amizade pura sem muitos escrúpulo. Que não teme em abrir o coração e nem se recusam a receber o afeto que sai do nosso. Bom é fazer um amigo que te deixe com um sorriso bobo como se tivesse apaixonado. Bom mesmo é se identificar com uma pessoa que mesmo a distância consegue te fazer bem. Bom mesmo é querer o bem dessa pessoa.

Por fim, acredito que essa é uma das belezas mais sublimes da vida: a amizade simples, fácil e desinteressada, que aquece o coração e traz sossego e paz à alma. 

O veneno do sangue


"Admiro gente que trabalha bem... que diz que vem amanhã e vem, que daqui estou ai e logo em seguida chega. Que não falta, que não engana, nem mente pra gente. Ah... como admiro gente assim... Ah... como é difícil encontrar gente assim..."

Como sempre, post inspirador que achei pelo Face. Não achei o autor, mas ainda assim achei bom começar com ele nessta tarde ensolarada de quarta. 

Estou pensativo nos últimos dias a respeito de conceitos como amizade, lealdade e afinidade. Coisas importantes pra mim mas que aparentemente eu não entendo da forma correta, já que parece que não sou capaz de manter as pessoas por perto por um tempo prolongado, e elas sempre acabam por se afastar. 

Pessoalmente eu sou sempre muito intenso em todo relacionamento que tenho, seja de amizade ou de qualquer outro tipo. Por esse motivo, eu não tenho condições de manter muitos desses ao mesmo tempo, o que acaba resultando em poucas amizades. Mas a essas poucas eu costumo me dedicar com o que posso. Sou o tipo de amigo que pede pros outros irem buscar tarde da noite porque estão bêbados demais pra coltar pra casa. Sou do tipo que não vê problema em ficar até as 3h da manhã conversando sobre as dificuldades dos outros, e mesmo não tendo como ajudar com conselhos ou de outra forma, ainda faço o que estiver ao meu alcance. Penso que somos seres que precisam uns dos outros pra conseguir viver. Não sou grande, nem forte, nem muito inteligente, então sei bem o quanto é complicado depender dos outros pra quase tudo. Por essa razão, sei o quanto é bom ter com quem contar nos momentos de dificuldade, onde as próprias forças são insuficientes.

Infelizmente, a memória das pessoas costuma ser demasiado curta nessas situações. E como disse o sábio Pe. Zezinho, "As pessoas esquecem os próprios erros facilmente. Aprendem novos erros facilmente, mas dificilmente esquecem os erros dos outros."E assim também fazem com os amigos, rapidamente se esquecem do antigos e logo os substitui por outros que são mais convenientes. Isso é até compreensível quando você parte do pressuposto que o homem também é um ser interesseiro, e quando uma pessoa te oferece uma segurança maior, é normal que a troca aconteça.

Claro, não deveria ser assim, mas é. Penso que deveríamos nos aproximar das pessoas, e permanecer ou não com elas, pelo que elas são, e não pelo que podem oferecer a nós. 

Dito isso, eu parto pra segunda parte desse pensamento de hoje, imaginando dos motivos prováveis pelos quais as pessoas se afastaram e se afastam uns dos outros. Isso tem me ferido muito ultimamente pois, da mesma forma como me reaproximei de antigas amizades que eram importantes pra mim, eu também me afastei de outras que eram igualmente importantes. principalmente no que se refere aquela pessoa que de uma amizade evoluiu pra algo mais e que agora, por mais que eu tente, não passa mais de um simples contato na minha agenda. As conversas que antes iam madrugada a dentro, agora não passam de mensagem truncadas e irritadiças, muitas vezes enviadas por educação, sem o menor sentimento pela amizade que um dia disse existir. E a essas coisas eu realmente dou muito mais valor do que a outras. Acredito que a fidelidade na amizade é algo que deva ser cultivado dia após dia, e requer esforço, assim como num relacionamento amoroso, do qual, na minha opinião, a amizade não se difere muito.

Com relação a mim, eu entendo que as pessoas tenham certa dificuldade em em aguentar devido aos meus frequentes surtos psicóticos. Realmente, se eu pudesse escolher, provavelmente não seria meu amigo. 

Passo com frequencia por períodos complicados de alteração de humor e carência, reflexo de uma repressão contínua que me submeti muito tempo atrás e que hoje tento evitar tanto quanto possível, a fim de diminuir que aconteçam. Durante esses momentos, fico num estado emocional muito instável e sensível a todo tipo de ataque, o que se reflete em constantes paranóias da minha parte questionando atitudes que pros outros soam como completamente normais. Em outras palavras, se as pessoas não correspondem as minhas neuras, eu surto. Caso óbvio de uma pessoa que precisa de tratamento psicológico sério. Mas simplesmente nesses momentos eu não consigo aceitar que nem todo mundo tenha a capacidade mental de mandar poeminha de bom dia toda hora. Claro, isso é coisa de gente doente, mas não entra na minha cabecinha problemática de jeito algum. Logo, eu não posso exigir que as pessoas tenham comigo a mesma paciência e dedicação que eu tenho, isso seria injusto, já que a dificuldade que eu imponho é deveras pesada demais pra qualquer um. Mas não deixa de ser um fardo e tanto a se carregar. 

Me recordo nesse momento de Albáfica, da obra de Masashi Kishimoto, o belo e poderoso guerreiro que tinha no sangue um poderoso veneno, que matava a todos que se aproximassem dele, e que por esse motivo, se retraiu e se afastou de todos quanto ele amava justamente para evitar que se machucassem com seu próprio veneno. Mas mesmo longe de todos que ele amava, ele lutava para protegê-los e foi capaz de morrer para proteger o que era importante para ele. Ou seja, seu afastamento não foi apenas um atitude egoista, mas sim, altruista. Imagino que talvez eu devesse agir da mesma forma, e impedir que os outros de machuquem com o meu veneno. Visão um tanto quanto romantizada, mas que me parece ser a única plausível, dadas as circusntâncias. Me recordo bem que um amigo meu se afastou de todos a um tempo atrás com esse mesmo discurso, e que na ocasião eu discordei dele taxativamente, ironicamente eu agora faço a mesma coisa.

Bom, parece que a roda da fortuna girou mais uma vez...

terça-feira, 28 de junho de 2016

Devaneios da meia noite com Brahms

Ah, a criação humana... De todas as coisas criadas por Deus, o homem tem seu lugar de destaque como sua maior criação, já que somos a sua imagem e semelhança. Acredito que esse imagem e semelhança seja num âmbito tão amplo e profundo que jamais poderá ser explorada completamente. Podemos perceber isso nas grandes aspirações da alma humana. Basta olhar para os grandes feitos da humanidade, assim como fomos criados em detalhes tão perfeitos, o homem também é capaz de criar coisas maravilhosas, claro, cosias também terríveis, mas gostaria de me deter somente a um aspecto otimista da criação nesse dado momento, visto que da coisas ruins pessimistas, a vida já está cheia. 

E de todas as coisas que essas pequenas criaturas feitas a imagem e semelhança  de Deus criaram, a música certamente tem seu lugar de destaque como a maior delas. Ao menos pra mim, claro. Ora, muitas são as criações maravilhosas da humanidade: a poesia e a arquitetura são algumas das mais belas. Basta olhar para os versos apaixonados de Shakespeare, ou para construções como a Grande Muralha da China, ou as Pirâmides do Egito, para perceber que o homem sempre almejou a grandiosidade, e sempre tentou alcançar essa mesma grandiosidade através da expressão dos afetos de sua alma. Mas num ponto eu acho que o homem conseguiu alcançar o ápice dessa expressão: através dos sons. 

Romantico como sou, estou a escrever depois de uma audição fantástica da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro (OSTNCS), que nessa noite de terça (28), sob a batuta de seu Regente Titular, Claudio Cohen, performou a célebre Sinfonia N°1, Op.68 do alemão Johannes Brahms. Primeiramente, sobre o compositor, Brahms está dentre aqueles que menos escuto dentro daqueles que mais gosto. Não sei se deu pra entender nessa frase confusa, mas posso tentar explicar. Dentre os compositores que mais gosto, Brahms é o que menos escuto, o que fica a margem da minha playlist. Não que não considere sua obra brilhante, só que por vários motivos, outros compositores ganharam mais a minha admiração. Dito isto, fica claro que não sou um especialista em sua obra, e dentre as muitas peças que tenho dele, somente a referida sinfonia, o Concerto pra Violino e as Variações em Tema de Paganini, ganharam o meu gosto. Escuto com determinada assiduidade, inclusive, principalmente as duas últimas.

Conheci a sua 1° Sinfonia através de Nodame Cantabile, e admito que gostei logo de cara, principalmente o seu 1° Movimento. Mas a experiência de hoje mudou completamente a visão que eu tinha dessa obra. Dessa vez, merece crédito o regente, que diferentemente das outras vezes que o vi reger, não segurou a orquestra e conseguiu um Brahms enérgico e voraz, como tem de ser. Sempre achei Cohen um pouco contido demais, mas no entanto, hoje ele conseguiu me impressionar. 

O 1° movimento da obra, Un poco sostenuto, é de uma capacidade revigorante. Principalmente no que se refere a carga emocional do tema principal. A obra num todo soa como um grande tributo a Beethoven, e em alguns momentos tem-se a impressão de que ele simplesmente transcreveu alguma obra do mestre alemão para a pró´ria partitura. Não que isso tire o seu mérito, muito pelo contrário. Penso eu que Beethoven não poderia receber uma homenagem mais digna que essa: uma música tão maravilhosa como as suas foram. Particularmente adoro as passagens maís rápidas e poderosas, e disso, o tema principal do 1° movimento e o 4° e último movimento, Adagio, tem de sobra. Só lamento, como sempre, a quantidade de pessoas a dormir ou dispersas na sala do concerto, enquanto eu me controlava pra não ficar de pé e gesticular ferozmente ao lado do maestro Cohen! De fato, uma obra grandiosa, gostosa de se ouvir, e que nos leva a uma viagem pela paixão da música revolucionária de Beethoven. Sinto como se Brahms tivesse despido Beethoven a sua frente e transcrito suas impressões na partitura. Sublime e idílico são as palavras que usaria pra descrever, mas ainda sim, carece de adjetivos que possam contemplar sua beleza. Como uma grande viagem as ruas iluminadas de uma grande cidade do século XVIII, com suas ruas de pedra, os vestidos longos e luxuoxos, e os compositores que hoje são tidos como conservadores, fazendo revolução com sua música. Bravíssimo!

