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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Entre escombros: a tragédia do encontro

A arte tem como esse magnetismo capaz de nos fazer conectar com ela para, numa troca, experimentarmos essa identificação. Por vezes ela nos toma pela mão, pois diz ou mostra, aquilo que não conseguimos dizer, mas que sentimos de forma poderosa e até devastadora. Talvez por isso Walter Benjamin insistisse que a obra de arte verdadeira “nos lê” antes mesmo de a lermos; ela se antecipa à nossa consciência e desvela aquilo que mantemos escondido até de nós mesmos.

Burnout Syndrome é uma das grandes apostas da GMM TV para esse ano. Após duas séries medíocres, a galinha dos ovos de ouro da empresa, o ship formado por Off Gun viria com mais uma produção com uma temática madura, como aquelas que consagraram os dois, que acabam de completar 10 anos como parceiros. Theory of Love e Not Me foram, cada uma a seu modo, marcantes na indústria BL a seu modo, mas tinham esse fator em comum: não eram produções simples, isto é, fugiam completamente da abordagem da maioria dos projetos, inclusive da própria empresa, sendo um ponto de virada para experimentações cada vez mais profundas, o que nos traz exatamente a Burnout Syndrome, que além do ship conta com a adição de Dew Jirawat como terceiro elemento. Há algo de Dostoiévski nesse tema do trio, as três personalidades que se chocam, se entrelaçam, se dissolvem uma na outra, criando um campo de forças onde cada gesto tem um eco moral e psicológico.

Como diria Blanchot, toda obra genuína exige esse trânsito entre o lúcido e o indizível, entre o comentário e o delírio, por isso esse breve ensaio vai flutuar da análise à poesia sem aviso prévio, não creio que possa falar de uma obra de arte de outro modo. E é bom que seja assim.

Como sempre, o simbolismo empregado nas obras audiovisuais são a chave de interpretação do todo por meio de suas partes: os símbolos fecundam nossa imaginação, ainda que não os interpretemos de forma consciente. Bem, aqui temos três personagens mostrados de forma visceral: todos estão absolutamente destruídos. Mas estamos apenas no terceiro episódio, enquanto escrevo, e o que virá adiante? Superação e queda? A psicanálise diria que, quando um personagem aparece quebrado logo no início, a narrativa o conduz não rumo à cura, mas ao reconhecimento, aquilo que Lacan (acho) chamaria de “encontro com o real”, o ponto duro onde nenhuma fantasia salva.

De todo modo, como dizia, todos estão destroçados. O que não é surpresa a partir do próprio nome. Mas somos apresentados a diversas formas dessa síndrome de exaustão que deixa nossos personagens à beira do completo colapso. Exaustão não só como falência emocional, mas como esvaziamento do desejo, e aqui há ecos de Kierkegaard: “o desespero é a doença do eu” e não apenas doença, mas "doença até a morte".

Jira, o personagem de Gun Attaphan, é um artista fracassado. Não só não consegue trabalho para pagara as dívidas crescentes como se encontra estagnado em sua própria obra, sua inspiração se foi. Ele lutou, e muito, mas continua pedindo dinheiro emprestado, pulando de bico em bico e ainda assim não consegue sair de uma linha abaixo do medíocre, por mais que se esforce. Não posso deixar tecer os elogios ao Gun que sempre entrega personagens incríveis com grande densidade emocional. Jira encarna o arquétipo do criador ferido, um Orfeu sem lira e sem Eurídice, preso naquilo que Freud chamaria de “inibição da função”. Sem criação, ele perde não só função, mas identidade. Não consegue nem mesmo interpretar num comercial qualquer. 

Dew, na ordem de apresentação na série, me deixou completamente chocado desde a primeira cena como Pheem. Claramente um homem em seu limite, incapaz de dar os passos necessários para sair de sua situação, mas prestes a explodir. Ele chega, se senta junto de Jira e, com um sorriso algo forçado, quase desesperado, inicia um diálogo com claras conotações de duplo sentido. Seu tom de voz, os pequenos trejeitos com as mãos, a forma de beber, o arrumar os óculos, o próprio sorriso: tudo aponta para um homem que mostra apenas uma pequeníssima parte de si. Uma pequena bola de luz flutuando num oceano de escuridão, com toda a violência que essa comparação implica. Ele será certamente o personagem a colapsar. É o tipo de personagem que me lembra o Raskólnikov antes do crime: tensão acumulada, um coração que ainda não sabe que já quebrou, mas que já se encontra nos umbrais de uma manão escura.

Enquanto Pheem tenta equilibrar a carreira e uma amizade aos frangalhos, Koh é o homem que criou tantas proteções ao seu redor que pode se dar a liberdade de ser quem é e agir como quer. Mesmo sendo bem-sucedido, aplicando técnicas lógicas de mercado às custas de um peso maior em cima de seu amigo e funcionários, ele quase não sai de seu refúgio pessoal. O personagem de Off não usa nada feito sob medida, comprando as coisas mais sem graça: a originalidade, o coração, o afeto, lhe tomaram tudo. Ele não dorme, não encontra paz e não tem força para mostrar o contrário. Num restaurante de luxo onde todos usam terno de alfaiataria, ele usa uma camiseta surrada de banda pop-rock. Em casa, anda de cueca ou simplesmente nu, ou enrolado num roupão. Abusa dos remédios para dormir e do álcool, aliás garrafas, copos e remédios se encontram jogados por toda parte. Usa os outros para fazer e falar. 

A relação entre esses três, para além de uma bomba relógio, mostra a ambiguidade do coração de cada um, revelando nuances que não esperavam. Há também muitos elementos visuais à disposição, mas talvez eu deve rever anotando para conseguir descrever todos. Em especial notei a óbvia placa de "cuidado, piso molhado" que é tirada da frente de Jira quando ele decide voltar a trabalhar para Koh, mesmo desprezando-o. Jira vai tirar proveito da inspiração que aquele homem lhe dá, Koh vai descobrir no jovem artista algo que o faz sentir vivo depois de muito tempo, no sentido terno do termo, afinal ele conseguiu dormir em cima das roupas não porque elas lhe lembravam a infância, mas porque uma presença afetiva ao lado das roupas lhe lembravam a infância. Quando ele percebe que não dorme tão bem sem a presença do outro, toma consciência do ponto que o fere, que escapa ao discurso e atinge direto a memória afetiva.

A tensão sexual dos três também é óbvia, e nenhum deles faz questão de disfarçar. Aqui, o eros é ferida, não força vital, é o eros de Bataille, o eros que sempre beira o sacrifício, eros envolto em luto e melancolia. Pheem assusta ao revelar que se apegou tanto a Jira que deseja que ele fique ainda pior para que volte para ele. Destroçado, ele se faz uma companhia agradavelmente necessária para pessoas exaustas, pois parece ter relacionamentos casuais recorrentes, a fim de barganhar seu afeto. Fazer com quem Jira o queira o coloca numa posição que preenche o vazio em que ele se afundou ao destruir sua carreira em nome de uma amizade com Koh que também se deteriorou. Koh sabe que Jira olha para ele de modo sexual, Jira assume ficar excitado, com os sentidos artístico e literal do termo confluindo, mas não consegue reagir. 

Por isso, se existe um pensador capaz de iluminar o tipo de relação que se desenha entre os três protagonistas, esse pensador é Bataille, talvez o único que colocou eros, morte e ruptura interior como partes inseparáveis do mesmo gesto humano. Em Bataille, o erotismo nunca é apenas sexual; é sempre um movimento de atravessamento, um impulso que faz o sujeito perder algo de si para entrar em contato com o outro. É uma ferida aberta que pede outra ferida. É sempre excesso, risco, desordem. O eros ali não aparece como romance, nem como desejo puro, mas como busca desesperada por dissolução, como se cada um deles precisasse abandonar uma parte de si para suportar a própria existência. 

E é aqui que entra o luto, outro pilar batailliano. Cada um desses personagens está em luto por algo que não sabe nomear: Jira pelo artista que não conseguiu ser. Pheem pelo homem que destruiu tentando salvar o amigo. Koh pela versão de si que um dia ainda acreditou por conta do afeto de seus pais para com os outros e que foi a causa da falência e destruição deles.

Eles não apenas choram seus mortos. Eles os carregam seus dentro do corpo, como um peso constante. E quando esses mortos internos encontram o eros que circula entre eles, o resultado é o que Freud chamaria de melancolia, mas o que Bataille nomearia como uma forma de sacralidade profana: a sensação de que só existe verdade quando algo dentro de nós se rompe.