Claro, depois de uma experiência tão edificante e de estar repetindo a mesma em casa com um bis, dessa vez com a Filarmônica de Viena, sob a regência do grande Leonard Bernstein, impossível seria resisitr aos devaneios da meia noite. Ah, esses diabinhos que ficam a pulular na minha mente, brincando com as minhas lembranças e sentimentos e me trazendo a tona aquilo que eu tenho de mais íntimo. Coisas da musica. 

Só me ratificando, essa alegria toda não vem só da música, apesar de ter sido o catalisador da mesma nessa noite. Mas também vem de um novo sentimento que tem crescido dentro de mim. Não vou adiantar muita coisa, só dizer que se trata de uma pessoa com quem comecei a ter contato muito recentemente e que, por algum motivo que ainda nãos e especificar qual é, me encantou. Aquela coisa de sempre: sorrisos, olhares... Algo de sereno e delicado que me atraiu a atenção, e que como o doce e sensível som do violino, me arrebatou a atenção, do olhar e do coração. Nada de concreto ou real por enquanto. Ou como diriam as postagens mais ácidas do Twitter: "ainda não nos beijamos, mas já trocamos emojis de coração no WhatsApp, então é sério." Ilusão da minha parte? Muito provavelmente. Vou continuar mergulhando de cabeça? Óbvio, minha função na vida é mergulhar de cabeça nessas coisas, fui enviado a este mundo pra isso. Mas só pra se ter uma ideia, já fico no pé, mandando mensaginha de bom dia/boa noite com riminhas fofinhas. Meu Jesus Misericordioso, eu preciso parar com isso!

Outro importante contribuinte pra minha súbita alteração de humor se deve a alvorada de algumas novas amizades e a reconquista de algumas antigas. Entre essas novas amizades, se inclui a pessoa de que falei acima. De fato, algumas pessoas tem a capacidade de trazer a superficie as nossas melhores carcterísticas que jazem adormecidas, empoeiradas pela fina camada do cotidiano. Essa nova amizade, e as outras duas que retornaram, tem sido pra mim um doce deleite, companhia nos momentos frios e difíceis e uma força motriz dos momentos alegres, muitas vezes movidos por brincadeiras bobas, mas que caracterizam uma verdadeira amizade, baseada na simplicidade e na sinceridade, e assim como Shakespeare, a essas pessoas eu digo quando me afasto: "Toda despedida é dor... tão doce todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia." 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Pedido de desculpas


Tem algum motivo pra gente não ta mais conversando? Pois se tiver, e se for minha culpa...
Desculpe por eu ter te conhecido e ficado feliz ao ouvir a sua voz pela primeira vez...
Desculpe por ter me identificado com você e por te entender...
Desculpe por querer estar sempre presente em sua vida e querer participar do seu dia-a-dia...
Desculpe por querer impor meus pensamentos para te incentivar...
Desculpe querer te dar o meu carinho por me sentir bem ao teu lado...
Desculpe por querer te dar o meu ombro amigo e não perceber que te sufocava com minhas preocupações...
Desculpe por sofrer junto com você...
Desculpe por te telefonar, sem imaginar que te acordaria... .
Desculpe por me sentir feliz ao teu lado e achar que também estava te fazendo feliz...
Desculpe por não corresponder as suas expectativas...
Desculpe por não ser o que você sonhava...
Desculpe se de alguma forma te fiz ou faço sofrer...
Desculpe por sonhar um sonho que era só meu...
Desculpe se continuo te irritando com desculpas, mas eu não sei como recomeçar...

Fonte: Pensador UOL

Rosas

Pedir desculpas não está entre as coisas mais confortáveis de se fazer. Certamente o orgulho impede que as pessoas reconheçam os seus erros e por vezes deixem morrer relacionamentos inteiros simplesmente pelo fato de não conseguirem reconhecer que qualquer um pode erra e que qualquer um está sujeito a aprender alguma coisa com o próximo. 

Ora, muitos pensam e afirmam categoricamente que nunca erram, conheço pessoas assim. Da mesma forma que conheço pessoas que não assumem um erro nem que todos consigam provar de forma descaradamente óbvia que estão equivocados. Mas não reconhecem o engano de forma alguma, nem sob tortura, e ainda usam e vários artificios pra mudar o foco da discussão. Algumas vezes inclusive o foco é mudado tão desaforadamente que beira à comicidade. 

Quanto aos erros, eles podem ser frutos de uma opinião mal formada, de uma ignorância generalizada ou fruto de um ímpeto, onde se age sem pensar. Acontece também que as vezes, esse ímpeto é movido pelo sentimentalismo exagerado, e por isso pode resultar numa verdadeira catástrofe. Os piores erros são os que comentemos movidos pela paixão do coração, e muitas vezes esses são aqueles cujas marcas deixadas são tão profundas que nem mesmo o tempo é capaz de curar completamente. 

Os erros afastam pessoas, separam amigos, acabam com relacionamentos. Os erros matam pessoas. Mas note que o problema não estar em errar, isso é quase que inevitável a natureza humana. Mas o problema está em não querer consertar ou não dar a oportunidade pra tal. O pior erro não é aquele que não pode ser consertado, mas aquele que não se tentou consertar. 

Frequentemente as palavras são empregadas de forma errada, e eu não exagero nenhum pouco em afirmar que, palavras frias e ásperas matam tanto quanto armas ou doenças. Ou talvez matem de uma forma ainda mais cruel. As palavras podem ser o melhor remédio, bem como o pior dos venenos. E digo veneno, pois elas entram pela audição, e se alojam no coração, como uma veneno de uma serpente, que causa uma dor lancinante e a morte. Pessoas mais sensíveis são mais suscetíveis a esse tipo de ataque. Eu mesmo por vezes tenho a sensação de experimentar o meu próprio sangue se tornar tão venenoso quanto uma dose da toxina botulínica, o pior veneno do mundo. Ou deveria dizer, o 2° pior veneno do mundo.

Na minha nada humilde opinião, o pior veneno é aquele que te agrada, usando da frase de alguém que volta e meia vejo perambular por ai nas redes sociais. De fato, o pior veneno é aquele que não precisa ser aplicado propositalmente por um inimigo, mas aquele que, de tão atraente que se mostra, é tomado segundo a vontade da própria vitima. Como um poderoso veneno do Jardim da Morte que atrai a todos com a beleza de suas rosas vermelhas, mas que mata instataneamente qualquer um que respire o seu perfume maldito. A beleza e a aparente delicadeza das rosas encantam o olhar e despertam a ternura, mas esconde uma vontade de matar letal e se mostra impassível em sua missão de extirpar a vida dos transeuntes curiosos que por ele passem e ousem se aventurar por ele. É o que eu chamaria de veneno perfeito, pois não carece de ser lançado ou aplicado, atrai por si só a vítima com sua beleza fatal; Da mesma forma algumas pessoas são como um jardim da morte, nos atraindo por sua beleza e aparente delicadeza e dócilmente nos conduzindo a morte certa. 
Imaginemos então um cenário levemente diferente. Pense que o veneno do perfume das rosas não mate, mas cause uma dor lancinante por um determinado período de tempo. E que cessada a dor, uma súbita necessidade de voltar a sentir o veneno se apoderasse do corpo da vítima como uma sinfonia contagiosa e mortal. Não provoca a morte imediata, mas uma necessidade constante de sentir o perfume e por consequência a dor que se segue. Quanto mais se sente, mais se deseja e mais dor é provocada, recomeçando o ciclo até que a vítima caia enlouquecida de dor e prazer e finalmente morra. Assim são algumas pessoas. Não matam, a principio, mas nos enfeitiçam com seu perfume inebriante e nos conduzem a morte. Particularmente penso que essas rosas, são piores que as primeiras, justamente porque além de conduzir a morte, elas o fazem de forma lenta e cruel, e igualmente impossível de fugir. 

Mas o que essas rosas tem a ver com os erros e o perdão? Ora, tudo. Ao menos pra mim, uma armadilha só é eficaz se seu funcionamente for óbvio para quem a colocou lá e não para a sua vítima, mas se a armadilha é óbvia também a vítima e ela ainda assim cai na mesma, é porque mereceu ser capturada e morta. E se ainda insiste em cair repetidas vezes é porque realmente merece a aniquilação. Um erro pode ferir o próximo de forma fatal, mas também é um grande erro aquele que infligimos a nós mesmos repetidas vezes. Como se caminhássemos por vontade própria ao jardim da morte, sabendo exatamente o que nos espera por lá. Burríce? sim. Ignorância? também. Mereço uns bons tapas? claramente. 

Mas a vida também é isso, uma sequência de erros, acertos e perdões. E no fim, o que aprendemos dela é que sua pedagogia é implacável e só o que levamos para o túmulo é a sabedoria que adquirimos durante esse tempo peregrinando por aqui como mochileiros errantes sob esta terra. 

Por fim, sobre o perdão. Ele não tem o poder de apagar os erros, nem de consertar tudo o que foi errado, mas ele tem o poder de oferecer a oportunidade de um recomeço. Um novo parágrafo, um novo capítulo, e em alguns casos, um novo livro. Termino então hoje com as palavras de Vinícius de Moraes, que se encaixaram perfeitamente no que eu tentei dizer:

"Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora."

(Vinícius de Moraes)

domingo, 26 de junho de 2016

Sobre as coisas simples da vida

É, dizem que o mundo lá fora tem realmente muita coisa pra nos mostrar e ensinar. Particularmente eu fico com aqueles que preferem conhecer o mundo no conforto e segurança da tela do computador, no meu caso especificamente no meu quarto, com um pote enorme de doce ao alcance da mão. Mas até que olhar um pouquinho pro "mundo lá fora" pode ter seu lado agradável. Calma, não fui em nenhuma aventura envolvendo trilha e nem desbravei uma terra desconhecida a procura de achados arqueológicos, já que eu também prefiro estudar esses últimos nos livros, sem contato com a poeira. Não, nada disso, eu simplesmente fui à Missa. 