A melancolia aqui não é contemplativa; é febril, inquieta, lascada. É a melancolia de quem se deseja e, ao se desejar, se ameaça. A tríade toda se move nesse território: Eros tenta costurar o que o luto rasgou. O luto aprofunda o buraco onde o eros tenta se enfiar. A melancolia é o estado intermediário, o ponto de partida. 

Ao passo que Koh devolve a inspiração para Jira, o ambiente tóxico, melancólico e depressivo, achatado, cinza e com cheiro de whisky e carvalho envelhecido do apartamento do milionário é opressivo demais, e ele encontra nos olhares provocantes de Pheem um lugar para usar a alegria que lhe é concedida ao ver retornar sua capacidade de produzir arte. É como se ele se recarregasse em um para aproveitar com outro. É com Pheem que ele ousa brincar de jogar vinho na camisa para criar uma obra espontânea, é com ele que canta e grita e sorri, é com ele que aceita ir para a cama. A cena em que Gun e Dew estão no sofá carrega o peso que será o mote principal, embora não fisicamente presente, as ligações de Off interrompendo os beijos e toques dos dois mostra o dilema: Jira não pode perder sua fonte de inspiração. Pheem não pode perder aquele que o faz ter vontade de dar um passo a mais. Koh não pode perder essa sensação tão estranha, mas ao mesmo tempo, tão familiar. 

É por isso que essa tríade não é romântica e não é trágica apenas, ela é transgressiva. Eles não se encontram para curar. Eles se encontram para se expor, para violar a superfície dura da própria solidão e descobrir, no instante do contato, que eros e luto são duas faces do mesmo movimento de perda. A melancolia é o preço, e a revelação. No fim, o que liga esses três não é o desejo, nem a dor, nem a dependência, mas a experiência quase sagrada e ao mesmo tempo dolorosamente mortal de encostar a própria ruína na ruína do outro, e sentir, por um instante, que esse toque os mantém vivos.

Essa relação coloca em evidência, pelo aumento e cessar do som, seja da música ou do trânsito, em cena várias vezes, de modo a mostrar a linha tênue que agora os separa do que eles querem, daquilo que eles precisam. A  literatura está cheia de “triângulos” que não são exatamente amorosos, mas forças humanas que se chocam, como placas tectônicas afetivas, morais ou espirituais. E ninguém fez isso com mais brutalidade lúcida do que Dostoiévski e, por isso, acho que vale a pena aprofundar um pouco mais nisso. 

Para esse gigante russo, mestre do moralismo (no sentido filosófico do termo), sempre que três figuras se cruzam, não se trata de um triângulo comum. É um campo de batalha espiritual, um encontro de mundos interiores que não se encaixam, mas se precisam. Temos Raskólnikov, Sônia e Porfíri em Crime e Castigo. Em O Idiota acompanhamos Íppolit, Míchkin e Rogójin e os Irmãos Karamázov, Aliocha, Ivan  e Dmitri. Cada trio é composto por aquele que busca redenção, o que está à beira da destruição e o que tenta mediar, compreender ou sobreviver ao choque entre os dois. Eles não se completam: eles se fraturam mutuamente. Um vive a partir do buraco do outro, um deseja o que o outro teme, um tenta salvar aquilo que o outro é incapaz de conceder. Isso é o que captei, de algum modo, em Burnout Syndrome.

Quando três figuras se colocam no mesmo espaço, existencialmente falando, algo maior do que elas começa a se mover. Não é só relação: é fricção. Não é só narrativa: é colisão de estruturas internas.  Pheem é o desejo de ser visto, no sentido de não decepcionar os amigos e ajudar desconhecidos que encontra no bar. Jira é o desejo de criar sentido. Koh é o desejo de controlar o caos. Os três desejos coexistem em qualquer pessoa, mas, separados em personagens, tornam-se forças vivas, independentes, famintas. E é justamente por estarem divididas dessa forma que elas entram em conflito. Cada uma busca aquilo que as outras duas ameaçam. Cada uma revela, sem querer, o ponto de ruptura das outras.

E aqui entra a tensão central: Esses três homens não se relacionam apesar de suas feridas, eles se relacionam por causa delas. Embora Koh afirme não sentir nada por Jira, é exatamente o que ele sente que o faz se aproximar, mesmo quando seu comportamento corriqueiro o diz para fazer o contrário.

Isso que a literatura sempre soube: quando três personagens se encontram num ponto de exaustão, o que se cria não é um triângulo amoroso, mas uma espécie de organismo psíquico coletivo, onde cada parte depende da dor das outras para permanecer de pé. Em Dostoiévski, isso aparece em todas as grandes tríades, o que busca redenção, o que está à beira da destruição, o que tenta mediar ou manipular o choque , e o efeito é sempre o mesmo: ninguém sai ileso.

Com Pheem, Jira e Koh, vê-se claramente essa relacão emocional devastadora. Pheem precisa do desespero de Jira para preencher seu próprio vazio. Jira precisa da dureza de Koh para reacender a fagulha criadora que perdeu. Koh precisa da vitalidade de Jira e da amizade competitiva com Pheem para não desmoronar por completo. Cada um se alimenta da fragilidade do outro, não por maldade, mas porque é ali que encontra a peça que lhe falta.

É o que Freud chamaria de circuito de desejo. Lacan chamaria de dependência ao olhar do Outro, e que Dostoiévski chamaria simplesmente de destino.

E é por isso que tudo aqui se dá como tragédia, não no sentido de algo “ruim”, mas no sentido grego, estrutural, inevitável: quando três forças incompatíveis se atraem, o resultado não pode ser harmonia. Só pode ser tensão. O encontro dos três é o encontro de três modos de existir que se precisam e se devoram, três necessidades que não se completam, mas se ferem. Cada aproximação é um risco e cada toque é um corte. 

Assim, talvez a melhor imagem não seja a de um triângulo, mas de uma arena. O campo minado onde o humano, dividido em três, tenta sobreviver ao choque de si mesmo.

É um triângulo que também lembra Marcel Proust mais do que qualquer romance contemporâneo: ninguém deseja o outro, mas sim o que o outro desperta, o desejo se torna reflexo, eco, espelho quebrado. As longas descrições de Proust que são como a composição psicológica dos seus personagens se mostram aqui nas complexas construções visuais: o apartamento destruído, a obra de arte em cores revividas, os trejeitos e olhares. Se em Swan, Proust usa as longas descrições aparentemente banais da paisagem, de dias claros ou chuvosos, na construção da personalidade e das memórias do personagem, aqui nós vemos essa relação na expressão visual deles. Pheem é elegante, social, sedutor mas sem ser indelicado, revelando em pequenos pontos o seu interior. Koh já desistiu, não se veste em casa, casa esta que está sempre uma bagunça mesmo sendo luxuosa, e Jira muda a forma de se vestir conforme sua situação melhora, não no sentido de usar roupas melhores, mas por perceber que reencontrou inspiração e trocar a aparência cansada e opaca pelo casaco cor de rosa.

E talvez seja justamente aí, nesse ponto em que nada se resolve e tudo permanece suspenso, que a história, a arte, me captura de vez, mais uma vez. Os três seguem ali, rondando abismos, presas, e eu, seguindo junto, sem respostas, sem garantias, caminhando entre ruínas que ainda não sei se serão reconstruídas. Há histórias que não avançam em linha reta, mas se aprofundam, como areias do tempo que escondem séculos embaixo de si. E enquanto cada um deles tenta sobreviver ao próprio cansaço, sinto que o que virá não será continuação, mas queda ou voo, ou aquele território estranho entre os dois, onde só a boa arte nos permite permanecer sem desespero, ou que nos conduz diretamente a ele.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Eu o vi no meu sonho

O final de I Saw You In My Dream foi um arremate perfeito pra uma série que me pegou de surpresa: eu nem sabia da produção dela, conhecia um dos protagonistas por causa de uma aparição breve em outro projeto e só. Mas, já nos dois primeiros episódios lançados juntos eu fui completamente capturado pela doçura da história dos vizinhos que cresceram juntos e que por isso acabam desenvolvendo um laço forte de cumplicidade e carinho, a despeito das provocações, que mais tarde evolui pra um amor puro, genuíno.

O arco dramático principal não envolve a separação do casal, isso me deixou realmente feliz, a primeira parte da temporada foca no desenvolvimento e aceitação dos sentimentos, dessa transmutação da parceria amigos-vizinhos-irmãos em namorados, que foi feita de modo tranquilo sem atropelos, e me fazendo apaixonar por ambos a cada episódio, isso aliado ao plot sobrenatural dos sonhos premonitórios. 

Ao Ai é dado uma escolha, embora mostrada isso não é dito explicitamente: ele vê a possibilidade de dor ao outro, a quem ele ama, e pode escolher interferir e tomar pra si aquele destino. Mesmo sem perceber ele toma a responsabilidade de cuidar do bem estar do outro, que também se sente responsável pelo mais novo. Esse plot que inicia e encerra a trama  dá uma coesão interna para a obra que a torna completamente satisfatória, isso porque o arco de conexão justamente consegue trabalhar os sentimentos de ambos, suas respectivas responsabilidades e impacto na vida um do outro, de modo a prepara-los para o desfecho que, por sua vez, uniu todos os personagens na escolha de um destino em comum que pudesse salvar a todos: a escolha de dividirem, com família, o "azar" e assim continuarem juntos.

A série pode não ter figurado entre as grandes produções do ano na Tailândia, e nem no cenário global, sendo lançada quase ao mesmo tempo que The On1y One e encerrando na mesma semana da nova temporada de Heartstopper, mas no meu coração ela se tornou uma das melhores do ano e o carinho que criei por cada ator e personagem já me faz querer ver novos trabalhos. É exatamente aquele tipo de obra que deixa o coração quentinho, e era o que eu mais precisava ontem. Apenas isso, um abraço apertado de desconhecidos tailandeses sorridentes e amáveis namorando fofinho. 

domingo, 11 de agosto de 2024

Solidão que fere

A solidão feriu o coração que precisava de cuidado. 

Quando, sozinho, precisou de alguém que o amparasse naquele luto, naquela luta interna que se expressava na voz embargada e nas lágrimas que caíam copiosamente. Mas aquele que estava ao seu lado na noite anterior, naquela noite de lascívia, de torpor apaixonado, não estava mais quando ele precisou. Uma voz irritante e, depois, nada mais, silêncio, de novo o vazio, o luto violento e brutal. 

Eis que então, quando tudo que havia era apenas o nada, uma casa escura e vazia, quando nem mesmo o cigarro ajudava a tornar aquele dia menos insuportável, um sinal aparece, será a resposta que ele esperava naquela hora de ódio? 

Não, era uma figura alta e esguia, inesperada. Símbolo da justiça falha, da justiça que busca favorecer apenas alguns poucos enquanto os outros sofrem tormentos indizíveis. Aquela figura, em primeiro lugar lhe causou estranheza. 

Não deveria estar ali, não era quem ele queria. 

Não servia.

Alguns dias se passaram. Ele apareceu de novo, sério, mas algo em seu semblante indicava mais. Havia preocupação, e algo mais também, um certo brilho, que incluia lascívia e desejo, mas não apenas isso. Havia algo de real e justo, algo como um pomo de ouro, algo como uma vontade de fazer a justiça acontecer.

Mas aquele coração tão ferido pela solidão talvez já não possa mais ser alcançado. Ele não o tocou realmente, apenas se aproveitou da situação. 

Foram juntos para a cama, mas era apenas um modo de extravasar aquela frustração, enquanto o outro esperava poder evoluir aquele sentimento, aquela primeira impressão que logo se tornará um afeto maior e mais profundo. 

Talvez ainda seja necessário mais tempo, mais esforço, mais paciência, mais cuidado e atenção para que, de algum modo, possa cicatrizar aquelas feridas e, quem sabe, tornar possível o amor. 

Corações feridos podem se fechar em si mesmos. Tornarem-se tão obtusos e até cruéis. Quando isso se prolonga por muito tempo a doçura de antes, o desejo do cuidado, tudo isso acaba se pervertendo em um arremedo de autoridade. O ferido passa querer ferir aquele que o ama porque antes não foi amado. Haverá cura já que chegaram a esse ponto? 

Aquele coração ferido pela solidão precisa de cuidado.

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Livremente inspirado nos episódios 2 e 3 de 4Minutes (Be On Cloud, 2024)

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Resenha - Century of Love

 "A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: — o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão." (Nelson Rodrigues)

Até repeti a citação do meu último texto porque acho que algo nela reflete a essência dessa obra que me encantou, e que atendeu a todas as minhas expectativas, que eram altíssimas. E aqui também tem algo que é o centro de toda a obra: a essência do amor.

Se, na primeira parte da série, a trama corria ao redor do fato da reencarnação de Wad ser um homem, cabendo ao San (Daou Pitaya, de Love in Translation) aceitar e entender que, de fato, aquela pessoa que ele amava, independe da aparência de mulher ou de homem, e que Wee (Offroad Kantapon), embora tenha personalidade bem diferente de Wad, tinha a mesma essência, tanto que mesmo em negação ele ainda se apaixonou perdidamente, tão verdadeira e tão profundamente que a essência do amor de ambos os levou para o segundo arco, e mais importante, que foi conduzido por uma belíssima ponte de transição da narrativa.

Agora percebendo que se amam de verdade, San e Wee levam seu relacionamento até as últimas consequências: o sacrifício de amor. 

Wee é o primeiro a fazê-lo quando decide abrir mão da convivência por conta da falsa Wad que apareceu e que colocou em sua mente o perigo de fazer perder a vida de San: ele afirma que prefere viver sozinho se ao menor puder ver o outro sendo feliz, ainda que longe. Mas isso não dura muito, pois o próprio San percebe que ele já não pode ser enganado pela aparência e pelas memórias forjadas dela, seu coração já é todo do outro. Ao fim temos então San deixando que o sábio use a Pedra das Cinco Cores para salvar a vida de Wee, baleado numa confusão, sem se importar que, com isso, estaria condenando a si próprio a morte, já que a pedra era necessária para o ritual que o permitiria terminar de levar uma vida completa, envelhecendo finalmente depois de cem anos de espera.

Sacrifício. Wee sacrificou seu desejo de estar ao lado de San pelo bem-estar do amado. San se sacrificou pela vida do seu amado. Os dois se amam tanto que colocaram o outro a frente de si próprios. Afinal, quando se ama, nada mais importa além da felicidade da pessoa amada. 

Com a química única de Daou e Offroad, resultado de uma amizade íntima que já dura vários anos, os dois sustentaram uma trama romântica, cheia desses mistérios e intrigas típicos dos lakorns onde a história se desenrola ao redor de uma grande família. Vemos a união dessa família, bem como dos amigos, e aqui claro destaco a atuação do Pond Ponlawit (180 Degrees Longitude Between Us) como Dr. Third que, na última encarnação foi o causador da morte de Wad e que agora se redimiu sendo um porto seguro para Wee e, mesmo competindo até certo ponto com San, soube reconhecer o amor deles, não só respeitando mas também ficando ao lado de ambos nos momentos finais e mais difíceis. 

Também gostei da presença do fofíssimo See Parattakorn (Laws of Attraction) como o amigo bobinho de Wee mas que também ficou ao lado dele nos momentos mais complicados. Essas presenças são importantes, pois mostram o quanto um amor, sendo verdadeiro, move e comove todos ao redor. 

Foi lindo ver o quanto San, amargurado depois de cem anos de espera, voltar a sorrir e se apaixonar, sem reservas, por Wee. Wee, mesmo numa vida tão difícil e solitária ao lado da avó, se entregando e sendo cuidado com carinho. Talvez seja uma lição: esperar pelo amor, ainda que cem anos. O resultado é a felicidade, estampada na nossa cara. E aquele sorriso então? Sem condições. Os dois juntos são simplesmente maravilhosos e então todos nos apaixonamos também, os dois são um sonho: fofos, safadinhos, carinhosos e até bobinhos.

"Se você quer dar beijinhos, tem que usar bolinhos!" (San)

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Cultivando o amor

Como é bom quando a realidade supera as expectativas. Daou e Offroad continuam me ensinando tanto e me mostrando cenas tão lindas, que vieram a casar tão bem com um pequeno declínio dos dias de melancolia intensa em que estava mergulhado. 

Decisões difíceis e dolorosas de serem tomadas, e o amor presente em cada uma delas. O jovem que, já apaixonado, ainda assim roubou aquela que poderia ser a única chance de sua avó viver, e a velha que a rejeitou, sabendo que ele não ficaria sozinho, mas que teria o outro cuidando dele. 

O homem que esperou cem anos se vê em dúvida entre duas pessoas que podem ser sua amada, por quem ele esperou tanto tempo. Mas e agora, quem será? O homem por quem ele se apaixonou ou a moça, idêntica a sua amada, que se lembra de tudo, mas por quem ele não sente nada? A dúvida lhe estampou a face, tomado de confusão. 

A dor lancinante de ter sido roubado não foi maior que a dor de ver seu amado mentindo para todos, em nome de seu amor, porque decidiu que seria melhor não arriscar a vida daquele que passara um século esperando por alguém que poderia não ser ele. Colocar quem se ama em primeiro lugar, Wee fez isso duas vezes, com sua avó e com San. Offroad deu um show de interpretação em tantas camadas: o medo de perder sua família, de perder aquele a quem amava, e vendo-se sozinho, optando por não arriscar a vida de San. 