Uma Missa não muito longa e que eu cantei mal pra caramba, reconheço, mas que por algum motivo resultou numa experiência profundamente enriquecedora. Na verdade o que aconteceu depois dela. Como sempre, o fluxo intenso de pensamentos desconexos que eu tenho reforçam a caracteristica avuada que eu transpareço. Qualquer semelhança com o uso contínuo e prolongado de maconha é mera coincidência, juro. 

Enfim, depois de sair da igreja, eu e alguns amigos, com quem há muito não parava pra conversar, acabamos sentando mais uma vez para jogar conversa fora, desprentensiosamente. Sério, há muito não fazia isso e devo dizer, que já estava me esquecendo de como é boa a sensação. 

Penso eu agora que todo mundo, pelo menos uma vez por semana, por obrigação, devia convidar dois ou três amigos e numa pequena reunião, atualizar o que a correria, ou simplesmente a acomodação, do cotidiano acabou por ofuscar. Só mesmo pra falar sobre nada em específico, ou pra desfiar um rosário de reclamações e pontuar a falta de esperança na humanidade e na vida adulta. Faz bem pra alma, não custa nada e ainda aposto como resolveria muitos dos problemas que julgamos impossíveis de se resolver. Despir-se de máscaras na frente de quem se gosta e confia é como um tratamento psicológico personalizado, com a vantagem do preço ser ligeiramente menor, e de que você se abre para pessoas que estão ao seu lado, não pra um completo estranho que apesar de tudo, deseja faturar as custas do seu sofrimento. 

Um outro ponto que acho importante ressaltar foi que eu pude obter uma percepção do que acontece ao meu redor, já que, preso no meu mundinho coreano/clássico eu dificilmente conseguiria ter uma visão da mentalidade que as pessoas de meu convívio tem. Eu pude então notar, numa conversa de pouco mais de 1 hora que eu não sou o único a estar com a sensação de navegar a ermo por águas desconhecidas e assutadoras. Não sou tampouco o único a pensar que a humanidade caminha para seu fim inevitável através da decadência moral que está sendo refletida nas nossas crianças. Por fim, o desespero pela pressão de crescer e amadurecer assumindo responsabilidades também não é exclusivo. 

Sabe, e agora digo isso com uma doce nostalgia na alma e um sabor de saudade no paladar, por alguns breves momentos, quando se está com quem te faz bem, parece que a possibilidade de se expandir e abarcar assim a totalidade da existência soa como supérflua, se as pessoas realmente soubessem se entender, não precisariam buscar métodos tão estranhos como a astrologia e nem tão exagerados como a Instrumentalidade Humana, não, bastaria que as pessoas soubessem resolver seus problemas conversando. Sabe o esudo da consciência? Na verdade cabe a cada um de nós erguer ou remover, impedindo a aproximação do próximo. Claro, que ao fazer isso, corre-se o risco de ser machucado, pisoteado, já que aquela que devia ser a proteção da alma está desfeita, mas também signifia que essa é a única possibilidade de realmente chegar a um entendimento pleno uns dos outros. E convenhamos, a emagadora maioria dos problemas que hoje a humanidade enfrenta são resultado justamente dessa falta de proximidade entre as pessoas. Armas e palavras ásperas não chegam ao coração de ninguém, compreensão e afeto sim. Companheirismo também. 

Na verdade, percebo que a felicidade está nas coisas simples da vida. Uma brincadeira descontraida, um sorriso de um estranho na rua, um beijo verdadeiro, despido das pressões sociais. Coisas bobas, banais, que na minha nada humilde opinião, podem mudar o rumo das vidas de todas as pessoas. Ta, eu psso estar sendo excessivamente otimista em dizer que mudaria o rumo no quesito das grandes decisões diplomátocas e tudo o mais, mas hora, se as pessoas soubessem se entender sem precisar de métodos como a guerra e a extorsão, o mundo seria sim um lugar melhor, e pra ser sincero, posso ser taxado de bobo ou sonhador, mas eu acredito nisso de verdade.

Bom, essa foi a minha simples reflexão sobre algumas coisa nessa noite de domingo. E realmente, a maioria das coisas que escrevo não fazem o menor sentido, senão pra mim mesmo, mas ainda assim, já é uma forma de me livrar da carga que é pensar sobre isso. As últimas postagens estão bem mais curtas do que algumas outras das semanas passadas, mas ninguém conseguiria em sã consciência escrever um livro daqueles todos os dias, então vou continuar a escrever, que sejam 10 linhas ou 10 páginas. Falou?

Apenas um cara no caminho...#2

Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite. Amanhã, Ontem e Hoje. Sem dia, sem hora, sem por que, muito menos pra que. Com razão, sem razão, acreditando ou não. Lembra de mim, não esquece, mesmo que não esteja afim, me queira bem, pois é desse jeito que te quero também. (Jorge Luis Veloso Antunes)

Esse foi um dos poemas que me fizeram ficar sorrindo pras paredes ontem a noite. Na verdade nem faz sentido ficar feliz com isso, mas as palavras ainda tem certo pdoer sobre as pessoas. E acho que comigo não é diferente.

O afeto é uma coisa engraçada, surge de um desejo de companhia estranho, e de repente, você se pega querendo falar ou estar cada vez mais perto daquela pessoa. Nasce do nada e ocupa boa parte da nossa mente. Pensa bem, seríamos muito mais produtivos se não houvesse preocupação com esse tipo de sentimento. Por isso que eu também não posso deixar de concordar com quem disse que "sentimentos são fraqueza, eles nos cegame  nos desviam do sentido do dever." Porque faz todo sentido. Quem não perde tempo se preocupando em realizar fantasias bizarras motivadas por hormônios descontrolados, tem mais condições de ser bem realizado nas atividades que desenvolve. 

Então, a pessoa está bem, concentrada nos seus objetivos, cumprindo suas planilhas e prazos corretamente, preocupando-se somente com sua obrigação. De repente surge então uma criatura ser vergonha, que desvia por completo todo o pensamento da pessoa. Logo, aquele que só consegui pensar em cumprir seus objetivos se vê a deriva do desconhecido, tentando realizar suas fantasias patéticas.

Penso que essa mania de encarar sempre as coisas de um modo dramático seja um fardo pra quem convive comigo. Deve ser um porre conviver com alguém que fica sempre com a cabeça no mundo da lua, e com o coração vagando por ai, sem direção, sempre suspirando por alguma paixão. Eu não vou mentir, no entanto, poderia muito bem ter continuado onde estava antes de começar a namorar, estaria com um futuro mais garantido. E agora, aqui, a deriva, vagando a espera da resposta de um dos lugares onde deixei currículo. Mas não, se o zé-mané aqui não tivesse se apaixonado pelo primeiro cara que me chamou de amor, eu não precisaria estar passando por toda essa humilhação agora.

E por fim, me encontro eu aqui, sem um caminho a seguir, apaixonado por sofrer enquanto caminho sem direção. Dá pra ser mais inseguro? Sinceramente, se eu fosse meu pai já teria me internado em alguma clinica publica no interior do estado da mãe Joana e me largado lá mofando ad aeternum.

Vida que segue.

Mais tarde eu voltar pra igreja, cantar na Missa hoje a noite. Mesmo sendo quase um crime sair dessa cama tão quentinha. Hoje de manhã tambpem foi bem complicado de servir. Além do frio, uma criaturinha chegou cedo, ficou me encarando mas não teve a descência de me cumprimentar, e o pior é que eu nem sei o motivo concreto de ele estar agindo assim comigo (brincadeira, sei sim, só não quero assumir essa responsabilidade), mas ainda assim, baita infantilidade (de ambos, admito). Vamos ver que fnal bizarro e inesperado o destino nos reserva pra essa novelinha mexicana. 

Ta vendo? Mais um caso em que eu teria me dado bem se tivesse ignorado os meus sentimentos. Ainda teria um amigo do meu lado e dores de cabeça bem menos frequentes. E assim podemos aplicar esse mesmo principio a basicamente tudo na minha vida que se refira a relacionamentos. Mas vamos olhar o lado bom de tudo isso? Desculpa não tem nenhum. Tchau. 

sábado, 25 de junho de 2016

Apenas um cara no caminho...

Sabe a boa e velha "Lei de Murphy", aquela que diz que "se algo tem a possibildiade de dar errado, com certeza vai dar errado"? Pois bem, sábado a noite, preciso levantar cedo amanhã pra Missa e cadê o sono? Sumiu... 

Estou hoje mais uma vez suspirando pela brisa que balançou meu cabelo, e que num aceno de graça, se foi pra não mais voltar... Eu aqui, todo bobo, vermelho pras paredes e miando pelos cantos num ataque de fofura sem explicação, só porque achei um poema de boa noite que me arrancou suspiros. Como se fosse muito difícil fazer isso. Mas realmente, esses poeminhas me deixaram igual um bobo apaixonado soltando faiscas de purpurina por ai. Trabalho que é bom, no entanto...

"Talvez eu seja um cara que apenas te disse um ‘oi’
Ou um ‘boa noite’.
Talvez eu só tenha aberto uma porta pra você
Ou te servido um copo d’água

Talvez eu tenha te cuidado com os olhos enquanto você passava
Ou simplesmente te observei partir, sorrindo comigo mesmo

Talvez eu tenha te oferecido balinhas
Ou alguma outra guloseima
E você apenas disse ‘muito obrigado’

Talvez eu seja apenas aquele carinha que você esbarrou na rua
Enquanto você lia um livro, ou olhava as vitrines,
E ao qual você sorriu desconcertada
Enchendo o meu coração de poesia

Sim, talvez eu seja aquele carinha que viajou ao teu lado
Com o qual você cantou e sorriu e depois disse adeus
E desde então nunca mais nos vimos

Talvez eu seja um cara que você nunca irá conhecer
Talvez eu seja um cara ao qual você jamais irá esquecer
- ou fará questão de esquecer!
E talvez eu seja um cara ao qual você jamais notará a presença

Não é preciso, pois, que me notes a presença
Já me sinto muito feliz em estar aqui
E ter notado você
Em meu caminho
Pois é justamente isto o que sou
E apenas isto o que sou:
apenas um cara no caminho..."