San, no entanto, não se convenceu das palavras ditas pelo jovem, e permanece em busca de esclarecer as coisas. Percebe a dor que causou nele ao demonstrar a confusão que a aparição da nova mulher causou em seu coração, mas a verdade de seu sentimento veio à tona quando, de joelhos aos pés dela ele pede perdão e diz que, mesmo tudo indicando que ela é, na verdade, quem ele esperou todo esse tempo, é Wee quem ele realmente. 

O amor não é então fruto de uma magia, nem mesmo de aparências perfeitas, nem de memórias intactas: o amor é mais profundo que tudo isso, é algo tão verdadeiro que transcende o aparente e toca a essência daqueles que amam, e os transforma profundamente.

San não imaginava, nem sequer aceitava, amar outro homem, e agora ele consegue até mesmo dizer para a mulher que é idêntica a sua amada de cem anos atrás, que Wee é quem deve ficar ao seu lado. E garoto que até pouco tempo ele nem mesmo suportava, se tornou para ele objeto de amor tão profundo que ele consegue ver através de suas palavras, como se as lágrimas de ambos fossem como que lentes, permitindo-lhe ver a verdade por trás do que foi dito. 

Amor, verdade e sacrifício. Wee sucumbindo ao ficar sozinho, decisão triste, dolorosa, a mais difícil e, porém, a mais necessária. Nessas caminhadas difíceis pelas estradas do destino, amar significa muitas vezes sofrer para que o outro seja feliz, ainda que eles estejam perdidos em meio às mentiras e invencionices, enquanto permaneço na esperança de que logo se libertem e sobre apenas o amor. 

Amor, tão incompreensível e intraduzível, mas que ainda se faz visível e palpável por meio das ações e das lágrimas, amor que é como um tesouro, uma esfera que guardamos com preciosismo e cuidamos com todo nosso ser. Não há muito que possamos fazer além de cultivá-lo. 

sábado, 27 de julho de 2024

Um Século de Amor

Foram cem anos. 

Um século de noites solitárias, em que todas as feridas se abriam em brasa ardente, uma lancinante tortura que só diminuía lentamente com o nascer do sol. Tudo isso suportado pacientemente para que o amante pudesse novamente encontrar sua amada. 

Eis que finalmente se deu o tão esperado encontro. Já não havia mais dor. Depois da aceitação de que aquele rapaz era sua amada, depois de aceitar que não poderia viver sem ele, depois de entender que seu corpo, sua mente, seu espírito, tudo o fazia girar em torno daquele rapaz... 

Depois de cem anos, o toque apaixonado, o toque que se encerrou por todo esse tempo, o toque que eles nunca tiveram. O olhar revelando todo o desejo que guardou também. Ambos despindo um ao outro com delicadeza, observando atentamente cada pequenino detalhe de seus corpos. O beijo no lugar onde sua amada levara o tiro, nas mãos que o salvaram, o aconchego no corpo que lhe ensinara o que é o amor. 

Depois de um século inteiro de espera, eles finalmente se entregaram, finalmente seu amor pudera se expressar, finalmente puderam conhecer o que significa tornarem-se um só. Como descrever uma noite que demorou tanto a chegar? Que tantas vezes pareceu se perder num céu de negritude? Que era apenas dor e saudade, sem fim?

Novamente o olhar cheio de significado, 
o carinho de cada toque, 
o perfume daquele corpo, 
a troca de sorrisos, confiança
a gentil sinergia: 
toda aquela espera consumada naquela noite.

Finalmente a espera acabara, os amados se reencontraram.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Superando barreiras

O medo de perder seu amor o fez tomar uma atitude, uma atitude que desse vasão a todo aqueles sentimentos conflitantes que ele passou a dar mais atenção quando aquele médico, aquele com a aparência idêntica ao homem que tirou a vida de sua amada há cem anos, apareceu novamente na vida daquele que, supostamente, seria a reencarnação dela.

Então, na eminente possibilidade de ver perder mais uma vez seu amor, ainda que não aceite que ele é seu amor, o homem de cem anos resolveu agir e, lutando contra seus ímpetos, preconceitos, deu um passo diante dele e finalmente se aproximou. 

Cem anos! Um século inteiro de espera. E agora, diante de seus olhos, o mesmo homem que destruiu a possibilidade da felicidade, ameça levar para longe aquele que apareceu, que é um incômodo, é verdade, mas que de algum modo o fazia flutuar sempre para o seu lado. Ele não podia permitir. Não, isso não é uma possibilidade. A ira que brotava de seu coração desde que aquele novo homem aparecera agora fazia mais sentido. Embora ele ainda não entendesse o que era aquele sentimento por outro homem, tudo que ele sabia é que não podia permitir que lhe afastassem daquele rapaz de novo. É um sentimento de possessão? Ciúmes? Certamente são ciúmes, mas se é isso, só pode significar uma coisa... E ele então, percebendo isso, se aproximou.

Se aproximou rompendo parte daquela imensa barreira que erguera entre ambos, não importava mais, ou ele se aproximava daquele rapaza, transmutando seu nojo em carinho e deixando finalmente vir ao sol o sentimento que reprimira até ali.

Em momentos assim se consegue vencer esses medos, essas incertezas. Em momentos assim só o amor, ali, diante de seus olhos e ao alcance de suas mãos, importa. 

Não conseguiu consumar o beijo, mas tocou sua mão, entrelaçando os dedos, amado e amante: naquela aproximação o coração de ambos finalmente perto um do outro após cem anos! 

Claro que isso me fez pensar também na distância do meu amor, dos muros que nos separam, das minhas dúvidas, das coisas que não entendo... 

Me fez pensar nas minhas besteiras, em todas as minhas conclusões, em todas às vezes que provoquei raivai porque pensei demais, porque passei por cima do que sentiam e não conseguiam dizer, porque, no fundo, eu só queria ser amado, amado como San amou e esperou por sua amada por cem anos, por um século suportando as dores terríveis de cada noite, por dez décadas na esperança de que na manhã seguinte ele finalmente a encontrasse.

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Inspirado no episódio 5 de Century of Love, com Daou e Offroad

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Primeiras impressões: Century of Love

A ansiosa espera acabou, e o primeiro episódio de Century of Love já está entre nós. A segunda série que conta com Ou Pittaya e Offroad Kantapon de Love in Translation como protagonistas, numa pegada bem mais madura, no estilo dos tradicionais lakorns. 

Antes de falar do lakorn em si, é importante falar dessa diferença entre lakorn e as séries que estamos acostumados a ver. O lakorn tem uma forma narrativa um tanto quanto diferente: mesmo que as produções tailandesas sejam, em geral, mais leves e afetadas que as demais da ásia, os lakorns têm características próximas das novelas indianas e até mexicanas. Os ambientes variam dentre a pobreza das cidades até as suntuosas mansões das grandes famílias, as intrincadas intrigas familiares tornam a narrativa mais densa em comparação com os BLs onde a história gira em torno de um casal com evento que atingem a eles diretamente. Um lakorn apresente uma grande gama de personagens, todos contribuindo para uma crescente complexidade da história que comumente se entrelaçam de modo que a resolução vem apenas aos últimos minutos dos episódios. E tudo isso num episódio mais longo, com a composição geral, trilha sonora, jogos de câmeras, tudo construído para dar uma maior dramaticidade. O resultado é muito interessante.

Em Century of Love a história começa cem anos atrás e vemos San (Daou) se apaixonar por uma jovem que o salvou de uma perseguição. A gratidão dele pela moça se torna em veneração e, logo, uma paixão correspondida. Mas a jovem já fora prometida em casamento a outro rapaz (o belo Pond Ponlawit, de 180 Degrees Longitude Between Us). Os dois fogem, mas acabam sendo pegos e, num ato desesperado, ela se joga na frente do amado, levando um tiro em seu lugar e falecendo no local. O jovem desesperado San procura ajuda de um sábio do templo de uma famosa deusa que, não podendo ressuscitar a jovem, mostra ao rapaz um ritual onde ele pode permanecer vivo por mais cem anos, até que se encontre com a reencarnação de sua alma gêmea.

Cem anos se passam e ele já encontra impaciente, afinal se após esse período eles não se encontrarem, San morrerá. Com a ajuda do novo sábio do templo da deusa, o quarto após aquele que ajudou os jovens cem anos atrás, ele tem a chocante surpresa que a reencarnação da jovem é, na verdade, um garoto, Vee (Offroad) que acabara de se mudar. O choque é iminente. San recusa veementemente que aquela seja sua amada, mas não consegua negar a proximidade sobrenatural entre ambos. Ele salva o jovem de uma queda, depois o reencontra no templo e, numa confusão, acaba perdendo o anel que usara para pedir a sua amada em noivado, e que vai parar nas mãos de Vee, servindo perfeitamente. Nesses encontros os dois se tocam brevemente e, embora San não aceite, Vee está realmente ligado a ele. 

Vee tem a personalidade oposta a de San, enquanto este é um velho ranzinza no corpo de um jovem, está sempre sério e impaciente, ao passo que Vee é como um pequeno raio de sol, de sorriso doce e cativante, jeito meigo e alegre, enchendo o ambiente de calor onde quer que esteja. Essa afetação de Vee também contrasta com a imagem que ele tinha da amada Wat. 

Nos próximos capítulos devemos acompanhar a dicotomia de aproximação e negação de San em relação Vee. Na tentativa de descobrir que foi um engano, eles vão se aproximar cada vez mais e, com a abordagem mais íntima, podemos prever muitas lágrimas, pois as pessoas confusas de seus sentimentos tendem a machucar umas as outras. 

Algumas outras surpresas também se mostraram interessantes, como a presença do meu querido See Parattakorn de Laws of Attraction e mais da química e DaouOffroad que, já no primeiro episódio demonstraram aquela química única em tela. 

A primeira impressão não poderia ser melhor: a série parece que vai combinar o drama e o romance típico dos lakorns além, é claro, de doses de comédia e vão explorar ao máximo a inquestionável sensacional química entre os DaouOffroad. Ansioso pelos próximos capítulos.

sábado, 7 de outubro de 2023

Zero multiplicado

Não encontrei outra opção a não ser desdobrar aqui as emoções que tive ao primeiro episódio de Absolute Zero, a nova produção do Studio WabiSabi que, reconheço, mesmo tendo o Max Wanut de Until We Meet Again como protagonista e a direção do New Siwaj, não tinha despertado meu interesse completo e, como sempre, acabou me deixando sem palavras e em lágrimas logo nos primeiros minutos. 

Primeiramente eu continuo me surpreendendo muito com a direção do New Siwaj que conseguiu ter uma imagem própria nos seus trabalhos, de um modo intimista, equilibrando com as necessidades do mercado, como ele faz para as direções dos projetos da GMM TV e do próprio estúdio. A delicadeza da direção dele, bem como o espaço que ele deu para os atores assumidamente homossexuais no seu time enquanto as outras empresas apenas lucram com os BLs sem apoiar de verdade aqueles que têm dificuldade de se estabelecer no meio do entretenimento... Mas enfim, não é esse meu ponto, o fato é que eu gostei muito da construção mais lenta da narrativa, sendo uma série pra se ver com calma, longe do celular, e para acompanhar os personagens com a mesma paciência que se houve o coração de uma pessoa amada.

Mesmo falando assim, esse primeiro episódio não foi de modo algum arrastado, apenas mostrou a melancolia do protagonista e se acelerou lentamente conforme ele abria seu coração ao outro personagem. 

A cena do cinema foi então um divisor do episódio, quando Ongsa entrega o ingresso pro Suansoo depois de ter ficado ao lado dele numa sala de cinema quase vazia, e então, algumas cenas depois, quando ele entrega todos os ingressos que usou pra ir todos os dias na esperança de encontrar o outro, aquele choque que todos tivemos, nós e o personagem, como na sequência dos dois tomando sorvete e a clara declaração que o desconsertou, aquela emoção que transbordou em lágrimas... Tudo construído partindo da premissa da melancolia que lentamente é superada pela gentileza, pelo carinho... Me recordando aquele verso de São João da Cruz "Ferida de amor não se cura, senão com a presença e a figura." 

Suansoo estava sozinho depois da morte dos pais, por anos, se acostumou a ser só e até ia no cinema sozinho porque a presença das outras pessoas lhe dava a sensação de aplacar a solidão. E, de repente, aparece essa figura que é Ongsa que, sem violência, apenas com um leve sorriso doce e uma companhia silenciosa, consegue ir fazendo abrir o coração que havia se acostumado com a solidão. 

Também me emocionei com a relação do protagonista com o próprio nome, que significa zero e que, multiplicado por qualquer número continua sendo zero, o que mostra que ele acreditava que nunca poderia vir a superar esse estado de letargia. Essa construção toda em cinquenta minutos, somada a essa aura ao mesmo tempo quente porém vazia, as falas pontuais, o diálogo na sacada que já deu uma ideia do que vem adiante, já sabendo que a trama envolve viagem no tempo... Realmente um primeiro episódio emocionante. 

domingo, 30 de abril de 2023

Resenha - Future

Contém spoilers!

Com uma proposta fofinha que acabou surpreendendo com mais drama do que poderíamos imaginar, Future chega para acrescentar mais uma história ao universo de En of Love e Love Mechanics

Fuse (Boom Natthapat, de Love Mechanics) é a lua do curso de Engenharia mas, mesmo sendo um dos mais bonitos do campus ele continua solteiro, enquanto Ana (Bigboom Jirayu) é um veterano de odontologia que é secretamente apaixonado por ele mas nunca teve coragem de se declarar, dizendo que o destino se encarregaria de fazê-los ficar juntos. O destino, no caso os amigos deles, acabam fazendo os dois se encontrarem na clínica do pai de Ana enquanto Fuse está numa crise existencial por ficar no meio do namoro dos amigos, principalmente Mark e Vee e o casal Tossara (Kan e Bar, respectivamente o gatíssimo Jeff NathadejGot Kanidsorn também de Love Mechanics), onde a lua finalmente chama Ana para sair. 

Não demora nada, nada mesmo, até os dois começarem a namorar, e a doçura começa. Os dois são as coisinhas mais fofas, ficam vermelhos por nada e se provocam o tempo todo, e é impossível não ficar com o coração quentinho vendo dois dos atores mais fofos da temporada juntos fazendo boiolice. Mas o que era bom parece não durar tanto assim porque tão logo eles ficam juntos somos apresentados aos problemas de cada um.

E é aí que a história ganha uma camada a mais de profundidade que a gente não esperava. Os dois protagonistas se mostram supreendentemente carentes e inseguros. O que parecia afetação de Fuse ao ver o namoro dos amigos se revela numa insegurança tremenda e ciúmes em relação a Ana, e o mesmo acontece pro veterano que, depois de uma série de relacionamentos passados ruins, acaba sendo excessivamente ciumento e pessimista, o que o impede de enfrentar as menores dificuldades com Fuse, que precisa o tempo todo correr atrás mas só complica tudo ainda mais por ser muito esquentado. 

Eles acabam discutindo por coisas que poderiam ser resolvidas numa conversa franca e aberta, mas a insegurança acaba falando mais altos e ambos dizem coisas que machucam. Seja com relação ao passado de Ana, a amizade próxima demais de Fuse com um dos meninos ou a aprovação das famílias, os dois se desentendem rápido demais. Ana acha que qualquer coisa vai fazer Fuse deixá-lo e, com medo disso acontecer, ele é quem acaba tomando essa decisão, o que faz sofrer demais. 

Um ponto negativo é que, pelo tamanho da série, que tem apenas seis episódios, os conflitos aparecem e se resolvem fácil demais, o que nos dá a impressão de que o relacionamento deles não evoluiu nada ou, pior, que os meninos são fúteis, o que não é verdade pois a proposta era claramente mostrar como ambos vão conquistando confiança no outro e coragem. 

Apesar disso a série ainda cativa com os momentos de fofura extrema dos dois apaixonadinhos, a beleza dos protagonistas e o fato dos amigos das outras temporadas voltarem ou serem citados com frequência, dando essa ideia do universo comum. Impossível não se apaixonar por Ana e Fuse, ambos com seus lábios rosados e olhar apaixonado, e impossível também não sentir que eles precisam amadurecer um pouco para finalmente ficarem juntos. Mesmo sendo lindinha, precisava de um pouco mais de tempo para conseguir mostrar o merecido amadurecimento de ambos. Mas vale a pena pela boiolagem!

Nota: 08/10

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Resenha - The Eighth Sense

Contém spoilers!

The Eighth Sense chega com uma proposta profunda, trazendo várias camadas que são apresentadas pontualmente, mostrando mais uma vez como os dramas coreanos são especialistas em mostrar com delicadeza histórias com uma força impressionante. 