(Augusto Branco)

Pois foi esse ai um dos que me deixaram assim, cor de rosa, em plena madrugada de sábado, quando eu deveria estra dormindo pra acordar bem disposto amanhã. Mas não, prefiro ficar aqui, nas páginas desse blog, devaneando sobre um monte de paranóias que eu criei aqui na minha cabeça e que nunca vão acontecer, só se um milagre acontecer, e sinceramente, com tanta desgraça no mundo, acho pouco provável que alguém lá de cima vai se preocupar em me ajudar a resolver os dramas afetivos que eu mesmo criei.

Mas por algum motivo, esse clima romântico me agrada muito profundamente. Cliei um clima até bacana no meu quarto hoje. Na playlist, ZE:A, e o pop chiclete romântico que eu amo, esses poeminhas e o clima frio de brinde. Só faltou mozão aqui do meu lado. Pra variar né?

Bom, escolhi postar esse poema, porque dos que eu achei, ele exprimei melhor os meus sentimentos no momento. Eu me sinto assim, alimentando sentimentos por uma pessoa que provavelmente só sente indiferença por mim. Mas por algum motivo (masoquista, diga-se de passagem) eu continuo alimentando, e alimentando, como se eu não soubesse bem como isso vai acabar. Mas, vida que segue, vamo quebrar a cara mais uma vez, why not?

Algumas linhas de reflexão

Bem, depois do final um tanto quanto inesperado do último post, eu sinto que preciso acrescentar algumas considerações, pra não ficar ainda mais estranho do que tudo o que eu já posto aqui. 

Ratificando, eu realmente me empolguei em ouvir as duas sinfonias do Mahler ontem, mas acho que não estava em condições de fazer isso. Pra começar ainda penso que a interpretação que fiz delas foi extremamene forçada. Acho que não entendi verdadeiramente o que me dizia a Sinfonia N° 7 e ainda menos a N° 8. De qualquer forma, vou manter aquelas interpretações. 

Sobre a N° 8, o final pode ter ficado confuso, até mesmo pra mim, quando substituí o filho da lua pela alma do Fausto. Bem como eu disse lá, estava fazendo justamente o contrário, substituindo a alma do Fausto pela do Filho da Lua. Na verdade penso eu que em meio a euforia, eu mesmo me coloquei no seu lugar. Como era esperado.

Acordei no entanto, estranhamente contente, e cantarolando músicas de Santa Teresinha. Falando sobre o amor. Acho que ter acordado disposto seja uma possibilidade de recomeço que me é dada. Não sei, mas como a Sinfonia dos Mil fala de redenção, isso talvez tenha ficado impresso em mim e hoje acordei refletindo essa aura digamos, mais otimista da obra. Ou na verdade, os dias amanheçam pra que a gente realmente tente mais uma vez, e mais uma vez, até conseguir acertar. Talvez essa seja a redenção que eu seja capaz de alcançar sozinho, a minha própria redenção. 

Por falar em Santa Teresinha, a pequena florzinha do Carmelo sempre dizia que no seio da igreja, ela seria o amor, e que mesmo apesar de sua pequenez, através do amor ela podia aspirar a santidade. De qualquer forma, inspirado por essas palavras, eu me pergunto se também posso aspirar a vocação do amor, sendo tão incapaz como sou. 

"E, não sendo mais do que sou, sendo toda amor, viverei para sempre, ao seu lado Senhor."

Talvez o amor, dos homens para com os homens, não seja de fato pra todos. E apenas o amor de Deus seja gratuito, e consiga abarcar a totalidade da existência. Talvez eu não tenha sido feito pra ser amado, apenas para amar. Sem esperar nada em troca eu devo continuar amando apaixonadamente sem receio. 

Mas e quando o meu sentimento incomoda os demais? Se fosse algo que só trouxesse coisas boas para eles, poderia continuar, mas por vezes acho que sou mais um estorvo do que uma contribuição de fato. Talvez o meu amor não seja amor de verdade, seja admiração, afeto, atração, mas amor não. No entanto, como eu posso descobrir o que é ou não amor de verdade? Não acho que exista uma fórmula perfeita, um termômetro sentimental que meça o nível da efeição e possa afirmar se um sentimento é ou não amor de verdade. Bom, acho que minha resposta se encontra através da tentativa e erro, não acredito que eu vá conseguir achar assim tão facilmente, apenas com algumas linhas de reflexão. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Se a vida te dá um limão... ouça duas sinfonias de Mahler!


Eita, finalmente de volta a vida... Fiquei uns dias distante, principalmente devido ao fato de só agora estar recuperado de uma baita crise respiratória. 

Pense numa pessoa que acordou abalada fui eu. Sonhei com um, acordei pensando em outro, no WhatsApp, recebi bom dia de outro. Aff, assim não dá. To indo pras montanhas, lá não deve ter ninguém pra eu me apaixonar. Ai eu vou pra montanha e me apaixono pelo guia. Triste. A essa hora o destino deve me olhando com cara de quem diz: "Larga de ser burro". 

Difícil de imaginar essa possibilidade. Mas, vida que segue né?

Ontem eu tive uma surpresa até agradável. Enquanto ouvia algumas músicas que tinha baixado, eu me deparei co um CD muito delicinha, trata-se do album "Les Fils des Etoiles" do Erik Satie. Apesar de sempre ter admirado o piano, poucas são as composições pra piano que eu gosto realmente. Me recordo aqui apenas a Sonata pra Piano N° 16 do Schubert e a Sonata pra Dois Pianos N° 8 do Mozart, bem como alguns excertos pra piano, como Petrouchka e The Flight of the Bumblebee, do Istravinsky e do Rimsky-Korsakov, respectivamente. Mas esse CD, cara, que coisa fantástica. Pra mim, o piano sempre foi o instrumento romântico, apaixonado, aind anão tinha experimentando ele em obras dão solitárias e frias. Simplesmente delicioso. Satie tem alguma coisa de depressivo, solitário, que eu adoro. Como disse, foi uma ótima surpresa. Sinal de que ainda tenho muito que expandir no quesito repertório. 

Acabei de assistir um filme muito bom também, Mr Idol, e antes de mais nada, gostaria de deixar bem claro aqui a minha chateação com o fato de o personagem principal, interpretado pelo gatíssimo Ji Hyun Woo, só é mostrado sem camisa nas divulgações, mas sempre aparece vestido no filme. Não gostei, faz de novo.

Tirando isso, eu gostei muito, a começar da Trilha Sonora Original, que é excelente, e que aliás, eu já baixei e to ouvindo aqui. E a história tbm é muito boa. Segue o bom padrão musical: um problema, um cantor talentoso que pode salvar o show, depois ele estraga tudo e não tem mais show e do nada ele concerta tudo e acontece o show. Mas é gostosinho de assistir. Além disso, a fotografia é muito boa e detalhe pras cenas pra lá de divertidas que eles usaram pra diminuir o drama que permeava o problema inicial do filme. Bem criativo. Achei que alguns personagens podiam ser melhor desenvolvidos, mas não me incomodou de verdade.

Ando com a criatividade escassa ultimamente, exceto no que se refere a escrever sobre música, e provavelmente vou fazer isso de novo a noite. Porque se tá dando certo, vamo aproveitar né? Em time que tá ganhando nãos e mexe. Se a vida te dá um limão... esprema ele na sua cara, pra nunca se esquecer o quanto a vida é azeda.

E a noite cai, e com ela a bad... ainda não escolhi qual vai ser a minha obra de hoje, mas eu to muito inclinado a ouvir a sétima do Mahler. Até porque eu ia falar dela no dia que ouvi a 5°, mas acabei mudando de ideia sabe-se lá o porque. Até lá, fico pensando sobre esse pensamento que achei vagando no Tumblr:

"Não é estranho quando no meio da noite você acorda, vira para o lado e não consegue voltar a dormir e então pensa em tudo o que você é e na vontade gigante de achar alguém que te entenda e talvez até seja parecido contigo?" (Sonhavam)

Pois bem, meu probleminha de sempre, não desconhecido de ninguém. Acho que venho me tornando uma pessoa bem pessimista e amarga, e claro, isso não tem um efeito positivo pra reverter a situação que me deixou assim. Infelizmente, acho que essa "capa de gelo", por assim dizer, é na verdade uma forma de proteção desenvolvida, pra evitar que o sofrimento se repita. No entanto, como era de se esperar, esse gelo só fez com que eu mesmo me machucasse ainda mais, porque agora, além de ferido, ainda estou sozinho. E ao pensar sobre isso, eu fico me questionando, será que é realmente tão difícil assim, encontrar alguém?

Então, sobre a audição da Sinfonia n.º 7 em Si Menor do Mahler:

As ruas estão vazias, poucas pessoas se atrevem a andar a essa hora da noite e um clima de tensão é sentido por todos. Alguns bêbados brincam e gritam ao longe, mas até as suas brincadeiras são abafadas pelo vento que vem carregado por uma aura de morte iminente. As poucas pessoas que sobram na ruam correm para suas casas. Algo de muito ruim vem por aí. Será uma vila dessas do interior, onde as pessoas acreditam em mitos como os da besta que ataca os habitantes desprevenidos nas noites de lua cheia? Ou será a notícia de uma maníaco a solta pela cidade faz com que até os homens corram de medo ao bater de uma brisa mais forte?

A lua brilha forte e amarela no céu, muitas e muitas estrelas ao seu redor, e a aura de mistério, suspense e perigo se reforça a medida que a noite cai. Apenas um tolo corajoso se atreve a contemplar a baelza da grande Lua nessa noite maldita. É certo que alguém vai morrer, e o cheiro oxidado do sangue já domina o ar. Esse homem corajoso na verdade anseia pela própria morte, desesperado em por um fim sua vida ele corre ao encontro dessa fera maldita. Corre por todos os cantos da cidade e ao fim dela, cansado, cai de joelhos ofegante em frente a um bosque tenebroso. Lágrimas escorrem freneticamente por sua face rosada. Suas roupas molhadas de suor e sujas do longo dia de trabalho estão puídas, um reflexo exterior do seu interior devastado pela solidão. Mas embora carregue essa aura assasina, a noite lhe faz um doce convite a contemplação. Não quer a sua morte, quer apenas o seu coração. E como o coração do jovem de cabelos dourados e enrolados como os de um anjo já não tem mais dono, ele o entrega a Lua de bom grado, e a sua luz dourada vai passando por ele, o penetrando de uma força descomunal, ao mesmo tempo que uma calma atinge seu corpo. O jovem então cai, fora de si, dominado pela estranha dorça que vem da lua.

Essa mesma Lua, canta para ele uma canção sedutora. O seduz como uma sereia faz aos viajantes, e o dominando por completo, toma para si todos os sentidos do jovem. Ele encontra o que procurou, sua vida já não lhe pertence mais. É agora da noite, e tudo o que ele pode ouvir agora são as muitas criaturas que pululam na noite, e que agora lhe fazem companhia longe da cidade onde não conseguira encontrar amor. Ele ainda está na cidade, não saira dos limites desta, mas não está mais ali, sua mente vaga na lua, vaga acima das pessoas que agora dormem em suas camas quentinhas e suas casas seguras. Ele não mais pertence a essa classe de pessoas fracas e mortais.

A aura de suspense se mantem numa canção da noite onde, o jovem agora transcedental, observa cuidadosamente a vida das pessoas que um dia ignoraram sua existência. Ele agora, acima dessas pessoas, observa cautelosamente o coração de cada uma delas na tentativa de descobrir porque seu amor não fora aceito pelos demais. Uma senhora cozinha para os seus filhos, com uma expressão cansada, mais satisfeita, enquanto as crianças brincam alegremente na neve fora de casa. Os homens voltam de uma tarde buscando lenha para aquecer suas famílias, todos cansados e sujos, mas sorridentes enquanto conversam e brincam entre si. Outros passam o dia em casa, trabalhando com papéis intermináveis, e então ele o encontra: o jovem de pela dourada, cabelos cor de mel e olhos frios com água e que negaram o seu amor. Esse belo rapaz tivera o coração de nosso filho da lua em suas mãos e o recusara. O filho da lua se detém então demoradamente a sua janela, enquanto observa o seu amado.

Ele então começa a conseguir penetrar fundo no âmago do coração de seu amado, e começa então a investigar dos motivos que resultaram na sua negação. Seus sentimentos também são numerosos, mas todos são mais simples de se compreender. O jovem de olhos frios na verdade ama a uma mulher, para quem seus olhos se esquentam como fogo, ao contrário do gélido azul. Nosso filho da lua consegue entender agora, que nunca teve sequer algum sentimento por ele. Tudo fora culpa sua, todo seu sofrimento fora um inútil padecimento de dor, e agora, sua alma vaga solitária pela cidade, onde já foram dormir novamente, e em direção a lua ele parte em uma solitária jornada em busca de algo que ele ainda não sabe o que é. Está a procura de entender alguma coisa, mas ainda não consegue conceber que coisa seria está.

Estou divagando de tal maneira que não sei mais se falo da música de Mahler ou se apenas tento encontrar uma forma poética de dizer o que estou sentindo.

Já longe da cidade, nosso jovem se encontra vagando etéreo sob lugar nenhum. Ao longe ainda pode sentir as luzes da cidade do seu amado, muito embora já tenha se distanciado se tal forma que não pdoeria voltar mesmo se quisesse. Sua alma agora se desfazia, juntamente com seu corpo que há muito deixar de existir. Depois de ter-se desprendido de seu corpo, o escudo de sua consciência que mantinha a forma de sua existência continuara existindo. Mas agora, adquirido o conhecimento da impossibilidade de ser amado da forma como amara, ele se desprende dessa existência imperfeita. Ele se desfaz de seu escudo e corajosamente começa a tornar-se um com o tudo. Dando-se conta de sua inutilidade, compreendendo ser um nada, ele estica sua existência para abarcar o tudo.Começa a sentir então assim, a dor do coração dos outros, e atpe mesmo a dor do coração do homem que ele tanto amou, mas numa aridez que ele não achou um dia ser capaz de sentir.

Penso eu que aqui, a obra de Mahler tenha alcançado o ápice de desespero em sua obra. Já não mais pensa como os meros mortais, e, assim como o filho da lua agora abarca a totalidade da existência, ele já não se expressa com os mesmos sentimentos que os meros mortais tem. Agora ele transcende sob esssa existência imperfeit, pairando como a lua, sob as nossas cabeças. Até aqui, no 3° movimento, consigo apenas sentir essa transcedência magnífica de Mahler sobre os afetos da alma humana.

É o ultimo passo para a trasncedência final do filho da lua. Um último estágio de desintegração de sua alma que deve se desprender para alcançar a totalidade da existência. É o momento de desapegar-se de suas lembranças, uma vez que já desapegara-se de seu corpo. Com um certo desconforto então, ele se recorda dos momentos felizes que passou ao lado do seu amado. Das brincadeiras que faziam quando estes eram apenas amigas. Mas a lua não permite que seu filho se machuque longamente em suas lembranças, e o envolvendo numa nuvem de torpor, permite que ele apenas assista, calmamente, ao seu passado ao lado do jovem de olhos frios e quentes. Passado que o levou a desejar a lua que lhe desse a existência sem dor que agora ele lentamente alcançava.

Essa do destino é mesmo uma droga não? Acabo de receber uma notícia triste pela boca de um amigo. Aquele mesmo que um dia fora o que se pode chamar de melhor amigo. Se é que tal coisa existe; Mas assim como o filho da lua, essa noite já não me permite mais sentir dor. O torpor impede que eu morra de tanto senti-la.

Chegamos então ao final da trancedentalização da alma do filho da lua. O ápice de sua existência. Ele não mais paira funebremente sob as casas como uma fantasma, mas agora, como a luz da lua, contempla a totalidade da existência e portanto, consegue sentir dentro de si, uma mescla de sentimentos contraditórios. Trata-se dos sentimentos de todas as pessoas que vivem sob o mundo. Como a lua é agora um mero espectador da miséria humana. Assiste ao seu amado morrer de amor pela jovem que nunca poderá sentir por ele o que o filho da lua um dia sentira. Assiste as pessoas se amarem e se matarem. Assiste aos loucos enamorados. Assiste aqueles que abandonam seus amigos para viverem grandes amores. Ele contempla a tudo isso agora, e logo vai adentrar também em um último estágio: o da onisciência. Onde se fará um só com a totalidade da existência, não mais um espectador da mesma. E assim, chega ao fim uma existência solitária, que se tornou uma existência perfeita.

E passando logo para a Sinfonia N° 8 em Eb, essa que é uma das obras mais magníficas que alguém já ousou compor, e também uma das mais incompreendidas, ao meu ver. Penso que essa seja a continuação da sinfonia anterior, ao menos na minha mentalidade de hoje, e que talvez a consolidação da existência perfeita da Canção da Noite, seja a visão beatífica que a N° 8 do Mahler nos traz.

"A estrutura da obra não é convencional; em vez de seguir a estrutura normal em vários movimentos, a obra está dividida em duas partes. A primeira parte é baseada no texto latino de um hino cristão escrito no século IX por Rabano Mauro para as festividades do Pentecostes, Veni Creator Spiritus («Vem, Espírito Criador») e a segunda parte é um arranjo das palavras da cena final do Fausto de Goethe. As duas partes estão unidas por uma ideia comum, a da redenção através do poder do amor, unidade transmitida mediante temas musicais comuns. A obra é vocal de uma ponta à outra, sendo a introdução do segundo andamento a única passagem puramente instrumental. Não é uma sinfonia com solistas e coros, mas sim uma sinfonia para solistas, coros e orquestra. Mahler estava, desde o princípio, convencido da importância da obra, ao renunciar ao pessimismo que tinha marcado grande parte da sua música, oferecendo a Oitava como expressão de confiança no eterno espírito humano."

Então essas são as palavras que melhor definem a Sinfonia dos Mil, Amor e redenção. Será que o filho da Lua perdoará o seu amado de olhos frios? Será que agora, abarcando a totalidade da existência, ele conseguirá um destino para o amor que tanto lhe sufocou?

A obra começa de uma maneira assustadoramente magnífica. A força da orquestra e do coro são algo raro de se ver. Subitamente somos trasnportados a um mundo completamente novo, como se fôssemos arrebtados ao céu e agora contemplássemos não mais as existências pueris e débeis dos homens, mas sim as faces angélicas dos anjos e santos, uma multidão que, a perder de vista cantam seus louvores ao criador. Assim que termina o tema inicial e vemos a entrada dos solistas, já nos esquecemos completamente de toda e qualquer tristeza que a vida anterior poderia ter nos ofertado. Aqui vemos pessoas que não viveram em vão pelo amor não correspondido de um tolo, mas apenas que viveram para aquele que realmente merecia ser amado.

De joelhos, o filho do homem cai então, ciente mais uma vez do erro de toda sua vida. Vivera pelo amor errado todo esse tempo. O coro aqui da uma sensação de totalidade, é a totalidade da existência. A instrumentalidade humana. O amor de Deus. Não importa o nome que receba, é assim que deve ser a existência verdadeira.

Aqui, a aura do pessimismo da existência humana já se foi. Nada dela restou, e até a brilhante luz da lua, que o levou ali, serve para dar o seu louvor. É o louvor da criaturas, o louvor aquele que dá a vida a todas as coisas, o louvor aquele que é amor mas não é amado. Apenas resquicios do sentimento pelo rapaz dos olhos frios sobreviveram, mas ele sente que é esse sentimento que deverá pesar-lhe sob a balança de seu julgamento, e é para esse julgamento que ele se encaminha.