Acompanhamos o jovem Ji Hyun (Oh Jun Taek) um tímido calouro que acaba de sair de uma pequena cidade do interior para estudar em Seul e que consegue trabalho num bar, onde ele acaba conhecendo Jae Won (Im Ji Sub), um veterano que acabou de sair do exército e que se mete em brigas sempre que bebe um pouco mais. 

Depois desse primeiro encontro onde Ji Hyun sente que o outro é apenas um garoto encrenqueiro, eles acabam se encontrando de novo algumas vezes, o veterano decide que vai ser amigo do outro mas age de modo meio estranho, se aproximando e depois sumindo sem explicações. O mais novo decide que é hora de fazer amigos na cidade grande e que precisa de coragem para conhecer mais pessoas e então entra no clube de surf da universidade, descobrindo na viagem de acolhida que Jae Won é um dos líderes lá, o que acaba por fazer ambos se conhecerem mais. 

Começamos a ver os dois se aproximarem a medida que vamos enxergando as camadas de suas personalidades. Ji Hyun embora esteja assustado com a vida mas agitada de Seul tenta coisas novas, como conhecer um parque perto de casa, o próprio surf ou tentar ser simpático com o homem que despertou seus sentimentos. A coragem dele, no entanto, é uma das coisas que acaba assustando Jae Won que enfrenta uma depressão e depende de remédios para continuar a vida. O veterano desenvolve um grande medo de decepcionar, de machucar e ser machucado e, por isso, ele fica entre enfrentar seus sentimentos, aceitar que ele é quem deve cuidar de seu futuro, ou fugir e se deixar levar. 

Ji Hyun se torna uma espécie de lugar confortável para Jae Won, e isso desperta comentários dos outros, inclusive de sua ex que, desde o começo, não aceitou o fim do relacionamento nem a aproximação dele com o calouro. No entanto, é justamente o fato de ele ter percebido o quanto o calouro se tornou importante para ele que o assusta tanto. 

E é nesse cenário que vemos os medos, as dores e os acidentes sendo explorados com uma delicadeza impressionante. A série tem muitos momentos silenciosos e reflexivos, lembrando um pouco a linguagem das séries japonesas, mas ainda traz os elementos clássicos dos doramas onde os personagens se conquistam em pequenas demonstrações de afeto e gentileza. A fotografia aposta numa vibe melancólica e é belíssima de se ver, conseguindo transmitir o medo dos personagens, bem como certa sensação de abandono e de vazio, ou também da confusão dos sentimentos, isso com a composição das cenas e das cores usadas. Vemos muito da angústia, do medo de perder e da própria depressão apenas em sutilezas dos atores e das cenas, assim como da trilha sonora particularmente bela também.

Com essa profundidade dos meninos e uma atmosfera que passa bem a melancolia de um e a curiosidade do outro The Eighth Sense apresenta cenas com uma química sensacional entre os protagonistas, que demonstram os sentimentos crescentes de modo sutil, uma fotografia séria, um roteiro bem feito que explora tudo de si nos episódios de mais ou menos meia hora e trazem uma história possível, com as dificuldades e medos da vida bem como os momentos de descanso e em que vislumbramos um futuro melhor. É, em dúvidas, uma das coisas mais bonitas, sensíveis e românticas já feitas. Simplesmente incrível. 

Nota: 10/10

domingo, 23 de abril de 2023

Resenha - Bed Friend

Contém spoilers!

Que as séries com os meninos da Domundi (Why RU, Cutie Pie) entregavam tudo a gente já sabia, mas Bed Friend conseguiu chegar de novo uma história sensacional e explorando os pontos mais fortes dos seus atores, dessa vez com a dupla NetJames sendo a aposta da empresa em continuar o legado de mostrar histórias interessantes e conteúdo visual de altíssima qualidade.

Acompanhamos a amizade com benefícios de Uea (James Supamongkon), que já está desiludido com o amor depois de um relacionamento fracassado e um passado abusivo, e King (Net Siraphop) que é conhecido por ser paquerador e não levar ninguém a sério. Embora isso seja algo que Uea despreza mais do que tudo ele acaba se aproximando de King em algumas situações e os dois concordam em fazer sexo algumas vezes por semana, o que obviamente acaba aproximando os dois não só fisicamente mas também afetivamente, e pouco a pouco eles vão superando juntos diversas barreiras. 

O passado de Uea é o tema recorrente que une os dois, King é apaixonado mas o outro sempre o rejeita, e fazendo com que ele precise se esforçar para conquistar a confiança do colega de trabalho. Uea foi tão machucado pelo ex, pelos problemas na família, que acaba sendo ríspido e não consegue se abrir, com medo de ser novamente machucado. King consegue construir a relação deles com paciência, e muito sexo, fazendo com o outro vá abaixando as barreiras e se deixando amar novamente, ao passo que ele mesmo precisa se policiar para entender e apoiar o homem que ama.

Essa construção é algo bonito de se ver, e algumas pessoas podem achar que as cenas de sexo são puramente apelativas mas não são, elas mostram também a evolução do relacionamentos deles pois se, a princípio eles se entregavam fisicamente, com o passar da histórias outra entrega também é explorada, como os abraços reconfortantes de King ou uma bela cena com um bolo de aniversário, mostrando que Uea não está mais sozinho, que existe sim uma pessoa que cuida dele e que se preocupa, que fica feliz com a felicidade dele e que respeita seu espaço, seus medos e seus desejos. Ele entende quando o outro precisa de um abraço, de alguém para sair e beber ou, claro, de uma boa noite de sexo.

Daí temos dois personagens sensacionais, Uea com seu passado cheio de traumas, que se revela um homem incrivelmente forte porque não se deixou quebrar com tudo que o aconteceu e King que foi capaz de ficar ao lado do outro, esperando com paciência até que o relacionamento deles pudesse ser completo. De fato as cenas de sexo são sensacionais, Net e James conseguem momentos de tirar o fôlego e tem uma química incrível, o que traz uma boa dose de realismo para a história que se contrapõe com os atores absurdamente bonitos que parecem até muitas vezes irreais mas que enfrentam dificuldades e dores bem reais, como abuso no trabalho e na família e a necessidade de tratamento e ajuda, seja dos amigos quanto de profissionais da saúde na superação dessas questões. 

Injustamente acusada de usar o hot como chamariz, Bed Friend constrói uma história sólida com uma atuação boa, fotografia belíssima que flutua entre aquelas cenas brilhantes que destacam a pele perfeita dos atores até uma pegada inspirada no noir em outros momentos, trilha sonora cativante e um roteiro que soube se equilibrar bem com problemas sérios, alívios nos momentos certos e que explorou o lado mais cativante dos meninos. Net é o homem mais sensual em cena, absurdamente lindo, enquanto James dá um show de elegância e entregou bem os momentos mais dramáticos da trama. Uma obra completa que deixou um nível altíssimo para os colegas que vão assumir a série que se passa no mesmo escritório, Middleman's Love, que vai ser protagonizada por Tutor e Yim (Cutie Pie) e deve começar logo em seguida a exibição desse arco. 

Nota: 09/10

sexta-feira, 31 de março de 2023

Resenha - Our Dating Sim

Contém Spoilers!

Ainda na mesma leva dos BLs de curta duração a Coreia continua investindo em histórias doces, daquelas que deixam o coração quentinho e que, pelo formato, são simples e podem ser maratonadas de uma só vez. 

Our Dating Sim conta a delicada história de Lee Wan (Lee Jong Hyuk), um artista que é chamado para trabalhar no desenvolvimento de um jogo, uma espécie de simulador de namoro e, na entrevista, descobre que seu superior é Shin Ki Tae (Lee Seung Gyu), apelidado de Eddy, a sua antiga paixão da escola, para quem ele se declarou no último dia de aula e depois desapareceu sem ouvir resposta. 

Lee Wan passou todos os anos desenhando e publicando seu trabalho online, com algumas pessoas reconhecendo que seu traço sempre repete o mesmo rapaz, o amor que ele nunca conseguiu esquecer. Além disso ele tem um grande fã que sempre acompanha tudo que ele faz e comenta frases encorajadoras sob um nome secreto.

É claro que o plot é bem óbvio, e não é novidade que Ki Tae também está apaixonado e que ele é o admirador secreto, sendo também o responsável pela indicação e contratação de Lee Wan que, no começo, fica apreensivo e tenta manter uma distância segura do outro, que insiste em se aproximar e o perturbar no trabalho. 

Lee Wan é tímido mas o seu trabalho impressiona a todos, enquanto Ki Tae é despreocupado no escritório mas ainda assim respeitado pelos colegas, deixando o outro desconfortável por seu jeito informal demais que ele não sabe se é porque eles foram amigos no colégio ou se é algo mais... Confuso, Lee Wan até tenta criar barreiras, mas logo todas são postas abaixo pelo outro que o conquista com seu carisma. 