Enquanto caminha ao lugar do julgamento, a grande sala do trono, ele consegue lembra-se do quanto dedicou de sua vida aquele que nem sequer fazia questão de seu sentimento. Uma dor dilacerante toma conta de si, parece que o julgamento deverá anteceder o último estágio para alcançar a onisciência. O que lhe espera ao final? A dor eterna? Ou o livramento desse sentimento, outrora belo e puro, que agora somente lhe pesa o coração? Aqui, onde tudo será julgado, ele retorna a sentir o que sentiu quando humano, antes de ser adotado como filho da lua, e mais uma vez, contemplando a sua pequenez, seu futuro será decidido. Será decidido se ele merecerá a visão beatífica ou a condenação eterna, por ter amado mais a um homem do que a seu Senhor.

A minha compreensão dessa 1° parte da sinfonia, tem sua completude na grandeza do céu, donde a alma do filhod a lua será julgada. Ele então sente o que de fato é a grandeza de Deus, e percebe que, mesmo quando abarcara a totalidade da existência, ainda não abarcara a totalidade de Deus e que só depois de ser ou não aceito por Deus, é que ele poderia conseguir um nível de iluminação verdadeiramente grandioso.

A 2° parte da sinfonia canta a cena final de Fausto de Goethe.  Mas como tal na minha interpretação, ouso substituir Fausto pelo filho da lua.

O longo prelúdio orquestral (cento e sessenta e seis compassos) está em mi bemol menor e, à manera de uma abertura operística, anticipa alguns dos temas que se escucharán mais adelante no movimento. A exposição se inicia quase em silêncio, representando uma montanha rochosa e arborizada, morada de varios anacoretas cujos sons se escuchan num coro destinado a criar uma ténue atmósfera completada com sussurros e ecos. Um solene solo de barítono, a voz do Pater Ecstaticus, finaliza calorosamente para dar lugar a uma modulação para modo maior quando os trompetes tocam o tema «Accende» da Parte I. Depois, segue a exigente e dramática ária do baixo, a voz do Pater Profundis, que finaliza a sua atormentada meditação suplicando a misericórdia de Deus em seus pensamentos. Os acordes que se repetem nesta secção recordam Parsifal de Richard Wagner.

A atmosfera fica aligeirada com a entrada dos anjos e das crianças bem-aventuradas (coros de mulheres e crianças) que levam a alma de Fausto; a música aqui é talvez uma relíquia do Scherzo sobre os «Jogos de Natal» previstos no antigo esboço da sinfonia em quatro movimentos. O ambiente é festivo, com gritos triunfais de «Jauchzet auf!» («Alegrai-vos!») finalizando a exposição com um poslúdio que remete para a música «Infirma nostri corporis» da Parte I.

A primeira fase do desenvolvimento começa quando o coro de mulheres dos anjos jovens invocam a «feliz companhia das crianças bem-aventuradas» que devem levar para o céu a alma de Fausto. As crianças bem-aventuradas recebem a alma com alegria; as suas vozes unem-se à do Doctor Marianus (tenor), que acompanha o seu coro antes de romper num arrebatado hino em mi maior dirigido à Mater Gloriosa, «a rainha do céu!». Quando a ária termina, as vozes masculinas do coro fazem eco das palavras do solista num fundo orquestral de tremolo de viola, uma passagem qualificada por De La Grange como «emocionalmente irresistível».

Na segunda parte do desenvolvimento, a entrada da Mater Gloriosa é marcada com um acorde sustenido em mi maior do harmónio, com arpejos das harpas tocados sobre uma melodia de violino em pianissimo que De La Grange apelida como «tema do amor». Depois, há contínuas modulações enquanto o coro de mulheres penitentes solicita audiência à Mater, seguido pelas súplicas em solo de Magna Peccatrix, Mulier Samaritana e Maria Aegyptiaca. Nestas árias o «tema do amor» desenvolve-se ainda mais e o «tema do Scherzo» associado com a primeira aparição dos anjos volta a ser escutado. Ambos os motivos predominam no trio que continua com a petição à Mater de uma quarta penitente, a amante de Fausto antes conhecida como Margarida, que veio fazer a sua súplica pela alma de Fausto. Após o pedido, um solo de «límpida beleza» segundo palavras de Kennedy, abate-se uma atmosfera de reverência silenciosa. A Mater Gloriosa canta então as suas duas únicas linhas, na tonalidade principal da sinfonia de mi bemol maior, permitindo a Margarida dirigir a alma de Fausto para o céu.

O último desenvolvimento episódico é um solo de estilo em hino do tenor e do coro, no qual o Doctor Marianus chama as penitentes a «levantar o olhado». Continua com uma curta passagem orquestral, orquestrado para um estrafalario grupo de câmara formado por flautim, flauta, armonio, celesta, piano, harpas e um quarteto de cordas.Esto serve de transição para preparar o final, o Chorus Mysticus, que começa em mi bemol maior de maneira quase impercetível, o que Mahler escreve com a seguinte notação Wie ein Hauch, «como um sopro». O som aumenta gradualmente num crescendo, enquanto as vozes solistas se une, ou contrasta, com os coros. Quando o clímax se aproxima, muitos temas são repetidos: o «tema do amor», a canção de Margarida, o «Accende» da Parte I. Finalmente, enquanto o coro conclui com «A feminidade eterna nos levará para o céu», a secção de metais situada fora de cena reaparece com um último tributo ao motivo Veni Creator, para acabar a sinfonia com uma triunfante fanfarra.

Optei por copiar o texto da última parte da sinfonia por vários motivos. Primeiramente não foi por preguiça de escrever, mas por que me encontro num estado emocional já tão abalado que não conseguia mais escrever. Essa última interpretação deve ter soado extremamente vazia e forçada, coisa que de fato eu acredito que tenha sido. Mas como disse, cheguei a um nível tão profundo de tristeza que nada mais é capaz de sair de mim em forma de palavras. Somente consigo sentir, e nisso a obra de mahler tem em servido muitíssimo bem. Acredito que eu tenha atingido tal estado de compreensão que já não consiga mais descrever em palavras por tal feito não ser mais capaz pra mim. E outra, a descrição que achei não só me soou melhor do que qualquer outra que poderia escrever em tal estado, que achei melhor deixar ela dizer o que eu tentei e não fui capaz de fazer.

O fato ocorrido foi que, me senti muito mal quando, mais cedo, vi uma postagem no Facebook, onde um de meus amados reclamava de um amor não correspondido. Por algum motivo eu ainda comentei. Mas ai recebi então o doloroso insight onde compreendi que nem mesmo a minha amizade tinha algum valor ou significado para ele. Não havia sobrado nada mais do nós que um dia existira. Ele seguira em frente. Estava preocupado e ocupado com o seu próprio amor. Preocupado demais para se preocupar com seu antigo devaneio, o devaneio que ele fugira por temor.

O segundo fato veio horas mais tarde, quando recebi a notícia triste de meu amigo. Nem tanto pela notícia, mas pela forma como ela foi dada. Estranho pra mim ver que agora sou um quase estranho para aquele que um dia eu desnudei a minha alma.

Me encontro agora num emaranhado de sentimentos. Um vórtice de dor e torpor que se revezam em desferir golpes poderosos na minha alma e no meu coração. Uma mescla de amor e desespero, solidão e auto-compaixão, que me rodeiam em tons de roxo e ocre, se opondo a uma densa escuridão.

Só espero que, assim como a Sinfonia dos Mil termina de forma triunfal, um dia eu também possa dizer bem aqui, que eu também venci, de forma triunfal!
~

Os textos em itálico foram retirados daqui.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A esquizofrenia presente no bem e no mal

Realmente eu tinha muita coisa pra falar hoje, mas comecei a escrever várias vezes e parei por não conseguir organizar as ideias de uma forma satisfatória. As ideias até que estão aqui dentro, burbulhando, mas acabam saindo sem forma, e eu quero começar a evitar aquelas postagem com 300 parágrafos, sem nenhum conectivo, cada um falando de um assunto diferente, que o Lexotan me obriga a escrever vez ou outra. 

Então, claro que eu fui buscar inspiração na minha musa idílica favorita: a música, e a escolhida pra hoje é a grandiosa Sinfonia N° 5 em C# m do Gustav Mahler. O compositor já apareceu por aqui alguns dias trás, e provavelmente vai dar as caras mais algumas vezes, já que, sendo considerado um compositor com uma quantidade razoável de obras funestas, eu tenho buscado me aprofundar um pouco mais nas suas composições.

Escolhi essa peça porque a primeira coisa que li sobre ela foi uma crítica do historiador Deryck Cooke que dizia que se tratava de uma música com caráter esquizofrênico. Já achei fantástico logo de primeira. E como já faz um bom tempo que escutei, resolvi repetir a audição e dessa vez me aprofundar um poquinho reflexão sobre ela. Pretendo também acrescentar é claro, as mil e uma coisas que tenho tentado dizer mas que não consegui através de uma metodologia "do arame" que é tentar escrever sem a inspiração correta onde posso me debruçar. Então, ainda nas palavras de Cooke, a Quinta de Mahler 

"Possui caráter 'esquizofrênico', já que nela, convivem perfeitamente separados o mais trágico e o mais alegre dos mundos. Consta de cinco movimentos, sendo os dois primeiros quase temáticos, explorando o lado trágico da vida. O primeiro movimento, uma escura marcha fúnebre, começa com uma fanfarra de trompetes que aparecerá repetidamente, dando-lhe uma atmosfera especial de inquietude e desolação. O segundo, um frenético allegro, muda completamente o espírito do movimento anterior; seu caráter histérico alterna com o de marcha fúnebre, onde ao final da exposição parece triunfar um relativo otimismo, para cair novamente na angústia e na escuridão. É no scherzo, do terceiro movimento, que surge com maior clareza o citado caráter esquizofrênico, em absoluta contradição com a atmosfera niilista anterior, saltamos, sem solução de continuidade, à visão mais alegre da vida. São dois modos de ver a existência impossível de reconciliar. Tanto o ländler como a valsa do trio estão, ainda com seu ar de nostalgia, muito longe do desespero inicial da sinfonia. O famoso adagietto para cordas e harpas, constituindo o Quarto movimento, é um remanso de paz entre a força do scherzo e do último movimento, estando impregnado de um desejo de distanciar-se das tensões e lutas para refugiar-se da solidão interior. O quinto movimento finale, parte de motivos populares, possuindo um caráter exuberante e alegre. Em seu clímax final recupera e funde o caráter angustiante dos primeiros dois movimentos com a alegria dos últimos, combinando assim os elementos tão díspares de escuridão e luz que convivem na Sinfonia."