Mas isso não impede que o desenvolvimento seja bem feito, como esperado de uma produção coreana. A série tem momentos leves de comédia, especialmente nas cenas de Ki Tae provocando Lee Wan, e momentos adoráveis deles juntos depois de esclarecerem a situação, afinal eles ficaram 7 anos separados. Ao mesmo tempo em que acompanhamos o reencontro e amadurecimento de ambos nós vemos como era sua amizade no colégio, como se deu o nascimento desse amor e como eles acabaram se separando por causa do medo do sentimento não ser correspondido. O desenvolvimento da ansiedade que Ki Tae desenvolveu depois de passar anos procurando pelo outro e como ele se sente inseguro em ser abandonado de novo é apresentado de forma breve mas tocante, de longe o ponto alto da série e contou com o ótimo desempenho de Seung Gyu. 

Se mostrando mais uma daquelas séries que divertem e cumprem bem o seu papel, Our Dating Sim deixa o gostinho de quero mais, não uma continuação, mas que gostaríamos de ver os personagens mais tempo em tela, aprofundando os medos e as ansiedades deles durante esses anos bem como mais do relacionamento deles. Mesmo com o tempo limitado a produção lida muito bem com o desenvolvimento simples dos meninos e entrega uma temporada redondinha, leve, divertida e romântica na medida certa. Lembrando que a medida certa é nada menos que diabetes.

Nota: 09/10

quinta-feira, 30 de março de 2023

Resenha - A Shoulder to Cry On

Partindo do clássico coreano, adaptado ao BL, dos protagonistas com personalidades distintas,  A Shoulder to Cry On apresenta um protagonista excluído no colégio, que se dedica apenas ao seu time de arco e flecha, e que acaba se aproximando do garoto popular e encrenqueiro com um passado complicado. 

Com essa proposta conhecemos Lee Da Yeol (Kim Jae Han), um garoto simples e caladão que acaba conhecendo Jo Tae Hyun (Shin Ye Chan) numa situação constrangedora que resulta numa confusão. A princípio ele detesta o garoto extrovertido que parece se divertir com sua personalidade quieta, e ele decide se afastar, ainda mais depois de ouvir uma mulher misteriosa dizer que Tae Hyun é um assassino. Mas o garoto não desiste e se aproxima dele a todo momento, provocando e, em outros momentos, parecendo ser na verdade um bom companheiro.

Os dois acabam então se aproximando e Da Yeol decide se abrir ao outro, que se torna seu amigo, e logo começa a sentir algo ainda mais forte, que ele precisa entender melhor mas que, de todo modo, os fazem se aproximar mais e mais, a ponto de começarem a ver lados que ninguém mais vê.

Da Yeol é o tipo que pratica arco e flecha pois disseram a ele fazer isso e ele se destacou nisso, mas lhe falta paixão, ele não consegue se dedicar de coração a nada. Com a aproximação do outro ele começa a levar as coisas de modo mais leve, passa a sorrir mais e começa a despertar então a paixão que pode movê-lo.

Com um início talvez um pouco parado demais a série é um ponto fora da curva das produções BL coreanas justamente por apresentar um desenvolvimento mais próximo do que estamos acostumados a ver nos doramas. Embora os episódios não sejam tão longos temos aqui um desenrolar dos acontecimentos e a apresentação de um psicológico mais profundo que o vimos até agora na maior parte das séries do gênero. Geralmente as produções coreanas, embora excelentes, focam em apenas um aspecto do relacionamento dos personagens por conta do pouco tempo de tela, aqui, no entanto, consegue mostrar um Tae Hyun traumatizado que esconde seu passado e luta com um transtorno bipolar e um Da Yeol que, embora confuso, se entrega aos sentimentos e permite que o outro se aproxime dele. A dinâmica não fica corrida e nem as soluções jogadas de modo simples demais, os personagens realmente são mais profundos e precisam de mais tempo para se entender.

A abordagem do trauma de Tae Hyun é muito bem feita. Ele tem tanto me da culpa pela perda de uma pessoa especial que não consegue amar de novo, ele se desespera com a possibilidade de perder de novo, de ser abandonado e culpado, e então se reveste de uma personalidade despretensiosa e até mesmo bruta. Ele chega ao extremo de se punir fisicamente para suprimir os sentimentos que nascem pelo novo amigo. Aos poucos Da Yeol vai rompendo essa barreira, o que leva alguns anos, e ele vai conseguindo se confrontar com seus sentimentos até perceber que é melhor enfrentar esse medo do que ficar longe de quem ama.

O drama é tão bom quanto esperado de uma produção coreana, a melancolia, o medo, a fúria desencadeada por sentimentos conflitantes, típico de jovens, é aqui apresentado de modo delicado e belo. Apesar do início fraco logo no segundo episódio temos uma virada que faz com que o espectador se apegue aos protagonistas e queira se aprofundar mais e mais. Aliando o carisma dos dois rapazes com situações que parecem reais e que envolvem a culpa, remorso e relações familiares difíceis, A Shoulder to Cry On entrega um drama emocionante, pra ver acompanhado de um lenço e uma taça de vinho e que, no final, conquista pela doçura merecida e pela inquestionável beleza dos dois atores.

Nota: 09/10


sexta-feira, 3 de março de 2023

Resenha - Moonlight Chicken

Contém Spoilers!

Uma das séries mais aguardadas desde o anúncio no ano passado, Moonlight Chicken prometeu tudo e entregou ainda mais! Com uma proposta mais adulta e uma fotografia especial o último arco de Midnight Series deixou o fandom animadíssimo com mais um projeto de EarthMix, atores que se tornaram alguns dos mais queridinhos da GMM TV. 

Jim (Earth Pirapat, de A Tale of a 1000 Stars) é dono de um restaurante noturno, razoavelmente conhecido na região, que enfrenta algumas dificuldades financeiras. Numa noite, ao fim do expediente, ele acaba com um cliente bêbado. Depois de tentar levar o jovem para casa eles acabam fazendo sexo, e é ai que, no dia seguinte, Wen (Mix Sahaphap, também de A Tale of a 1000 Stars), um homem sexy e provocador, começa a querer se aproximar do outro.

Realmente com uma vibe mais adulta, afinal apresenta o complicado relacionamento de um homem maduro, desiludido com o amor e que não acredita mais ser possível dar certo com ninguém, e um jovem que acaba de sair de um logo relacionamento e que não terminou muito bem. Ambos trazem uma pesada carga emocional e as diferenças de experiências bem como expectativas são o grande tópico sensível apresentado. 

Também conhecemos Li Ming, o sobrinho rebelde de Jim, e Heart (Fourth Nattawat e Gemini Norawit, de My School President), um garoto surdo que acabou vivendo escondido de todos porque seus pais não o entendiam. Depois de um inicio tempestuoso os dois acabam se tornando mais próximos e vemos dois rapazes lutando pela liberdade, cada um a seu modo. 

A questão da liberdade é exatamente um tema delicado abordado pela série. Jim sente o peso das contas e da idade, Wen se sente sufocado por Alan (First Kanaphan, de The Eclipse) o seu ex que não aceita o término e que ainda mora com ele. Li Ming se vê também limitado pelo dinheiro, é criado pelo tio que não o entende e quer viajar o mundo e Heart que literalmente vive preso dentro de casa. Cada um vai, ao seu modo, descobrindo então o valor de conquistar a liberdade. 

A forma como esses dramas são apresentados é de uma crueza belíssima. A fotografia, a maquiagem, a trilha sonora, tudo está em harmonia para mostrar personagens mais obscuros, até as crianças, que precisam lidar com um mundo duro e impessoal, ao mesmo tempo que lidam com seus sentimentos e com o dos outros. Jim precisa tomar cuidado para não acabar se aproveitando de Kaipa (Khaotung Thanawat, de The Eclipse) que é apaixonado por ele e quer ajudar a manter o negócio aberto, e então ele precisa ser sincero, e então vemos o outro desmoronar ao ter seus sentimentos negados.

Com uma fotografia bem quente, corpos suados e um clima melancólico explorando os cenários noturnos e a iluminação características dos bairros chineses da Tailândia eles conseguem criar uma atmosfera ansiosa e angustiante, ao mesmo tempo que alguns momentos provocam um respiro, como certos vislumbres de solução, de um futuro promissor, mas sem perder o pé no chão. A trilha sonora conta até com "The Moon Represents My Heart" de Teresa Teng, uma das maiores cantoras chinesas de todos os tempos. 