Eu gostei muito dessa dualidade entre o trágico e o alegre que o crítico apontou, e claro, na minha opinião, também acho que se trata de um viés enlouquecido, quase desesperado do compositor, que acabou saltando pras páginas da partitura. Eu vou explorar então essa insanidade que ela expressa nos seus acordes e movimentos e tentar me inserir em seu contexto de Guerra e Paz, de Luz e Trevas que ela nos traz.

O 1° Movimento é uma Marcha fúnebre, provavelmente o tipo de composição que eu mais admiro, justamente pela profundidade que elas conseguem exprimir em seus acordes macabros. A primeira imagem que me vem a mente então é a de um grande féretro sendo carregado em procissão pelas ruas enlameadas de uma cidade européia do século XVIII, seguido de uma grande massa de pessoas. Já começamos com um herói morto. Será que ouviremos sua história, ou veremos o futuro daqueles que agora viverão sem ele? As pessoas estão profundamente sentidas pela morte desse desconhecido. Percebe-se pelas roupas das mulheres que muitas delas estavam ocupadas em seus afazeres e laragaram tudo pra trás quando viram o movimento nas ruas. 

Repentinamente, a cena da cidade é enevoada por uma fumaça marrom, como que uma leve nuvem de areia que entra nos olhos e impedindo a visão, revela um mundo diferente quando finalmente os olhos são limpos. A medida que a densa nuvem de poeira aumenta, o clima de suspense vai ganhando espaço, até que irrompe num assustador andamento, com altos e baixos e um desespero crescente que vai tomando conta do espaço como a risada do diabo, que se diverte com a morte e o pranto dos pobres e desamparados. A atmosfera desolada deu lugar a um visceral conjunto de acordes que parecem exprimir um grito de pânico e desespero. O tema que abriu o movimento é ouvido várias vezes e desenvolvido no que pra mim se parece com uma fuga, em variações não muito longas. Isso mostra uma pessoa buscando a solução para os seus problemas. Me soa como uma pessoa racional, que nãos e perde em devaneios como eu, pois as variações são curtas, não muito floreadas nem muitos imaginativas.Desenvolvidas no ponto certo. Também me parece que se trata de uma pessoa que não consegue se controlar, talvez seja eu, e que, por mais que tenha problemas a resolver, volta sempre o pensamento para aquele pequeno problema sem muita importância que na verdade toma de conta de todo o seu coração. Estou longe de casa, tive de abandonar a tudo e a todos. Não pude sequer me despedir e nem dizer ao homem que eu amava do que eu sinto por ele. A marcha de morte que não quer sair da minha cabeça é o acompanhamento do meus próprios sentimentos que foram sepultados. 

O Allegro do 2° movimento começa num suspense assustador, uma batalha feroz, uma corrida contra o tempo. Uma apresentação fantástica essa entrada, simplesmente magnifícia e perturbadora. Milhares são os sentimentos que dela afloram. De fato, o personagem principal dessa obra é um louco, completamente alucinado, perdido em seu amor doentio por um jovem que nunca viu, senão por algumas fotos. Uma aura escura toma conta da atmosfera, como se mesmo em sua tão real visão de um mundo ideal, ainda pairasse aquele conhecimento da verdadeira realidade, daquela realidade trágica, onde as pessoas tem olhos para tudo e para todos, menos para o louco, que por ser louco, afasta de medo todos aqueles que dele se aproximam. A risada do demônio do primeiro movimento aqui se revela ser a risada do próprio alucinado. Esse pobre desgraçado enlouqueceu depois de ter sido abandoando pelo homem que amava, e que fugiu com outro para o Novo Mundo, atrás de construírem lá, uma nova história. Depois disso, ele se apaixonara algumas vezes, tentara relacionar-se, mas os estragos foram tão profundos que ele acabou por perder-se completamente num mundo só dele, onde imagens de suas tórridas paixões se mesclam com nuances de preto e roxo numa realidade completamente ácida e perturbadoramente sombria. Acenos de leveza e graciosidade são ouvidos aqui e ali, pontuadamente, em meio ao clima mórbido. São reflexos da sanidade que lhe restou, mas que não deverá durar por muito tempo. Já disse que tudo isso se passa na mente perturbada de um jovem internado num hospício, amarrado seguramente, pois ameaça a si e aos demais. 

As imagens que se seguem no panorama visual desse maníaco são vários fragmentos do rosto de um desconhecido. Ele conhecera esse rapaz, mas de fato não se recorda de sua face. No entanto, se interessara por ele quando, num momento de fraqueza emocional, o vira numa foto, e desde então comunica-se com esse pobrezinho à distância. A aura de medo é cada vez mais acentuada, e os tímpanos soam como a única fuga para a realidade, como se impedissem que ele vislumbrasse por completo a paranóia que criara, um mundo completamente imaginário, onde todos seus desejos são cumpridos a sua vontade. Seriam essas imagens os efeitos da forte medicação passando? E então nosso louco se encontra vagando no limbo entre o étereo mundo dos sonhos e a macabra realidade?

Ora, mas os remédios são administrados em intervalos regulares, quando seus efeitos começam a diminuir, é hora de tornar a viajar para o mundo cor de rosa dos sonhos, ainda que artificiais. E assim começa uma viagem de volta ao País das Maravilhas, criados por uma mente doentia. Nesse mundo, nosso jovem vive alegre com um desconhecido ao seu lado. O jovem com quem mantivera contato, e que fora extremamente simpático com ele, nesse mundo, não demorou a declarar o seu amor. Os dois logo se casaram, e depois se mudaram para uma cidade do interior, um pequeno povoado. Onde poderiam viver mais sossegadamente os primeiros anos de suas bodas. Adquiriram uma bela casa. Pelas janelas do fundo, veem belos campos verdes, onde crianças correm e brincam alegremente. As mulheres e os homens que passam na rua sorriem e acenam para o nosso jovem casal em expressões sem rosto. Não se deu ao trabalho de imaginar as faces dessas pessoas, someye desejou que fossem simpáticos e que não se importassem que tivessem duas abominações vivendo entre eles. Mas essa realidade feliz é quebrada pelo retorno do suspense, que revela o perigo por detrás dessa imaginação toda.

Sua carência fez imaginar um homem perfeito ao seu lado, que embora anos mais novo, é saudável e forte, sinal de proteção. Mas que na verdade, tem a mesma face inexistente dos outros moradores do povoado. Trata-se de um problema novamente em sua medicação, mas ele não é arrancado dessa realidade mais uma vez, apenas mergulha num estranho torpor. Um torpor que se inicia nas extremidade e cada vez mais se aproxima do seu coração. Ele ainda se sente estranhamente feliz e satisfeito com o mundo imaginário que criara. Imaginou uma cidade em vários detalhes, esquecendo-se apenas dos rostos dos seus vizinhos. As calçadas e escadarias de pedras meticulosamente cortadas e encaixadas caprichosamente, uma igreja no centro, ainda vazia, esperando a hora de começar a Missa das 17h. Quando finalmente chegamos no ápice de sua criação, podemos andar por toda a cidade, e visitar seus lugares mais interessantes. Oh, como é poderosa a mente de um louco. Inacreditável a forma como ele consegue se imagianr feliz ao lado dessa pessoa que ele nem sequer consegue se lembra da voz. Uma estranha euforia se apodera de nosso alucinado. Um calor irrompe por suas extremidades, são os sentimentos de sua paixão sexual aflorando. E até aqui a riqueza dos detalhes de sua criação impressionam. 

Impressiona também a força demonstrada pelos instrumentos em todos os movimentos que ouvimos até aqui. Essa dimensão é entrelaçada de tão maneira com coisas reais, que quase parece ser plausível considerar a sua existência. 

Mas agora não há mais oscilação na medicação de nosso pequeno, e el pode mergulhar por completo no seu mundinho da fantasia. E assim, a harpa do Adagietto do 4° movimento marca a entrada permanente nesse mundo dos sonhos, onde apenas a sua vontade alucinada de ser feliz é ouvida. Então de volta a sua pequena, mas aconchegante casa, ele espera seu amado de volta do trabalho. Ele entra sorridente, sentindo o cheiro de uma saborosa comida, cansado da labuta, e ainda dominado de saudade. Como o casamento ainda é recente, ficar longe de seu amado é difícil, mas ele o faz com alegria, se isso significar que, ao final de cada dia ele estará ali esperando, com um belo sorriso e um beijo quente, ansioso por rever os olhos brilhantes a apaixonados se seu marido também desconhecido.

Já é noite, e as estralas brilham no forte no céu, com uma lua azul que também reina gloriosa, as vezes mais esplendorosa que o próprio sol. A noite parece ser mais apropriada para a alucinação do nosso herói. Ao passo que eles se aproximam da hora de dormir, e a noite vai escurecendo cada vez mais, ele sonha com as doces lembranças que já tem juntos. Um dia num delicioso campo florido. Brincadeiras ao ar livre, a brisa fresca nos cabelos. Eles correm e caem abraçados na grama, risadas e beijos apaixonados se revezam num quadro belo e doentio. Aqui e ali, pairam auras de suspense, que logo cessam e cedem lugar a alegria novamente. São como lembretes da realidade. 

Eis que nos aproximamos do grande final, o Rondó do 5° e último movimento (não, eu não saltei um, apenas não mencionei o 3° nomeadamente, apesar de ter falado sobre ele). Aqui é onde a felicidade se constrasta com mais clareza. O mal é apenas uma lembraça da realidade, enquanto que o bem é a dimensão do sonho criada com o auxílio dos remédios do hospício. Ele se encontra novamente nos braços fortes do seu amado. É ali que ele deseja estar para todo o sempre. Sentindo-se confortável e seguro, sem ter de nunca mais voltar para a realidade fria e assustadora, onde ninguém o quer. Aqui é mais aconchegante. Aqui ele pode amar livremente, e aqui ele é amado em resposta. A certeza disso vem das carícias trocadas na cama, na noite apaixonada de amor que se seguiu ao passeio no campo florido. Essa é a realidade florida e cor de rosa, o retrato doente da felicidade pela fuga. 

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Obs.: O texto em itálico foi retirado daqui.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O desesperado grito de fúria de um louco alucinado


Ah, como é bom, sentar aconchegado no quarto escuro, com uma playlist da hora e os efeitos do vinho começando a bater. Claro, com ele vem a desilusão, o sabor amargo da solidão logo depois do sabor suave da bebida. Além da bebida da alegria, nessa fatídica noite de segunda me faz companhia aquela que provavelmente me marcou mais profudamente a minha entrada no mundo da m´suica clássica. Foi a primeira obra que. além de ouvir inteira, eu ouvi de forma reflexiva e contemplativa, chegando a um clímax que não achava ser capaz de alcançar através da música. 

Mesmo já tendo uma relação de grande admiração pela música na época, foi o Concerto pra Piano N° 2 Op. 18 em Cm do Rachmaninoff o primeiro concerto pra piano com que tive contato e a primeira música erudita, dita clássica, que me fez ter um atitude de verdadeira veneração. Por tempos o seu 1° movimento foi inclusive a minha música favorita, sendo que mais tarde eu cheguei a conclusão de que não há necessidade de constante criar uma lista de músicas favoritas e me limitar a considerar essa ou aquela como as minhas amadas. Na verdade, é mais proveitoso pensar nas músicas que mais me trazem sensações, tanto boas quanto ruins. E ultimamente eu tenho uma porção delas. 

Já falei mais demoradamente sobre o poder que a música tem de trazer a tona os sentimentos mais profundos da alma. E de como eles surgem desses mesmos sentimentos que afloram nas notas escritas sob a partitura. E um outro fator que muito me admira nessa arte idílica é a capacidade que ela tem de imortalizar seus compositores. Ninguém se lembra de quem tocou Beethoven, todo mundo tocou Beethoven, mas todos sempre vão se lembrar de Beethoven.

Eu ouvi o Rachmaninoff pela primeira em Nodame Cantabile, um dos meus animes favoritos, e desde então ele virou nome obrigatório na minha playlist, principalmente nos momentos de bad. A excitação que esse concerto me provoca é comparável a um beijo apaixonado,  não raramente aind melhor que um beijo. Depende de quem ta beijando, claro. 

Essa é uma obra emblemática, obrigatória em qualquer orquestra que se dê o respeito e pra qualquer pianista. Mas não significa que seja de fácil execução, muito pelo contrário, exige uma técnica e uma delicadeza extrema, então mesmo sendo tocada muitas vezes, poucas audições são dignas de crédito. Mas quando tocado direito, ah meu irmão, é simplesmente sublime, impossível não se emocionar e em alguns casos, as lágrimas não podem ser contidas. É por isso que esse concerto é pra mim um hino da vitória sobre a depressão. 

Ela foi escrita tempos depois de o Rachmaninoff ter sofrido um colapso nervoso e de quase te abandonado o meio musical, abalado pelas críticas severas a sua 1° Sinfonia. Mas como pode se observar, ele conseguiu superar, e em grande estilo, se eternizando no meio musical pra todo o sempre. Alguns críticos afirmam que essa música seja uma auto-afirmação do compositor de sua recuperação, como se ele dissesse um não permanente à depressão e ao vitimismo. Eu discordo, penso nela como alguem que conta a história de sua luta, não um hino a vitória, e como tal, ela seria um hino de sua destruição interior. Já sua vitória, acredito ser bem expressa no concerto de n° 4 ou na sinfonia de n° 3. Foi escrito na tradicional forma de sonata e consta de 3 magníficos movimentos... 

1. Moderato 

O concerto começa com uma repetição de 8 acordes, que num crescendo, vão aumentando de intensiaded até que abram espaço para a apresentação do belo primeiro tema da peça. Essa abertura me soa como socos rápidos no estômago, seguido de um gigantesco tsunami. Como eu disse, essa peça pra mim fala do estado da depressão e esse movimento em particular mostra a loucura em seu estado máximo, aquele onde não mais é possível separar o que é real do que é imaginário devido a tremenda dor que se sente. Apesar de saber que muito provavelmente não fosse isso que o compositor sentia enquano compunha, é impossível pra mim pensar nessa peça de outra forma que não seja imaginar um panorama visual onde o homem tenha deixado sua mente destruir-se por amor. Foi abandonado? Perdeu para a morte? Não o sabemos. Só o que enxergamos aqui é dor, desespero. 

Os arpejos rápidos e poderosos bem como os andamentos mais rápidos do movimento me mostram claramente um homem correndo sem destino, tentando aliviar sua dor através do cansaço, pela ruas de uma Londres cinza e sem vida, perseguido continuamente pelos asseclas do destino, verdadeiros demônios que povoam sua mente de pensamentos tão grotescos que o levam a loucura. Aqui eu sinto como Rachmaninoff tivesse derramado cada dor de profunda depressão através das páginas da partira, quase consigo tocar o seu sangue derramado pelas teclas brancas e negras do piano cor de ébano, onde ele entregou sua própria vida. 

Ele vê sombras pelas paredes, uma risada macabra ao fundo, e entra num beco sem saída. Não há mais para onde correr, e então ele se abaixa encostado a uma parede, em meio ao lixo, e é então dominado por um estranho torpor. Mas não permance nesse estado por muito tempo, esse torpor será explorado no segundo movimento, aqui continua a predominar o desespero, o terror pela perda que acaba de se suceder. Cada nota do piano soa como um grito de dor e medo, enquanto a orquestra paira como uma névoa sombria a sua volta. Episódios de desespero e torpor se alternam num complexo vórtice que culmina num desesperado grito de fúria. Fim do primeiro movimento.

2. Adagio sostenuto

Nosso herói acorda de pé num corredor claro e desconhecido. De um lado, janelas e paredes, do outro, um grandioso jardim. É uma casa de recuperação. Um asilo para loucos. Se no primeiro movimento somos apresentados a um personagem louco e deseperado, aqui vemos ele alcançar o ápice de sua loucura com a insanidade completa. Enquanto as teclas do piano ressoam como as lágrimas de um grande amor que se perdeu, a orquestra interpreta o torpor provocado pela medicação e pela reaçãod o corpo em anestesiar a dor insuportável de sua alma e seu coração.

Não se lembra como fora parar ali, provavelmente enlouquecera completamente depois de ter gritado naquele beco escuro e úmido, acordara ali, de pé, num lugar estranho. Suas lágrimas escorrem sem parar, e ele se abaixa novamente contra a parede, numa tentativa de buscar apoio externo a sua aridez interna. Ele se lembra com uma dor excruciante dos momentos felizes que passaram juntos e todo o seu corpo protesta contra a dor que avança sob cada músculo, sob cada osso. Já deitado no chão frio, ele grita de dor, e é então socorrido pelos funcionários do hospício, mas os remédios não curam sua dor, apenas a limitam no campo físico, mas a dor do coração é ainda maior e parece não ter fim. Ele começa a considerar o suicídio, mas teme viver aquela dor eternamente no inferno, então decide corajosamente tentar sobreviver. Sobreviver a dor, ao medo, ao desespero. A todos os sentimentos que o assombram após a perda de seu amor. A névoa amendrontadora da orquestra novamente paira ao redor do seu leito como um prenúncio da morte, como se dissesse que apenas espera o seu consentimento para ceifar a sua vida. É como se ele pudesse tocar o manto negro da morte, e sentir o brilho frio de sua foice. Mas não é como ela fosse feia e temível, não, a morte é bela, tão bela quanto a pessoa mais bela que ele já viu e amou. A morte tem a face de seu amor. E ele a contempla novamente, deposi de tanto tempo. Fim do 2° movimento.

3. Allegro scherzando

Suspense, palavra que define mais perfeitamente esse último movimento dessa peça magnífica.

Nosso herói, em seu quarto, contemplando a face da morte, nota que ela na verdade tomou a aparência de sua amada, na tentativa de esconder sua aparência macabra. E quando se dá conta de sua verdadeira natureza, ele se põe a correr. Mas percebe que já fora a muito arrastado para um túnel escuro e úmido, longe da segurança de onde cumpria sua reabilitação. Esse movimento retrata então a luta propriamente dita contra a depressão.

Ele corre sem parar, ofegante, deixando para trás a morte, mas ainda sentindo sua presença ameaçadora. Consegue sair do túnel, onde seria seu túmulo, e entra num bosque também deveras sombrio, mas não tem tempo de sentir medo, ele precisa fugir. Essa fuga aqui tem dupla caracteristica. O fato de ele correr sem parar simboliza na verdade seu esforço para recobrar a razão e a consciência. Uma luta desesperada que, de tão profunda, assumiu uma forma física. Lampejos da realidade já podem ser visualidados, agora numa matiz colorida, em oposição ao cinza que até agora enevoava sua visão. As lembranças dos momentos felizes são aqui lembradas com alegria e não mais tristeza e nostalgia. É uma longa corrida, aqui e ali e tropeça e cai, se desespera ou é novamente encoberto pela névoa da morte e tomado pelo torpor, mas novamente se levanta e volta a caminhar, mais lentamente, até conseguir recuperar o ritmo da corrida. Não há tempo a perder, ele precisa voltar, ainda há muito a se fazer, muitos objetivos a se cumprir, um nome para marcar na história e uma obra magnífica para escrever e dedicar secretamente ao seu amor.

Finalmente ele consegue visualizar as peredes de concreto do hospício. Consegue ver as luzes da cidade que se projetam por detrás da construção. Ele precisa atravessar e corre, corre como nunca o fez em toda sua vida, alcança a instituição e passa por ela, recuperando sua consciência, sua razão. Jã não é mais uma visão, ele precisa agora sair de verdade, enfrentar o mundo e a morte desse mundo de verdade. Frente ao portão que lhe dará a liberdade ele visualiza as batalhas que o levaram ali, e agora, fortalecido por cada umadas cicatrizes deixadas pelos violentos combates com a morte, ele tem uma certeza, é agora um homem livre.

Ele é Rachmaninoff!