Fazendo valer a espera a série soube equilibrar o plot com um visual impecável que nos transporta para uma experiência sensorial incrível, com uma boa carga dramática, atuações excelentes (destaque para First, Khaotung e Gemini) e um enredo que soube trabalhar cada instante de tela e cada recurso disponível. Uma das maiores obras de arte da GMM TV.

Nota: 10/10

quarta-feira, 1 de março de 2023

Resenha - Never Let Me Go

Contém Spoilers!

A GMM TV, contra a opinião dos seus haters, vem conseguindo se equilibrar bem entre a inovação dos plots de seus BLs sem perder aquela marca registrada que já nos é conhecida. A começar das carinhas repetidas que vemos revezar em cena já há alguns anos ela tem se esforçado em consolidar cada vez mais a marca que os fãs amam e conquistar novos públicos.

E é bem nesse espaço que se encaixa Never Let Me Go, com uma atmosfera diferente das séries que focam nos descobrimentos da juventude. Aqui os problemas abordados são bem mais sérios enquanto os personagens lidam com essas descobertas. 

Nuengdiao (Phuwin Tangsakyuen, de Fish Upon The Sky) é o solitário herdeiro de uma poderosa família, e que por isso mesmo é alvo de um atentado que resulta na morte de seu pai. Sua mãe então assume os negócios até que ele esteja preparado para cuidar de tudo por conta própria. Sabendo dos perigos que aguardam o menino ela pede ao filho do chefe de segurança, Palm (Pond Naravit, também de Fish Upon The Sky), um jovem que cresceu como pescador mas que é muito forte e responsável, para cuidar do jovem. 

A história se desenrola junto aos conflitos da família de Nueng, com seu tio tentando tomar o controle dos negócios, e consequentes atentados contra sua vida e de sua mãe que envolvem essas disputas. No meio disso tudo, o herdeiro que só queria levar uma vida tranquila como músico, se vê tendo que fugir para se salvar, enquanto descobre as pessoas em quem pode confiar e encontra em Palm um amigo sincero e, depois, um amor verdadeiro. 

Achei incrível como a série trabalha com sutileza a questão do futuro de Nueng. Ele desde o início é visto como alguém que não quer seguir o caminho do pais mas, depois de sua morte, acaba percebendo que não terá outra escolha a não ser sacrificar-se em nome do legado de sua família, especialmente por sua mãe. Ele não é apresentado como o garoto rico e mimado, mas como alguém sem esperança pro próprio futuro, que apenas vai vivendo como dá.

Ao mesmo tempo em que descobre o primeiro amor, e a primeira decepção, em Ben (Chimon Wachirawit, de The Gifted) e a constante desconfiança de seu primo Chopper (Perth Tanapon, de Love By Chance), de quem Ben se reaproxima a medida que a história avança e ambos passam a entender e aceitar melhor seus sentimentos. 

A atuação desses quatro é sensacional, muito embora Perth e Chimon sejam apresentados aqui apenas para chamarem atenção para sua próxima atuação juntos em Dangerous Romance (a ser lançada ainda em 2023). Phuwin e Pond conseguem entregar, assim como em Fish Upon The Sky, uma química sensacional! Mas, se na série anterior eles flutuavam entre a comédia e o romance, aqui tudo gira em torno do drama e do romance que sempre guarda um clima ansioso, uma tensão não resolvida que não permite aos personagens descansarem por nenhum episódio. Até mesmo quando eles fogem ainda sentem o medo de serem encontrados e isso causa um desconforto que foi muito bem mostrado pelos dois atores. 

As cenas de maior apelo dramático são muito bem executadas e os dois estão se mostrando dignos do alto escalão de uma das maiores empresas de entretenimento do país. Nueng e Palm estão descobrindo o mundo cada um à sua maneira. Palm primeiro chega a um mundo onde o dinheiro compra tudo, até a amizade e a consciência das pessoas, enquanto o outro descobre que, algumas coisas, nenhum dinheiro pode comprar e que, para outras, é necessário lutar muito para conseguir. E é essa dialética de uma vida maior, que não exclui mas vai muito além dos sentimentos românticos, que deixa tudo tão belo. 

A fotografia e a trilha sonora são um show à parte. Com uma pegada vintage, em cenas onde se explora muito os contrastes quentes e frios, a sobriedade dos personagens e tons amarelos e azuis, a série tem essa aura retrô que combinou muito com a melancolia e a ansiedade constante que acompanhamos durante toda a temporada. As músicas contribuem ainda mais para isso, seja na bela faixa da coleção Bird Chorus ou as faixas que os protagonistas cantam, com destaque para a de Pond que traz um apelo romântico incrível. 

Enfim, a série se equilibra bem entre a inovação de um plot mais sério e sem medo de ser dramático ou romântico demais ao mesmo tempo que confirma as carinhas conhecidas da empresa. É aquela série que deixa o coração apertado, apreensivo e que faz você querer abraçar os meninos o tempo todo. Incrível. 

Nota: 10/10

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Resenha - My School President

Um clichê quando é bem servido mostra os motivos de terem se consagrado não é mesmo? E é exatamente essa a proposta de My School President em resgatar os velhos shorts e camisas roxas do uniforme colegial tailandês e, com uma proposta de romance inocente, se inovar com o carisma de um elenco novo e uma história bem desenvolvida. 

Gun (Fourth Nattawat, de F4) é o líder da banda Chinzhilla, que sonha em vencer o Hot Wave, famoso concurso de bandas colegiais da Tailândia. Tinn (Gemini Norawit) é apaixonado por ele há alguns anos e, desde que sua mãe assumiu a diretoria da escola, a banda está ameaçada de ser desfeita por causa de algumas confusões dos membros, e então ele decide se tornar o presidente do conselho estudantil para ajudar o outro, mesmo sem que ele saiba pois a banda tem uma tradicional regra de que os membros não podem namorar a menos que vençam o concurso. 

Com uma atmosfera doce que combina muito bem esse sentimento do primeiro amor, das brincadeiras entre amigos, insegurança com o futuro e a expectativa dos pais com a temática musical e um drama na medida certa. 

Em cada episódios tivemos o lançamento de uma ou mais músicas, originais e covers, que mostraram a versatilidade do elenco, formado em sua maioria por nomes da última adição da GMM TV. O cover de Just Being Friendly de Tilly Birds e MILLI foi realmente sensacional, assim como Smile Please que contou com todo o elenco dançando, até uma emocionante balada que teve  participação da mão de Gun ou a incrível Come Closer, na voz de Ford Arun. As músicas acompanham a dinâmica dos episódios e muitas vezes ajudam a expressar o que os meninos estão passando. 

Fourth e Gemini foram a grande surpresa, pois souberam entregar uma atuação muito firme e que flutuou muito bem entre a comédia típica das séries colegiais, com momentos de maior peso dramático, e isso em um de seus primeiros trabalhos. Todo o elenco conseguiu passar esse frescor da nova geração mostrando grandes promessas e já entregando uma temporada divertida, emocionante e romântica do primeiro ao último capítulo. Aliás, ao mesmo tempo também podemos ver os dois arrasando em Moonlight Chicken ao lado de Mix e Earth e logo mais veremos os dois juntos de novo como casal secundário em 23.5 e de volta como Gun e Tinn em Our Skyy 2.

Impossível não suspirar com as tentativas de Tinn de dar em cima do Gun sem que os amigos dele percebam ou com Thiu (Mark Pakin) sempre inventando um jeito de deixar os dois juntos com a desculpa de ser em prol da imagem da escola nos eventos da banda promovidos pelo conselho. Tinn é um romântico de marca maior e fanfiqueiro em tempo integral, fantasiando um relacionamento inteiro na cabeça em cada interação com Gun que, apesar de começar não gostando muito do novo presidente, acaba logo percebendo que ele só quer ajudar e que está sempre ao seu lado. 

O casal secundário também conquistou pelo carisma no estilo enemies to lovers, Winny e Satang conseguiram passar toda a transição do casal que se odeia mas que acaba se aproximando e aceitando as diferenças um do outro. 

Os diálogos são doces, simples e sinceros, todos os problemas são resolvidos conversando e colocando em pratos limpos o que incomoda e machuca. A forma como todos se apoiam, sejam Tinn e Gun ou os membros da banda e o conselho, é bela de se ver, realmente amigos que tentam alcançar um sonho juntos. 

Enfim, se equilibrando muito bem entre a comédia e o romance My School President renovou o estilo colegial tão desgastado nos BLs entregando um resultado maduro e incrivelmente cativante, emocionando e fazendo rir e conquistando uma legião de fãs. Obrigatória para quem procura aquela série tipo conforto que te abraça e diz que vai ficar tudo bem. 

Nota: 10/10